Discipulado Verdadeiro

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Discipulado, discípulo, fazer discípulos, seguir o Mestre. Estas são palavras comumente ouvidas em nossa vida na cristã. Palavras muitas vezes ditas, às vezes ouvidas, nem sempre compreendidas… Nos tempos atuais às vezes entende-se “discipulado” como aulas teóricas da duração de uma apostila, ser “discípulo” é um estágio até atingir o grau de membro da igreja e “fazer discípulos” é o ato de evangelizar. Será que realmente vivemos o modelo de discipulado deixado por Jesus?
No evangelho segundo João capítulo 1 versículos 35 a 42, encontramos algumas características do discipulado que agrada a Deus:

1 – O verdadeiro discipulado é aquele que faz discípulos para Jesus, não seguidores de homens (vs. 35-37). A Palavra nos ensina que João estava na companhia de dois de seus discípulos e, quando anunciou que Jesus era o Cordeiro de Deus, estes o ouviram “e seguiram a Jesus”. No modelo de Jesus discipulado anuncia Cristo e o discípulo segue somente a Cristo.

2 – Discípulo é aquele que tem prazer em ouvir Jesus (vs. 38,39).Em dias onde o tempo é escasso e lidamos com um mundo repleto de entretenimentos e distrações, o verdadeiro discípulo é aquele que busca tempo para ouvir os ensinos de Jesus e os prioriza. No texto vemos que os dois discípulos, apesar do horário avançado, reconhecem que Jesus é o Mestre e entendem que precisam estar com Ele o quanto pudessem.

3 – Discípulo é aquele que tem alegria em dizer que achou Cristo e de conduzir seus conhecidos a Ele (v. 41).
André, ao reconhecer ser Jesus o Messias prometido, encontra-se com seu irmão, Simão, e anuncia-lhe ter encontrado o Messias e o conduz a um encontro com Cristo. Um verdadeiro discípulo sente prazer em dizer que encontrou a salvação, é um portador de boas notícias e conduz os seus a Jesus.

4 – Jesus sabe quem são seus discípulos (v. 42).
Quando Simão é conduzido ao Mestre, antes que se apresentasse Jesus já o conhece e, ao dar-lhe um novo nome, prenuncia o ministério que Simão, agora Pedro, teria entre os discípulos. Antes de conhecermos a Jesus ele já nos conhecia.
Que você continue a ser um discípulo seguidor de Jesus. Que continue a alegra-se em aprender Dele, que anuncie a todos que o encontrou e que mais e mais pessoas sejam alcançadas por Jesus através de você.

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Reflexão de quem quer servir a Deus melhor (ou de verdade)

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(Gabriel F. M. Rocha)

Quando Jesus dita a parábola do “bom samaritano” para um intérprete da Lei (Lc 10. 30-36), Ele queria fazer o magistrado olhar para além da teologia, da religião e da religiosidade. Como era esperado de um intérprete da Lei, aquele homem sabia muito sobre as Escrituras. Certamente ele conhecia bem os aspectos políticos, econômicos e sociais de sua nação também. Além de tudo isso, ele tinha uma excelente posição social e religiosa pelo título que carregava. Mas faltava para ele conhecer quem era o seu próximo!

O que é interessante nessa passagem bíblica é que, quando o intérprete da Lei testa Jesus perguntando sobre como herdar a vida eterna, Jesus pergunta ao mesmo sobre o que a própria Lei diz. Tipo: “você deve conhecer a resposta que está procurando, pois não é o conhecimento da Lei que define o seu título?”. E, como é esperado de um bom teólogo e conhecedor das escrituras, o homem respondeu corretamente:

“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo”.

Porém, existe um abismo enorme entre conhecer e praticar.

O homem, então, logo retruca: “quem é meu próximo?”

Não posso especular muito, mas creio que essa a segunda pergunta desse homem poderia partir de duas intenções básicas. Primeiro: ele realmente não sabia quem era o seu próximo. Segundo: ele talvez tenha perguntado: “quem é o meu próximo” no sentido de: “quem é semelhante a mim ou próximo a mim no que diz respeito ao meu conhecimento, meu magistrado e minha posição religiosa para que eu possa, de fato, chamar de ‘meu próximo? ’” Essa segunda hipótese supõe “o próximo segundo as minhas conveniências”, o que muitos têm conhecido. Exemplo: “Meu próximo é o que professa a mesma fé que eu professo!” e por aí vai…

Bem, na verdade tanto faz qual tenha sido a intenção real da pergunta daquele homem! As duas possibilidades significam a miséria da religião sem amor. Conhecer teologicamente a religião e não praticar a verdadeira religião é miséria e vergonha.

Será que a minha teologia e a minha missão têm partido do amor como única intencionalidade? Ou será que as intenções de meu coração são outras? Será que o muito estudar e conhecer só tem servido para alimentar o meu ego? Será que a minha missão tem servido para eu convencer a mim mesmo e aos outros de como bom e generoso eu sou? Será que ambas têm sido moedas de troca para fins superiores.

A verdadeira teologia é um bem em si mesmo, pois a verdadeira teologia (a Sã Teologia) supõe o amor. Conhecer a Verdade e o Bem e não conseguir amar é impossível! Conhecer a Deus e desprezar a sua vontade é condenação! Da mesma forma, a verdadeira missão é um bem em si mesmo. Fazer o bem porque ama é realizar-se com o próprio bem, sabendo que a missão é louvor a Deus e possibilidade de edificação do outro! Nunca o “eu” deve ser visto! Não mesmo!

A verdadeira teologia e a verdadeira missão é uma afronta ao ego. A verdadeira teologia transcende as letras e as teorias. A verdadeira Teologia vence as barreiras que a religião impõe. A verdadeira teologia deságua na missão. E a missão, por sua vez, é o sentido da verdadeira Teologia! Ambas são compostas pelo sentido da cruz. Isso mesmo: elas refletem a mensagem da cruz. Primeiro porque ela pede para o “eu” morrer para o Espírito guiar. Segundo, porque é nossa tarefa e nossa missão, como a cruz foi a missão de Cristo na terra. Eis, portanto a cruz! A Teologia como um relacionamento vertical entre Deus e eu vai de encontro com a missão que, tão logo, implica no relacionamento horizontal (eu e o próximo). A missão, portanto, dá sentido à Teologia e a torna eficaz.

Essa é a eficácia da mensagem da cruz: o “eu” está crucificado com Cristo e não vive mais. Mas Cristo vive em mim e a vida que agora vivo, eu vivo pela fé. Cristo vive em mim! Se Ele vive em mim, sua missão se estende por meio de mim.

Aquele homem conhecia muito, mas estava cheio de si e longe de Deus. Muitos estão longe de Deus! Eu também posso estar longe de Deus se tudo isso que escrevi até aqui for vazio de sentido e de amor…

Portanto, responder com clareza e com convicção “quem é o meu próximo” é impossível sem o pressuposto do amor. É possível amar e discernir o próximo sem religião e dogmas, mas é impossível servir o próximo sem amor. Por isso, diante de muitos fatos, eu creio que existem muitas teologias sem amor. Não quero que a minha seja uma delas…Não quero que minha missão seja vazia…

Quem conhece a Deus, de fato, o ama e quem o ama guarda os seus mandamentos. Quem ama a Deus serve o outro, pois reconhece o seu próximo.

A Sã Teologia triunfa na missão!

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A cruz e o “eu”

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(Por Arthur W. Pink)

Antes de abordarmos o tema deste versículo, desejamos fazer algumas considerações sobre os seus termos. “Se alguém” — o termo utilizado refere-se a todos os que desejam unir-se ao grupo dos seguidores de Cristo e alistar-se sob a bandeira dEle. “Se alguém quer” — o grego é muito enfático, significando não somente a anuência da vontade, mas também o propósito completo do coração, uma resolução determinada. “Vir após mim” — como um servo sujeito a seu Senhor, um aluno, ao seu Mestre, um soldado, ao seu Capitão. “Negue” — o vocábulo grego significa negue-se completamente. Negue-se a si mesmo — a sua natureza pecaminosa e corrupta. “Tome” — não quer dizer leve ou suporte passivamente, e sim assuma voluntariamente, adote ativamente. “A sua cruz” — que é desprezada pelo mundo, odiada pela carne, mas, apesar disso, é a marca distintiva de um verdadeiro crente. “E siga-me” — viva como Cristo viveu, para a glória de Deus.

O contexto imediato é ainda mais solene e impressionante. O Senhor Jesus acabara de anunciar aos seus apóstolos, pela primeira vez, a aproximação de sua morte de humilhação (v. 21). Pedro, admirado, disse-Lhe: “Tem compaixão de ti, Senhor” (v. 22). Estas palavras expressaram a política da mentalidade carnal. O caminho do mundo é a satisfação e a preservação do “eu”. “Poupa-te a ti mesmo” é a síntese da filosofia do mundo. Mas a doutrina de Cristo não é “salva-te a ti mesmo”, e sim sacrifica-te a ti mesmo. Cristo discerniu no conselho de Pedro uma tentação da parte de Satanás (v. 23) e, imediatamente, a repeliu. Jesus disse a Pedro não somente que Ele tinha de ir a Jerusalém e morrer ali, mas também que todos os que desejassem tornar-se seguidores dEle tinham de tomar a sua cruz (v. 24). Existia um imperativo tanto em um caso como no outro. Como instrumento de mediação, a cruz de Cristo permanece única; todavia, como um elemento de experiência, ela tem de ser compartilhada por todos os que entram na vida.

O que é um “cristão”? Alguém que possui membresia em uma igreja na terra? Não. Alguém que afirma um credo ortodoxo? Não. Alguém que adota certo modo de conduta? Não. Então, o que é um cristão? É alguém que renunciou o “eu” e recebeu a Cristo Jesus como Senhor (Cl 2.6). O verdadeiro cristão é alguém que tomou sobre si o jugo de Cristo e aprende dEle, que é “manso e humilde de coração” (Mt 11.29). O verdadeiro cristão é alguém que foi chamado à comunhão do Filho de Deus, “Jesus Cristo, nosso Senhor” (1 Co 1.9): comunhão em sua obediência e sofrimento agora; em sua recompensa e glória no futuro eterno. Não existe tal coisa como o pertencer a Cristo e viver para satisfazer o “eu”. Não se engane nesse ponto. “Qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo” (Lc 14.27) — disse o Senhor Jesus. E declarou novamente: “Aquele que [em vez de negar-se a si mesmo] me negar diante dos homens [e não para os homens — é a conduta, o andar que está em foco nestas palavras], também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10.33).

A vida cristã tem início com um ato de auto-renúncia, sendo continuada por automortificação (Rm 8.13). A primeira pergunta de Saulo de Tarso, quando Cristo o deteve, foi esta: “Que farei, Senhor?” (At 22.10.) A vida cristã é comparada a uma corrida, e o atleta é chamado a desembaraçar-se “de todo peso e do pecado que tenazmente… assedia” (Hb 12.1) — ou seja, o pecado que está no amor ao “eu”, o desejo e a resolução de seguir nosso próprio caminho (Is 53.6). O grande e único alvo, objetivo e tarefa colocados diante do cristão é seguir a Cristo: seguir o exemplo que Ele nos deixou (1 Pe 2.21); e Ele não agradou a Si mesmo (Rm 15.3). Existem dificuldades no caminho, obstáculos na jornada, dos quais o principal é o “eu”. Portanto, ele tem de ser “negado”. Este é o primeiro passo em direção a seguir a Cristo.

O que significa negar completamente a si mesmo? Primeiramente, significa o completo repúdio de sua própria bondade: cessar de confiar em quaisquer de nossas obras para recomendar-nos a Deus. Significa uma aceitação irrestrita do veredicto divino de que todos os nossos melhores feitos são “como trapo da imundícia” (Is 64.6). Foi neste ponto que Israel falhou, “porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus” (Rm 10.3). Esta afirmativa deve ser contrastada com a declaração de Paulo: “E ser achado nele, não tendo justiça própria” (Fp 3.9).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar de todo a sua própria sabedoria. Ninguém pode entrar no reino de Deus, se não se tornar como uma “criança” (Mt 18.3). “Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito!” (Is 5.21.) “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1.22). Quando o Espírito Santo aplica o evangelho com poder em uma alma, Ele o faz “para destruir fortalezas, anulando… sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Co 10.4,5). Um lema sábio que todo cristão deve adotar é: “Não te estribes no teu próprio entendimento” (Pv 3.5).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar suas próprias forças: não ter qualquer confiança na carne (Fp 3.3). Significa prostrar o coração à afirmativa de Cristo: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Foi neste ponto que Pedro falhou (Mt 26.33). “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda” (Pv 16.18). Quão necessário é que estejamos sempre atentos! “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (1 Co 10.12). O segredo do vigor espiritual se encontra em reconhecermos nossa fraqueza pessoal (ver Is 40.29; 2 Co 12.9). Sejamos, pois, fortes “na graça que está em Cristo Jesus” (2 Tm 2.1).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar de todo a sua própria vontade. A linguagem de uma pessoa não-salva é: “Não queremos que este reine sobre nós” (Lc 19.14). A atitude de um verdadeiro cristão é: “Para mim, o viver é Cristo” (Fp 1.21) — honrar, agradar e servir a Ele. Renunciar a nossa própria vontade significa dar atenção à exortação de Filipenses 2.5: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”; e isto é definido nos versículos seguintes como auto-renúncia. Renunciar a nossa própria vontade é o reconhecimento prático de que não somos de nós mesmos e de que fomos “comprados por preço” (1 Co 6.20); é dizermos juntamente com Cristo:

“Não seja o que eu quero, e sim o que tu queres” (Mc 14.36).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar as suas próprias concupiscências ou desejos carnais. “O ego de um homem é um pacote de ídolos” (Thomas Manton), e esses ídolos têm de ser repudiados. Os não-crentes amam a si mesmos (2 Tm 3.2 – ARC). Todavia, alguém que foi regenerado pelo Espírito diz, assim como Jó: “Sou indigno… Por isso, me abomino” (40.4; 42.6). A respeito dos não-crentes, a Bíblia afirma: “Todos eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus” (Fp 2.21). Mas, a respeito dos santos de Deus, está escrito: “Eles… mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.11). A graça de Deus está nos educando “para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.12).

Este negar a si mesmo que Cristo exige dos seus seguidores é total. Não há qualquer restrição, quaisquer exceções — “Nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências” (Rm 13.14). Este negar a si mesmo tem de ser contínuo e não ocasional — “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23). Tem de ser espontâneo, não forçado; realizado com alegria e não com relutância — “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens” (Cl 3.23). Oh! quão perversamente tem sido abaixado o padrão que Deus colocou diante de nós! Como este padrão condena a negligência, a satisfação carnal e a vida mundana de muitos que se declaram (inutilmente) “cristãos”!

“Tome a sua cruz.” Isto se refere à cruz não como um objeto de fé, e sim como uma experiência na alma. Os benefícios legais do Calvário são recebidos por meio de crer, quando a culpa do pecado é cancelada, mas as virtudes experimentais da cruz de Cristo são desfrutadas apenas quando somos conformados, de modo prático, “com ele na sua morte” (Fp 3.10). É somente quando aplicamos a cruz, diariamente, ao nosso viver e regulamos nosso comportamento pelos princípios dela, que a cruz se torna eficaz sobre o poder do pecado que habita em nós. Não pode haver ressurreição onde não há morte; não pode haver um andar prático, “em novidade de vida”, enquanto não levamos “no corpo o morrer de Jesus” (2 Co 4.10). A cruz é a insígnia, a evidência do discipulado cristão. É a cruz de Cristo e não o credo dEle que faz a distinção entre um verdadeiro seguidor de Cristo e os religiosos mundanos.

Ora, em o Novo Testamento a “cruz” representa realidades definidas. Primeiramente, a cruz expressa o ódio do mundo. O Filho de Deus não veio para julgar, e sim para salvar; não veio para castigar, e sim para redimir. Ele veio ao mundo “cheio de graça e de verdade”. O Filho de Deus sempre estava à disposição dos outros: ministrando aos necessitados, alimentando os famintos, curando os enfermos, libertando os possessos de espíritos malignos, ressuscitando mortos. Ele era cheio de compaixão — manso como um cordeiro, totalmente sem pecado. O Filho de Deus trouxe consigo boas-novas de grande alegria. Ele buscou os perdidos, pregou aos pobres, mas não desprezou os ricos; e perdoou pecadores. De que modo Cristo foi recebido? Que boas-vindas os homens Lhe ofereceram? Os homens O desprezaram e rejeitaram (Is 53.3). Ele disse: “Odiaram-me sem motivo” (Jo 15.25). Os homens sentiram sede do sangue de Jesus. Nenhuma morte comum lhes satisfaria. Exigiram que Jesus fosse crucificado. Por conseguinte, a cruz foi a manifestação do ódio inveterado do mundo para com o Cristo de Deus.

O mundo não se alterou, assim como o etíope ainda não mudou a sua pele e o leopardo, as suas manchas. O mundo e Cristo ainda estão em antagonismo. Por isso, a Bíblia afirma: “Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). É impossível andarmos com Cristo e gozarmos de comunhão com Ele, enquanto não tivermos nos separado do mundo. Andar com Cristo envolve necessariamente compartilhar de sua humilhação — “Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hb 13.13). Foi isso o que Moisés fez (ver Hb 11.24-26). Quanto mais intimamente eu estiver andando com Cristo, tanto mais incorretamente serei compreendido (1 Jo 3.2), tanto mais serei ridicularizado (Jó 12.4) e odiado pelo mundo (Jo 15.19). Não cometa erro neste ponto: é totalmente impossível ser amigo do mundo e andar com Cristo. Portanto, tomar a cruz significa que eu desprezo voluntariamente a amizade do mundo, recusando conformar-me com ele (Rm 12.2). Que me importa a carranca do mundo, se estou desfrutando do sorriso do Salvador?

Tomar a cruz significa uma vida de sujeição voluntária a Deus. No que concerne à atitude de homens ímpios, a morte de Cristo foi um assassinato. Mas, no que se refere à atitude do próprio Senhor Jesus, a sua morte foi um sacrifício espontâneo, uma oferta de Si mesmo a Deus. Foi também um ato de obediência a Deus. Ele mesmo disse: “Ninguém a tira de mim [a vida dEle]; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la” (Jo 10.18). E por que Ele a entregou espontaneamente? As próximas palavras do Senhor Jesus nos dizem: “Este mandato recebi de meu Pai”. A cruz foi a suprema demonstração da obediência de Cristo. Nisto, Ele é nosso exemplo. Citamos novamente Filipenses 2.5: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”. Nas palavras seguintes, vemos o Amado do Pai assumindo a forma de um servo e “tornando-se obediente até à morte e morte de cruz”.

Ora, a obediência de Cristo tem de ser a obediência do cristão — voluntária, alegre, irrestrita, contínua. Se esta obediência envolve vergonha e sofrimento, menosprezo e perdas, não devemos vacilar; pelo contrário, temos de fazer o nosso “rosto como um seixo” (Is 50.7). A cruz é mais do que um objeto da fé do cristão, é a insígnia do discipulado, o princípio pelo qual a vida do crente deve ser regulada. A cruz significa entrega e dedicação a Deus — “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

A cruz representa sofrimento e sacrifício vicários. Cristo entregou sua própria vida em favor de outros; e os seguidores dEle são chamados a fazerem espontaneamente o mesmo — “Devemos dar nossa vida pelos irmãos” (1 Jo 3.16). Esta é a lógica inevitável do Calvário. Somos chamados a seguir o exemplo de Cristo, à comunhão de seus sofrimentos, a sermos cooperadores em sua obra. Assim como Cristo “a si mesmo se esvaziou” (Fp 2.7), assim também devemos nos esvaziar. Cristo “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20.28); temos de agir da mesma maneira. Assim como Cristo “não se agradou a si mesmo” (Rm 15.3), assim também não devemos agradar a nós mesmos. Como o Senhor Jesus sempre pensou nos outros, assim devemos nos lembrar “dos encarcerados, como se presos com eles; dos que sofrem maus tratos”, como se fôssemos nós mesmos os maltratados (Hb 13.3).

“Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á” (Mt 16.25). Palavras quase idênticas a estas se encontram também em Mateus 10. 39, Marcos 8.35, Lucas 9.24; 17.33, João 12.25. Esta repetição certamente é um argumento em favor da profunda importância de prestarmos atenção e atendermos às palavras de Cristo. Ele morreu para que vivêssemos (Jo 12.24); devemos agir de modo semelhante (Jo 12.25). Assim como Paulo, devemos ser capazes de afirmar: “Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo” (At 20.24). A “vida” de satisfação do “eu” neste mundo é perdida na eternidade. A vida que sacrifica os interesses do “eu” e se rende a Cristo, essa vida será achada novamente e preservada em toda eternidade.

Um jovem que concluíra a universidade e tinha perspectivas brilhantes respondeu à chamada de Cristo para uma vida de serviço para Ele na Índia, entre as classes mais pobres. Seus amigos exclamaram: “Que tragédia! Uma vida desperdiçada!” Sim, foi uma vida “perdida” para este mundo, mas “achada” no mundo por vir.

Um Chamado Para o relacionamento

“Tu me amas?”

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Tema:despertamento para um relacionamento com Jesus.
Texto base: João 21: 15-17
Por Gabriel Felipe M. Rocha

Pedro foi um dos mais queridos apóstolos de Jesus. Sua presença nos evangelhos não é a mesma presença firme e peremptória das cartas que levam o seu nome. Muito pelo contrário, o Pedro dos evangelhos é o homem como qualquer um de nós. Não que o Pedro restaurado das cartas, do fiel apostolado e do heróico martírio não fosse também o mesmo homem no que tange as paixões, limitações e temporalidade, mas, nos evangelhos, mostra-se um Pedro com todo o destaque na figura do discípulo, aprendiz e vacilante. Simão de Betsaida – a quem Jesus chamava de Pedro – era um homem inconstante, errôneo e afoito, embora em seu coração houvesse declaradamente um altar erguido para Deus.

Contudo, na ocasião da prisão de seu Mestre, Pedro cometeu – podemos afirmar a partir da Escritura – um dos mais marcantes desvios de conduta de sua vida, a saber, a negação pública de seu Senhor (Jo 18: 17, 25, 27). Como disse certa vez o reverendo Alceu Cunha, certamente não bastavam os espinhos da coroa, os impropérios da multidão, a bofetada em seu rosto, ser cravado numa cruz com agudos pregos, Cristo ainda teve de enfrentar mais uma dor, a saber, a dor da negação pública por parte de um de seus discípulos mais íntimos.
No entanto, para Pedro, a dor gerou amargura de espírito, sentimento de remorso e um visível arrependimento quando esse se pôs a chorar. Segundo as Escrituras, Pedro chorou amargamente (Mt 26: 75). Cristo, embora conhecedor da situação e do propósito da mesma, certamente sofreu pelo ato de Pedro, mas pôde, dentre as tantas dores, sofrer esse acréscimo de suplício em sua alma e, como cordeiro mudo, entregar seu espírito e o pecado de sua Igreja na cruz. Mas Pedro não tinha o controle de situação alguma. Nem mesmo de sua vida e de suas ações, como prova os evangelhos. Podemos imaginar o quanto Pedro sofreu a dor, o remorso, o arrependimento, a culpa pela negação e tudo isso sem um imediato consolo. \talvez, se não fosse a graça divina na firmeza da eleição, Pedro teria o mesmo destino de Judas Iscariotes. Viu seu chamado perder o brilho. Viu seu ministério perder o sentido. Viu sua comunhão com Cristo como algo irreconciliável. Viu sua vida como uma vida imerecida da glória de um Deus tão Santo, tão Bom e tão misterioso. Tão misterioso que permitiu que o Cristo, Filho do Deus Vivo, fosse à cruz e morresse. Foi-se, por um momento, a esperança.

Mas, certa vez, após algum tempo de sua ressurreição, Jesus surge irreconhecível diante de alguns discípulos (v. 4-8), no entanto, com a mesma autoridade. Estavam todos no barco, pescando pela madrugada. Jesus, então, se revela mostrando-os mais um milagre no meio deles. Estavam todos precisando de um milagre. Estavam todos precisando de algum renovo e consolo. Seus ministérios não prosperariam (talvez nem saíssem do lugar) se não fosse a Palavra de Deus se revelar, a saber, o próprio Cristo em autoridade divina. Uma primeira lição que tiramos disso é: Jesus se importa com os seus escolhidos. Se Ele se entregou numa cruz, levando sobre si pecados que não eram seus, sofrendo a dor que seria nossa e morrendo a morte que seria também nossa, por que Ele simplesmente nos abandonaria? Não escaparemos de sua mão (João10: 17,18). Ainda bem que nada depende de nós no que tange a salvação, pois, se dependesse, o mais provável seria, diante das circunstâncias, deixarmos o Mestre e esquecermo-nos de suas palavras. Nossa escrava vontade só poderia nos levar para longe de Deus e nos fazer voltar pelo caminho, voltar para a origem, para os lugares de onde um dia nós fomos chamados e praticar as velhas coisas (João 21: 3). Embora erremos, falhemos, e sempre pequemos, Deus nos dá a oportunidade do arrependimento e, diante da sua graça e misericórdia, crescemos em novidade de vida, perseverança e firmes rumo à perfeição (Fp 3: 12-16). Embora venha o desânimo, a incerteza, alguma aflição, tristeza e, junto com tudo isso, a desesperança, Cristo surge com um milagre. Surge no tempo dele, surge na oração nossa, surge na perseverança, surge pela promessa e pelos decretos de um Deus soberano, justo e generoso. Jesus se revela! Jesus se revela na situação e no contexto de nossa prova, luta, embaraço ou mesmo desânimo.

Jesus, ali, pergunta aos seus discípulos se eles tinham algo para comer. Logo eles respondem que não. Ele, com sua Palavra, vai direto naquilo que nos incomoda e nos atribula. Ele arranca de nós a resposta e dá a solução. E da solução, vem o avivamento. Assim é a Palavra de Deus na vida do cristão: é a atuação e a revelação (o surgimento) de um Jesus vivo que transforma tudo, começando de nós mesmos.
Um momento interessante dessa passagem é quando João (identificado ali como o “discípulo a quem Jesus amava”) reconhece a Jesus e vai tão logo, em notável entusiasmo, a Pedro e diz: “é o Senhor!”. Imaginemos a cena da seguinte maneira: Pedro certamente podia ter compartilhado com João de sua angústia desde o trágico dia da negação. Algo muito natural, quando a própria Bíblia mostra que João e Pedro tinham certa proximidade, uma vez que os dois aparecem juntos em várias situações extras aos momentos de comunhão, banquetes e viagens (Mc 14: 33; Atos 3: 1). Quando João, então, percebe o Cristo, logo diz a Pedro em tom de esperança renovada: “É o Senhor”! Foi como dizer: “é o Mestre, Pedro! Não tem nada perdido! Ânimo!”. Posso imaginar o sentimento de esperança em Pedro mesclada com o medo de alguma reprovação por parte de seu Senhor, o que seria justo. Entretanto, o que se sabe é que Pedro se lançou ao mar e foi ao encontro de seu Senhor. Certamente esse ato evidencia o desespero de Pedro por Cristo e sua indisfarçável vontade de reconciliar-se tão logo com seu Senhor.

E, diferente de qualquer tipo de reprovação ou mesmo a retribuição da negação, Jesus, recebe a Pedro com a mesma igualdade com que recebe os demais discípulos e os convida a comer.
Uma segunda lição pode-se tirar dessa passagem bíblica: Deus está sempre pronto a perdoar, apagando toda a transgressão (Is 43: 25,26) quando o buscamos de coração contrito. Jesus está sempre pronto a se revelar e nos auxiliar quando damos ouvidos à Sua Palavra (João 21: 6-8). Ele está sempre disposto a nos receber quando vamos ao seu encontro (João 21: 7; João 10: 9).

Mas, a partir do verso 15, Pedro terá um acerto de contas com seu Senhor. Haverá um confronto onde toda a angústia, desesperança, crise, maus pensamentos, desânimo, etc. irão desaparecer para dar lugar ao avivamento que todo o discípulo e servo de Cristo precisam um dia, ou sempre. Uma terceira lição adianta-se: existem momentos e situações em que, em vista de algum panorama ruim, deixamo-nos levar por algum descontentamento, por alguma frieza no serviço cristão, por alguma aparente derrota, por um objetivo que não é realizado, maus pensamentos, etc. Todos nós – que professamos a fé em Cristo – estamos sujeitos à frieza. Podemos lembrar aqui do exemplo dos dois discípulos no caminho de Emaús (Lc 24: 13-35). Deixaram-se guiar pela desesperança das “últimas notícias” (v. 18) e, desanimados e angustiados (v. 17-21), deixaram Jerusalém indo de volta para Emaús. A ordem de Jesus, antes de sua ascensão, era para que ninguém se ausentasse de Jerusalém (Atos 1: 4), pois ali se cumpriria uma importante promessa para a efetivação da missão da Igreja (Atos 1: 4,5; 2: 1-47). Mas a primazia às circunstâncias, o não desenvolvimento da fé, o sentimento de culpa, a ausência de oração, a não vigilância e a desesperança provocam a perda de foco. Isso é algo, infelizmente, comum no seio de tantas igrejas, líderes, ministérios e grupos. Contudo, os decretos de Deus para com nossas vidas (incluindo a salvação) não podem ser minados, pois Cristo nos comprou com total suficiência e jamais escaparemos de suas mãos (Jo 10: 28; Fp 1: 6), mas, existem momentos onde exercer a nossa vocação e fazê-la firme só é possível através de um “impulso no motor” para fazer mover toda a máquina. Então, Cristo surge!

Assim foi também com Pedro. Houve, portanto, o marcante diálogo entre Jesus e Pedro. Foi uma interrogação feita na terceira aparição de Jesus após sua ressurreição (João 21: 1-14).

Jesus faz três perguntas a Pedro. Pela dinâmica do relato, pode-se entender que essas interrogações se deram ali mesmo diante dos outros discípulos. Assim como Pedro negara a Jesus em público, Pedro confessaria seu amor por Cristo em público. Obviamente Jesus não queria dar algum “troco” a Pedro e nem mesmo expor o mesmo diante do colégio apostólico ali reunido. Era mesmo um necessário momento de confronto!
Foi feita a primeira pergunta: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros?” (v. 15). Pedro respondeu: “sim, Senhor, tu sabes que te amo”. É interessante notar que a mesma boca que negou Jesus em público, diante de pessoas escarnecedoras e carentes de Deus, confessava o amor ao mesmo Cristo diante da congregação de santos. Não estamos aqui negando ou duvidando da sinceridade da resposta de Pedro, pois, a Bíblia não nos permite essa afirmação e acreditamos na total sinceridade de Pedro ao dar sua resposta. Mas o texto nos convida a refletir sobre uma quarta lição: a mesma boca pode professar benção e maldição (Tg 3: 10).

Talvez, para alguns, seja difícil confessar seu chamado, sua vocação e sua postura diante do mundo e acaba negando a Cristo, mas – incrivelmente – confessa o seu incoerente amor a Cristo em sua congregação, cantando louvores, levantando as mãos para o alto em sinal de reverência e quebrantamento. Pregam a Cristo com total facilidade e talento, vestem a camisa da igreja, cuja estampa diz: “eu amo Jesus”, mas seu coração está longe dessa afirmação, pois as obras não manifestam e comprovam essa confissão. Esse não foi o caso de Pedro, pelo menos a Bíblia não nos dá margem para tais afirmações através da vida do mesmo. No caso de Pedro, a boca proferiu aquilo que estava latente no coração (Lc 6: 45). Por isso, Pedro respondeu dizendo: “tu sabes”. Isso pôde revelar uma coisa: o que tentar dizer com palavras no desgaste espiritual de uma vida que certa hora afirmou que morreria por Cristo (Mt 26: 33-35) e, no mesmo episódio, o negou três vezes? Mas há uma semelhança entre Pedro e nós mesmos, a saber, a humanidade, o pecado, a passividade em relação a algumas coisas, a vaidade, o orgulho, a descrença, o medo, etc. Embora possa haver isso, o chamado de Cristo às nossas vidas continua de pé. Ele nos chama para o serviço. Pedro, assim que respondeu a primeira pergunta, foi surpreendido com a ordem de Cristo: “apascenta os meus cordeiros” (v. 15). Pedro podia – com algumas razões – ter pensado que seu ministério, seu chamado, sua vocação, sua instrumentalidade estariam esgotados ou perdidos. Mas Jesus sempre dá novas chances. Ele nos chama para servir. Jesus como o Sumo Pastor da Igreja, convoca a Pedro para pastorear as suas ovelhas. Isso é o mesmo que dizer: “vem sofrer as minhas aflições” (2 Tm 4:5; Cl 1: 24). Pedro foi chamado para pastorear, para ser um ministro do Evangelho.
Cada um de nós tem um chamado, um talento ou um dom a ser desenvolvido para o Reino de Deus. Então, vem a quinta lição: Cristo quer restaurar nossa instrumentalidade para o serviço do Reino. Ele está disposto a esquecer o que se passou e avivar nossas vidas para a glória de seu Nome. Seu Espírito Santo – Consolador (parakletos) – faz-nos esquecer de tudo que para trás fica, dando o devido consolo e renovo. E admoesta-nos a prosseguir para o alvo. Como o “parakletos” (advogado, o que anda junto, consolador), Ele coloca o alvo novamente à nossa frente e nos ajuda a mirar e atirar corretamente. Essa analogia é de fundamental relevância aqui, pois, o “errar o alvo” é nada mais e nada menos que o significado do termo “hamartia” que se traduz também por “pecado”. Esse foi o renovo de Pedro e é também o nosso: Cristo faz com que esqueçamos o passado e nos faz mirar para o futuro, para agora, atirar certo, melhor e eficazmente.

Logo, veio a segunda pergunta: “Pedro, amas-me?”, E Pedro novamente respondeu: “sim, Senhor, tu sabes…”.

Semelhante à primeira, a segunda pergunta de Jesus foi transcrita para o grego através do mesmo termo, a saber, “agapao”, que vem de “agan” (muito). Esse termo traduzido para o português como “amas-me” remete, em vista do original, a um amor social e moral. Remete também ao amor por veneração, respeito, obrigação. Sua raiz, “ágape”, trata-se de um amor sublime. É o mesmo amor citado nas Escrituras para definir o amor ao próximo, por exemplo. Vamos para a sexta lição: responder diante da igreja, do mundo, dos amigos e da família esse amor não tem sido tão difícil quando não se tem a disposição para vivê-lo na íntegra. É o tipo de amor que se banalizou na fala, nas pregações, nos cânticos de vários cristãos (e até mesmo não cristãos). Para vestir uma camisa ou pegar um microfone e dizer “eu amo Jesus” não necessita de uma adesão tão séria a essa afirmação. Na verdade, necessitaria sim, mas o simples dizer com os lábios “sim, Senhor, eu te amo” pode não implicar um real compromisso com a confissão. Muitos que dizem “eu te amo” não têm a vida transformada pelo Evangelho. Vivem de fantasias, experimentalismos ou, até mesmo, participam de alguma forma, da graça de Deus.

Mas, suas vidas são infrutíferas. São capazes de responder as duas primeiras perguntas, mas são incapazes de apascentar as ovelhas de Deus, ou, em outras palavras, trabalhar e se envolver – em diferentes modos – no serviço cristão. Suas bocas professam um nobre sentimento e uma declaração comum às pessoas piedosas, mas suas atitudes revelam rebelião contra Deus em várias áreas. Para a conclusão da sexta lição, colocamos o seguinte: deve haver uma coerência entre a nossa confissão e a nossa atitude. O fato de Jesus, nas três interrogações, ter imediatamente convocado ao serviço nada mais é para mostrar que a confissão deve se estreitar com a atitude. Só prova que ama o Senhor quem a Ele serve (João 15: 2-15; Mc 3: 35; Mt 7: 21).
Mas a terceira pergunta causa confronto. Ela mexe no íntimo. Causa reboliço e auto-análise. Leva para o arrependimento e causa a tristeza segundo Deus.

Tendo Pedro respondido já a segunda pergunta com aparente facilidade, Jesus tão logo reafirma a convocação para o serviço. Mas faltava a última pergunta. No verso 17, Jesus faz a terceira interrogação: “Simão, filho de João, tu me amas?” O relato bíblico deixa evidente que a tristeza surgiu diante dessa terceira pergunta. Mas, por quê?

Diferente das duas primeiras perguntas, Jesus usou o termo, que transcrito para o grego, foi “phileo”, e que traduzido para o nosso português, ficou, como nas duas perguntas, “me amas”. Porém, o amor “phíleo” tem outra conotação. “Phíleo” significa “ser amigo”, “gostar de”, “ter prazer em”, “sentir afeto”. Pode expressar a deliberada concordância da vontade com aquilo que se conhece e deseja. A tradução mais popular para “phíleo” é “amigo”, ou, “amor de amigo”. Também pode conotar “relacionamento” e “intimidade”, como a intimidade e o relacionamento entre um casal.

Essa expressão – na terceira pergunta – deixou Pedro triste, pois, era exatamente o que faltava em sua vida: correspondência de sua vontade com a vontade de Deus. Havia em Pedro o amor por Jesus Cristo, mas era um amor ainda estático, sem crescimento, influenciável, volúvel e insuficiente para assumir em sua vida o ministério. Diante do relato da terceira pergunta de Jesus a Pedro, deixamos a sétima e última lição: a escrava e corrupta vontade apenas levaram a Pedro ao pecado e à angústia, ao desânimo e à vergonha, mas, a vontade de Deus se manifestou na revelação de Jesus Cristo, tocando em seu espírito, comunicando-o a sua vocação, fazendo-o desejar servir a Deus com mais intensidade, amor, devoção, amizade, relacionamento, intimidade, etc. Por isso, confiantemente, embora com tristeza, Pedro respondeu à terceira interrogação: “Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo” (v. 17). “Tu sabes” havia sido ainda a única argumentação possível a Pedro diante do confronto. Dizer ao Senhor “tu sabes” é um convite que podemos fazer ao nosso Deus em oração para sondar nosso coração (Sl 7: 9; Sl 17: 3; Sl 139: 1). É o mesmo que dizer a Deus que não podemos nada por nós mesmos, mas, Ele sabe que há um pequeno fogo aceso em nosso coração e basta só uma ação e palavra Sua para fazer arder o nosso coração (Lc 24: 32).

Ainda nessa sétima e última lição, o amor com que Cristo nos convida a amá-lo é o amor que implica não só as palavras e declarações. Mas, sobretudo, o amor que implica relacionamento, intimidade, serviço, atitudes, piedade, compromisso, afeto, zelo, reverência, fidelidade, obediência, resignação, santificação e perseverança. Quando a “terceira pergunta” é feita a muitos, a tristeza toma conta e muitos não prosperam nesse amor (Mt 16: 19-22). Por outro lado, alguns repensam se realmente amam ao Senhor e perseveram.
Para quem não é capaz de responder com total certeza a essa terceira pergunta, Jesus surge! Há uma chama acesa, pois o próprio Senhor nos batizou com o Seu Santo Espírito para que possamos ser efetivamente seus. As provações ministeriais, pessoais e familiares sempre virão. O desânimo e a desesperança poderão bater aas portas. Contudo, Cristo está ao nosso lado como esteve com os discípulos no barco. Ele nos ensina a pescar. Ele – através da Palavra – se revela com autoridade e muda a situação. Ele responde nossa oração e renova a alma, removendo a tristeza. Ele, portanto, nos faz capazes de cumprir aquilo que Ele mesmo nos chamou para fazer.

Para quem já pôde responder e para quem ainda vai responder á pergunta de Jesus, a convocação está posta: “apascenta as minhas ovelhas!”. Em outras palavras, “participe de minhas aflições e da minha glória”. “Se relacione comigo”. “Seja meu amigo”. “Ande comigo sempre”. “Não perca o foco em mim”.

“Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo o quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (João 15: 15);

“Mas, como está escrito: nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1 Co 2: 9).

Com orações,

Gabriel Felipe M. Rocha

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Gabriel F. M. Rocha é professor, graduado em História (licenciatura e bacharelado); pós graduado em Sociologia (lato sensu) e mestrando em Filosofia (stricto sensu) nas áreas de Ética e Antropologia.

Referências:
Bíblia de Estudos de Genebra (Edição Revista e Ampliada/ Almeida revista e atualizada);

Bíblia de Estudos Palavras-chave/ Hebraico e Grego (Almeida revista e corrigida).

Pequena análise em Lucas 9: 10-17

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Logo após Jesus ter aplicado um “trabalho de campo” aos seus discípulos, enviando-os para anunciar o Evangelho, através da pregação e da cura de enfermidades (Lucas 9: 1-6), aconteceu a primeira multiplicação dos pães e peixes (Lc 9: 10-17).

O interessante nessa multiplicação foi o fato de a mesma ter como objetivo não só a simples alimentação da multidão ou a mera apresentação de poderes por Jesus Cristo. Não foi a experiência do milagre a única proposta da multiplicação, mas sim a prática do discipulado. Aliás, experiências que não geram ação, são experimentalismos vazios. Evangelho é ação!

O Evangelho torna-se efetivo quando o próximo é reconhecido através dos meus atos. Ser discípulo é aprender a agir conforme quer o Mestre, na total dependência e obediência ao Mestre. Por isso mesmo, no ato de comissionar seus discípulos à tarefa de sair e pregar o Evangelho, Jesus ensinou que:

A) É Ele quem convoca (v.1), sendo Deus quem nos chama;
B) É Ele quem nos capacita para o trabalho, concedendo-nos poder, talentos e dons (v.1);
C) É Ele quem nos envia e dá total condição para o cumprimento do serviço (v.2, 3);
D) É nele que devemos colocar nossa confiança e não em nossos próprios recursos (v.3);
E) E, por fim, nós devemos fazer tudo conforme suas ordens e sua Palavra (v. 4-6).

Tendo passado pelo teste prático que implicava sair, ir de encontro, pregar e ter contato com o próximo, uma nova lição viria, a saber, a primeira multiplicação de pães e peixes.

Creio que dois versículos vão demonstrar com mais veemência o que quero dizer nesta análise. Esses são:

“[…] Dai-lhes vós mesmos de comer” (v.13) e, “[…] abençoou e partiu e deu aos seus discípulos para que distribuíssem entre o povo” (v.16).

Eles viram o milagre. Mas, eles puderam participar do milagre. Aí residia o ensinamento. Participar do milagre do Evangelho implica o serviço que enxerga e reconhece o próximo, o outro, o “nós” e não o “eu”. Sair e pregar é fundamental e é parte indiscutível da missão, mas o contato pode definir muita coisa positivamente.

Jesus sabia da condição de seus doze discípulos, assim como sabia também que eles não tinham alimentos suficientes para satisfazer uma multidão. Mas, quando Jesus pede para que eles mesmos dessem ao povo algo para comer, queria testá-los e chamar a atenção dos mesmos (e também a nossa) para a seguinte reflexão:

a) Não temos recurso algum para alimentar todo esse povo. Mas, temos a Palavra. É a partir da Palavra que agimos!

b) Nada podemos fazer se Deus não for conosco e operar um milagre;

c) O alimento que pode saciar o povo, não vem de nós, mas vem de Deus e sua Palavra Santa;

d) Contudo, podemos participar desse milagre, em obediência, distribuindo ao povo aquilo que vem de Deus. Esse é o nosso trabalho e a nossa missão! Fazer a vontade de Cristo é a nossa missão; Eis aí o partir do pão como responsabilidade da Igreja! Fazer a vontade de Cristo revela ao meu próximo quem é Cristo que pregamos! Portanto, palavras com ações são transformadoras.

e) De nossos poucos recursos, Deus ampliou e multiplicou, dando-nos condição de fazer aquilo que Ele pediu e nos comissionou. Portanto, é a partir de Deus que o recurso e a condição para a realização da cada tarefa é dada. Mas, é a partir de nós mesmos que a missão será cumprida.

f) Nossa missão deve ser realizada em meio ao povo, em meio à multidão e não distante deles. Cabe a nós distribuir o alimento que vem de Deus e não deixá-los famintos. É o constante repartir do pão. É a prática da comunhão. Só conhecemos a necessidade do nosso próximo se estamos, de alguma forma, perto dele. Devemos conhecer o contexto de cada um, a necessidade de cada um, o valor de cada um.. Só assim podemos orar com mais efetividade, só assim podemos pregar com mais eficiência… A Palavra de Deus, a mensagem do Evangelho é eficiente em todos os sentidos. Contudo, ela vai brotar melhor e dar mais frutos no campo mais bem preparado. Esse campo bem preparado é o campo onde o cristão genuíno trabalha e se faz presente, sempre perto e nunca longe.

Vale lembrar que, mais tarde, Jesus pergunta:

“Quem diz a multidão que eu sou?” (9:18).

Os discípulos, portanto, passam ao Mestre o relatório bem detalhado sobre a crença, sobre a expectativa e sobre o pensamento da multidão. “E, respondendo eles, disseram: João o Batista; outros, Elias, e outros que um dos antigos profetas ressuscitou” (9:19).

Só podemos conhecer a necessidade, expectativa, crença, e a realidade geral da multidão se estivermos entre a multidão. Como? Em ajuda mútua, evangelismo, ação social, exemplo pessoal, adesão séria, etc. Muitos exemplos!

Ser discípulo é seguir o Mestre em tudo! Ser bom discípulo não implica necessariamente ter os cestos cheios o suficiente para alimentar a todos, mas sim ter o cesto na mão e a real disposição para sair distribuindo o alimento. Ser discípulo é viver do milagre e, principalmente, mostrar o milagre através do exemplo, do afeto, do contato, do relacionamento e da boa influência. É salgar a carne, penetrando em todo lugar. É ser luz num mundo de trevas. É sair, ir de encontro onde o necessitado está. É estender a mão. É conhecer o contexto do outro e olhar para o mesmo com amor, tendo na consciência o amor de Cristo. Jesus Cristo é suficiente e eficiente para salvar e transformar meu próximo e Ele pode fazer isso através de minha própria vida.

Se sou salvo, logo me compadeço do meu próximo. Se compadeço, logo vou de encontro e o sirvo…

Que Deus nos capacite para o bom trabalho!
Gabriel Felipe M. Rocha (30/05/2015)

Ser discípulo: lições e implicações (Parte 1)

(Por Gabriel Felipe M. Rocha)

 

[…] Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus (Lucas 9: 62)

 

No capítulo 9 (versos 57- 62) do Evangelho segundo Lucas, há um importante ensinamento para quem pretende ser discípulo de Jesus. Daremos ênfase, portanto, ao verso 62. No entanto, caberá aqui uma breve abordagem do capítulo 9.

Interessante que, em todo o capítulo 9, há uma bela sequência de ensinamentos que remetem à prática do discipulado. Creio que o último versículo do capítulo 9 (v. 62), onde Cristo chama a atenção para o exemplo do arado e da firme adesão e decisão em relação ao serviço do Evangelho, é um relevante fechamento de toda essa sequência de ensinamentos.

Nos primeiros versículos, onde houve a convocação dos doze para uma missão específica, Jesus deixa alguns ensinamentos práticos para seus discípulos, incluindo, os doze discípulos principais.

Ocorreu, então, um trabalho de campo (v. 1-6), onde Jesus ensinou que:

  1. É Ele quem convoca (v.1), sendo Deus quem nos chama;
  2. É Ele quem nos capacita para o trabalho, concedendo-nos poder, talentos e dons (v.1);
  3. É Ele quem nos envia e dá total condição para o cumprimento do serviço (v.2, 3);
  4. É nele que devemos colocar nossa confiança e não em nossos próprios recursos (v.3);
  5. E, por fim, nós devemos fazer tudo conforme suas ordens e sua Palavra (v. 4-6).

Houve também a multiplicação dos pães e peixes (v. 10-17). Foi essa a primeira multiplicação. O interessante nessa multiplicação é o fato de, a mesma ter como objetivo não só a simples alimentação da multidão ou a mera apresentação de poderes por Jesus Cristo. Não foi a experiência do milagre a única proposta da multiplicação, mas sim a prática do discipulado. Aliás, experiências que não geram ação, são experimentalismos vazios. Evangelho é ação! Ser discípulo é aprender e agir conforme quer o Mestre. Creio que dois versículos demonstram com mais veemência o que quero dizer. Esses são: “[…] Dai-lhes vós mesmos de comer” (v.13) e, “[…] abençoou e partiu e deu aos seus discípulos para que distribuíssem entre o povo” (v.16). Eles viram o milagre. Mas, eles puderam participar do milagre. Aí residia o ensinamento.

Primeiro: Jesus sabia da condição de seus doze discípulos, assim como sabia que eles não tinham alimentos suficientes para alimentar uma multidão. Mas, quando Jesus pede para que eles mesmos dessem ao povo algo para comer, queria testá-los e chamar a atenção dos mesmos (e também nossa) para a seguinte reflexão:

a) Não temos recurso algum para alimentar todo esse povo;

b) Nada podemos fazer se Deus não for conosco e operar um milagre;

c) O alimento que pode saciar o povo, não vem de nós, mas vem de Deus;

d) Contudo, podemos participar desse milagre, em obediência, distribuindo ao povo aquilo que vem de Deus. Esse é o nosso trabalho e a nossa missão! Fazer a vontade de Cristo é a nossa missão;

e) De nossos poucos recursos, Deus ampliou e multiplicou, dando-nos condição de fazer aquilo que Ele pediu e nos comissionou. Portanto, é a partir de nós mesmos que a missão será cumprida, sendo de Deus a provisão.

f) Nossa missão deve ser realizada em meio ao povo, em meio à multidão e não distante deles. Cabe a nós distribuir o alimento que vem de Deus e não deixá-los famintos.

Portanto, meus queridos leitores, mais um ensinamento, relacionado à prática do discipulado se apresenta a nós em total relevância.

Outro fato pertinente ao aprendizado dos discípulos ocorre logo após o milagre da multiplicação, a saber: a confissão de Pedro (v. 18 – 20).

Os discípulos estavam já envolvidos com o ministério de Jesus. Já haviam visto muitos milagres e ouvido muitos sermões e parábolas. Mas não tinham, porém, uma visão completa de quem era Jesus, ou seja, desconheciam a profundidade e o caráter profético do ministério de Jesus Cristo sobre a terra; eles desconheciam a divindade daquele Jesus. Para muitos deles, Jesus era o homem, o profeta e aquele que operava muitos milagres.  Alguns até o trataram como o Messias (Jo 1: 41), mas ainda desconheciam a grandeza de propósito da sua vinda. Tanto que, na resposta que Pedro deu sobre quem é o Cristo (v.20), tendo ele recebido do próprio Deus tal revelação (Mt 16: 17), Jesus destacou a bem-aventurança de Pedro, dando a entender com clareza que, em detrimento dos outros discípulos, Pedro alcançara algo espiritualmente profundo. Algo que os colegas ainda não haviam recebido, tampouco entendido.  Uma lição que temos a partir disso é a seguinte:

  • Muitos estão nas igrejas, até fazem parte de algum ministério em suas igrejas locais, mas ainda não conheceram com profundidade o Cristo a fim de fazerem a sua vontade. Em seus corações não houve ainda a real conversão e o efetivo conhecimento de Jesus como o Filho de Deus, o Cristo que é Senhor e que pode salvar;
  • O discípulo é aquele que conhece o seu Senhor e que recebeu em seu coração a revelação de Jesus Cristo pela pregação da Palavra e pela fé;
  • Não pode haver um trabalho evangélico eficaz se aquele que se diz servo não conhecer o seu Senhor e não ser participante dos mistérios de seu Senhor;
  • Na ocasião da revelação dada a Pedro sobre quem era o Cristo, o mistério ainda estava oculto aos santos, mas foi revelado após a ressurreição e pentecostes. (Jo 21: 1; At 1: 6-8; Cl 1: 26; Cl 2: 2,3). Além do mais, a Igreja tem hoje a Escritura que é a revelação especial dos mistérios de Deus, sendo ela a revelação de Jesus Cristo (Jo 5: 39; At 17: 11; 2 Tm 3: 16).

Tendo, portanto, conhecido o seu Senhor, o bom discípulo está apto para servi-lo.

Continua na próxima postagem.