Legalismo X Liberdade – A ameaça do legalismo

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Por Sam Storms

A palavra “liberdade” tem uma variedade de sentidos para várias pessoas. Para alguém que está preso, significa sair da cadeia cedo. Para um cidadão iraquiano, significa um governo democrático nas próximas eleições. Para o dono de uma pequena empresa, o significado pode ser em termos econômicos. Para alguém que morava em um país sob um regime comunista, pode ser que signifique a ausência de opressão social e política. Mas o que “liberdade” significa para o cristão? O que significa para você?

Em Gálatas 5.13, Paulo escreveu: “Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; pelo contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor”. Por que Deus, o Pai, colocou sobre você o seu amor salvífico? Por que Deus, o Filho, morreu por você? Por que Deus, o Espírito Santo, lhe chamou à fé nesse sacrifício? Liberdade! Para o cristão, liberdade significa uma de três coisas. Há, primeiramente, liberdade da condenação da ira de Deus. É isso que Paulo tinha em mente em Romanos 8.1 quando ele afirmou, “Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus”. Em segundo lugar, há liberdade da compulsão do pecado. Romanos 6.14 nos assegura de que “o pecado não os dominará” já que “vocês não estão debaixo da lei, mas debaixo da graça”. E então, em terceiro lugar, há liberdade da consciência de outras pessoas, que é o tema principal do décimo quarto capítulo de Romanos. É a terceira dessas manifestações da liberdade cristã na qual quero me concentrar.

A ameaça do legalismo

Há pessoas, que professam a fé cristã, determinadas a colocar-lhe sob seu controle religioso. Eles estão determinados a lhe transformar num escravo da consciência deles. Construíram cuidadosamente uma caixinha religiosa, sem justificação bíblica, e tem o objetivo de colocá-lo lá dentro e fazer com que você se molde às suas dimensões. Eles são legalistas, e suas ferramentas são culpa, medo, intimidação e autojustificação. Eles proclamam o amor incondicional de Deus por você, mas insistem em colocar certas condições antes de lhe incluir dentre os aceitos, na elite aprovada, entre os poucos que têm o favor de Deus.

Não estou falando a respeito de pessoas que insistem que você obedeça certas leis ou regras morais para que seja salvo. Tais pessoas não são legalistas. Estes estão perdidos! Eles são facilmente identificados e rechaçados. Estou falando de cristãos legalistas cujo alvo é impor conformidade entre outros cristãos de acordo com suas preferências pessoais. Esses são os de estilo de vida legalista. Eles ameaçam tirar a sua alegria e arrancar a intimidade do seu relacionamento com Jesus. Eles podem até levá-lo a duvidar da sua salvação. Ele amontoam condenação e desprezo sobre a sua cabeça para que sua vida seja controlada e motivada por medo em vez de liberdade, alegria e gozo em Deus.

Essas pessoas raramente admitem qualquer parte disso. Eles não se percebem ou veem como legalistas. Se eles lerem este texto, provavelmente estão convencidos de que estou falando de outro alguém. Eles nunca se apresentariam dizendo: “Oi! Meu nome é João/Maria. Sou legalista e meu alvo é roubar a sua alegria e manter-lhe sob o julgo do meu preconceito religioso. Você gostaria de almoçar comigo depois do culto para que eu lhe diga tudo que você está fazendo de errado?”

Eu tenho a suspeita de que alguns de vocês ou são legalistas, mais provavelmente, ou vítimas de legalismo. Você vive com medo de fazer algo que outro cristão considera impiedoso, mesmo que a Bíblia não diga nada a respeito do assunto. Você teme trazer sobre si reprovação, desenho e rejeição fatal. Ou até pior, você teme a rejeição de Deus por violar tradições religiosas ou normas culturais que não têm base nas Escrituras, mas que são prezadas pelo legalista. Você foi enganado, levado a crer que o menor erro ou tropeço trará sobre você a reprovação e o desgosto de Deus.

Quando você está com outros cristãos, seja em casa ou num grupo no lar, ou mesmo só passando um tempo juntos, você se sente livre? Seu espírito está relaxado ou oprimido? Você sente aceitação ou condenação? Você se sente julgado, inadequado, inferior, culpado, imaturo, tudo por conta da sua percepção de ter falhado em se conformar ao que outra pessoa considera “santo”?

Jesus quer libertá-lo de tal escravidão! Como disse Paulo, “vocês foram chamados para a liberdade”!

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Como pode Deus ser justo na eleição incondicional?

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Uma das objeções à eleição incondicional que ouvimos com mais frequência é que ela impugna a justiça de Deus. O arminiano afirma que Deus é desleal e injusto se trata as pessoas diferentemente ou concede a alguns um favor que nega a outros.

Mas essa é, certamente, uma maneira estranha de definir justiça. A justiça é o princípio em virtude do qual uma pessoa recebe o que lhe é devido. Negar a uma pessoa o que ela merece ou o que a lei exige que ela receba é agir injustamente. Como pode, então, ser injusto negar a uma pessoa o que ela não merece? Se você me deve e eu exijo pagamento, dificilmente se pode dizer que agi injustamente. De semelhante maneira, se você não me pagar, como é obrigado por lei, a justiça exige que você sofra as consequências.

Toda a humanidade tem uma dívida infinita para com Deus, tendo sido condenada justamente a sofrer as consequências penais que o pecado merece. Ninguém pode afirmar legitimamente que merece misericórdia ou clemência divina, porque “não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.12). O veredicto das Sagradas Escrituras é “culpado das acusações”, sem base para novo julgamento ou recurso.

Nenhuma acusação legítima pode ser movida contra o tribunal se o “Meritíssimo” entregar imediatamente toda a raça de Adão à morte eterna. Não há recurso cabível para os réus, nem na lei nem em si mesmos. Nenhum detalhe técnico do desenvolvimento processual do julgamento ou testemunha de caráter em favor do acusado pode ser reivindicado. Ao contrário dos juízes terrenos que podem ser confundidos por advogados de raciocínio rápido ou subornados por partidários inescrupulosos, Deus pesa todas as provas e julga com absoluta imparcialidade. O veredicto é o mesmo para todos: Culpado! A punição é a mesma para todos: Morte Eterna!

Deus não tem obrigação de salvar a ninguém, e é inteiramente justo em condenar a todos. O seu perdão a alguns se deve inteiramente à graça livre e soberana. Assim, “a maravilha das maravilhas”, diz Benjamin Warfield, “não é Deus, em seu infinito amor, não ter elegido todos desta raça culpada para serem salvos, mas ter elegido alguns. O que realmente precisa ser reconhecido — embora reconhecê-lo vá muito além do que nossa imaginação possa conceber — é como o Deus santo poderia consentir salvar um único pecador sem ir contra a sua natureza. Se sabemos o que é o pecado, o que é a santidade e o que é a salvação do pecado para a santidade, isso é o que enfrentaremos”.

Vejo-me obrigado a confessar que a pergunta que assombra meu coração não é “Como pode Deus ser justo?”, mas “Como pode Deus ser misericordioso?” Não é “rejeitei Esaú” que me incomoda, mas “amei Jacó” que me surpreende absolutamente.

Texto de Sam Storms, extraído do livro “Escolhidos: uma exposição da doutrina da eleição”.

Como saber se sou cristão?

Man reading the bible
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(POR KEVIN DEYOUNG)

Sempre que aconselho cristãos a procura da certeza da salvação, eu os levo para 1 João. Essa breve epístola é cheia de ajuda para determinar se estamos na fé ou não. Em particular, existem três sinais em 1 João dados a nós para respondermos a questão “Tenho confiança ou condenação?”

O primeiro sinal é teológico. Você pode ter confiança se você crê em Jesus Cristo, o Filho de Deus (5.11-13). João não quer que as pessoas tenham dúvida. Deus quer que você tenha segurança, que você saiba que tem a vida eterna. E esse é o primeiro sinal, que você acredita em Jesus. Você acredita que ele é o Cristo ou o Messias (2.22). Você acredita que ele é o Filho de Deus (5.10). E você acredita que Jesus Cristo veio em carne (4.2). Então, se você tem a sua teologia errada sobre Jesus você não terá a vida eterna. Mas um dos sinais que devem te dar confiança perante Deus é que você acredita em seu único filho Jesus Cristo nosso Senhor (4.14-16; 5.1,5)

O segundo sinal é moral. Você pode ter confiança se você vive uma vida justa (3.6-9). Aqueles que praticam iniquidade, que mergulham de cabeça no pecado, que não apenas tropeçam mas habitualmente andam na iniquidade não devem ser confiantes. Isso não é diferente do que Paulo nos diz em Romanos 6 que não somos mais escravos do pecado mas servos para a justiça e em Gálatas 5 que aqueles que andam na carne não herdarão o reino de Deus. Isso não é diferente do que Jesus nos diz em João 15 que uma árvore boa não pode gerar frutos ruins e uma árvore ruim não pode gerar frutos bons. Então, se você vive uma vida moralmente justa você pode ter confiança (3.24). E para que esse padrão não te faça desesperar, tenha em mente que parte de uma vida justa é recusar-se a afirmar que você vive sem pecado e vir a Cristo para nos purificar de todo pecado (1.9-10).

O terceiro sinal é social. Você pode ter confiança se você ama outros cristãos (3.14). Se você odeia como Caim você não tem vida. Porém, se o seu coração e a sua carteira estão abertos para irmãos e irmãs, a vida eterna permanece em você. Um sinal necessário de verdadeira vida espiritual é que amamos uns aos outros (4.7-12,21).

Essas são as três indicações de João para nos assegurar que estamos no caminho que leva para a vida eterna. Essas não são três coisas que devemos fazer para merecer a salvação, mas três indicadores de que Deus tem de fato nos salvado. Acreditamos em Jesus Cristo, o Filho de Deus. Vivemos uma vida justa. Somos generosos para com outros cristãos. Ou podemos colocar da seguinte forma: sabemos que temos a vida eterna se amamos Jesus, se amamos os seus mandamentos e se amamos o seu povo. Nenhum dos três é um opcional. Todos devem ser presentes no cristão, e todos são entendidos como sinais para a nossa certeza (veja 2.4,6; 4.20; 5;2).

João elabora os mesmos pontos repetidamente. Você ama a Deus? Você ama os seus mandamentos? Você ama o seu povo? Se não, é um sinal de que você tem a morte. Se sim, é um sinal de que você tem a vida. E isso significa confiança ao invés de condenação.

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Discipulado Verdadeiro

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Discipulado, discípulo, fazer discípulos, seguir o Mestre. Estas são palavras comumente ouvidas em nossa vida na cristã. Palavras muitas vezes ditas, às vezes ouvidas, nem sempre compreendidas… Nos tempos atuais às vezes entende-se “discipulado” como aulas teóricas da duração de uma apostila, ser “discípulo” é um estágio até atingir o grau de membro da igreja e “fazer discípulos” é o ato de evangelizar. Será que realmente vivemos o modelo de discipulado deixado por Jesus?
No evangelho segundo João capítulo 1 versículos 35 a 42, encontramos algumas características do discipulado que agrada a Deus:

1 – O verdadeiro discipulado é aquele que faz discípulos para Jesus, não seguidores de homens (vs. 35-37). A Palavra nos ensina que João estava na companhia de dois de seus discípulos e, quando anunciou que Jesus era o Cordeiro de Deus, estes o ouviram “e seguiram a Jesus”. No modelo de Jesus discipulado anuncia Cristo e o discípulo segue somente a Cristo.

2 – Discípulo é aquele que tem prazer em ouvir Jesus (vs. 38,39).Em dias onde o tempo é escasso e lidamos com um mundo repleto de entretenimentos e distrações, o verdadeiro discípulo é aquele que busca tempo para ouvir os ensinos de Jesus e os prioriza. No texto vemos que os dois discípulos, apesar do horário avançado, reconhecem que Jesus é o Mestre e entendem que precisam estar com Ele o quanto pudessem.

3 – Discípulo é aquele que tem alegria em dizer que achou Cristo e de conduzir seus conhecidos a Ele (v. 41).
André, ao reconhecer ser Jesus o Messias prometido, encontra-se com seu irmão, Simão, e anuncia-lhe ter encontrado o Messias e o conduz a um encontro com Cristo. Um verdadeiro discípulo sente prazer em dizer que encontrou a salvação, é um portador de boas notícias e conduz os seus a Jesus.

4 – Jesus sabe quem são seus discípulos (v. 42).
Quando Simão é conduzido ao Mestre, antes que se apresentasse Jesus já o conhece e, ao dar-lhe um novo nome, prenuncia o ministério que Simão, agora Pedro, teria entre os discípulos. Antes de conhecermos a Jesus ele já nos conhecia.
Que você continue a ser um discípulo seguidor de Jesus. Que continue a alegra-se em aprender Dele, que anuncie a todos que o encontrou e que mais e mais pessoas sejam alcançadas por Jesus através de você.

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16 argumentos que mostram que Cristo não morreu pela salvação de todos os homens

(Por John Owen)

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  1. Dois argumentos baseados na natureza do novo concerto

Argumento 1 – Em Mateus 26:28 o Senhor Jesus Cristo fala de “o meu sangue, o sangue do Novo Testamento”. Este novo “testamento”, ou “concerto” é um novo acordo, ou contrato, que Deus fez para salvar os homens. O sangue de Cristo derramado em Sua morte, é o preço desse acordo, e diz respeito somente àqueles a quem o acordo se aplica.

Este novo acordo, ou aliança, é diferente do velho acordo que Deus fez com os homens. Pelo velho acordo (ou concerto) Deus prometeu salvar todos os que guardassem as Suas leis: “o homem que fizer estas coisas viverá por elas”. (Romanos 10:5; Levítico 18:5). Mas, em razão dos homens serem pecadores, eles não podem guardar as leis de Deus. Portanto, o velho acordo ficou sem efeito.

No novo acordo, Deus promete colocar Suas leis em nossas mentes e escrevê-las em nossos corações (Hebreus 8:10). É claro, então, que esse acordo diz respeito somente àqueles em cujos corações e mentes Deus realmente faz isso. Desde que Deus, obviamente, não faz isso para todos os homens, todos os homens não podem estar incluídos no acordo pelo qual Cristo morreu.

Alguns têm sugerido que Deus iria escrever Sua lei em nossas mentes se apenas crêssemos. Mas, fé é a mesma coisa que ter a lei de Deus escrita em nossos corações!

Então, falar como alguns, significa dizer: “se a lei está em nossos corações (isto é, como ela é, em todos os crentes), Deus promete que Ele irá escrever Sua lei em nossos corações” – o que é uma tolice! A natureza do novo concerto deixa claro que a morte de Cristo não foi por todos os homens.

Argumento 2 – O evangelho – em outras palavras, as novas sobre o novo concerto – tem estado no mundo desde os tempos de Cristo. Contudo, nações inteiras têm vivido sem qualquer conhecimento dele. Se o objetivo da morte de Cristo era salvar todos os homens, sob a condição de que eles cressem, então o evangelho devia ter sido anunciado a todos os homens.

Se Deus não providenciou para que todos os homens ouvissem o evangelho, então, ou deveria ser possível que todos os homens fossem salvos sem fé e sem conhecimento do evangelho, ou o propósito de salvar todos os homens falhou, uma vez que nem todos os homens ouviram o evangelho. A primeira afirmativa não pode ser verdadeira, pois a fé é uma parte da salvação (ver Parte Dois, capítulo cinco). A última afirmativa também não pode ser verdadeira; seria próprio da sabedoria de Deus enviar Cristo para morrer a fim de que todos os homens fossem salvos, sem, contudo, certificar-Se de que todos os homens ouvissem o evangelho? Seria a benignidade de Deus demonstrada através de tal comportamento?

Isso seria como se um médico dissesse que tem um remédio que curaria a doença de todos. E, no entanto, escondesse, deliberadamente, tal conhecimento de muitas pessoas. Poderíamos realmente argumentar, nesse caso, que o médico pretendia, genuinamente, curar a doença de todos?

Há muitos versículos bíblicos que deixam claro que milhões jamais ouviram uma palavra sobre Cristo. E não podemos apresentar outra razão para isso, senão a razão que o próprio Jesus deu: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve”. (Mateus 11:26). Tais versículos como Salmo 147: 19-20; Atos 14: 16; Atos 16: 6-7; confirmam os fatos de nossa experiência comum de que o Senhor não tomou qualquer providência para assegurar que todos ouvissem o evangelho. Precisamos concluir que não é propósito de Deus salvar todos os homens.

  1. Três argumentos baseados nas descrições bíblicas da salvação

Argumento 3 – As Escrituras descrevem o que Jesus Cristo obteve com Sua morte como “redenção eterna” (isto é, nossa libertação do pecado, da morte e do inferno, para sempre). Ora, se esta bênção foi comprada para todos os homens, então todos os homens têm esta redenção eterna automaticamente; ou ela está à disposição de todos os homens na dependência do cumprimento de certas condições.

De acordo com nossa experiência, não é verdade, de maneira alguma, que todos os homens têm redenção eterna. Portanto, seria a redenção eterna disponível sob certas condições?

Pergunto, Cristo satisfez essas condições por nós, ou apenas nos tornamos merecedores do cumprimento dessas condições se outras condições forem cumpridas por nós? A primeira dessas afirmativas – que Cristo realmente cumpriu todas as condições necessárias quanto ao dom da redenção eterna – significa que todos os homens têm realmente essa redenção; o que, como já temos visto, não concorda com nossa experiência a respeito dos homens! Temos que dizer, portanto, que se Cristo não cumpriu as condições para que todos os homens obtivessem a redenção, Ele deveria ter cumprido essas condições apenas por aqueles que cumpririam outras condições. Estamos agora andando em círculos, fazendo com que aquelas condições que foram cumpridas dependam de que outras condições sejam cumpridas! Estes argumentos demonstram quão irracional é supor que Cristo morreu a fim de obter a salvação eterna para todos os homens.

Se insiste ainda que a redenção eterna é obtida sob o cumprimento de certas condições, então, todos os homens deveriam ser notificados. Mas, esse conhecimento lhes tem sido sonegado, como vimos na Terceira Parte, capítulo um.

Além disso, se a obtenção da redenção eterna depende do homem cumprir condições, então ou eles têm ou não têm o poder para fazer isso. Se são capazes por si mesmos de cumprir as condições necessárias, então temos que dizer que todos os homens podem, por si mesmos, crer no evangelho. Mas isto é bastante contrário às Escrituras, as quais mostram que os homens estão mortos em pecado e, portanto, não podem cumprir quaisquer condições.

Se concordamos que os homens não podem, por si mesmos, cumprir as condições para a obtenção da salvação eterna, então, ou Deus intenta dar-lhes esta habilidade, ou não. Se Ele realmente intenta isto, então, por que não o faz? Assim, todos os homens seriam salvos.

Se, entretanto, Deus não pretende dar a todos os homens a capacidade de crer, e, contudo, Cristo morreu para que todos os homens tenham a salvação eterna, então, Deus está requerendo dos homens que tenham habilidades as quais Ele recusa dar-lhes. Isto não seria uma loucura? É como se Deus prometesse dar a um homem morto o poder de vivificar-se a si mesmo, mas ao mesmo tempo não tenha a intenção de lhe dar o poder prometido!

Argumento 4 – A Bíblia descreve cuidadosamente aqueles pelos quais Cristo morreu. Lemos que toda a raça humana pode ser dividida em dois grupos, e que Cristo morreu apenas por um desses grupos.

Os versículos bíblicos que mostram que Deus dividiu os homens em dois grupos são:

Mat. 25:12 e 32 Jo. 10:14,26
Jo. 17:9, 1Ts. 5:9
Rom. 9:11-23

Daí aprendemos que há aqueles a quem Deus ama, e aqueles a quem Ele odeia; aqueles a quem Ele conhece, e aqueles a quem Ele não conhece.

Outros versículos deixam claro que Cristo morreu apenas por um destes dois grupos. É-nos dito que Ele morreu por:

Seu povo – Mt. 1:21
Suas ovelhas – Jo. 10:11,14
Sua igreja – At. 20:28
Seus eleitos – Rom. 8:32-34
Seus filhos – Heb. 2:13

Acaso não deveríamos concluir, de tudo isso, que Cristo nã morreu por aqueles que não são Seu povo, ou Suas ovelhas, ou Sua Igreja? Ele não pode, portanto, ter morrido por todos os homens.

Argumento 5 – Não devemos descrever a salvação de nenhuma maneira diferente daquela que a Bíblia a descreve. E a Bíblia não diz, em lugar algum, que Cristo morreu “por todos os homens”, ou por cada homem em particular. Ela diz que Cristo deu Sua vida “em resgate de todos”; entretanto, isso não pode provar que signifique mais que “todas as Suas ovelhas” ou “todos os Seus eleitos”. Se estudarmos cuidadosamente qualquer versículo que emprega a palavra “todos” e o examinarmos em seu contexto, logo estaremos convencidos de que, em lugar algum, as Escrituras dizem que Cristo morreu por todos os homens, sem exceção de nenhum.

(Na Quarta Parte, capítulos três e quatro, vamos considerar, detalhadamente, muitos versículos bíblicos nos quais as palavras “mundo” e “todos” são usadas em conexão com a morte de Cristo.)

  1. Dois argumentos baseados na natureza da obra de Cristo

Argumento 6 – Há muitos versículos bíblicos que falam do Senhor Jesus Cristo tornando-Se responsável por outros na Sua morte; por exemplo:

Ele morreu por nós – Rom. 5:8
Foi feito maldição por nós – Gál. 3:13
Foi feito pecado por nós – 2Co. 5:21

Tais expressões deixam claro que qualidade de substituto de outro.

Ora, se Ele morreu em lugar de outros, segue-se que todos aqueles cujo lugar Ele tomou devem estar agora livres da ira e do julgamento de Deus. (Deus não pode punir justamente Cristo e aqueles a quem Ele substituiu!) Contudo, está claro que nem todos os homens estão livres da ira de Deus (ver João 3:36). Portanto, Cristo não pode ter sido o substituto de todos os homens.

Se insiste ainda que Cristo realmente morreu como um substituto de todos os

homens, então devemos concluir que Sua morte não foi um sacrifício bastante suficiente, pois nem todos os homens são salvos do pecado e do julgamento!

De fato, se Cristo realmente morreu em lugar de todos os homens, então, ou Ele Se ofereceu a Si mesmo como um sacrifício por todos os pecados deles (neste caso, todos os homens são salvos), ou foi um sacrifício por alguns dos pecados deles apenas (neste caso, ninguém é salvo, pois alguns pecados permanecem). Nem uma nem outra dessas declarações pode ser verdadeira, como nós já temos visto neste livro (Primeira Parte, capítulo três). Deve ser evidente que não podemos dizer, de maneira alguma, que Cristo morreu por todos os homens.

Argumento 7 – As Escrituras descrevem a natureza da obra que Cristo realizou, como a obra de um mediador e de um sacerdote:

Ele “é Mediador dum novo Testamento” (Hebreus 9:15). Ele age como um mediador sendo o sacerdote daqueles que Ele leva a Deus. Que Jesus Cristo não é o sacerdote de todos é óbvio, tanto pela experiência como pelas Escrituras; nós já discutimos isso na Segunda Parte, capítulo dois.

  1. Três argumentos baseados na natureza da santidade e da fé

Argumento 8 – Se a morte de Cristo é o meio pelo qual aqueles por quem Ele morreu são purificados do pecado e são santificados, então Ele deve ter morrido somente por aqueles que realmente estão limpos de pecados e santificados. É óbvio que nem todos os homens são santificados. Portanto, Cristo não morreu por todos os homens.

Talvez eu deva provar que a morte de Cristo é, de fato, o meio para obter a purificação e a santidade. Vou fazer isso de duas maneiras:

Primeira, o padrão de adoração do Velho Testamento destinava-se a ensinar verdades a respeito da morte de Cristo. O sangue dos sacrifícios do Velho Testamento fez com que aqueles por quem era derramado se tornassem adoradores aceitáveis a Deus. Se foi assim, quanto mais o sangue de Cristo deve realmente purificar do pecado aqueles por quem Ele morreu? (Hebreus 9: 13-14).

Segunda, há versículos bíblicos que declaram com clareza que a morte de Cristo faz realmente as coisas que ela intencionava fazer; o corpo do pecado é destruído, para que não mais sirvamos ao pecado (Romanos 6:6); temos redenção através do Seu sangue (Colossenses 1: 14); Ele Se deu a Si mesmo para nos remir e nos purificar (Tito 2: 14). Estes versículos, e muitos outros, enfatizam que a santidade é o resultado certo nas vidas daqueles por quem Cristo morreu. Visto que todos os homens não são santos, Cristo não morreu por todos os homens.

Alguns sugerem – inutilmente! – que a morte de Cristo não é a única causa dessa santidade. Dizem que ela somente se torna verdadeira ou real quando o Espírito Santo a traz, ou quando é recebida por fé. Mas a obra do Espírito Santo, e o dom da fé, são também o resultado ou o fruto da morte de Cristo! Assim sendo, essa sugestão não altera o fato que a verdadeira santidade é o resultado certo somente nas vidas daqueles por quem Cristo morreu. O fato do juiz dar permissão ao carcereiro para destrancar a porta da prisão, não é a causa do prisioneiro ser posto em liberdade; a causa é que alguém pagou seus débitos por ele.

Argumento 9 – A fé é essencial à salvação. Isso é claro nas Escrituras (Hebreus 11:6) e a maioria das pessoas aceita o fato. Mas, como já temos visto, tudo que é necessário para a salvação foi obtido para nós por Cristo.

Ora, se esta fé essencial é obtida para todos os homens por Cristo, então é nossa com ou sem certas condições. Se é sem condições, então todos os homens a têm. Mas isso é contrário à experiência, e também às Escrituras (2 Tessalonicenses 3:2). Se a fé é dada somente sob certas condições, então eu pergunto: sob que condições?

Alguns dizem que a fé é dada sob a condição de que nós não resistamos à graça de Deus. Contudo, não resistir significa, realmente, obedecer. Obedecer significa crer. Portanto, o que estes amigos realmente estão dizendo é: “a fé é concedida somente àqueles que crêem” (isto é, àqueles que têm fé!). Isso é completamente absurdo.

Por outro lado, alguns argumentam que a fé não é obtida para nós pela morte de Cristo. Então, seria a fé um ato de nossa própria vontade? Mas isso é bastante contrário àquilo que muitos versículos bíblicos ensinam, e ignora o fato de que os incrédulos estão mortos em pecados, incapazes de realizar qualquer ato espiritual (I Coríntios 2:14). Portanto, volto à posição de que a fé é obtida por Cristo.

A fé é uma parte essencial da santidade. No Argumento 8, mostrei que a santidade é obtida para nós pela morte de Cristo. Portanto, Ele também obteve a fé para nós. Negar isso é dizer que Ele obteve apenas uma santidade parcial, isto é, uma fé deficiente. Ninguém sugere isso seriamente. Mais ainda, Deus escolheu Seu povo, como nos é dito, a fim de que ele fosse santo; Deus “nos elegeu … para que fôssemos santos” (Efésios 1 :4). Repetindo, a fé é uma parte essencial da santidade. Ao eleger Seu povo para ser santo, necessariamente Deus decidiu que ele teria fé.

Era parte do pacto entre Deus, o Pai, e Deus, o Filho, que todos aqueles por quem Cristo morreu tivessem as bênçãos que o Pai tencionava dar-lhes. A fé é uma das bênçãos que o Pai dá (Hebreus 8:10,11).

As Escrituras afirmam claramente que a fé é obtida para nós por Jesus Cristo, que é “o autor e consumador da fé” (Hebreus 12:2). Declarações como esta e as declarações dos três parágrafos acima, que acabamos de ler, confirmam, todas elas, que a morte de Cristo obtém fé para Seu povo. Visto que não são todos os homens que a têm, Cristo não pode ter morri do por todos os homens.

Argumento 10 – O povo de Israel era, de muitas maneiras, uma espécie de ilustração da Igreja de Deus do Novo Testamento (I Coríntios 10:11). Seus sacerdotes e sacrifícios eram exemplos daquilo que Jesus viria fazer pela Igreja de Deus. Jerusalém, a cidade deles, é usada como uma figura do céu do crente (Hebreus 12:22).

Um verdadeiro israelita é um crente (João 1:47) e um verdadeiro crente é um israelita (Gálatas 3:29). Portanto, eu argumento da seguinte maneira:

Se a nação dos judeus foi escolhida por Deus, entre todas as nações do mundo, para ilustrar Suas relações com a Igreja, segue-se, então, que a morte de Cristo foi somente pela Igreja e não pelo. mundo todo. A maneira como Deus tratou o Seu povo escolhido no Velho Testamento é uma ilustração de que a salvação obtida por Cristo não é para todos os homens, mas é apenas para o Seu povo escolhido.

  1. Um argumento baseado no significado da palavra “redenção”

Argumento 11 – A maneira como a Bíblia descreve uma doutrina deve nos ajudar a entender a doutrina. Uma palavra bíblica que é usada para descrever a salvação obtida por Cristo é a palavra redenção. Exemplo: ” …temos a redenção pelo seu sangue”(Colossenses 1:14). Essa palavra significa “libertar uma pessoa do cativeiro através do pagamento de um preço”. A pessoa não está redimida a não ser que seja libertada. Por isso, a própria palavra nos ensina que Cristo não pode ter obtido a redenção para aqueles que não estão livres. A redenção universal (assim chamada!) que finalmente deixa alguns ainda no cativeiro é uma contradição de termos.

O sangue de Cristo é realmente chamado de preço, e de resgate, em alguns versículos bíblicos (vide Mateus 20:28). Ora, o propósito de um resgate é obter a libertação daqueles pelos quais o preço é pago. É inconcebível que um resgate seja pago e a pessoa ainda continue prisioneira. Por conseguinte, como pode ser argumentado que Cristo morreu por todos os homens, quando nem todos os homens são salvos? Somente os que estão realmente livres do pecado podem ser aqueles por quem Cristo morreu. “Redenção” não pode ser “universal”, como “romano” não pode ser “católico”! A redenção tem que ser particular, visto que somente alguns são redimidos.

  1. Um argumento baseado no significado da palavra “reconciliação” 

Argumento 12 – Uma outra palavra que a Bíblia usa para descrever aquilo que

Cristo obteve mediante Sua morte, é a palavra reconciliação: “…inimigos… vos reconciliou.” (Colossenses 1:21). Reconciliação quer dizer restaurar as relações de amizade entre duas partes que anteriormente eram inimigas. Na salvação, da qual a Bíblia nos fala, Deus é reconciliado conosco e nós somos reconciliados com Deus.

Estas duas coisas têm que ser verdadeiras; a reconciliação de uma parte e da outra são dois atos separados, mas ambos são necessários para tornar uma reconciliação completa. É uma tolice sugerir que Deus, por intermédio da morte de Cristo, agora está reconciliado com todos os homens, mas que somente alguns homens estão reconciliados com Ele. Espero que ninguém sugira que Deus e todos os homens estão reconciliados desta maneira. Isso seria uma reconciliação capenga! Não há verdadeira reconciliação a menos que ambas as partes estejam reconciliadas uma com a outra.

O efeito da morte de Cristo foi a reconciliação tanto de Deus com os homens como os homens com Deus; “fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho” (Romanos 5:10) e “nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a reconciliação.”(Romanos 5:11). Ambas as reconciliações são, também, mencionadas em II Coríntios 5:19-20 – “Deus … reconciliando consigo”, e “vos reconcilieis com Deus”.

Ora, como esta dupla reconciliação pode ser “reconciliada” com a noção de que

a morte de Cristo é para todos os homens, eu não posso entender! Porque, se todos os homens são, pela morte de Cristo, assim duplamente reconciliados, como pode acontecer que a ira de Deus esteja sobre alguns? (João 3:36). Sem dúvida alguma, Cristo somente pode ter morri do por aqueles que estão realmente reconciliados.

  1. Um argumento baseado no significado da palavra ” satisfação

Argumento 13 – E verdade que a palavra satisfação não é usada na versão inglesa da Bíblia, com referência à morte de Cristo. Mas, aquilo que a palavra significa, isto é, “um pagamento total daquilo que é devido a um credor por um devedor” é um pensamento frequentemente usado no Novo Testamento, quando se refere à morte de Cristo.

Em nosso caso, os homens são devedores a Deus, pois falharam em obedecer aos Seus mandamentos. A satisfação requerida para pagar nosso pecado é a morte – “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). As leis de Deus nos acusam, expressando a justiça e a verdade de Deus. Perante elas estamos convictos de que somos seus transgressores, merecendo, portanto, morrer. A salvação só é possível se Cristo pagar nosso débito e, assim, satisfazer a justiça de Deus. Sua morte é chamada de uma”oferta” (Efésios 5:2) e de “propiciação” (l João 2:2). A palavra oferta significa um sacrifício de expiação ou um sacrifício para fazer reparação devido o pecado.

Propiciação significa uma oferta para satisfazer a justiça ofendida. Dessa forma, podemos usar corretamente a palavra satisfação para abranger todo o ensino bíblico quanto ao significado da morte de Cristo.

Ora, se Cristo pela Sua morte realmente fez uma satisfação por alguns, então Deus precisa agora estar completamente satisfeito com eles. Deus não pode requerer licitamente um segundo pagamento de qualquer espécie. Então, como pode ser que Cristo tenha morrido por todos os homens e ainda muitos vivam e morram como pecadores sob a condenação da lei de Deus? Reconciliem essas coisas aqueles que podem! Afirmo que somente os que estão realmente livres do débito nesta vida podem ser aqueles pelos quais Cristo pagou a satisfação.

  1. Dois argumentos baseados no valor da morte de Cristo

Argumento 14 – O Novo Testamento fala, frequentemente, do valor da morte de Cristo, com a qual Ele pôde comprar e obter certas coisas. Exemplo: é dito que a redenção eterna é obtida “por seu próprio sangue” (Hebreus 9:12); é dito que a Igreja de Deus foi resgatada “com seu próprio sangue.” (Atos 20:28); e os cristãos são chamados “povo adquirido” (I Pedro 2:9).

Cristo por Sua morte, então, comprou para todos aqueles por quem Ele morreu, todas aquelas coisas que a Bíblia salienta como resultados de Sua morte. O valor da Sua morte comprou a libertação do poder do pecado e da ira de Deus, da morte e do poder do diabo, da maldição da lei e da culpa do pecado. O valor da Sua morte obteve a reconciliação com Deus, paz e redenção eterna. Estas coisas são agora dons gratuitos de Deus, porque Cristo as comprou. Se Cristo morreu por todos os homens, por que então todos os homens não têm essas coisas? Será que o valor da Sua morte não é suficiente?

Será que Deus é injusto por não dar a todos aquilo que Cristo comprou? Tem que ser óbvio que Cristo não pode ter morrido para adquirir essas coisas para todos os homens, e sim somente para aqueles que realmente desfrutam delas.

Argumento 15 – Há frases que são frequentemente empregadas para se fazer referência à morte de Cristo, tais como: morrendo por nós; suportando nossospecados; sendo nossa segurança. O significado evidente de tais frases é que Cristo, em Sua morte, foi um substituto de outros para que eles pudessem ser livres.

Se, em Sua morte, Cristo foi um substituto de outros. como podem eles mesmos morrerem também, carregando ainda seus próprios pecados? Assim sendo, Cristo não pode ter sido um substituto a favor deles. Daí, fica claro que Ele não pode ter morrido por todos os homens.

De fato, dizer que Cristo morreu por todos os homens é a maneira mais rápida de provar que Ele não morreu por ninguém. Porque se Ele morreu em lugar de todos, e, contudo, nem todos são salvos, então Ele falhou em Seu propósito.

  1. Um argumento geral baseado em versículos específicos das Escrituras 

Argumento 16 – Há um grande número de versículos bíblicos que eu poderia usar para argumentar que Cristo não morreu pelos pecados de todos os homens. Vou selecionar apenas nove, e, com eles, encerrar nossos argumentos nesta parte.

  1. Gênesis 3: 15. Este é o primeiro versículo bíblico no qual Deus indica que há uma diferença entre o povo de Deus e seus inimigos. “…sua semente” (da mulher) significa Jesus Cristo e, portanto, também todos os crentes em Cristo. (Isto é claro a partir do fato de que a profecia sobre a semente da mulher é cumprida em Cristo e em Seu povo). “…tua semente”(da serpente) significa todos os homens incrédulos do mundo (Vide João 8:44). Desde que Deus prometeu somente inimizade entre a semente da serpente e a semente da mulher, é óbvio que Cristo, a semente da mulher, não morreu pela semente da serpente!
  1. Mateus 7:23. Cristo aqui declara que há pessoas que Ele jamais conheceu. Contudo, em outro lugar (João 10:14 a 17) Ele diz que conhece todo o Seu povo. Será que Ele não conhece todos aqueles por quem morreu? Se há alguns que Ele não conhece, então Ele não pode ter morrido por eles.
  1. Mateus 11:25-27. Conforme estas palavras, é claro que há alguns dos quais Deus esconde o evangelho. Se é a vontade do Pai que o evangelho não seja revelado a eles, Cristo não pode ter morrido por eles. E nós devemos notar que Cristo, aqui, agradece ao Pai por fazer esta diferença entre homens – uma diferença que somente alguns homens ainda se recusam a acreditar!
  1. João 10:11, 15-16, 27-28. Destes versículos fica bastante claro que:

    I. Nem todos os homens são ovelhas de Cristo.
    II. A diferença entre os homens um dia será óbvia.
    III. As ovelhas de Cristo são identificadas como “aquelas que ouvem a voz de Cristo”; outros não a ouvem.
    IV. Alguns que ainda não são identificados como ovelhas já estão escolhidos e se tornarão conhecidos (“outras ovelhas”).
    V. Cristo morreu, não por todos, mas especificamente por Suas ovelhas.
    VI. Aqueles por quem Cristo morreu são os que Lhe foram dados pelo Pai. Ele não pode, então, ter morrido por aqueles que não Lhe foram dados.

    5.Romanos 8:32-34. Destes versículos entendemos com clareza que a morte de Cristo pertence somente ao povo eleito de Deus e, também, que a intercessão de Cristo é somente em favor desse mesmo povo.

  1. Efésios 1: 7. A partir deste versículo, podemos dizer que se o sangue de Cristo foi derramado por todos, então todos devem ter esta redenção e este perdão. Mas, certamente, nem todas as pessoas os possuem.
  1. II Coríntios 5:21. Portanto, em Sua morte Cristo foi feito pecado por todos aqueles que nEle foram feitos justiça de Deus. Se Ele foi feito pecado por todos, então, por que todos não são feitos justiça?
  2. João 17:9. A intercessão de Cristo não é por todos os homens, e, portanto, nem a Sua morte o foi. (Ver Segunda Parte, capítulos quatro e cinco).
  1. Efésios 5:25. Cristo ama a Igreja e isto é um exemplo de como um homem deve amar a sua esposa. Mas se Cristo amou outros tanto quanto a Sua Igreja, até ao ponto de morrer por eles, então os homens podem certamente amar outras mulheres além de suas esposas!

Pensei que poderia acrescentar outros argumentos – mas, considerando aquilo que já disse, estou certo de que o que já foi argumentado é bastante para satisfazer os que se satisfarão com argumentos; no entanto, aqueles que são obstinados não se satisfarão ainda que eu inclua outros argumentos. Portanto, encerro meus argumentos aqui.

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Fonte: John Owen, Por quem Cristo morreu, págs. 49-70. Editora PES – 1986.

Pensai nas coisas que são de cima!

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Tema: A mente firme em Cristo para uma vida abundante, frutífera e agradável a Deus.

Texto base: Colossenses 3: 1-10;

Textos auxiliares: Cl 1: 10-14; 1: 21-23; 2: 6-12; 6: 18/ Fp 4: 8; Gabriel F. M. Rocha/ março de 2015.

Introdução:

Nosso tempo assiste a um gradativo esmaecer de alguns valores morais que antes se firmaram em vista de uma verdade absoluta e de um sentido. Junto do esmaecer dos bons paradigmas que regiam a forma de vida e conduta dos indivíduos em tempos atrás, percebe-se cada vez mais acentuada a fragmentação, também, dos valores cristãos em muitas sociedades. Essa fragmentação faz com que o pecado pareça cada vez mais “normal” e “natural” em nossa sociedade. De certo, a humanidade está corrompida desde o pecado de nossos pais no Édem e, a partir de então, afastada está de Deus (Rm 3: 23). Sendo assim, não se podia mesmo esperar do mundo uma postura que agrade a Deus. Impossível! Há uma humanidade escrava do pecado e totalmente inclinada para o mal.

Contudo, muitos valores morais um dia foram construídos em parcial conformidade com a vontade de Deus, considerando a existência de um Ser Supremo e Absoluto. Um exemplo específico disso é o fato de haver, embora criticado hoje por alguns, um modelo de casamento e família em total correspondência com os valores cristãos. Podemos citar outros valores cristãos que regem nossa sociedade e são defendidos até por aqueles que se dizem ateus, mas que reconhecem a eficácia de tais valores. falo dos famosos 10 Mandamentos. Poderíamos citar aqui vários outros exemplos, mas não vem ao caso agora.

A questão é: o mundo caminha para a sua condenação e o homem sem Deus, se inclina cada vez mais para o mal (1Jo: 19) . Se as verdades concernentes a Deus e a boa conduta em conformidade com o mesmo Deus vão sendo esquecidas, várias “verdades” e formas de vida virão como paradigmas nessa complexa esfera cultural de nosso tempo e esses modelos de crença, conduta, ou o próprio niilismo que se instaura, vão se esforçar ao máximo para entrar nas igrejas, nos lares e na mente dos cristãos. Essa fragmentação – ou mesmo o abandono – dos valores propriamente cristãos que atravessam os séculos (desde o advento da modernidade) se dá, principalmente, em sociedades que antes o Evangelho foi pregado com notável poder e de forma triunfante.

Relevantes homens foram usados por Deus. Homens que negaram suas vidas e aceitaram o martírio, provando por seus testemunhos pessoais e em praças públicas o que de fato é carregar a cruz de Cristo e morrer nela. Na modernidade, através da confiança depositada na razão, na racionalidade instrumental e na ciência como capazes de conferir sentido, dar respostas e dirigir a vida humana, o mundo, enfim, declarou sua inimizade com Deus, abandonando qualquer princípio que viesse sugerir uma fé e a existência de um Deus Verdadeiro, Absoluto e Bom. E agora, no seio da pós-modernidade, vemos esse alvoroço todo. Há uma crise de sentido. Muitos assumiram a postura de inimigos de Deus, sendo totalmente afastados da luz e amantes das trevas. Homens sem rumo e sem sensibilidade em relação aos seus tantos pecados. O individualismo tomou conta de nossas sociedades e a miséria de uma religião sem o amor ao próximo se espalhou entre os “cristãos pós-modernos”.

O consumismo vem ditar quem nós somos e quem devemos nos tornar; o homem busca sua auto-realização na esfera do material, do financeiro, mergulhado num hedonismo sem limites. O indivíduo pós-moderno se vê arrastado pela incessante busca por satisfação de suas carências e necessidades, pois é essa imagem de humanidade que se constrói em nosso tempo, a saber: a imagem do indivíduo que precisa se preencher (preencher o seu vazio existencial), adquirir, possuir, assumindo, então, cada vez mais sua postura como ser mundano, totalmente imanentizado e afastado da Verdade. A verdade torna-se relativa, sendo a verdade da ciência, uma verdade mutável. O verdadeiro de hoje não é mais verdadeiro amanhã. Isso, de acordo com os avanços prodigiosos da ciência. Avanços que têm, porém, esquecido a vida propriamente humana. Avanços, possibilidades e formatações que enxergam o homem como animal estruturalmente natural, sem espírito e sem qualquer valor e qualidade que venha sugerir uma dignidade essencial para além do corpo, das necessidades físicas e do utilitarismo.

Ou seja (resumindo): estamos mergulhados num pluralismo sem precedentes! Vários conceitos sobre várias coisas. Muita fragmentação de bons valores. Formações de novos conceitos… O mundo está perdido e se perdendo… Mas, e a Igreja? Para quem ela está olhando? A Igreja tem olhado para o alto! Tem buscado as coisas que são de cima! E você?

Está aí o mundo. Não é, portanto, o nosso mundo (1 Jo 4: 4, 5; 5: 4, 5)! Se Jesus venceu o mundo, nós podemos vencer o mundanismo se nossa mente for como a de Cristo. Sim! Para nós que professamos a fé em Cristo, esse não é mais nosso mundo. Estamos nele. Participamos dele. Temos uma missão nele. Ele é o nosso campo de atuação para o bom serviço do Evangelho. Mas não pertencemos e não devemos jamais tomar a forma dele. Como Paulo mesmo disse em sua carta aos Romanos, “não vos conformeis com esse século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12: 2). Nossa mente deve estar firmada nas coisas do alto, pois foi renovada em Cristo para a glória de Deus.

Portanto, devemos andar conforme Deus, a fim de agradá-lo e não conforme o mundo, sendo o mundo feito inimigo de Deus. Somos livres em Cristo. Livres para vivermos conforme Deus. Mas, em detrimento disso, a proposta pós-moderna tem invadido muitas igrejas. Pode até ser aceita (como algo imbatível) a corrupção do mundo, uma vez que a Bíblia não nos engana sobre o destino do mundo e sobre o pecado. Mas o que causa espanto não é a corrupção que há no mundo, mas sim a corrupção que entra nas igrejas ditas cristãs e nas vidas dos que se dizem crentes. Muitos falsos líderes tem se levantado com idéias, supostas novas revelações e ensinando doutrinas de demônio e permitindo liberalmente a entrada de muitos pecados dentro de suas congregações (1 Jo 2: 18,19). A imagem de Cristo tem se desbotado nos corações de muitos que se um dia professaram a fé em Cristo. Muitos têm caído na graça. Alguns caíram totalmente da graça, pois dela nunca fizeram e nem farão parte, mas muitos crentes genuínos deixaram-se envolver com os ditames diabólicos desse mundo e aceitaram o pecado dentro de seus corações e lares. Os argumentos segundo o mundo estão ficando cada vez mais fortes e convincentes para os que não se firmaram totalmente em Cristo.

Falei das sociedades que antes levantaram com fervor a bandeira do Evangelho. Pois é! Muitas perderam o foco. Muitas deixaram as vãs sutilezas e filosofias entrarem deturpando a mensagem e a imagem de nosso Senhor. Muitas abandonaram a fé. Muitas igrejas têm fechado suas portas na Europa. Não sei se isso mexe com você, mas me entristeço inconformadamente com essa situação. Nos EUA mesmo, a situação também se torna crítica e digna de nota. Muitas igrejas (de bons nomes, inclusive), perderam completamente o norte e estão deixando entrar tão livremente o pecado, tomando assim, a forma desse mundo. Deixando-se levar pelo argumento demoníaco do casamento homo afetivo, pela ausência de luta em favor dos casamentos que se destroem, pela naturalização do divórcio, pela aceitação do aborto, pela juventude que se afasta de Deus, pela falta de doutrina bíblica, pelos ventos doutrinários que mancham a fé, etc. Aqui no Brasil, por sua vez, a ortodoxia muitas vezes não caminha lado a lado com a ortopraxia em alguns grupos de memoráveis nomes e, quando a ortopraxia se vê de modo dinâmico e atuante em algumas igrejas de rótulo pentecostal, a Sã Doutrina perde lugar para o experimentalismo estranho e para as tantas heresias que emergem dentre os neopentecostais.

Ah! São muitas coisas mesmo! Se a mente não estiver em Cristo, tão facilmente se perde o rumo. Muitas novelas, séries, filmes e outras mídias tentam ensinar e ditar (quase autoritariamente) o pecado como forma de vida e tem conseguido influenciar nosso povo com o argumento de que somos antiquados, que nossa fé é fundamentalista, que estamos ultrapassados pelas razões científicas e filosóficas, etc. Os jovens têm em mãos algumas ferramentas que os mantém informados de toda e qualquer novidade e muitos filhos de crentes se perdem nesse viés. A mídia é boa, a internet é boa, tudo pode ser bom se a mente estiver firme em Cristo e a vida estiver depositada em Deus. Também, muitas “novas didáticas” apresentam seus novos modelos de família; a relativização da verdade e a relativização do pecado; desconhecimento e plena ignorância bíblica entre os cristãos; ausência notável de uma vida piedosa entre os que professam a Cristo, etc. Tudo isso vai colocando muitos crentes no cativeiro e na vida cristã estática e infrutífera. Isso é sério! Enquanto os cristãos no Oriente Médio e em alguns lugares na África estão sendo perseguidos, mortos e vendo suas famílias desfeitas pela desgraça denominada de “Estado Islâmico”, muitos – aqui no Ocidente – estão passivamente cedendo e permitindo o mal criar suas raízes, vivendo um cristianismo desfigurado. Estão errando o alvo. Estão perdendo o foco. Estão olhando para baixo e não para o alto. Não sabem mais, nesse pluralismo todo, para quem olhar.

Entrando em Colossenses (breve abordagem dos capítulos 1 e 2):
O apóstolo Paulo, ao escrever sua carta à igreja de Colosso, quis exatamente advertir os crentes quanto aos ensinos falsos e mundanos que estavam entrando na igreja, suplantando a fé e também a centralidade e supremacia de Jesus Cristo na criação, na revelação, na redenção e na igreja. O apóstolo também quis ressaltar a verdadeira natureza da nova vida em Cristo e suas exigências para o crente. Embora se trate de contextos diferentes, o contexto do ministério paulino, assim como todo o contexto do primeiro século da era cristã foi marcado por uma chuva de heresias, legalismo, religiosidade e vãs filosofias que surgiam no meio do povo de Deus. A diferença para nossos dias, é que as mesmas coisas, os mesmos pecados se tornaram ainda maiores e afetaram todas as áreas da vida humana num tempo diversificado e mais complexo.

O apóstolo João mesmo, em sua primeira carta, faz a advertência: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. […] e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus […]” (1 Jo 4: 1 e 3). Segundo Paulo, eram muitas “filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (2: 8) que estavam ameaçando o real entendimento da igreja sobre a divindade de nosso Senhor e também afetando a postura em relação à Verdade. Junto dos maus ensinos, dos maus exemplos, das filosofias e ventos de doutrina, estava o legalismo judaizante que, assim como fora também entre os gálatas e outras comunidades, disputava entre os crentes a primazia da fé em detrimento do Evangelho da graça. O mundo é inimigo de Cristo e da igreja (Jo 15: 18,19). Sendo assim, os ditames do mundo sempre vão ter por intento destruir a imagem divina, santa e verdadeira de Cristo por meio do pluralismo de conceitos e pela relativização da fé e da vida cristã. Eis a astúcia-mor do adversário de nossas almas: fazer com que Cristo não seja contemplado por nossos olhos. Por isso, Cristo – em sua oração sacerdotal – foi tão enfático quando disse:

“É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste […]. Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo […]” (Jo 17: 9 e 11).

No mesmo sentido de exortação e desejo de ver guardadas as ovelhas de Cristo, Paulo faz sua admoestação à igreja. No capítulo 1(versículo 10 ao versículo 14), ele, tão logo, chama a atenção para que a igreja assuma uma vida digna diante do Senhor, procurando agradar a Deus em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus (v.10). Essa exortação para que venhamos assumir essas qualidades se dá com base na seguinte verdade: Deus já “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (1: 13). Somos, portanto, reconciliados com Deus em Cristo pelo sangue da cruz (1: 20), feitos inculpáveis, santos e irrepreensíveis. Por isso, devemos tão logo assumir tais qualidades, pois o poder do sacrifício de Jesus Cristo nos garante eficazmente essa transformação pessoal pelo auxílio e obra do Espírito Santo. Outra verdade que pode ser extraída desse contexto é a seguinte: se sua mente não está firme em Cristo e você ainda não provou da transformação pessoal em Cristo, amando o pecado, agradando a si próprio e plenamente conformado com esse mundo, a notícia para você é esta: você não tem a mente em Cristo e não pode pensar sobre as coisas do alto, pois você não se converteu ainda de seus pecados e não faz parte do rebanho de Cristo, a não ser que se arrependa e almeje viver para Deus, conforme Deus, firme em Cristo e transformado pelo Espírito Santo para uma vida santa e justa. Quanto a nós, devemos, então, permanecer na fé, alicerçados e firmes, não nos deixando afastar da esperança do Evangelho que ouvimos e aprendemos (1: 22, 23). Dessa forma, amados irmãos, não podemos – de forma alguma aceitar o mal, fazer vista grossa ao pecado (seja nosso, seja do irmão) e deixar com que as vãs filosofias e heresias adentrem nossas congregações e os maus costumes, as nossas casas.

Em Romanos 6: 12., Paulo faz a seguinte admoestação: “Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniqüidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça. porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estão debaixo da lei, mas da graça” (Rm 6: 12- 14). Nos versículos posteriores, Paulo adverte ainda sobre a postura cristã em conformidade com a vontade de Deus e deixa a seguinte afirmação: Deus – por sua graça – foi quem nos fez idôneos, afim que sejamos livres do “império das trevas” (v. 13), pois temos a redenção e a remissão dos pecados pelo sangue de Jesus. Ou seja: somos livres em Cristo para andar conforme quer Cristo. A princípio parece não haver liberdade nisso, mas no decorrer deste texto, veremos que sim. Há liberdade em Cristo e somos livres quando nossa vida é mortificada na carne e ressurreta em espírito. Portanto, no capítulo 1 e no capítulo 2 (mais especificamente nos versos 6 ao 12 e no verso 18 do segundo capítulo), Paulo deixa uma série de afirmações quanto a nossa nova natureza em Cristo, sendo nós agora, edificados nele (2: 7), confirmados na fé, abundantes e instruídos na fé e na ação de graças (2: 7).

Assim, devemos: estar aperfeiçoados nele, circuncidados nele, sepultados com ele no batismo e ressurretos nele pela fé. Assumindo, assim, a nossa liberdade com que Cristo nos libertou e vivendo conforme a nossa nova natureza em Deus, ninguém poderá nos dominar a seu arbítrio (ou bel-prazer) em pretextos de humildade. Assumindo a nossa posição como remidos por Cristo, cheios do Espírito Santo e amigos de Deus, devemos – portanto – provar a nossa fé, evidenciando diante das plurais filosofias e formas de vida ditadas pelo mundo, quem tem, de fato, a primazia de nosso ser. Como evidenciar e provar a nossa fé a fim de agradar somente a Cristo? Paulo responde no capítulo 3, no versículo 1 ao 17. Paulo inicia o terceiro capítulo com uma conjunção coordenativa conclusiva: “Portanto…”. E dá uma seqüência conclusiva ao que tratou nos dois primeiros capítulos de sua carta. O apóstolo diz:

“Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto…”.

Pois bem, Paulo faz, nessas palavras, um convite para a análise interior, para uma sondagem com o intuito de provarmos – em vista de nossas ações e forma de vida – se realmente estamos ressuscitados com Cristo. Evidenciamos mesmo o caráter de Cristo? É extremamente válida tal análise. E se realmente estamos firmados em Cristo, logo pensamos como Cristo. Se estivermos em Cristo, somos parte do Corpo de nosso Senhor. Se nós somos, então, parte do Corpo de Cristo, sendo Ele o cabeça desse corpo, nossas atitudes devem estar em plena conformidade com os pensamentos de Deus. Por isso, Paulo completa: “…se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto”. Estar ressuscitado com Cristo e buscar as coisas do alto trazem uma série de aprendizados que aqui menciono:

1) O ressuscitado com Cristo é aquele que já morreu para o mundo. O mundo e o pecado não o escravizam mais. É livre e vive uma vida para a glória de seu Senhor, em fidelidade à Palavra de Deus, em santidade, evidenciando uma vida frutificada pelo Espírito Santo e verdadeiramente piedosa;

2) Buscar as coisas do alto remete à busca, ao interesse e à total inclinação para aquilo que é do Reino. É aquele que vive o Reino e para o Reino de Deus. Buscar aquilo que é do alto é se interessar e se preocupar com os assuntos de Deus.

Como? Se envolvendo com a obra de Deus; se envolvendo com o evangelismo, com a pregação da Palavra. O que busca as coisas que são do alto, busca viver segundo a vontade de Deus, procurando saber qual é a perfeita e agradável vontade do Senhor. Ele lê a Bíblia, ele ora incessantemente, ele clama por sabedoria, ele roga a Deus para ser usado com poder no Evangelho, ele se preocupa em apresentar um bom testemunho na sociedade na qual se insere, ele se preocupa com as questões que envolvem sua congregação, ele busca melhorias para os irmãos, ele desenvolve seus talentos e dons, ele edifica, ele trabalha, ele oferta, etc. Sua mente está voltada para a glória de Deus e sua vida familiar, profissional, financeira, etc. reflete o seu movimento para Deus e sua firme adesão; 3) O que está ressuscitado com Cristo e busca as coisas que são do alto, está em plena sintonia com a mente de Cristo. Se ele está em plena sintonia com as coisas de Cristo, tem os mesmos interesses de Deus, a saber, o resgate de muitas almas. Quem tem a mente firme em Deus e busca as coisas do alto, conseqüentemente não suporta uma vida estática e vai ao encontro do perdido e do desamparado para evangelizá-lo, pois é o que Jesus faz. Portanto, se somos ressuscitados com Cristo, nossa vida frutifica. E essa é a prova de que somos ressurretos para Deus e firmados em Cristo: quando buscamos as coisas de do alto e mantemos nossa mente voltada para as coisas do reino. Eis o exemplo em João 15: 2-4 e 5:

“Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado;permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. […] Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto[…]”.

No versículo 2, a exortação continua assim: “pensai nas coisas que são de cima”. O termo usado no original, traduzido como “pensai”, é “phroneo” e pode ser traduzido também por: “exercitar a mente”, “alimentar a mente” e mesmo “interessar-se por algo”. E a advertência que nos cabe é exatamente essa: precisamos exercitar a nossa mente para desenvolvermos melhor nossos pensamentos sobre Deus a fim de melhorarmos a nossa postura cristã. Há uma profunda ligação entre o nosso pensamento e a nossa atitude. Nossas atitudes nada mais são o reflexo daquilo que pensamos. Se não temos nenhum conhecimento de Deus, não temos nenhum pensamento em conformidade com a vontade de Deus, o que poderemos esperar de nossas atitudes? Como exercitar a mente para pensar nas coisas que são de cima e buscar as coisas que são do alto? Lendo a Escritura! Isso! Lendo, estudando e examinando a Bíblia! Ela fala de Jesus. Ela é a revelação de Jesus Cristo, o Verbo de Deus!

Conhecendo a Palavra de Deus, podemos agir conforme Deus e ter uma visão correta sobre nosso Senhor. Atitudes que nos afastam de Deus são atitudes cujos pensamentos estão longe das coisas de Deus. Não pensamos no próximo, não observamos a vontade de Deus, não trabalhamos e nem desejamos trabalhar no Evangelho, etc. Tudo isso por não ter uma mente firmada em Cristo. Se Deus não ocupa nossa mente, nosso ser poderá ser regido, então, pelo pecado. Isso é sério! Não somos mais escravos do pecado! Somos livres em Cristo para exercitar e desenvolver nossa salvação. Precisamos desde já alimentar a nossa mente e pensar nas coisas que são de cima, ou seja: precisamos fazer como Cristo. Precisamos nos alimentar de fazer a obra do Pai (João 4: 33,34), se envolver com as coisas de cima. Esse é o interesse de Cristo. Se nós estamos mesmo com Cristo e enxertados nele, os interesses de nosso Senhor passam a ser nosso interesse também.

Uma curiosidade: a filosofia grega clássica e helenística exercia forte influencia na sociedade e nas comunidades onde Paulo exerceu seu apostolado. Não tenho dúvidas de que Paulo era conhecedor, pelo menos em parte, da filosofia grega, uma vez que ele tinha uma relevante desenvoltura entre os gregos na evangelização e no ensino. O modelo de vida realizada na sociedade grega clássica e helenística era o modelo do Sábio, a saber, o homem que era inteiramente realizado para os gregos era o que exercitava o pensamento em vista do bem da polis. Esse era o que exercia a phrónesis (phroneo), ou seja, sabedoria sobre as coisas que transcendiam o ser. Era a sabedoria do alto. Paulo, como era pregador bom, em consonância com essa forma de pensamento, lançou a verdade cristã sob o mesmo viés conceitual: o que se realiza em Deus é aquele que pensa sobre as coisas que são de cima. Esse é o sábio! A sabedoria do cristão é estar no centro da vontade de Deus e não mergulhado no pecado. A sabedoria verdadeira consiste em fazer boas escolhas (nesse aspecto, a escolha humana tem o seu lugar). Podemos lembrar de Salomão quando pediu a Deus sabedoria para reinar.

No entanto, muitos problemas, adversidades, e situações diversas tendem a roubar nossa atenção, nossa fé e até mesmo conseguem apagar a chama de nosso coração. Porém, não fomos chamados para uma vida de inconstância, mas sim de perseverança.

No versículo 3, Paulo deixa um importante alento:

“porque morrestes e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus”.

As aflições desta vida, as lutas e provas que aparecem, junto com a força e o intento do pecado tentam ofuscar nossa visão e fazer com que abaixemos nossas cabeças e erremos o alvo. Nossa vida aqui é constante batalha. Contudo, devemos ter bem certo em nós a esperança de que Cristo está conosco e temos aliança com Deus através do sangue de Jesus Cristo. Estamos escondidos, agora, em Deus. Temos livre acesso a Ele pela graça e pelo sangue. Nenhum mal, nenhum ataque, nenhum desanimo, nenhuma provação, nenhum pecado que ainda cativa nosso ser pode ser mais forte que Jesus em nós. Por isso a importância de uma vida firmada a cada dia em Deus. Pois, buscando sempre as coisas do alto, nos fortalecemos e crescemos em fé e em graça para suportarmos firmes qualquer desafio que possa surgir. Em Deus, estamos protegidos. Não livres dos ataques, não livre das aspirações de nossa carne, não livres do pecado. Aliás, o pecado é uma constante possibilidade de perdermos o foco. Mas, tendo o foco em Deus e nas coisas de Deus, não há como ceder para o pecado.

Há o sofrimento, mas há a esperança. Há a tristeza, mas há a alegria que sempre vem pelo amanhecer; existe a provação e a dificuldade, mas há a certeza que em Deus podemos tudo, a nudez, a fome, o perigo, a espada, etc. Tudo nós podemos, naquele que nos fortalece.

> Buscar as coisas do alto é, portanto: constante negação de nós mesmos (Cl 3: 5), pois esse é o sentido real da nossa morte e ressurreição. Vida virtuosa é isso: negação de suas aspirações e paixões para fazer aquilo que agrada a Deus. Olhar para as coisas que são de cima e focar nas coisas do alto é assumir o chamado; é esquecer das coisas que para trás ficam; é avançar para o alvo; é procurar não errar o alvo; é crescer em graça e em conhecimento; é se encher do Espírito Santo; é se preocupar com as coisas do Reino; é se alimentar de Jesus; é se envolver e se relacionar com nosso Senhor. Buscar as coisa de cima pressupõe uma vida que está determinada a carregar a cruz. Buscar as coisas de cima é poder orar com firmeza de coração: “venha a nós o teu Reino e seja feita a tua vontade!”.

> Buscar as coisas que são de cima é buscar em Deus e em sua Palavra o sentido para viver e poder olhar para o próximo com mais compaixão. Em Mateus 5: 1-48, Jesus nos deixa o modelo da vida bem-aventurada, ou da “beata vita”, que supõe uma vida de plena realização pessoal. E nos ensinamentos do Sermão da Montanha, Jesus ensina que a bem-aventurança (felicidade plena) está na constante negação de nós mesmos para o serviço do Reino de Deus e no servir o próximo e amar o próximo como marca de uma vida que conheceu a liberdade em Cristo. E não só isso: conheceu a graça e a própria miserabilidade diante do amor de Jesus Cristo.

> Buscar as coisa do alto e pensar nas coisas de cima é, portanto: disposição mental, física e espiritual para morrer de vez para o mundo e viver uma vida ressurreta para Deus. Nossa bem-aventurança está no entendimento da mensagem da cruz. Na cruz consiste a verdadeira liberdade em Cristo. Por quê? Porque morrer para o mundo e para o pecado e vencer a carne, dizendo não para as paixões, inclinações e desapontando nossos fortes desejos em vista da glória de Deus, implica total domínio de si mesmo, numa vida frutificada pela obra do Espírito Santo. Poder dizer para a oferta do maligno e da própria carne que “eu vou agradar a Deus e não a mim mesmo” é vencer – como Cristo – a tentação do Diabo e se portar como verdadeiro liberto. O escravo não consegue. O livre sim, pois seu olhar está firme em Deus e tem constantemente buscado as coisas do alto. Assumir, portanto, a liberdade que Cristo nos concedeu na cruz. Somos livres quando nossa mente está buscando as coisas do alto e pensando nas coisas do alto, pois o pecado não mais nos domina. Temos vitória sobre o maligno! Veja em 1 João, 2: 12-17. Em continuidade de sua admoestação e ensino, Paulo ainda adverte sobre a importância de ainda morrermos totalmente em nossa velha natureza terrena, buscando superar e vencer toda prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e avareza. (3: 5), pois, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os homens. Muitos ainda não acordaram para a seriedade dessas palavras e vivem praticando uma ou todas essas coisas citadas. Mas a palavra de Deus para esses é: condenação! Morte eterna! Inferno.

A não ser que se arrependam agora e busquem a Deus. Buscai as coisas do alto! Perto está o Senhor daqueles que o invocam (Is 55: 6). Paulo ainda insiste: “despojai-vos, igualmente, de tudo isto” (v.8). Notemos que Paulo está falando para a igreja. Isto! Para a congregação de crentes. Amados, somos seres de pecado (1 Jo 1: 8). Temos tendência ao erro, enquanto tivermos esse corpo mortal, pois a morte está instaurada como salário (Rm 6: 23) de nosso pecado. Contudo, temos um advogado diante de Deus (1 Jo 2: 1), a saber, o próprio Cristo. Por isso devemos ter a mente voltada para Cristo, pois Ele é o intercessor, o que advoga e o que nos traz justificação (Rm 6:7).

Contudo, devemos – agora – despojar de tudo que ainda nos faz cativos. Ou vivemos livres para a glória de Deus, ou somos ainda escravos. O céu é para os livres em Cristo. Preocupe-se com isso! Despojando de todo o pecado e de tudo que rouba a primazia de nossa atenção, impedindo-nos de buscar e pensar nas coisas do alto, devemos, tão logo, assumir a forma da nova criatura (novo homem), pois essa nova natureza em espírito nos fará chegar ao pleno conhecimento de Deus e ao modelo de Cristo (v. 10). O velho homem não pode enxergar e conhecer os mistérios de Deus. Portanto, não pode entrar em sua glória, pois Deus é Santo. Mas o novo homem, em espírito e assumindo a cada instante a forma perfeita de Cristo, pode ver a Deus e já aqui, participar da glória e de Jesus Cristo. “não que eu tenha já recebido ou obtido a perfeição, mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.

[…] esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo

[…]” (Fp 3: 12-14). Uma excelente noite e auto-análise, reflexão, súplicas e paz!

Gabriel F. M. Rocha.

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Estudar teologia

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Estudar teologia não implica apenas no acréscimo de conhecimento. É muito mais!

Estudar teologia (com verdadeira devoção) acrescenta a dívida de amor de quem a estuda.

O conhecimento da Verdade se torna eficaz no momento que se propõe pagar a dívida de amor.

Conhecer a Verdade implica na adesão ao bem. Conhecer a Verdade é estar livre para praticar o bem. Conhecer a Verdade é estar liberto do próprio ego para servir melhor o próximo. Esse é o sentido de estudar teologia.

Conhecer mais sobre Deus deve supor viver mais conforme Deus.

Quanto mais se conhece, mais forte se torna a necessidade de engajamento. E quem não se engana ao bem que conhece, peca.

E é isso que me preocupa….

Gabriel Felipe M. Rocha