Pensai nas coisas que são de cima!

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Tema: A mente firme em Cristo para uma vida abundante, frutífera e agradável a Deus.

Texto base: Colossenses 3: 1-10;

Textos auxiliares: Cl 1: 10-14; 1: 21-23; 2: 6-12; 6: 18/ Fp 4: 8; Gabriel F. M. Rocha/ março de 2015.

Introdução:

Nosso tempo assiste a um gradativo esmaecer de alguns valores morais que antes se firmaram em vista de uma verdade absoluta e de um sentido. Junto do esmaecer dos bons paradigmas que regiam a forma de vida e conduta dos indivíduos em tempos atrás, percebe-se cada vez mais acentuada a fragmentação, também, dos valores cristãos em muitas sociedades. Essa fragmentação faz com que o pecado pareça cada vez mais “normal” e “natural” em nossa sociedade. De certo, a humanidade está corrompida desde o pecado de nossos pais no Édem e, a partir de então, afastada está de Deus (Rm 3: 23). Sendo assim, não se podia mesmo esperar do mundo uma postura que agrade a Deus. Impossível! Há uma humanidade escrava do pecado e totalmente inclinada para o mal.

Contudo, muitos valores morais um dia foram construídos em parcial conformidade com a vontade de Deus, considerando a existência de um Ser Supremo e Absoluto. Um exemplo específico disso é o fato de haver, embora criticado hoje por alguns, um modelo de casamento e família em total correspondência com os valores cristãos. Podemos citar outros valores cristãos que regem nossa sociedade e são defendidos até por aqueles que se dizem ateus, mas que reconhecem a eficácia de tais valores. falo dos famosos 10 Mandamentos. Poderíamos citar aqui vários outros exemplos, mas não vem ao caso agora.

A questão é: o mundo caminha para a sua condenação e o homem sem Deus, se inclina cada vez mais para o mal (1Jo: 19) . Se as verdades concernentes a Deus e a boa conduta em conformidade com o mesmo Deus vão sendo esquecidas, várias “verdades” e formas de vida virão como paradigmas nessa complexa esfera cultural de nosso tempo e esses modelos de crença, conduta, ou o próprio niilismo que se instaura, vão se esforçar ao máximo para entrar nas igrejas, nos lares e na mente dos cristãos. Essa fragmentação – ou mesmo o abandono – dos valores propriamente cristãos que atravessam os séculos (desde o advento da modernidade) se dá, principalmente, em sociedades que antes o Evangelho foi pregado com notável poder e de forma triunfante.

Relevantes homens foram usados por Deus. Homens que negaram suas vidas e aceitaram o martírio, provando por seus testemunhos pessoais e em praças públicas o que de fato é carregar a cruz de Cristo e morrer nela. Na modernidade, através da confiança depositada na razão, na racionalidade instrumental e na ciência como capazes de conferir sentido, dar respostas e dirigir a vida humana, o mundo, enfim, declarou sua inimizade com Deus, abandonando qualquer princípio que viesse sugerir uma fé e a existência de um Deus Verdadeiro, Absoluto e Bom. E agora, no seio da pós-modernidade, vemos esse alvoroço todo. Há uma crise de sentido. Muitos assumiram a postura de inimigos de Deus, sendo totalmente afastados da luz e amantes das trevas. Homens sem rumo e sem sensibilidade em relação aos seus tantos pecados. O individualismo tomou conta de nossas sociedades e a miséria de uma religião sem o amor ao próximo se espalhou entre os “cristãos pós-modernos”.

O consumismo vem ditar quem nós somos e quem devemos nos tornar; o homem busca sua auto-realização na esfera do material, do financeiro, mergulhado num hedonismo sem limites. O indivíduo pós-moderno se vê arrastado pela incessante busca por satisfação de suas carências e necessidades, pois é essa imagem de humanidade que se constrói em nosso tempo, a saber: a imagem do indivíduo que precisa se preencher (preencher o seu vazio existencial), adquirir, possuir, assumindo, então, cada vez mais sua postura como ser mundano, totalmente imanentizado e afastado da Verdade. A verdade torna-se relativa, sendo a verdade da ciência, uma verdade mutável. O verdadeiro de hoje não é mais verdadeiro amanhã. Isso, de acordo com os avanços prodigiosos da ciência. Avanços que têm, porém, esquecido a vida propriamente humana. Avanços, possibilidades e formatações que enxergam o homem como animal estruturalmente natural, sem espírito e sem qualquer valor e qualidade que venha sugerir uma dignidade essencial para além do corpo, das necessidades físicas e do utilitarismo.

Ou seja (resumindo): estamos mergulhados num pluralismo sem precedentes! Vários conceitos sobre várias coisas. Muita fragmentação de bons valores. Formações de novos conceitos… O mundo está perdido e se perdendo… Mas, e a Igreja? Para quem ela está olhando? A Igreja tem olhado para o alto! Tem buscado as coisas que são de cima! E você?

Está aí o mundo. Não é, portanto, o nosso mundo (1 Jo 4: 4, 5; 5: 4, 5)! Se Jesus venceu o mundo, nós podemos vencer o mundanismo se nossa mente for como a de Cristo. Sim! Para nós que professamos a fé em Cristo, esse não é mais nosso mundo. Estamos nele. Participamos dele. Temos uma missão nele. Ele é o nosso campo de atuação para o bom serviço do Evangelho. Mas não pertencemos e não devemos jamais tomar a forma dele. Como Paulo mesmo disse em sua carta aos Romanos, “não vos conformeis com esse século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12: 2). Nossa mente deve estar firmada nas coisas do alto, pois foi renovada em Cristo para a glória de Deus.

Portanto, devemos andar conforme Deus, a fim de agradá-lo e não conforme o mundo, sendo o mundo feito inimigo de Deus. Somos livres em Cristo. Livres para vivermos conforme Deus. Mas, em detrimento disso, a proposta pós-moderna tem invadido muitas igrejas. Pode até ser aceita (como algo imbatível) a corrupção do mundo, uma vez que a Bíblia não nos engana sobre o destino do mundo e sobre o pecado. Mas o que causa espanto não é a corrupção que há no mundo, mas sim a corrupção que entra nas igrejas ditas cristãs e nas vidas dos que se dizem crentes. Muitos falsos líderes tem se levantado com idéias, supostas novas revelações e ensinando doutrinas de demônio e permitindo liberalmente a entrada de muitos pecados dentro de suas congregações (1 Jo 2: 18,19). A imagem de Cristo tem se desbotado nos corações de muitos que se um dia professaram a fé em Cristo. Muitos têm caído na graça. Alguns caíram totalmente da graça, pois dela nunca fizeram e nem farão parte, mas muitos crentes genuínos deixaram-se envolver com os ditames diabólicos desse mundo e aceitaram o pecado dentro de seus corações e lares. Os argumentos segundo o mundo estão ficando cada vez mais fortes e convincentes para os que não se firmaram totalmente em Cristo.

Falei das sociedades que antes levantaram com fervor a bandeira do Evangelho. Pois é! Muitas perderam o foco. Muitas deixaram as vãs sutilezas e filosofias entrarem deturpando a mensagem e a imagem de nosso Senhor. Muitas abandonaram a fé. Muitas igrejas têm fechado suas portas na Europa. Não sei se isso mexe com você, mas me entristeço inconformadamente com essa situação. Nos EUA mesmo, a situação também se torna crítica e digna de nota. Muitas igrejas (de bons nomes, inclusive), perderam completamente o norte e estão deixando entrar tão livremente o pecado, tomando assim, a forma desse mundo. Deixando-se levar pelo argumento demoníaco do casamento homo afetivo, pela ausência de luta em favor dos casamentos que se destroem, pela naturalização do divórcio, pela aceitação do aborto, pela juventude que se afasta de Deus, pela falta de doutrina bíblica, pelos ventos doutrinários que mancham a fé, etc. Aqui no Brasil, por sua vez, a ortodoxia muitas vezes não caminha lado a lado com a ortopraxia em alguns grupos de memoráveis nomes e, quando a ortopraxia se vê de modo dinâmico e atuante em algumas igrejas de rótulo pentecostal, a Sã Doutrina perde lugar para o experimentalismo estranho e para as tantas heresias que emergem dentre os neopentecostais.

Ah! São muitas coisas mesmo! Se a mente não estiver em Cristo, tão facilmente se perde o rumo. Muitas novelas, séries, filmes e outras mídias tentam ensinar e ditar (quase autoritariamente) o pecado como forma de vida e tem conseguido influenciar nosso povo com o argumento de que somos antiquados, que nossa fé é fundamentalista, que estamos ultrapassados pelas razões científicas e filosóficas, etc. Os jovens têm em mãos algumas ferramentas que os mantém informados de toda e qualquer novidade e muitos filhos de crentes se perdem nesse viés. A mídia é boa, a internet é boa, tudo pode ser bom se a mente estiver firme em Cristo e a vida estiver depositada em Deus. Também, muitas “novas didáticas” apresentam seus novos modelos de família; a relativização da verdade e a relativização do pecado; desconhecimento e plena ignorância bíblica entre os cristãos; ausência notável de uma vida piedosa entre os que professam a Cristo, etc. Tudo isso vai colocando muitos crentes no cativeiro e na vida cristã estática e infrutífera. Isso é sério! Enquanto os cristãos no Oriente Médio e em alguns lugares na África estão sendo perseguidos, mortos e vendo suas famílias desfeitas pela desgraça denominada de “Estado Islâmico”, muitos – aqui no Ocidente – estão passivamente cedendo e permitindo o mal criar suas raízes, vivendo um cristianismo desfigurado. Estão errando o alvo. Estão perdendo o foco. Estão olhando para baixo e não para o alto. Não sabem mais, nesse pluralismo todo, para quem olhar.

Entrando em Colossenses (breve abordagem dos capítulos 1 e 2):
O apóstolo Paulo, ao escrever sua carta à igreja de Colosso, quis exatamente advertir os crentes quanto aos ensinos falsos e mundanos que estavam entrando na igreja, suplantando a fé e também a centralidade e supremacia de Jesus Cristo na criação, na revelação, na redenção e na igreja. O apóstolo também quis ressaltar a verdadeira natureza da nova vida em Cristo e suas exigências para o crente. Embora se trate de contextos diferentes, o contexto do ministério paulino, assim como todo o contexto do primeiro século da era cristã foi marcado por uma chuva de heresias, legalismo, religiosidade e vãs filosofias que surgiam no meio do povo de Deus. A diferença para nossos dias, é que as mesmas coisas, os mesmos pecados se tornaram ainda maiores e afetaram todas as áreas da vida humana num tempo diversificado e mais complexo.

O apóstolo João mesmo, em sua primeira carta, faz a advertência: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. […] e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus […]” (1 Jo 4: 1 e 3). Segundo Paulo, eram muitas “filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (2: 8) que estavam ameaçando o real entendimento da igreja sobre a divindade de nosso Senhor e também afetando a postura em relação à Verdade. Junto dos maus ensinos, dos maus exemplos, das filosofias e ventos de doutrina, estava o legalismo judaizante que, assim como fora também entre os gálatas e outras comunidades, disputava entre os crentes a primazia da fé em detrimento do Evangelho da graça. O mundo é inimigo de Cristo e da igreja (Jo 15: 18,19). Sendo assim, os ditames do mundo sempre vão ter por intento destruir a imagem divina, santa e verdadeira de Cristo por meio do pluralismo de conceitos e pela relativização da fé e da vida cristã. Eis a astúcia-mor do adversário de nossas almas: fazer com que Cristo não seja contemplado por nossos olhos. Por isso, Cristo – em sua oração sacerdotal – foi tão enfático quando disse:

“É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste […]. Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo […]” (Jo 17: 9 e 11).

No mesmo sentido de exortação e desejo de ver guardadas as ovelhas de Cristo, Paulo faz sua admoestação à igreja. No capítulo 1(versículo 10 ao versículo 14), ele, tão logo, chama a atenção para que a igreja assuma uma vida digna diante do Senhor, procurando agradar a Deus em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus (v.10). Essa exortação para que venhamos assumir essas qualidades se dá com base na seguinte verdade: Deus já “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (1: 13). Somos, portanto, reconciliados com Deus em Cristo pelo sangue da cruz (1: 20), feitos inculpáveis, santos e irrepreensíveis. Por isso, devemos tão logo assumir tais qualidades, pois o poder do sacrifício de Jesus Cristo nos garante eficazmente essa transformação pessoal pelo auxílio e obra do Espírito Santo. Outra verdade que pode ser extraída desse contexto é a seguinte: se sua mente não está firme em Cristo e você ainda não provou da transformação pessoal em Cristo, amando o pecado, agradando a si próprio e plenamente conformado com esse mundo, a notícia para você é esta: você não tem a mente em Cristo e não pode pensar sobre as coisas do alto, pois você não se converteu ainda de seus pecados e não faz parte do rebanho de Cristo, a não ser que se arrependa e almeje viver para Deus, conforme Deus, firme em Cristo e transformado pelo Espírito Santo para uma vida santa e justa. Quanto a nós, devemos, então, permanecer na fé, alicerçados e firmes, não nos deixando afastar da esperança do Evangelho que ouvimos e aprendemos (1: 22, 23). Dessa forma, amados irmãos, não podemos – de forma alguma aceitar o mal, fazer vista grossa ao pecado (seja nosso, seja do irmão) e deixar com que as vãs filosofias e heresias adentrem nossas congregações e os maus costumes, as nossas casas.

Em Romanos 6: 12., Paulo faz a seguinte admoestação: “Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniqüidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça. porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estão debaixo da lei, mas da graça” (Rm 6: 12- 14). Nos versículos posteriores, Paulo adverte ainda sobre a postura cristã em conformidade com a vontade de Deus e deixa a seguinte afirmação: Deus – por sua graça – foi quem nos fez idôneos, afim que sejamos livres do “império das trevas” (v. 13), pois temos a redenção e a remissão dos pecados pelo sangue de Jesus. Ou seja: somos livres em Cristo para andar conforme quer Cristo. A princípio parece não haver liberdade nisso, mas no decorrer deste texto, veremos que sim. Há liberdade em Cristo e somos livres quando nossa vida é mortificada na carne e ressurreta em espírito. Portanto, no capítulo 1 e no capítulo 2 (mais especificamente nos versos 6 ao 12 e no verso 18 do segundo capítulo), Paulo deixa uma série de afirmações quanto a nossa nova natureza em Cristo, sendo nós agora, edificados nele (2: 7), confirmados na fé, abundantes e instruídos na fé e na ação de graças (2: 7).

Assim, devemos: estar aperfeiçoados nele, circuncidados nele, sepultados com ele no batismo e ressurretos nele pela fé. Assumindo, assim, a nossa liberdade com que Cristo nos libertou e vivendo conforme a nossa nova natureza em Deus, ninguém poderá nos dominar a seu arbítrio (ou bel-prazer) em pretextos de humildade. Assumindo a nossa posição como remidos por Cristo, cheios do Espírito Santo e amigos de Deus, devemos – portanto – provar a nossa fé, evidenciando diante das plurais filosofias e formas de vida ditadas pelo mundo, quem tem, de fato, a primazia de nosso ser. Como evidenciar e provar a nossa fé a fim de agradar somente a Cristo? Paulo responde no capítulo 3, no versículo 1 ao 17. Paulo inicia o terceiro capítulo com uma conjunção coordenativa conclusiva: “Portanto…”. E dá uma seqüência conclusiva ao que tratou nos dois primeiros capítulos de sua carta. O apóstolo diz:

“Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto…”.

Pois bem, Paulo faz, nessas palavras, um convite para a análise interior, para uma sondagem com o intuito de provarmos – em vista de nossas ações e forma de vida – se realmente estamos ressuscitados com Cristo. Evidenciamos mesmo o caráter de Cristo? É extremamente válida tal análise. E se realmente estamos firmados em Cristo, logo pensamos como Cristo. Se estivermos em Cristo, somos parte do Corpo de nosso Senhor. Se nós somos, então, parte do Corpo de Cristo, sendo Ele o cabeça desse corpo, nossas atitudes devem estar em plena conformidade com os pensamentos de Deus. Por isso, Paulo completa: “…se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto”. Estar ressuscitado com Cristo e buscar as coisas do alto trazem uma série de aprendizados que aqui menciono:

1) O ressuscitado com Cristo é aquele que já morreu para o mundo. O mundo e o pecado não o escravizam mais. É livre e vive uma vida para a glória de seu Senhor, em fidelidade à Palavra de Deus, em santidade, evidenciando uma vida frutificada pelo Espírito Santo e verdadeiramente piedosa;

2) Buscar as coisas do alto remete à busca, ao interesse e à total inclinação para aquilo que é do Reino. É aquele que vive o Reino e para o Reino de Deus. Buscar aquilo que é do alto é se interessar e se preocupar com os assuntos de Deus.

Como? Se envolvendo com a obra de Deus; se envolvendo com o evangelismo, com a pregação da Palavra. O que busca as coisas que são do alto, busca viver segundo a vontade de Deus, procurando saber qual é a perfeita e agradável vontade do Senhor. Ele lê a Bíblia, ele ora incessantemente, ele clama por sabedoria, ele roga a Deus para ser usado com poder no Evangelho, ele se preocupa em apresentar um bom testemunho na sociedade na qual se insere, ele se preocupa com as questões que envolvem sua congregação, ele busca melhorias para os irmãos, ele desenvolve seus talentos e dons, ele edifica, ele trabalha, ele oferta, etc. Sua mente está voltada para a glória de Deus e sua vida familiar, profissional, financeira, etc. reflete o seu movimento para Deus e sua firme adesão; 3) O que está ressuscitado com Cristo e busca as coisas que são do alto, está em plena sintonia com a mente de Cristo. Se ele está em plena sintonia com as coisas de Cristo, tem os mesmos interesses de Deus, a saber, o resgate de muitas almas. Quem tem a mente firme em Deus e busca as coisas do alto, conseqüentemente não suporta uma vida estática e vai ao encontro do perdido e do desamparado para evangelizá-lo, pois é o que Jesus faz. Portanto, se somos ressuscitados com Cristo, nossa vida frutifica. E essa é a prova de que somos ressurretos para Deus e firmados em Cristo: quando buscamos as coisas de do alto e mantemos nossa mente voltada para as coisas do reino. Eis o exemplo em João 15: 2-4 e 5:

“Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado;permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. […] Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto[…]”.

No versículo 2, a exortação continua assim: “pensai nas coisas que são de cima”. O termo usado no original, traduzido como “pensai”, é “phroneo” e pode ser traduzido também por: “exercitar a mente”, “alimentar a mente” e mesmo “interessar-se por algo”. E a advertência que nos cabe é exatamente essa: precisamos exercitar a nossa mente para desenvolvermos melhor nossos pensamentos sobre Deus a fim de melhorarmos a nossa postura cristã. Há uma profunda ligação entre o nosso pensamento e a nossa atitude. Nossas atitudes nada mais são o reflexo daquilo que pensamos. Se não temos nenhum conhecimento de Deus, não temos nenhum pensamento em conformidade com a vontade de Deus, o que poderemos esperar de nossas atitudes? Como exercitar a mente para pensar nas coisas que são de cima e buscar as coisas que são do alto? Lendo a Escritura! Isso! Lendo, estudando e examinando a Bíblia! Ela fala de Jesus. Ela é a revelação de Jesus Cristo, o Verbo de Deus!

Conhecendo a Palavra de Deus, podemos agir conforme Deus e ter uma visão correta sobre nosso Senhor. Atitudes que nos afastam de Deus são atitudes cujos pensamentos estão longe das coisas de Deus. Não pensamos no próximo, não observamos a vontade de Deus, não trabalhamos e nem desejamos trabalhar no Evangelho, etc. Tudo isso por não ter uma mente firmada em Cristo. Se Deus não ocupa nossa mente, nosso ser poderá ser regido, então, pelo pecado. Isso é sério! Não somos mais escravos do pecado! Somos livres em Cristo para exercitar e desenvolver nossa salvação. Precisamos desde já alimentar a nossa mente e pensar nas coisas que são de cima, ou seja: precisamos fazer como Cristo. Precisamos nos alimentar de fazer a obra do Pai (João 4: 33,34), se envolver com as coisas de cima. Esse é o interesse de Cristo. Se nós estamos mesmo com Cristo e enxertados nele, os interesses de nosso Senhor passam a ser nosso interesse também.

Uma curiosidade: a filosofia grega clássica e helenística exercia forte influencia na sociedade e nas comunidades onde Paulo exerceu seu apostolado. Não tenho dúvidas de que Paulo era conhecedor, pelo menos em parte, da filosofia grega, uma vez que ele tinha uma relevante desenvoltura entre os gregos na evangelização e no ensino. O modelo de vida realizada na sociedade grega clássica e helenística era o modelo do Sábio, a saber, o homem que era inteiramente realizado para os gregos era o que exercitava o pensamento em vista do bem da polis. Esse era o que exercia a phrónesis (phroneo), ou seja, sabedoria sobre as coisas que transcendiam o ser. Era a sabedoria do alto. Paulo, como era pregador bom, em consonância com essa forma de pensamento, lançou a verdade cristã sob o mesmo viés conceitual: o que se realiza em Deus é aquele que pensa sobre as coisas que são de cima. Esse é o sábio! A sabedoria do cristão é estar no centro da vontade de Deus e não mergulhado no pecado. A sabedoria verdadeira consiste em fazer boas escolhas (nesse aspecto, a escolha humana tem o seu lugar). Podemos lembrar de Salomão quando pediu a Deus sabedoria para reinar.

No entanto, muitos problemas, adversidades, e situações diversas tendem a roubar nossa atenção, nossa fé e até mesmo conseguem apagar a chama de nosso coração. Porém, não fomos chamados para uma vida de inconstância, mas sim de perseverança.

No versículo 3, Paulo deixa um importante alento:

“porque morrestes e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus”.

As aflições desta vida, as lutas e provas que aparecem, junto com a força e o intento do pecado tentam ofuscar nossa visão e fazer com que abaixemos nossas cabeças e erremos o alvo. Nossa vida aqui é constante batalha. Contudo, devemos ter bem certo em nós a esperança de que Cristo está conosco e temos aliança com Deus através do sangue de Jesus Cristo. Estamos escondidos, agora, em Deus. Temos livre acesso a Ele pela graça e pelo sangue. Nenhum mal, nenhum ataque, nenhum desanimo, nenhuma provação, nenhum pecado que ainda cativa nosso ser pode ser mais forte que Jesus em nós. Por isso a importância de uma vida firmada a cada dia em Deus. Pois, buscando sempre as coisas do alto, nos fortalecemos e crescemos em fé e em graça para suportarmos firmes qualquer desafio que possa surgir. Em Deus, estamos protegidos. Não livres dos ataques, não livre das aspirações de nossa carne, não livres do pecado. Aliás, o pecado é uma constante possibilidade de perdermos o foco. Mas, tendo o foco em Deus e nas coisas de Deus, não há como ceder para o pecado.

Há o sofrimento, mas há a esperança. Há a tristeza, mas há a alegria que sempre vem pelo amanhecer; existe a provação e a dificuldade, mas há a certeza que em Deus podemos tudo, a nudez, a fome, o perigo, a espada, etc. Tudo nós podemos, naquele que nos fortalece.

> Buscar as coisas do alto é, portanto: constante negação de nós mesmos (Cl 3: 5), pois esse é o sentido real da nossa morte e ressurreição. Vida virtuosa é isso: negação de suas aspirações e paixões para fazer aquilo que agrada a Deus. Olhar para as coisas que são de cima e focar nas coisas do alto é assumir o chamado; é esquecer das coisas que para trás ficam; é avançar para o alvo; é procurar não errar o alvo; é crescer em graça e em conhecimento; é se encher do Espírito Santo; é se preocupar com as coisas do Reino; é se alimentar de Jesus; é se envolver e se relacionar com nosso Senhor. Buscar as coisa de cima pressupõe uma vida que está determinada a carregar a cruz. Buscar as coisas de cima é poder orar com firmeza de coração: “venha a nós o teu Reino e seja feita a tua vontade!”.

> Buscar as coisas que são de cima é buscar em Deus e em sua Palavra o sentido para viver e poder olhar para o próximo com mais compaixão. Em Mateus 5: 1-48, Jesus nos deixa o modelo da vida bem-aventurada, ou da “beata vita”, que supõe uma vida de plena realização pessoal. E nos ensinamentos do Sermão da Montanha, Jesus ensina que a bem-aventurança (felicidade plena) está na constante negação de nós mesmos para o serviço do Reino de Deus e no servir o próximo e amar o próximo como marca de uma vida que conheceu a liberdade em Cristo. E não só isso: conheceu a graça e a própria miserabilidade diante do amor de Jesus Cristo.

> Buscar as coisa do alto e pensar nas coisas de cima é, portanto: disposição mental, física e espiritual para morrer de vez para o mundo e viver uma vida ressurreta para Deus. Nossa bem-aventurança está no entendimento da mensagem da cruz. Na cruz consiste a verdadeira liberdade em Cristo. Por quê? Porque morrer para o mundo e para o pecado e vencer a carne, dizendo não para as paixões, inclinações e desapontando nossos fortes desejos em vista da glória de Deus, implica total domínio de si mesmo, numa vida frutificada pela obra do Espírito Santo. Poder dizer para a oferta do maligno e da própria carne que “eu vou agradar a Deus e não a mim mesmo” é vencer – como Cristo – a tentação do Diabo e se portar como verdadeiro liberto. O escravo não consegue. O livre sim, pois seu olhar está firme em Deus e tem constantemente buscado as coisas do alto. Assumir, portanto, a liberdade que Cristo nos concedeu na cruz. Somos livres quando nossa mente está buscando as coisas do alto e pensando nas coisas do alto, pois o pecado não mais nos domina. Temos vitória sobre o maligno! Veja em 1 João, 2: 12-17. Em continuidade de sua admoestação e ensino, Paulo ainda adverte sobre a importância de ainda morrermos totalmente em nossa velha natureza terrena, buscando superar e vencer toda prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e avareza. (3: 5), pois, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os homens. Muitos ainda não acordaram para a seriedade dessas palavras e vivem praticando uma ou todas essas coisas citadas. Mas a palavra de Deus para esses é: condenação! Morte eterna! Inferno.

A não ser que se arrependam agora e busquem a Deus. Buscai as coisas do alto! Perto está o Senhor daqueles que o invocam (Is 55: 6). Paulo ainda insiste: “despojai-vos, igualmente, de tudo isto” (v.8). Notemos que Paulo está falando para a igreja. Isto! Para a congregação de crentes. Amados, somos seres de pecado (1 Jo 1: 8). Temos tendência ao erro, enquanto tivermos esse corpo mortal, pois a morte está instaurada como salário (Rm 6: 23) de nosso pecado. Contudo, temos um advogado diante de Deus (1 Jo 2: 1), a saber, o próprio Cristo. Por isso devemos ter a mente voltada para Cristo, pois Ele é o intercessor, o que advoga e o que nos traz justificação (Rm 6:7).

Contudo, devemos – agora – despojar de tudo que ainda nos faz cativos. Ou vivemos livres para a glória de Deus, ou somos ainda escravos. O céu é para os livres em Cristo. Preocupe-se com isso! Despojando de todo o pecado e de tudo que rouba a primazia de nossa atenção, impedindo-nos de buscar e pensar nas coisas do alto, devemos, tão logo, assumir a forma da nova criatura (novo homem), pois essa nova natureza em espírito nos fará chegar ao pleno conhecimento de Deus e ao modelo de Cristo (v. 10). O velho homem não pode enxergar e conhecer os mistérios de Deus. Portanto, não pode entrar em sua glória, pois Deus é Santo. Mas o novo homem, em espírito e assumindo a cada instante a forma perfeita de Cristo, pode ver a Deus e já aqui, participar da glória e de Jesus Cristo. “não que eu tenha já recebido ou obtido a perfeição, mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.

[…] esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo

[…]” (Fp 3: 12-14). Uma excelente noite e auto-análise, reflexão, súplicas e paz!

Gabriel F. M. Rocha.

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A Verdadeira Adoração

Uma das falácias mais solene e destruidora de almas nestes dias é a idéia de que almas não-regeneradas são capazes de adorar a Deus. Provavelmente a razão maior pela qual este erro tem ganhado tanto espaço deve-se à imensa ignorância espalhada acerca da

Natureza Real da Verdadeira Adoração

As pessoas imaginam que, se elas freqüentarem um culto religioso, forem reverentes em seu comportamento, participarem do período de hinos, ouvirem respeitosamente o pregador, e contribuírem com ofertas, então realmente adoraram a Deus. Pobres almas iludidas… um engano que é levado adiante pelo falso-profeta e explorador do dia. Contra toda esta ilusão, temos as palavras de Cristo em João 4.24, que são surpreendentes em seu caráter restritivo e pungente: “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade”.

A Vaidade da Falsa Adoração

“Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim; em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” (Marcos 7.6,7). Estas palavras solenes foram ditas pelo Senhor Jesus aos escribas e fariseus. Eles vieram a Ele com a acusação de que Seus discípulos não se conformavam às suas tradições e práticas em relação à pureza e lavagens cerimoniais. Em Sua resposta, Cristo expôs a inutilidade da religião deles…

Estes escribas e fariseus estavam levantando a questão do “lavar de mãos” cerimonial, enquanto seus corações permaneciam sujos perante Deus. Oh, querido leitor, as tradições dos antigos podem ser diligentemente seguidas, suas ordenanças religiosas observadas estritamente, suas doutrinas devocionalmente guardadas, e ainda assim a consciência jamais foi sondada na presença de Deus quanto a questão do pecado. O fato é que a religião é uma das maiores obstruções para a verdade de Deus abençoar as almas dos homens.

A verdade de Deus nos leva a um nível em que Deus e o homem são tão distantes quanto o pecado é da santidade: portanto, a primeira grande necessidade do homem é purificação e reconciliação. Mas a “religião” atua na suposição de que a depravação e culpa humanas podem ter relacionamento com Deus, podem aproximar-se dEle, e mais, adorá-lO e serví-lO. Por todo o mundo, a religião humana é baseada na falácia de que o homem pecador e caído pode ter um relacionamento com Deus. A religião é um dos principais meios usados por Satanás para cegar a humanidade quanto à sua verdadeira e terrível condição. É o anestésico do diabo para fazer pecadores perdidos sentirem-se confortáveis e tranqüilos em seu vil afastamento de Deus. A religião esconde deles Deus em Seu verdadeiro caráter – um Deus santo que é “tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar” (Hebreus 1.13).

Teremos muito esclarecimento em relação a este ponto de nosso assunto se considerarmos atentamente o abominável incidente registrado em Mateus 4.8,9: “Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”.O diabo busca adoração. Quão poucos na cristandade estão alertas quanto a isto, ou percebem que as principais atividades do inimigo se mantêm na esfera religiosa!

Escute o testemunho de Deuteronômio 32.17 – ”Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; aos deuses que não conheceram”. Isto se refere a Israel em seus primeiros dias de apostasia. Escute agora I Coríntios 10.20 “Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus”. Que luz isto nos lança sobre a idolatria e abominações do paganismo! Ouça mais uma vez II Coríntios 4.4 “Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus”. Isto significa queSatanás é o inspirador e dirigente da religião do mundo. Sim, ele busca adoração, e é o promotor principal de toda falsa adoração.

A Exclusividade da Verdadeira Adoração

“Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.” (João 4.24). Este “importa” é definitivo; não existe alternativa, não há escolha neste assunto. Não é a primeira vez que temos esta palavra profundamente enfática no Evangelho de João. Existem dois versículos notáveis em que isto ocorre anteriormente. “Não te maravilhes de te ter dito:Necessário vos é nascer de novo” (João 3.7). “E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado” (João 3.14). Cada uma dessas três “necessidades” é igualmente importante e inequívoca. (N.T.: Em inglês a palavra sempre é “must”).

A primeira passagem faz referência a Deus Espírito, pois é Ele quem regenera. A segunda refere-se à obra de Deus Filho, pois foi Ele quem fez a expiação pelo pecado. A terceira faz referência a Deus Pai, pois é Ele quem procura adoradores (João 4.23). Esta estrutura não pode ser alterada:apenas aqueles que nasceram do Espírito, que repousam sob a obra expiatória de Cristo, que podem adorar o Pai.

Citando novamente as palavras de Cristo à religiosidade de Seus dias, “Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim; Em vão, porém, me honram” (Marcos 7.6,7); Ah, meu leitor, o mundano pode ser um filantropo generoso, um religioso sincero, um denominacionalista zeloso, um membro de igreja devoto, um assíduo participante da comunhão, ainda assim ele não é mais capaz de adorar a Deus que um mudo é de cantar. Caim tentou e falhou. Ele não foi irreligioso. Ele “trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR.” (Gênesis 4.3), mas “Mas para Caim e para a sua oferta [Deus] não atentou”. Por quê? Porque ele se recusou a aceitar sua condição incapaz e sua necessidade de um sacrifício expiatório.

Para se adorar a Deus, Deus deve ser conhecido: e Ele não pode ser conhecido a não ser por Cristo. Muito pode ser ensinado e crido sobre um “Deus” teórico ou teológico, mas Ele não pode ser conhecido à parte do Senhor Jesus. Ele disse “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14.6). Portanto, é uma crença artificial pecaminosa, uma ilusão fatal, uma farsa maligna, levar pessoas não-regeneradas a imaginarem que elas podem adorar a Deus. Enquanto o pecador permanece longe de Cristo, ele é “inimigo” de Deus, um filho da ira. Como então poderia ele adorar a Deus? Enquanto permanece em seu estado não-regenerado ele está “morto em seus pecados e delitos”. Como, então, ele pode adorar a Deus?

O que foi dito acima é quase universalmente repudiado hoje, e repudiado em nome da Religião. E, repetimos, religião é o principal instrumento usado pelo diabo para enganar almas, ao insistir – não importa que seja a “religião budista” ou a “religião cristã” – que o homem, ainda em seus pecados, pode manter um relacionamento e aproximar-se do Deus três vezes santo. Negar essa idéia é provocar a hostilidade e ser censurado a ponto de ser uma oposição a todos os meros religiosos. Sim, isto foi muito do que levou Cristo a ser odiado impiedosamente pelos religiosos de Seus dias. Ele refutou suas afirmações, expôs sua hipocrisia, e então provocou seu ódio.

Aos “príncipes dos sacerdotes e anciões do povo” (Mateus 21.23), Cristo disse “os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus” (Mateus 21.31) e no final de seu discurso é dito que estavam “pretendendo prendê-lo” (v. 46). Eles atentaram para coisas externas, mas seu estado interno foi negligenciado. E por que os “publicanos e fariseus” entraram no reino de Deus adiante deles? Porque nenhuma pretensão religiosa obstruiu seu caminho; eles não tinham uma profissão de justiça própria para manter a qualquer custo, nem uma reputação piedosa para zelar. Pela pregação da Palavra, foram convencidos de seu estado de perdição, então colocaram-se no devido lugar diante de Deus e foram salvos. Algo que só pode acontecer com adoradores

A Natureza da Verdadeira Adoração

“Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (João 4.24). Adorar “em espírito” contrastava com os ritos humanos e cerimônias impostas do Judaísmo. Adorar “em verdade” se opunha às superstições e ilusões idólatras dos perdidos. Adorar a Deus “em espírito e em verdade” quer dizer adorar de uma maneira apropriada para a revelação plena e final que Deus fez de Si mesmo em Cristo. Significa adorar espiritualmente e verdadeiramente. Significa dar a Ele o louvor proveniente de um entendimento iluminado e o amor de um coração regenerado.

Adorar “em espírito e em verdade” se opõe à adoração carnal que é externa e espetacular. Exclui toda adoração a Deus com os sentidos. Nós não podemos adorá-lO, que é “Espírito”, observando uma arquitetura linda e janelas de vitrais, ouvindo as notas de um órgão caro ou sentindo o aroma doce de incenso. Nós não podemos adorar a Deus com nossos olhos e ouvidos, ou nariz e mãos, porque eles são “carne” e não “espírito”. “Importa que adorem em espírito e em verdade” exclui tudo aquilo que é do homem natural.

Adorar “em espírito e em verdade” exclui toda adoração emocional. A alma é o centro das emoções, e muitas das supostas adorações do Cristianismo atual são apenas emocionais. Anedotas tocantes, apelos entusiastas, oratória comovente de uma personalidade religiosa, tudo é calculado para produzir isto. Hinos lindos cantados por um coro bem ensaiado, trabalhados de uma forma que nos leva às lágrimas ou a êxtases de alegria. Isto pode excitar a alma, mas não pode, nem jamais afetará o homem interior.

A verdadeira adoração é a adoração de um povo redimido, unido ao próprio Deus. Os não-regenerados entendem “adoração” como uma observância daquilo que Deus requer deles, e que não dá a eles nenhuma alegria como eles procuram demonstrar. Muito diferente disto é o que acontece com aqueles que nasceram do alto e foram redimidos pelo sangue precioso. A primeira vez que a palavra “redimido” ocorre na Escritura é em Êxodo 15 , e é lá também, pela primeira vez, que vemos um povo cantando, adorando e glorificando a Deus. Lá, às margens do Mar Vermelho, esta Nação que foi tirada da casa da servidão e liberta de todos os seus inimigos une-se em louvor a Jeová. (N.T.: Na maioria das versões em português, a palavra em Êxodo 15 é “libertado”; a NVI se aproxima mais ao usar “resgatado”).

“Adoração” é a nova natureza no crente levando-o à ação, voltando-se à sua divina e prazerosa Origem. É aquilo que é “espírito” (João 3.6) voltando-se a Ele, que é “Espírito”. É aquilo que é “feitura” de Cristo (Efésios 2.10) voltando-se a Ele, que nos recriou. São os filhos, de forma espontânea e grata, voltando-se em amor a seu Pai. É o novo coração gritando “Graças a Deus pelo seu dom inefável!” (II Coríntios 9.15). São os pecadores, purificados pelo sangue, exclamando “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Efésios 1.3). Isto é adoração; assegurada de nossa aceitação no Amado, adorando a Deus porque Ele fez Cristo estar em nós, e porque Ele fez nós estarmos em Cristo.

É digno de nossa atenção especial observar que a única vez em que o Senhor Jesus chegou a falar sobre o assunto da Adoração foi em João 4. Mateus 4.9 e Marcos 7.6,7 são citações do Antigo Testamento. Isto certamente tocará nossos corações se percebermos que a única ocasião em que Cristo fez alguma observação direta e pessoa quanto à adoração foi quando Ele conversava, não com um homem religioso como Nicodemos, ou mesmo com Seus apóstolos, mas com uma mulher, uma adúltera, uma Samaritana, uma quase pagã! Verdadeiramente os caminhos de Deus são diferentes dos nossos.

A esta pobre mulher nosso Senhor bendito declarou “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem” (João 4.23). E como o Pai “procura” adoradores? O contexto inteiro não nos dá a resposta? No início do capítulo, o Filho de Deus inicia uma jornada (vv. 3 e 4). Seu objetivo era buscar uma de Suas ovelhas perdidas, revelar-Se a uma alma que não O conhecia, livrar a mulher dos desejos da carne, e encher seu coração com Sua graça suficiente, e isto, para que ela pudesse encontrar a infinitude do amor divino e dar, em retorno, este louvor e adoração que apenas um pecador salvo pode dar.

Quem pode não perceber que, na jornada que Ele tomou a Sicar com o objetivo de encontrar esta alma desolada e ganhá-la para Si próprio, temos uma bendita sombra da jornada ainda maior que o Filho de Deus tomou – deixar a paz, o gozo e a luz dos céus, descer a este mundo de conflito, escuridão e desventura. Ele veio aqui procurar pecadores, não apenas salvá-los do pecado e da morte, mas concedê-los beber e deleitar-se com o amor de Deus como nenhum anjo pôde prová-lo; que, de corações transbordantes com a consciência de sua dívida com o Salvador, e a gratidão ao Pai por ter entregue Seu Filho amado a eles, ao perceber e aceitar Sua excelência suprema, possam expressar-se diante dEle como aroma suave de louvor.Isto é adoração, e o reconhecimento do amor irresistível de Deus e o sangue redentor de Cristo são a causa disto.

Uma dos mais abençoados e belos exemplos registrados no Novo Testamento do que a adoração é se encontra em João 12.2,3. “Fizeram-lhe, pois, ali uma ceia, e Marta servia, e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Então Maria, tomando um arrátel de ungüento de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-lhe os pés com os seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do ungüento”. Como alguém já disse, “ela não veio ouvir um sermão, apesar do Príncipe dos Pregadores estar ali. Sentar-se aos Seus pés e ouvir Sua palavra não era naquele momento seu objetivo, não importa quão abençoador isto seja em sua devida circunstância. Ela não veio para encontrar os santos, entretanto preciosos santos estavam ali; nem a comunhão com eles; mesmo sendo uma benção, naquele instante não era seu objetivo. Ela não procurou, depois de uma semana de trabalho, por descanso; mesmo sabendo bem dos abençoados campos de descanso que havia nEle. Não, ela veio para pôr diante dEle aquilo que ela tinha ajuntado por tanto tempo, aquilo que era a mais valiosa de suas posses terrenas. Ela não pensou como Simão, o leproso, sentado agora como um homem limpo; ela foi além ds apóstolos; e, então, também, de Marta e Lázaro, irmã e irmão na carne e em Cristo. O Senhor Jesus preencheu seus pensamentos: Ele havia ganho o coração de Maria e agora tomou todos os seus sentimentos. Ela não tinha olhos para ninguém além dEe. Adoração e homenagem eram, naquele momento, seu único pensamento – extravasar a devoção de seu coração diante dEle”. Isto é adoração.

O assunto da adoração é muito importante, ainda asim é um dos temas que temos as idéias mais vagas. Lemos em Mateus 2 que os magos levavam seus “tesouros” para presentear a Cristo (v. 11). Eles deram ofertas caras. Isto é adoração. Não é vir para receber dEle, mas render-se diante dEle. É a expressão de amor do coração. Oh, que possamos trazer ao Salvador “ouro, incenso e mirra”, isto é, adorá-lO por causa de Sua glória divina, Sua perfeição moral e Sua morte de aroma suave…

O alvo da adoração é Deus; e o inspirador da adoração é Deus. Só pode satisfazer a Deus aquilo Ele tenha por Si mesmo produzido. “SENHOR… tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” (Isaías 26.13). É somente quando o Cordeiro é exaltado no poder do Espírito que os santos ão levados a cantar “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” (Lucas 1.46,47). A ausência generalizada e concupiscente desta adoração que é “em espírito e em verdade” deve-se a uma ordem de coisas sobre as quais o Espírito de Deus não guia, onde o mundo, a carne e o diabo têm toda liberdade. Mas mesmo em círculos onde o mundanismo, em suas formas mais vis, nao é tolerado, e em que a ortodoxia é tolerada, e onde a ortodoxia ainda é preservada, existe, quase sempre, uma notável ausência desta unção, esta liberdade, esta alegria, que são inseparáveis do espírito da verdadeira adoração. Por que isto acontece? Por que em algumas igrejas, grupos familiares, uniões masculinas, onde a mensagem da Palavra de Deus é ministrada, nós agora mui raramente encontramos este transbordar do coração, estes manifestações espontâneas de adoração, estes “sacrifícios de louvor”, que deveriam ser achados entre o povo de Deus? Ah, a resposta é difícil de encontrar? É porque há um espírito entristecido neste meio. Esta, meus amigos, é a razão pela qual hoje existem tão poucos ministérios de Cristo vivos, confortadores e que produzem adoração.

Obstáculos à Adoração

O que é adoração? Louvor? Sim, e mais; é um amor fluindo de um coração que está completamente seguro da excelência dAquele diante de quem o coração ajoelha-se, expressando sua mais profunda gratidão por Seu dom inefável. Aqui está claramente algo que é o primeiro obstáculo à adoração de um filho de Deus – a falta de segurança. Quanto mais eu retenho dúvidas quanto à minha aceitação em Cristo, mais eu permanecerei em um estado de incerteza em relação à expiação por meus pecados no Calvário. É impossível que eu, realmente, adore e louve a Ele por Sua morte por mim; certamente não poderei dizer “eu sou do meu Amado e Ele é meu”. É uma das ferramentas favoritas do inimigo para manter os cristãos no “Cativeiro da Rejeição”, já que seu objetivo é que Cristo não receba dos cristãos a honra de seus corações…

Outro grande obstáculo à adoração é a falha em julgar a nós mesmos pela Sagrada Palavra de Deus. Os sacerdotes de Israel não podiam ir de qualquer jeito até o altar de bronze no átrio exterior do tabernáculo. Era necessário cuidar que, antes que entrassem no Santo Lugar, para queimar o incenso, eles se lavassem na pia. Aproximar-se da pia de bronze nos fala do rigoroso julgamento do crente sobre si mesmo (cf. I Coríntios 11.31). O uso de sua água aponta para a aplicação da Palavra a todos os nosso atos e caminhos.

Agora, assim como os filhos de Arão estavam debaixo de pena de morte (Êxodo 30.20) se não se lavassem na pia antes de entrarem no Santo Lugar para queimar incenso, também o cristão hoje deve ter as impurezas do caminho removidas antes que ele possa aproximar apropriadamente de Deus como um adorador. Falhar neste ponto leva à morte, isto é, eu continuo sob o poder contaminador das coisas mortas. As impurezas do caminho são resultado de minha caminhada através de um mundo de “separados da vida de Deus” (Efésios 4.18). Se isto não for removido, então eu continuo debaixo do poder da morte num sentido espiritual, e a adoração se torna impossível. Isto nos é demonstrado plenamente em João 13, em que o Senhor diz a Pedro “Se eu te não lavar, não tens parte comigo”. Quantos são os cristãos que, ao falharem em não colocar seus pés nas mãos de Cristo para limpeza, são impedidos de exercer suas funções e privilégios sacerdotais.

Um outro obstáculo fatal à adoração precisa ser mencionado, e este é o Mundanismo, que significa as coisas do mundo obtendo lugar nos desejos do cristão, seus caminhos tornando-se “conformados com este mundo” (Romanos 12.2). Um exemplo disto é encontrado na história de Abraão. Quando Deus o chamou para deixar a Caldéia e ir para Canaã, ele abriu uma concessão: foi apenas até Harã (Gênesis 11.31, Atos 7.4) e habitou ali. Harã foi uma casa à meio-caminho, uma área inóspita entre ela e as bordas de Canaã. Mais tarde Abraão atendeu completamente ao chamado de Deus e entrou em Canaã, e “edificou ali um altar (algo que fala de adoração) ao SENHOR” (Gênesis 12.7). Mas não existe menção alguma de ele construir qualquer “altar” durante os anos em que viveu em Harã! Oh, quantos filhos de Deus hoje estão comprometidos, habitando numa casa no meio do caminho, e como conseqüência, eles não são adoradores. Oh, que o Espírito de Deus possa trabalhar de tal forma sobre e dentro de nós que o idioma das nossas vidas, assim como dos nossos corações e lábios, possa ser “Digno é o Cordeiro” – digno de uma consagração do coração por completo, digno de uma devoção imensa, digno deste amor que é manifestado por guardar Seus mandamentos, digno de uma adoração verdadeira. Que seja assim, por amor de Seu nome.

Por A. W. Pink

Fonte: Musica e Adoração

Cristo – tudo e em todos

Cristo-tudo-em-todos

Cl 1:18 = “Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia”.

Cl 3:11 = “no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos”.

Muito tem sido feito nos últimos dias para trazer as grandes magnitudes do universo à compreensão do homem e mulher comuns. Isto significa que muitas pessoas estão interessadas na explicação do universo e, sem dúvida alguma, do curso desta Terra e da criação e história do homem; mas cremos ter a resposta final e positiva para esta investigação. Para nós há somente uma definida e conclusiva explicação do universo, e esta explicação é uma Pessoa – o Senhor Jesus Cristo, com tudo que é eternamente relacionado a Ele. Não importa quanto leiamos e estudemos, nunca teremos a explicação do universo, no todo ou em parte, até que venhamos a enxergar o lugar do Senhor Jesus no eterno propósito de Deus. As simples contudo abrangentes palavras “Cristo é tudo em todos” resumem toda a matéria desde a eternidade, através de todos os estágios de tempo, até a eternidade.

Primeiramente, então, vemos que “Cristo é tudo em todos” significa:

1. A explicação da própria criação

Esta carta aos colossenses faz esta mesma declaração em outras palavras. Ela nos diz que “pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste” (1:16-17). Esta é uma declaração abrangente, e claramente mostra que Cristo sendo tudo em todos é a explicação de toda a criação. Por que foram todas as coisas criadas? Por que Deus por meio dele trouxe o universo à existência? Por que este grande sistema universal existe e se mantém? Qual é a explicação do mundo? A resposta é para que Cristo possa ser tudo e em todos.

A intenção no coração de Deus ao ter trazido este universo à existência era que, ao final, toda a criação pudesse apresentar a glória e a supremacia de Seu Filho, Jesus Cristo. E este específico pequeno fragmento “e nele tudo subsiste” diz muito claramente que, se não fosse o Senhor Jesus Cristo, o universo inteiro se desintegraria, desmembrar-se-ia; ele estaria sem seu fator unificador; ele cessaria de ter uma razão para ser mantido como uma completa e concreta unidade. Seu subsistir, sua falha em se desintegrar e acabar é por causa disto: Deus tem determinado que o Senhor Jesus será o centro – o centro governante – deste universo inteiro, e Ele, o Filho de Deus, é a explicação da criação. Se não fosse por Ele, nunca teria havido uma criação. Tire-o fora e a criação perde seu propósito e seu objeto, e não precisa mais ir adiante. “Cristo é tudo, e em todos” era o pensamento – o pensamento dominante – na mente de Deus durante a criação do universo.

Isto pode deixá-los indiferentes em certa medida e não levá-los muito longe, mas eu arrisco pensar que o que irei dizer irá levá-los um pouco mais adiante e aquecerá seus corações. Pois a perspectiva é esta, que quando Deus tiver as coisas como na eternidade passada determinou tê-las – e Ele irá tê-las assim – cada átomo deste universo inteiro irá mostrar a glória de Jesus Cristo. Vocês não serão capazes de olhar para algo ou alguém sem ver Cristo glorificado. Uma abençoada perspectiva!

É algo feliz quando, como um grupo de filhos do Senhor, nós podemos estar juntos por horas a fio ou mesmo dias a fio; quando nós estamos ocupados com o Senhor como nosso único interesse comum e todos estão enlevados nele. Quando temos um tempo como este e voltamos ao mundo, que atmosfera diferente encontramos! Como nos sentimos frios! É algo agradável encontrar o Senhor em seus filhos e estar enclausurado com Ele desta forma; contudo mesmo isto é apenas em parte. Todavia o eterno dia está chegando quando não haverá o voltar para o mundo em uma manhã de segunda-feira depois de um dia nos átrios do Senhor; quando estaremos tocando ninguém mais além do Senhor, e o universo inteiro estará cheio dele – “Cristo, tudo em todos”! Este é o alvo de Deus. Isto é o que Ele tem determinado; tudo mostrando o Senhor Jesus; tudo para Ele.

Agora vemos uns nos outros muitas outras coisas que não o Senhor Jesus; o dia está chegando quando vocês nada verão exceto o Senhor Jesus em mim, e eu nada verei exceto o Senhor Jesus em vocês; nós seremos “conformados à imagem do Seu Filho”: Sua glória moral brilhará e será mostrada; Cristo será “tudo em todos”. Deus o determinou, e o que Deus determinou, Ele terá. Esta, então, é a explicação da criação, que Cristo seja tudo, e em todos, e sobre tudo tenha a preeminência.

Em Romanos, o apóstolo Paulo tem uma declaração muito notável dentro deste contexto: “A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (8:19-22).

Notem o que isto realmente diz e implica. A criação está imbuída por uma expectativa ardente. Esta expectativa é com gemidos tais como em árduo trabalho, uma expectativa de esperança – não da dissolução do universo, sobre o quê certos cientistas tanto falam. Contudo, a esperança e os gemidos até o momento estão deliberadamente colocados sob um reinado de vaidade – feitos para ser tudo em vão – até um tempo e alvo fixados. Este clímax é em duas partes: uma, a revelação dos filhos de Deus; a outra – ligada com aquela – o livramento da criação de estar sujeita à corrupção.

Tudo isto é levado de volta à eternidade passada e unido com o Senhor Jesus como Filho: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (8:29).

Na passagem anterior há uma declaração definida e uma clara implicação. A declaração é que a criação estava sujeita à vaidade, e seu estado é o cativeiro da corrupção. Claramente, a implicação é que houve um tempo definido quando, por causa de sua corrupção, a criação inteira foi levada a uma condição na qual é forçada a gemer e se esforçar em direção a um alvo que não pode ser alcançado. É em conexão com isto que surge espaço para toda a gama e a natureza da interferência satânica na criação, a qual objetiva a desafiar o propósito divino final na criação e a frustrá-lo ao trazer corrupção. Tão universal foi esta corrupção que uma sentença de vaidade foi pronunciada sobre “toda a criação”. O efeito disto foi, e é, que a criação nunca pode atingir o objetivo de sua existência, salvo no campo da santidade e semelhança divina.

Aqui também se encaixa toda a gama da “redenção que está em Cristo Jesus”; a obra universal que Ele consumou por meio de Sua cruz destruindo a obra do diabo e, potencialmente, o próprio diabo; com todo o poder destruidor do pecado e destruidor da corrupção advindos de Sua natureza e vida sem pecado, a eficácia de Seu incorruptível sangue, e a provisão de justificação e santificação para todos os que crêem, estes por regeneração se tornando uma nova criatura em Cristo Jesus (2Co 5:17).

Apenas por este meio a criação pode ser liberta. Quando estes filhos de Deus forem manifestos – seu número completo – e todos que têm recusado esta salvação forem rejeitados do domínio de Deus, então a criação será liberta e sua intenção original será atingida, Cristo sendo tudo, e em todos.

2. A explicação do homem

Depois, em seguida, como uma parte central da criação, temos o homem. Qual é a explicação do homem? Qual é a explicação de Adão como o primeiro homem? Há uma pequena passagem da Escritura que responde a isto: “… Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir” (Rm 5:14), que é Cristo. Uma figura daquele que havia de vir; esta é a explicação do homem. Deus planejou que cada homem ingresso neste mundo seja conformado à imagem de Seu Filho, Jesus Cristo. Multidões perderão isto, mas haverá multidões tais que nenhum homem poderá enumerar, de cada tribo, raça, nação e língua, que alcançarão isto. Que alto chamado! Que concepção diferente do homem esta é daquela que é popularmente aceita, e que tremenda coisa a ser perdida! E ainda assim, há muitos que dizem reclamando que se tivessem podido escolher, nunca teriam vindo a este mundo. Tem havido aqueles que, numa hora de eclipse, maldizem o dia em que viram a luz. Ah! Mas algo deu errado aí; isto não é como o Senhor planejou que fosse. E não importa quantos dias depressivos tenhamos: quando nos perguntarmos depois de tudo se realmente vale a pena, retornemos em nosso íntimo ao pensamento de Deus. É nosso tremendo privilégio, a mais alta honra que podia ser conferida a nós do ponto de vista divino, que tenhamos nascido.

Nem sempre nos sentimos ou falamos deste jeito, mas constantemente somos compelidos a nos voltarmos ao ponto de vista de Deus sobre isto e a nos lembrarmos que Seu propósito é o de ter um universo povoado com tais que sejam conformados à imagem de Seu Filho, Jesus Cristo, um povo que é uma manifestação universal do Cristo glorificado com a glória do Pai. Este é um privilégio, uma honra, algo para o qual vale a pena ter nascido! Esta é a explicação do homem.

Podemos apenas tocar levemente muitos destes assuntos, e caminhar adiante.

3. A explicação da redenção

Além disso, esta palavra “Cristo é tudo em todos” é a explicação da redenção. As coisas, é claro, deram errado: o propósito de Deus sofreu interferência. Ele não poderia nunca ser frustrado completamente, mas houve outro que determinou, tanto quanto estivesse em seu poder, que aquela apresentação universal de Jesus Cristo – o “ser-tudo-em-todos” do Senhor Jesus – nunca acontecesse. Houve alguém que desejou ter aquilo para si mesmo – que ele pudesse ser o senhor universal da terra e céu. Esta interferência tem feito uma grande diferença por certo tempo. Ela tem interferido com o homem e o transformado em outro, aquém do que Deus pretendia que ele fosse. Ela tem arruinado a imagem.

No entanto, há redenção através da cruz do Senhor Jesus. Qual é a explicação da cruz? Por um lado, qual é a explicação de toda aquela expiação, aquela obra redentiva do Senhor Jesus ao tratar com o pecado, em tomar o pecado universal sobre Si, e ser feito uma maldição por nós, em nosso lugar?

E ainda, por outro lado, como complemento disto, qual é a explicação daquela cruz sendo operada no crente de forma que o crente se torne unido com Ele na semelhança de Sua morte e enterro como uma experiência espiritual? – toda aquela aplicação do Calvário que é tão dolorosa, tão terrível de passar através: sim, a desintegração do “velho homem”, o cortar fora do “corpo da carne”, aquele conhecimento interior do poder da cruz, tão terrível à carne. Qual é a explicação? Amados, é que Cristo seja tudo, e em todos.

Por que somos quebrados? Para dar lugar ao Senhor Jesus. Por que somos trazidos ao pó pelo Espírito Santo quando Ele opera a morte do Calvário sobre nós? De forma que o Senhor Jesus possa tomar o lugar que nós na carne temos ocupado. Algumas vezes entendemos errado esta aplicação da cruz. O inimigo está sempre em nosso ombro, insinuando e sugerindo a inclemência de Deus em nos esmagar, nos humilhar, nos reduzir a nada, e dizendo que não há fim nisto, tentando assim nos derrubar.

Amados, a cruz foi pretendida somente para fazer o Senhor Jesus tudo em todos, para nós. Devido ao modo como o Senhor tem tratado conosco, o modo pelo qual Ele tem aplicado a cruz, nos plantando naquela morte e enterro, não é verdade que nós O conhecemos de um modo que nunca O conhecêramos antes? Não é por este modo que Ele tem se tornado o que é para nós, cada vez mais e mais amado dos nossos corações? O aumento do Senhor Jesus em nós e para nós é pelo caminho da cruz. Sabemos muito bem que o nosso principal inimigo é o nosso eu, a nossa carne. Esta carne não nos dá descanso, nem paz, nem satisfação; não temos alegria nela. Ela é obsessiva, nos absorve, constantemente se pavoneia atravessando nosso caminho para nos roubar a verdadeira alegria de viver. O que deve ser feito com ela?

Bem, na cruz e pela cruz somos libertos de nós mesmos; não apenas de nossos pecados, mas de nós

mesmos; e sendo libertos de nós mesmos somos libertos para Cristo, e Cristo se torna muito mais que nós.

É um processo doloroso, mas gera um fim abençoado; e aqueles dentre nós que tenham tido a maior agonia ao longo deste caminho testificariam, eu creio, que o que isto nos trouxe do conhecimento e das riquezas do Senhor Jesus faz todo o sofrimento valer a pena. Assim é a obra do Senhor por nós! E a obra do Senhor em nós, pela cruz, somente é pretendida no pensamento divino para abrir espaço para o Senhor Jesus.

O altar de bronze do tabernáculo, assim como o do templo, era um altar bem grande. Era possível pôr toda a mobília restante do tabernáculo inteiro dentro dele. Sim, o altar tem que ser bem grande; deve haver um grande espaço para Cristo Crucificado. Ele irá preencher todas as coisas e Ele será a plenitude de tudo, e não haverá lugar para nós no final de tudo. Isto o deixa atônito? Certamente não. Assim a cruz, a obra de redenção através daquela cruz, tem como sua explicação simplesmente isto, que Cristo seja tudo, e em todos; que em todas as coisas Ele possa ter a preeminência.

Isto, pois, é a explicação de nossas experiências – o porquê do Senhor tratar conosco como Ele trata; o porquê dos crentes passarem através das experiências que atravessam; o porquê eles passam por coisas que ninguém mais parece chamado a atravessar; o porquê de algumas vezes eles quase invejarem os incrédulos pela vida fácil que tantos deles têm. Isto explica os tratamentos do Senhor com Israel no deserto. Mesmo após sua libertação do cativeiro e tirania do Egito, houve quebrantamento de corações e agonia. Por que esta disciplina? No deserto, eles ainda pensavam no Egito. A obra que o Senhor estava fazendo neles era de forma que Ele pudesse ser tudo neles e para eles. Se Ele cortava seus recursos naturais, era apenas para mostrar quais eram seus recursos celestiais. Se Ele cortava seu poder natural, era para que eles pudessem vir a conhecer o poder dos céus. O que quer que seja que Ele pudesse tirar deles ou os conduzir a, era com vista a tirá-los de si mesmos e com vista a que Ele mesmo pudesse ser tudo em todos.

Esta é a explicação de nossas dificuldades. O Senhor conhece como melhor tratar com cada um de nós, e Ele não usa métodos padronizados. Ele trata com você de um modo e comigo de outro. Ele sabe como nos conduzir a experiências que são bem calculadas para nos trazer à posição aonde o Senhor é tudo e em todos.

4. A explicação do crescimento cristão

O que é crescimento espiritual? O que é maturidade espiritual? O que é caminhar no Senhor? Temo que tenhamos idéias embaralhadas sobre isto. Muitos pensam que maturidade espiritual é um conhecimento mais abrangente da doutrina cristã, uma compreensão mais larga da verdade das Escrituras, uma ampla expansão do conhecimento das coisas de Deus; e muitas destas características são registradas como marcas de crescimento, desenvolvimento, maturidade espiritual. Amados, não é nada disso. A marca distintiva do verdadeiro desenvolvimento e maturidade espiritual é esta: que nóstenhamos crescido bem pouco e que o Senhor Jesus tenha crescido muito mais. A alma madura é aquela que é pequena a seus próprios olhos, mas em cujos olhos o Senhor Jesus é grande. Isto é crescimento. Nós podemos saber muitas coisas, podemos ter uma maravilhosa compreensão da doutrina, do ensino, da verdade, até mesmo das Escrituras, e ainda ser espiritualmente muito pequenos, muito imaturos, muito infantis. (Há muita diferença entre ser infantil e ser semelhante a uma criança). O crescimento espiritual real é somente isto: eu diminuo, Ele cresce. É o Senhor Jesus se tornando mais. Vocês podem testar o crescimento espiritual através disto.

Então, de novo, esta palavra é

5. A explicação de todo o serviço

O que é o serviço cristão de acordo com a mente de Deus? Não é necessariamente termos uma programação cheia de atividades cristãs. Também não é que estejamos sempre ocupados naquilo que denominamos “coisas do Senhor”. Não é a medida e a quantidade de nossa atividade e trabalho, nem o grau de nossa energia e entusiasmo nas coisas do reino de Deus. Não são nossos esquemas, nossos projetos para o Senhor. Amados, o teste de todo serviço é seu motivo. Será que o motivo é, do começo ao fim, que em todas as coisas Ele possa ter a preeminência, que Cristo possa ser tudo em todos?

Vocês conhecem as tentações e a fascinação do serviço cristão; a fascinação de estar engajado, de estar ocupado com muitas coisas; ter sua programação, esquemas, projetos; estar envolvido nestas coisas e sempre presente a elas. Há um perigo aí que tem apanhado multidões dentre os servos do Senhor. O perigo é que isto os leva à projeção, torna a obra deles; é a obra deles, interesses deles, e quanto mais governam e caminham nisto mais satisfeitos ficam.

Não, há uma diferença entre passar o dia no serviço cristão como mero desfrutar da atividade, com a fascinação disto e todas as vantagens e facilidades que isto provê para nós mesmos, e a gratificação disto à nossa carne – há uma grande diferença entre isto e “Cristo, tudo em todos”. Algumas vezes este último é alcançado ao sermos postos fora de ação. Pois então, este é o teste: se estamos ou não completamente satisfeitos de sermos colocados totalmente fora de ação para que tão somente o Senhor possa ser mais glorificado deste modo. Se tão somente Ele puder vir ao que é seu, não importa nada se somos vistos ou ouvidos. Estamos alcançando um lugar, na graça de Deus, aonde ficamos bem contentes em ser largados num canto, sem ser vistos ou notados, se deste modo o Senhor Jesus puder vir para o que é seu mais rápida e completamente.

De algum modo temos sido pegos nisto e pensamos que o Senhor somente pode vir ao que é Seu se nós formos o instrumento. A rivalidade na plataforma e no púlpito; a sensibilidade porque um é posto antes do outro, porque o sermão de um recebe mais atenção que o do outro; os comentários favoráveis feitos todos em uma só direção, etc! Conheço bem tudo isto. Afinal de contas, o que nós estamos buscando? Estamos buscando impressionar nossa audiência pela nossa habilidade ou fazer conhecido nosso Senhor? É uma grande diferença! Algumas vezes o Senhor ganha mais de nossos maus momentos do que pensamos, e pode ser que quando temos bons momentos Ele não tenha obtido o máximo. É por causa disto que há a necessidade de sermos postos de lado, mantidos fracos e humildes, para que Ele possa ter a preeminência.

O desafio do serviço conforme o pensamento de Deus é somente este – por que o estamos fazendo? Queremos estar na obra porque gostamos de estar ocupados? Ou é absolutamente e somente para que, por qualquer meio, Ele possa vir ao que é Seu, para que o alvo de Deus possa ser concretizado? Se Ele puder ser tudo, e em todos, pela nossa morte assim como pela nossa vida, será que chegamos ao ponto onde realmente desejamos que “Cristo seja glorificado em meu corpo, quer pela vida ou pela morte” (Fp 1:20)? Esta é a explicação do serviço do ponto de vista de Deus.

É claro, isto é a explicação de muitas outras coisas. É também…

6. A explicação de todo o Antigo Testamento

Nós não nos demoraremos examinando em detalhes como é isto, mas apenas o indicaremos e passaremos adiante. O que é o Antigo Testamento? Ele está todo resumido em grandes representações de Jesus Cristo. Veja as duas principais, o tabernáculo e o templo. Estas são representações abrangentes do Senhor Jesus tanto em Sua pessoa como em Sua obra e elas ocupam, desta forma, o lugar central na vida do povo escolhido, cuja vida é unida a elas. As duas são uma. Enquanto o povo eleito se mantém num relacionamento correto com aquele objeto central (o tabernáculo ou o templo), enquanto lhe dá seu lugar de honra e reverência e o mantém em seu lugar da mais alta santidade, enquanto eles são verdadeiros ao seu espírito, suas leis e seu testemunho, e embora sejam entre todos os povos da terra os menos capazes naturalmente de cuidar de seus próprios interesses, ainda assim são o povo supremo da terra: não há uma nação ou povo na terra capaz de permanecer diante deles. Eles nunca foram treinados na arte da guerra, não têm uma longa história de armas e estratégia militar, e são em si mesmos um povo indefeso, ainda assim eles tomam ascendência não apenas sobre nações individuais maiores e mais fortes que eles, mas sobre uma combinação de nações. E embora todos se unam contra eles, enquanto verdadeiros àquele objeto central, eles são supremos. Aquele objeto central é uma representação do Senhor Jesus em Sua pessoa e obra.

A interpretação espiritual disto é que quando o Senhor Jesus tem Seu lugar há supremacia; há absoluta supremacia quando Ele em todas as coisas tem a preeminência em, através e por meio de Seu povo. “Cristo é tudo em todos”. Quando isto é verdade em Seu povo não existem forças capazes de lhes resistir. O segredo da absoluta supremacia e soberania é o Senhor Jesus ter Seu lugar nas vidas e nos corações, em todos os afazeres e relacionamentos do Seu próprio povo; então os portões do inferno não poderão prevalecer.

Além disto, é também…

7. A explicação do Novo Testamento

O Novo Testamento traz diminutos grupos, pequenos entre os povos da terra, desprezados, expulsos, dificilmente permitidos a falar sem serem amargamente molestados, e sobre os quais eventualmente vinha a ira e o ódio organizado das nações deste mundo, culminando em que todos os recursos do grande império de ferro foram explorados e postos em operação para destruir a memória deste humilde e desprezado povo.

A história é exatamente esta, que os impérios quebraram, e os poderes mundiais cessaram de existir. Nós rodamos o mundo agora para olhar as relíquias e ruínas destes grandes impérios; mas onde está aquele povo do Caminho do desprezado Nazareno? Uma grande multidão que nenhum homem pode numerar! O céu está cheio deles, e aqui na terra há dezenas de milhares que conhecem e amam o Senhor Jesus, que são deste Caminho. A explicação é que Deus determinou que Seu Filho seja tudo, e em todas as coisas tenha a preeminência.

Tenha um relacionamento vivo com o Filho de Deus, e homens e inferno podem fazer o que quiserem – Deus irá atingir Seu alvo e tal povo será triunfante.

Uma palavra mais. Isto também é…

8. A explicação da Igreja

O que é a igreja? O pensamento de Deus não é o Cristianismo; não é o de ter igrejas como centros organizados do Cristianismo; não é a propagação do ensino e empreendimento cristãos. O pensamento de Deus é o de ter um povo na terra no qual, e no meio do qual, Cristo é tudo em todos. Esta é a igreja. Temos que revisar nossas idéias. No pensamento de Deus a igreja começa e termina com isto – a absoluta supremacia do Senhor Jesus Cristo. E o que Deus está sempre buscando é juntar aqueles de Seu povo que mais completamente concretizarão este pensamento dele, e serão para Ele a satisfação de Seu próprio desejo eterno: o Senhor Jesus em todas as coisas tendo a preeminência e sendo tudo em todos. Ele ignora a grande instituição, a assim chamada “Igreja”, e está com aqueles que em si mesmos são de um humilde e contrito espírito e que tremem diante de Sua palavra, e nos quais o Senhor Jesus é o único objeto de reverência e adoração. Estes satisfazem o coração de Deus. Estes, para Ele, são a resposta à Sua eterna busca.

Vocês percebem que a Palavra de Deus diz isto. Vejam novamente Cl 3:11: “no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos”. Eles têm se revestido “do novo homem, que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou”. Observem atentamente estas palavras e vocês entenderão que este é o homem corporativo, a Igreja, o Corpo de Cristo, “a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1:23). E ali, naquele homem corporativo, não pode haver grego ou judeu. Note as palavras. Não diz que gregos e judeus se unem em uma abençoada comunhão. Não, não há nacionalidades na igreja; temos nos livrado de todas as nacionalidades, e agora temos um novo homem espiritual, uma nova criação, onde não pode haver grego, judeu, escravo, livre. Todas as distinções terrenas se foram para sempre – é um novo homem. O braço direito não é um judeu e o braço esquerdo um grego!

Não, isto passou. Nesta Igreja há apenas um novo homem – não uma combinação onde anglicanos, metodistas, batistas, congregacionais e todo o resto se juntam e esquecem suas diferenças por um tempo; isto não é a Igreja. Na Igreja estas diferenças não são meramente cobertas por um tempo – elas não existem. Há um Corpo, um Espírito. A Igreja é isto, “Cristo é tudo em todos”. Tenha isto e tem-se a Igreja. Chamar qualquer outra coisa de Igreja e deixar isto de fora é uma contradição. Testem-na através disto.

Se é verdade que a vida cristã conforme o pensamento e a mente de Deus é somente isto, “Cristo, tudo em todos”, então somos eu e você verdadeiros cristãos? Pois temos visto que mediante a cruz nós desaparecemos para dar lugar para o Senhor Jesus. Agora, se professamos ter vindo pelo caminho do Calvário até o Senhor, a implicação é que desaparecemos por intermédio desta cruz, para que Cristo seja tudo em todos.

O que pensar? Queremos nós um pedacinho do mundo? Nós ainda voluntariamente nos apegamos a esta ou aquela coisa fora do Senhor, porque o Senhor Jesus não tem nos satisfeito plenamente e precisamos ter um contrapeso? Um cristão mundano é uma contradição de termos. Ter um pouquinho de algo fora de Cristo é negar o Calvário e permanecer diretamente em oposição ao eterno propósito de Deus referente a Cristo. Você assume esta responsabilidade? Deus determinou isto desde toda a eternidade no referente a Seu Filho. Podemos nós professar pertencer ao Senhor Jesus e ao mesmo tempo ainda não ser verdade que Ele é tudo em todos para nós? Se podemos, há algo errado, há uma negação, uma contradição.

Estamos nos opondo ao pensamento e propósito de Deus. É verdade que Ele é tudo em todos? Ele será isto se tomarmos todo o caminho.

Oh! Estas sugestões sutis que estão sempre sendo sussurradas em nossos ouvidos, que se desistirmos disto ou daquilo iremos nos arruinar, e a vida será mais pobre, e seremos reduzidos até que nada tenha restado. É uma mentira! É isto que contrapõe o grande pensamento de Deus sobre nós. O pensamento de Deus sobre nós é que alguém, nada menos que Seu Filho, Jesus Cristo, em Quem toda a plenitude da divindade habita em forma corpórea, seja a nossa plenitude. Toda a plenitude de Deus em Cristo para nós! Você nunca obterá isto ao rejeitá-lo. A vida será muito menos do que precisa ser se você não for até o fim com o Senhor. E o que se obtém em matéria de nossa consagração ao Senhor, nosso inteiro e completo abandono a Ele em nossa vida, nosso deixar completamente tudo que não é do Senhor, isto se obtém no domínio do serviço. Esta carne ama se jactar na obra cristã, e nos diz que se passarmos a ser dependentes do Senhor nós passaremos a ter um tempo de ansiedade. Mas uma vida de dependência de Deus pode ser uma vida de contínuo romance. É ali que fazemos descobertas que são constantes maravilhas.

Você pode estar quase morto num minuto e no seguinte o Senhor lhe dá algo para fazer e você fica muito vivo, dependendo dele para cada respiração sua. Assim você vem a conhecer o Senhor. Mas, depois daquela experiência, você se torna de novo inútil e morto por um tempo, contudo você se lembra de que o Senhor fez algo. Então Ele faz de novo; e a vida se torna um romance. Ninguém pensaria que você estava dependendo do Senhor para sua própria respiração. É algo muito abençoado saber que o Senhor está fazendo isto, quando você não pode fazê-lo de jeito nenhum – é humana e naturalmente impossível, mas o Senhor o está fazendo!

Prossigamos, amados, no assunto da Igreja. Apliquem o teste. Não estou falando com julgamento ou censura, nem tenciono discriminar num sentido errado, mas deixe-me ser fiel – para nós, nossa comunhão deve estar onde o Senhor Jesus é mais honrado. Nossa comunhão deve estar onde Deus tem o que é seu mais plenamente, onde Cristo é tudo em todos. Nós não podemos estar presos por tradições, por coisas que levantam um clamor e assumem uma denominação. Onde o Senhor é mais honrado, aí é onde nossos corações devem estar; onde tudo o mais é feito subserviente a apenas isto: “Cristo, tudo em todos”. Este é o pensamento de Deus sobre a Igreja, e este deve ser o lugar aonde nossos corações gravitam. O lugar onde Deus vai registrar Seu testemunho e trazer o impacto deste testemunho sobre outros será encontrado onde o Senhor Jesus é mais honrado. E vocês perceberão que onde houver pessoas famintas vocês terão oportunidade de ministério se vocês estiverem completamente em acordo com o propósito de Deus referente a Seu Filho.

9. Vivenciando tudo

Lembre-se que tudo relacionado ao cristão é experimental. Tudo em relação ao Senhor Jesus é essencialmente experimental. Não é apenas doutrina. Não é questão de credo. Não é que aceitemos certas declarações de doutrina ou credo, e que somente por isto sejamos trazidos a um relacionamento com o Senhor Jesus. Nós não nos tornamos cristãos por aceitar declarações doutrinárias ou credos ortodoxos, ou fatos sobre o Senhor Jesus. A Igreja não se constitui sobre estes parâmetros, embora a Igreja defenda certos princípios. A experiência tem que ser operada na vida, você deve ser tornar parte dela e ela parte de você. Não é suficiente crer que Cristo morreu na cruz. Isto deve se aplicar aqui em nossas vidas tornando-se uma experiência, uma poderosa e operante força e fator em nosso ser. A igreja não é constituída sobre uma base de declarações doutrinárias. Você não pode juntar pessoas e dizer: “isto parece perfeitamente confiável, constituiremos nossa igreja sobre esta base”. Você não pode fazer isto.

A Igreja é aquela na qual a verdade tem sido operada, na qual ela tem se tornado experimental. Credos não podem nos manter juntos quando o inferno se levanta para nos dividir. Não, o credo mais ultra-fundamentalista não tem conseguido manter as pessoas juntas. A unidade do Espírito é algo trabalhado lá dentro. A menos que seja assim, nada pode resistir contra os espíritos de divisão e cismas que estão por aí. Tudo precisa ser experimental, não apenas doutrinário ou confessional.

Agora, é aqui onde você chega à realidade de Deus. É uma coisa cantar hinos sobre Cristo ser tudo em todos, olhar para isto como algo objetivo e concordar com isto; mas é outra coisa ser trazido experimentalmente ao lugar onde a verdade realmente opera. Há muitos que dirão hoje “sim, isto está certo. Cristo é tudo em todos”, e amanhã de manhã, quando você os toca sobre algum assunto melindroso em que suas preferências estão envolvidas, você percebe que Cristo não é tudo em todos. Temos que chegar a isto pela experiência. Que o Senhor nos dê graça para isto.

O apelo final que faço é que nós todos busquemos novamente a entronização do Senhor Jesus como supremo Senhor em nossos corações, em cada parte de nossa vida, em todos os nossos relacionamentos; que se houver algo que temos segurado, que deixemos ir; se temos tido qualquer reserva, que a quebremos agora; se temos sido menos que completamente comprometidos com Ele, de agora em diante isto não seja mais assim, mas que Ele seja tudo em todos, a partir de agora. Este deve ser nosso entendimento, nosso compromisso com o Senhor. Fará você isto? Peça ao Senhor para quebrar cada amarra que está no caminho de Ele ser tudo em todos. Estamos preparados para isto?

Que o Senhor nos dê graça.

SINTESE CRISTA original  kaka

Autor: T. Austin Sparks (1888-1971)

Lendo as Escrituras

biblia14
“Por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo” (Ef 3.4).

Nosso texto de hoje possui íntima ligação com o versículo seguinte:

“O qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas” (Ef 3.5).

Lembramos que, originalmente, a Bíblia não fora separada em capítulos e versículos, de modo que usamos estas divisões simplesmente por facilitar a localização. Desse modo, ninguém deve ler a Bíblia como se fosse o intento de Deus nos deixar “fragmentos” ou versículos isolados, textos que geram pretextos, etc. afinal, tal qual como corriqueiramente fazemos em livros diversos, a leitura deve ser completa e una, a fim de não entendermos de maneira errada a mensagem bíblica.

Paulo escreve para os crentes de Éfeso que, ao lerem a carta em questão, poderiam compreender que nela havia o conhecimento do mistério de Cristo. Podemos ver sobre este mistério em Efésios 1.9, quando Paulo reafirma que Deus teve por bem revelar as coisas que permaneceram ocultas nos tempos passados.
Devemos entender corretamente um precioso detalhe: o que devemos conhecer “do mistério de Cristo”? Tal mistério não diz respeito há algo indecifrável, e sim à revelação de Deus, que é o próprio Cristo. Próprio Cristo que está revelado na Escritura. A Escritura testifica do Cristo! Paulo registra que, ao lerem sua carta, os cristãos poderiam perceber que nela havia grande conhecimento da pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus e Salvador de todos os eleitos. Aqueles cristãos teriam uma carta repleta de abundante sabedoria vinda de Deus, a qual explicitava a pessoa de Cristo e tudo que Ele fizera pelos judeus e gentios, de forma que os gentios não deveriam a ler como sendo palavras de homens, mas, sim, buscando encontrar o Cristo nela contida.

           Mas o fato é que a Bíblia carrega em si um conteúdo relevantemente poderoso. Se ela testifica do Cristo, ela – pela ação do Espírito Santo de Deus – chama o homem (eleito) de volta à Vida pelo conhecimento da Verdade, a saber, que Jesus Cristo é Senhor e Salvador.
Ela, portanto, chama o homem de volta a Deus e aponta o caminho. Basicamente podemos defini-la assim. Partindo desses dois pólos, Jesus é o caminho que leva o homem de volta a Deus. Nessa perspectiva, temos o real ‘avivamento’ que é exatamente a volta para Deus e para sua Palavra. Como disse certa vez Luiz Sayão, o verdadeiro avivamento leva o crente a Deus e o faz desejar conhecer mais sobre a Palavra de Deus, pois o conteúdo do avivamento é espiritual e, se leva o crente para as Escrituras, se dá porque ela – a Escritura – é espiritual. É a própria voz de Deus pela ação do Espírito Santo. Espírito Santo que revela o Cristo vivo e ressurreto à igreja.
O versículo que está separado para esta análise (Ef. 3:4) nos ensina três coisas de vital importância para nossa vida espiritual: devemos ler a Escritura e devemos perceber algo divino. A quem buscamos compreender?

Devemos ler a Escritura – “Por isso, quando ledes”

Freqüentemente temos visto como a leitura da Palavra de Deus tem sido negligenciada pelos cristãos. Muitíssimos têm preferido revelações extra-bíblicas. Encarando os fatos de modo sincero, podemos dizer que todo aquele que não se satisfaz com o que o Senhor nos deixou legado, ainda não amou a Cristo com completa inteireza de coração. Buscar uma revelação além da Escritura ou que venha ferir a sã doutrina de Cristo é ultrajar a Deus e afirmar que Ele nos deixou um conhecimento incompleto, de maneira que precisamos, supostamente, ir a homens para obter uma maior graça. Jamais podemos, entretanto, advogar novas revelações aos homens no que tange à administração da Palavra e em matéria de salvação, pois firmemente lemos que só é lícito praticar e ordenar as coisas prescritas (Dt 12.32). Reforçamos, ainda, que o Espírito Santo é livre para agir da maneira como lhe convém (Jo 3.8), de maneira que não estamos afirmando que o Ele não mais age em nosso meio; pelo contrário, afirmamos que Ele está firmemente presente em Sua Igreja, aperfeiçoa a mesma para triunfar com Cristo e é plenamente ativo, se limitando, apenas, a agir de acordo com o que foi revelado em Sua Palavra, isto é, porque o Senhor não pode mentir e nem se contradizer (Tg 1.17), jamais agirá contrariamente ao que nos deixou para o ensino (2Tm 3.16-17).

As consequências de não se conhecer a Bíblia são graves e os homens constantemente a distorcem por não a conhecerem. O Senhor afirma que o desconhecimento de Sua Palavra é a causa de entendimentos errôneos. Por exemplo, quando o Mestre foi inquirido acerca de quem estaria eternamente unido com a viúva que se casou com seus cunhados, respondeu aos saduceus, os quais não criam na ressurreição (Mt 22.23): “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mt 22.29). Noutro lugar, afirmou sobre a acusação de Seus discípulos não lavarem as mãos antes das refeições (Mt 15.2), demonstrando cristalinamente que a adoração daqueles escribas e fariseus (Mt 15.1) era falsa e não recebida por Deus: “Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15.8-9).

Observemos como o Senhor usa de uma expressão precisa para aqueles que com sua boca o professam, mas na realidade sequer o conhecem: “em vão me adoram”. A palavra traduzida por “vão” é deveras incisiva, significando uma ideia através da tentativa de manipulação, ou seja, uma busca sem sucesso, ou então de punição. O que Cristo diz é que se alguém se achega a Ele simplesmente dizendo fazer parte de Sua família, quando não possui o correto conhecimento de Deus, pois o “seu coração está longe de mim”, acaba por adorar sem qualquer sucesso em ter acesso a Deus, pois o que estão a realizar “são preceitos dos homens”.

Tal ensinamento deve nos levar à reflexão se o que temos pensado acerca de Deus e de tudo o que foi criado, é de fato vindo da Palavra de Deus. Noutras palavras, devemos olhar para nossos pressupostos internos e refletir sobre como temos encarado o mundo, a fim de verificar se estamos como que olhando com as lentes de Deus. Isto foi dito pelo apóstolo, quando afirmou: “nós temos a mente de Cristo” (1Co 2.16).

Como alguns professos da fé cristã podem afirmar ter a mente de Cristo, ou seja, enxergarem o mundo e nele viverem como o próprio Cristo, se os tais não meditam dia e noite nas Escrituras (Sl 1.2)? Para agravar ainda mais a situação destes miseráveis homens, quando afirmam ser cristãos, mas não leem a Escritura e sequer se deleitam na Lei de Deus, acabam por ferir o terceiro mandamento: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” (Êx 20.7). Tal mandamento possui, dentre outras nuances, o condão de levar os homens a não professarem terem o Senhor como seu Salvador, se assim não vivem; também faz com que os homens refreiem suas atitudes, afinal, carregam o bom nome de Cristo consigo – “vale mais ter um bom nome do que muitas riquezas” (Pv 22.1).

A única maneira de entendermos a vida cristã será mediante a firme leitura. Poderíamos exemplificar com a falsa noção de céu que por vezes acabamos nutrindo. Ora, no que consiste o céu? Quer dizer, o que haverá no céu de mais excelso? Não há qualquer erro em dizer que ele será um lugar de bem aventuranças eternas, onde “Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor” (Ap 21.4). Todavia, notemos qual o fundamento da vida eterna: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3). A exclusão das lágrimas, choro e dores, não é o a essência do céu; a essência será o conhecer o único e verdadeiro Deus, de maneira infinitamente mais bela e perfeita do que o podemos conhecer nesta terra!

Devemos perceber algo divino – “podeis perceber”

Quando lemos a Escritura é preciso ter um senso do que estamos lendo. A expressão bíblica “podeis perceber”, poder-se-ia se traduzir, para nós, em forma de pergunta: o que temos percebido? Ou: temos percebido que ela transcende a humanidade? Temos percebido o que o Espírito está falando e orientando? Temos conhecido o projeto divino? Quando lemos o Pentateuco, isto é, os cinco primeiros livros da Bíblia, o “compêndio da Lei de Deus”, enxergamos a bondade, beleza, suavidade e misericórdia de Deus em Jesus Cristo? Quando lemos os provérbios escritos por Salomão, entendemos que a sabedoria é como que o próprio Cristo personificado? Quando lemos Cantares, entendemos quão grande é o amor de Cristo por sua Igreja?

Como cristãos, é necessário averiguar o que diz a Escritura: “podeis perceber”. O tempo da sentença não diz respeito a “poderão” ou “poderiam”, mas, sim, “podeis”. Mostra uma possessão que nos é possível. Mas possível como se somos pecadores e espiritualmente limitados em relação à grandeza do Criador? Podemos perceber pelo Espírito Santo! Compreender a divindade das palavras registradas (2Tm 3.16-17) é algo possível e deve ser buscado por todos os filhos do Senhor. Em nossa responsabilidade, devemos rogar ao Senhor para que nos agracie com o correto entendimento de Sua Palavra, pois quantas são as vezes que nos achegamos à Escritura de modo leviano, displicente, sem praticarmos o nosso culto racional (Rm 12.1), isto é, com entendimento do que estamos realizando?

Precisamos ler a Escritura e termos nossos corações impactados. A leitura bíblica individual deve transformar a vida interior e as atitudes exteriores. Quando isto acontece, não raro é fruto de nossa má compreensão sobre a que as palavras de Deus são a verdadeira comida e bebida. A necessidade imperiosa é buscarmos ler Escritura de modo a poder a manejar corretamente.    Porque vivemos em uma época de facilidades e automatismos, lamentavelmente transpomos este conceito para a vida de cristã, como se a leitura bíblica, por si só, como um dever, fosse trazer todos os benefícios do Espírito Santo.

A quem buscamos compreender – “a minha compreensão do mistério de Cristo”

Devemos buscar somente a Cristo. Ele é o princípio e o fim. Seu Nome está implícito e explícito de Gênesis a Apocalipse. Vemos aí o mistério de Cristo!

A Escritura sem o conhecimento efetivo de Cristo e sem o resultado prático desse conhecimento em nossa vida, não frutificará em nada. “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (Jo 5.39 – grifo meu). Se não buscamos encontrar Cristo em cada pormenor da revelação de Deus, então estamos a lendo somente para proveito egoísta, como se fora uma livro de agradáveis pensamentos e norteador de boas ações. Se Cristo não estiver não estiver em preeminência em nossa vida cristã e em especial quando lemos a Palavra, então há de muito errado conosco.

É necessário recordar que Ele é a fonte da água da vida: “aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” (Jo 4.14). Não homem que vá com sede à Palavra e retorne dela sem ter sido saciado. Não obstante esta realidade, devido ao pecado, inúmeras vezes os cristãos se dirigem à Escritura e em vez de voltarem “com alegria, trazendo consigo os seus molhos” (Sl 126.6), não se visualizam qualquer mudança em suas mentes e corações. Isto acontece porque não a lemos de maneira convicta e olhando para o trono da graça. Somos ávidos por Suas bênçãos, mas não desejamos Suas admoestações; cremos em Seu poder salvífico, mas não em sua santificação; O louvamos pelo poder criador, mas nos esquecemos da mão sustentadora.

Não fosse Cristo, nada existiria, pois a Escritura também atribui a criação ao Filho: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). Tão grandiosa é a obra de Cristo, que o Reino é comparado ao mais excelente tesouro:”Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo” (Mt 13.44). Anotemos a importância de vender tudo o que se tem, para comprar o preciso campo – assim devemos ir até a Escritura, deixando, como o homem que fora curado e que abandonou a sua capa que o impedia de correr (Mc 10.50), todo o embaraço e passando a procurar por Cristo Jesus, porque temos a promessa: “E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração” (Jr 29.13).

Muitos, infelizmente têm buscado viver de experimentalismos e “novas revelações”. Isso é perigoso. Não podemos deturpar o verdadeiro e sadio sentido do termo “Palavra revelada”. Nosso foco, na verdade, é mostrar o que de fato é “revelação bíblica”, pois vemos em muitas igrejas certa deturpação, exagero e mau uso do termo “revelação”, dando assim brechas (talvez intencionais) para chover sobre a igreja “novas revelações doutrinárias”. A heresia cavalga aí.
Se formos para a Escritura buscando encontrar qualquer coisa que não seja Cristo ou buscando somente aquilo que agrada ao nosso enganoso coração, então estamos errando em nosso o alvo. Devemos fazer como prescreve a Palavra de Deus:

“prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus” (Fp 3.12). O crente genuíno só pode prosseguir firme e olhando para o alvo e pensando nas coisas de cima, se a Palavra de Deus nortear os seus caminhos.

Sejamos agraciados, segundo a boa medida com que o Senhor intenta nos abençoar, a buscarmos ao Senhor somente em Sua palavra.

Onde Estás? (John Charles Ryle)

E o Senhor Deus chamou a Adão e disse-lhe: onde estás?” (GENESIS 3.9)

CARO LEITOR,

A pergunta que está diante dos seus olhos é a primeira que Deus fez ao homem após a queda. É a pergunta que Ele fez a Adão no dia em que comeu o fruto proibido e se tornou um pecador.

Adão e sua esposa esconderam-se entre as árvores do jardim do Éden em vão. Foi em vão que tentaram se esconder dos olhos do Deus que tudo vê. Eles ouviram a voz do Senhor Deus andando na viração do dia. “E o SENHOR Deus chamou a Adão e disse-lhe: onde estás?” (Gn. 3.9). Pense por um momento no quão terrível deve ter sido ouvir essas palavras! Quais devem ter sido os sentimentos de Adão e Eva?

Caro leitor, passaram-se 6 mil anos desde que essa pergunta foi feita pela primeira vez. Milhões de filhos de Adão têm vivido e morrido, e têm tomado sua própria direção.  Milhões ainda estão por toda a face da terra e cada um deles tem uma alma a ser salva ou perdida. Mas nenhuma pergunta jamais foi feita ou jamais poderá ser feita de modo mais solene do que esta que está diante de você: onde você está? Onde você está aos olhos de Deus? – Venha e me dê sua atenção enquanto lhe digo algumas coisas que podem iluminar essa questão.

Não sei quem você é – se você é membro de uma igreja ou um descrente, se você é culto ou inculto, se rico ou pobre, jovem ou velho: não sei nada sobre isso. Mas eu sei que você possui uma alma imortal e desejo que essa alma seja salva. Sei que você terá de se apresentar diante do trono de Deus e eu quero prepará-lo para isso. Eu sei também que você estará para sempre no paraíso ou no inferno, e quero que você escape do inferno e alcance o paraíso. Eu sei que a Bíblia contém muitas informações importantes e confiáveis sobre os habitantes da Terra e quero que todo homem, mulher e criança no mundo todo as conheçam e ouçam. Eu creio em cada palavra da Bíblia e, porque eu acredito, pergunto a cada leitor deste texto: “Onde você está aos olhos de Deus?”

 

  1. Em primeiro lugar, existem muitas pessoas, segundo a Bíblia, pelas quais eu devo temer e me preocupar. Caro leitor, você é uma delas?

Há aqueles que, se as palavras da Bíblia significam alguma coisa, ainda não se converteram e nasceram novamente. Eles não estão justificados. Não estão santificados. Eles não possuem o Espírito. Eles não têm fé. Eles não têm graça. Seus pecados não foram perdoados. Seus corações não foram transformados. Eles não estão prontos para morrer. Eles não estão preparados para o paraíso. Eles não são nem retos nem santos. Se isso tudo não é verdade, as palavras da Bíblia não possuem valor nenhum.

Algumas dessas pessoas, ao que tudo indica, pensam tanto em suas almas quanto um animal que perece. Não há nada que indique que elas pensem na vida que está por vir mais do que um cavalo ou um boi, que não têm nenhum entendimento. Evidentemente, seus tesouros estão todos na Terra. Aquilo para que elas dão valor está plenamente deste lado do túmulo. Sua atenção é engolida pelas coisas perecíveis do tempo. Carne, bebida e vestimenta, dinheiro, casas e terras, negócios, prazer ou política, casamento, leituras ou empresas, essas são as coisas que preenchem seus corações e as ocupam. Elas vivem como se a Bíblia não existisse. Elas seguem a vida como se a ressurreição e o julgamento eterno não fossem verdade. Já a graça, conversão, justificação e santidade são coisas com as quais, como Lucius Galio, não se importam (Atos 18: 14-15). São palavras e nomes que elas não conhecem ou desprezam. Todas essas pessoas irão morrer e todas irão ser julgadas. E, ainda assim, parecem estar ainda mais duras do que o diabo, pois parecem não crer nem tremer. Pobres homens! Que estado terrível para uma alma imortal se encontrar! E como isso é frequente!

Algumas das pessoas têm uma forma de religião, mas não é nada além de uma forma, no final das contas.  Elas se declaram cristãs. Elas vão a um lugar de adoração aos domingos. Mas isso é tudo. Onde a religião do Novo Testamento é vista em suas vidas? Em lugar nenhum! O pecado simplesmente não é o pior inimigo delas, nem o Senhor Jesus é seu melhor amigo, nem a vontade de Deus é quem rege suas vidas, e também a salvação não é o grande propósito de sua existência. O espírito de inércia controla seus corações e elas são facilmente contentadas e autossatisfeitas. Sua forma de pensar está como em Laodiceia e elas imaginam que possuem uma religião suficiente.

Deus fala a elas continuamente, pelas Suas misericórdias, por meio de aflições, por sermões, mas elas não desejam ouvir. Jesus bate à porta de seus corações, mas elas não querem abri-la. Elas ouvem sobre a morte e a eternidade, mas não se preocupam. Elas são alertadas a respeito do perigo do amor ao mundo e se lançam nele sem culpa. Elas ouvem sobre a vinda de Cristo à Terra para morrer pelos pecadores, mas não se comovem. Parece haver um lugar para qualquer coisa em seus corações, menos para Deus. Há espaço para os negócios, para os prazeres, para o que é leviano, para o pecado, para o diabo e para o mundo. No entanto, assim como aquela pousada em Belém, não há espaço para Aquele que os criou: sem permissão para Jesus, o Espírito e a Palavra! Pobres homens! E como isso é frequente!

Caro leitor, solenemente eu pergunto à sua consciência, diante de Deus, você seria uma dessas pessoas que eu acabei de descrever? Há milhares de pessoas como essas em nosso planeta – milhares no Reino Unido e na Irlanda. Milhares em nosso país perecem, milhares em nossas cidades, milhares no meio de homens religiosos, milhares entre os descrentes, milhares entre os ricos e também entre os pobres. Agora, você é uma dessas pessoas? Se a resposta é sim, eu temo por você. Tremo e estou alarmado por você, além de muito preocupado.

O que exatamente eu temo? Tudo. Temo que você persista rejeitando a Cristo até que perca sua própria alma. Temo que seja entregue a uma mente depravada e que não acorde nunca mais. Temo que você chegue à tamanha morte e dureza de coração que nada além da voz de um arcanjo e da trombeta de Deus interrompa seu sono. Temo que você se apegue tanto a este mundo inútil que nada além da morte possa separá-lo dele. Temo que você viva sem Cristo, morra sem perdão, levante-se novamente sem esperança, receba o julgamento sem misericórdia e seja tomado pelo inferno.

Leitor, devo alertá-lo. Fuja da ira vindoura, assim como Ló.  Eu imploro que se lembre de que a Bíblia é verdadeira e irá se cumprir, que o fim de seu modo atual de viver é o sofrimento e a dor. Lembre-se de que sem santidade ninguém verá a Deus, que os ímpios e todos aqueles que se esqueceram de Deus deverão ser lançados ao inferno, e que Deus um dia irá pedir contas sobre tudo o que você fizer. Lembre-se também que os pecadores sem Cristo como você nunca poderão entrar na presença dEle, pois Ele é santo e fogo consumidor. Ah! Que você considere tudo isso! Onde está o homem que pode deixar seu dedo na chama de uma vela por um minuto? Quem poderá viver em chamas eternas?

Eu conheço bem os pensamentos que Satanás colocará em seu coração à medida que você lê essas palavras. Conheço bem as desculpas que você usará. Você irá dizer: “a religião é boa, mas o homem deve viver”. Eu lhe respondo: “é bem verdade que o homem deve viver, mas é também é verdade que o homem deve morrer”. Você pode dizer: “o homem não pode morrer de fome”. Eu respondo que não quero que alguém morra de fome, mas também não desejo que alguém queime no inferno. Talvez você ainda me diga: “o homem deve se preocupar primeiramente com seus negócios neste mundo”. Eu lhe respondo: “Sim! E o primeiro negócio com que o homem deve se preocupar é aquele que é eterno: sua alma”.

Caro leitor, eu peço que você, de todo o coração, liberte-se de seus pecados, arrependa-se e converta-se. Eu peço que você mude seu curso – altere seus caminhos no que se refere à religião. Peço que saia da sua atual displicência em relação à sua alma e se torne um novo homem. Eu lhe ofereço, através de Jesus Cristo, o perdão de todos os seus pecados anteriores: perdão gratuito e completo! Perdão pronto, presente e eterno. Digo-lhe, em nome do meu Mestre, que se você se voltar ao Senhor Jesus Cristo, esse perdão será seu de uma vez por todas. Ah! Não recuse esse convite gracioso! Não ouça sobre como Cristo morreu por você, derramando Seu próprio sangue por você, esticando Suas mãos até você e continue indiferente. Não ame esse pobre mundo perecível mais do que a vida eterna. Ouse ser corajoso e decidido. Tome a decisão de abandonar a larga estrada que leva à destruição.  Levante-se e fuja pela sua vida no tempo que se chama hoje. Arrependa-se, creia, ore e seja salvo!

Leitor, eu temo por você devido a seu estado atual. O desejo de meu coração é que Deus o faça temer por você mesmo.

  1. Em segundo lugar, existem muitos que pensam que a Bíblia afirma que devem continuar em dúvida.Leitor, você é um deles?

Há muitos que eu devo chamar de “quase cristãos”, pois não conheço nenhuma outra expressão na Bíblia que descreva tão corretamente seu estado. Eles fazem muitas coisas que são corretas e boas, e até mesmo louváveis aos olhos de Deus. Eles vivem de maneira moral e estão livres de pecados evidentes. Eles mantêm hábitos decentes e apropriados. Eles costumam ser cuidadosos na prática da graça. Eles parecem amar a mensagem do Evangelho. Eles não se ofendem com a verdade presente em Jesus, mesmo que dita claramente. Eles não se opõem a companhias, conversas e livros religiosos. Eles concordam com tudo o que é dito sobre suas almas e tudo isso é bom.

No entanto, não há qualquer movimento em seus corações e nem mesmo um microscópio poderia detectá-lo. Eles são como aqueles que permanecem imóveis. Semanas e anos se passam diante deles e eles permanecem onde estão. Eles sentam-se diante de nossos púlpitos e aprovam nossos sermões. Ainda assim, não parecem melhorar apesar de tudo o que ouvem e leem. Há sempre a mesma regularidade, a mesma preocupação com os meios de graça, o mesmo desejo e a mesma esperança, o mesmo modo de se falar sobre religião, mas não há nada além disso. Não há progressos em seu Cristianismo. Não há vida, nem calor ou realidade nele. Suas almas parecem estar congeladas e, infelizmente, tudo isso está errado.

Caro leitor, você é uma dessas pessoas? Há milhares delas nos dias de hoje, em nossas igrejas e capelas. Peço que você dê uma resposta honesta a esta pergunta: é este o estado de sua alma diante de Deus? Se a resposta é sim, posso apenas dizer que sua condição não é satisfatória. Como o apóstolo disse aos gálatas, assim eu lhe digo: “temo que seus esforços sejam inúteis”.

Como posso me sentir de maneira diferente? Há apenas dois lados no mundo: o lado de Cristo e o lado do inimigo, e você nos deixa em dúvida quanto ao lado em que se encontra. Não me atrevo a dizer que você não se preocupa com religião, mas não posso dizer que você tenha se decidido. Não deveria contá-lo entre os descrentes, mas não posso colocá-lo entre os filhos de Deus. Você tem uma luz, mas estará ela guardando o conhecimento? Você tem um sentimento, mas seria a graça? Você não é profano, mas será que é um homem de Deus? Pode ser que seja parte do povo de Deus, mas você vive tão próximo à fronteira que não posso dizer com segurança a que nação você pertence. Talvez você não esteja espiritualmente morto mas, como uma árvore doente no inverno, também não posso saber se você está vivo. E assim você vive sem provas satisfatórias. Não posso evitar algumas dúvidas sobre você e certamente há um motivo para isso.

Não posso ler os segredos de seu coração. Talvez ali exista um pecado de estimação que você segura e do qual não quer abrir mão. Essa é uma doença que impede o crescimento de muitos cristãos confessos. Talvez você não avance por receio dos homens: você pode estar com medo ou vergonha de seus amigos. Essa é uma corrente de ferro que amarra a muitos. Talvez você seja negligente com suas orações pessoais e com sua comunhão com Deus. Esse é um dos motivos de tantos cristãos fracos e doentes espiritualmente. Entretanto, não importa qual seja a sua razão, eu o alerto a fim de que preste atenção no que está fazendo. Seu estado não é satisfatório nem seguro. Como os gibeonitas, você se encontra caminhando para Israel, mas semelhantemente a eles, você não possui nenhum direito à herança, ou às consolações e recompensas de Israel. Ah, desperte para o perigo em que se encontra! Esforce-se para que possa entrar.

Caro leitor, você deve sair de cima do muro se deseja aproveitar as boas evidências de sua salvação. É preciso que haja uma mudança em você. Não pode ficar parado! Não há um estado inerte no verdadeiro Cristianismo. Se a obra de Deus não está avançando no coração de um homem, a obra do inimigo é que está progredindo. E se um homem permanece sempre no mesmo lugar espiritual, a probabilidade é a de que ele não tenha uma religião verdadeira. Não basta vestir a armadura de Cristo, devemos também lutar em sua batalha. Não basta parar de fazer o mal, devemos aprender a fazer o bem. Ah, cuidado para não ser considerado um servo inútil, por não saber o que fazer com seus talentos, pois será sua destruição e sofrimento. Lembre-se: quem não está com Cristo, está contra Ele.

Leitor, nunca descanse até que descubra se você possui ou não a graça em seu coração. Desejos, bons sentimentos e convicções são excelentes, mas sozinhos não são suficientes para salvá-lo. Gosto de ver os botões e as flores em uma árvore, mas prefiro ver frutos maduros. Na parábola, os ouvintes que estavam à beira do caminho ouviram, mas a palavra não fincou raízes em seus corações: eles não foram salvos. Os ouvintes do solo pedregoso ouviram com alegria, mas a palavra não alcançou profundidade neles e não foram salvos. Os ouvintes do terreno cheio de espinhos conseguiram algo semelhante a um fruto, mas a palavra foi sufocada pelo mundo e eles não foram salvos. Você treme com a palavra? Assim também ficou Felix, mas ele não foi salvo. Você gosta de ouvir bons sermões e tudo aquilo que é correto? Herodes também gostava, mas ele não foi salvo. Você deseja ter a morte dos justos? Assim também desejava Balaão, mas ele não foi salvo. Você conhece a Verdade? Judas Iscariotes também conhecia, mas não foi salvo. E você será salvo se continuar da maneira que é? Duvido. Lembre-se da esposa de Ló.

Caro leitor, mais uma vez peço-lhe que preste atenção no que está fazendo. Se você se acomodar e não seguir em frente, como poderia não ficar em dúvida quanto à sua alma?

Porém, há aqueles sobre os quais permaneço na dúvida. Aqueles que estão até mesmo em situação pior do que a dos “quase cristãos”. Esses são aqueles que um dia fizeram uma pública profissão de fé, mas que hoje desistiram. Um dia foram reconhecidos como crentes verdadeiros, mas se voltaram para o mundo e caíram. Eles retrocederam e não mais se encontram onde haviam conseguido chegar. Não andam mais nos caminhos que pareciam ter escolhido. Em resumo, são apóstatas.

Leitor, é esse o estado de sua alma? Se a resposta é sim, saiba que é certo que sua situação não é satisfatória. Não importa quais foram as experiências que um dia você teve? Não importa que um dia você tenha sido contado entre os cristãos verdadeiros? Talvez tenha sido tudo um engano e uma ilusão. É para a situação atual da sua alma que eu olho agora e, enquanto faço isso, permaneço em dúvida.

Eu acredito que houve um tempo em que todos os santos de Deus alegravam-se ao vê-lo. Naquela época você parecia amar ao Senhor Jesus com sinceridade e desejar abandonar aquela estrada larga para sempre por amor a Deus. A Palavra de Deus parecia-lhe doce e preciosa, a voz dos ministros de Cristo soava agradável e na reunião do povo de Deus era onde você amava estar. Você nunca faltava aos encontros semanais. Seu lugar nunca estava vazio na igreja. Sua Bíblia nunca estava longe de suas mãos. Não havia dias em sua vida sem uma oração. Seu zelo era, de fato, fervoroso. Suas afeições espirituais eram verdadeiramente calorosas. Você foi bem por um tempo. Mas onde você se encontra agora?

Você voltou ao mundo. Você levou um tempo, olhou para trás e voltou. Temo que tenha deixado seu coração para trás. Você voltou aos atos e obras do velho homem. Você abandonou seu primeiro amor. Sua bondade era como as nuvens da manhã e, com o orvalho, dissipou-se. Suas convicções estão morrendo, enfraquecendo-se a cada dia. Elas estão murchando e mudando de cor como as folhas no outono, que logo caem e desaparecem. Os cabelos brancos, que revelam o tempo, estão chegando aos poucos à sua cabeça. A pregação, a qual você amava, hoje o cansa. Os livros que lhe davam prazer, hoje não mais o alegram. O progresso do Evangelho de Cristo não mais o interessa. A companhia dos filhos de Deus não é mais procurada. Eles ou você devem mudar. Você está ficando com vergonha do povo santo, está ficando impaciente com a repreensão e o aconselhamento, inseguro em seu temperamento, despreocupado acerca de seus pequenos pecados, sem medo de se misturar ao mundo. Um dia não foi assim – talvez você mantenha alguma religião, mas você está esfriando. Você já está morno e aos poucos ficará frio, e não demorará para que se torne congelado: religiosamente congelado e mais morto do que estava antes. Você está entristecendo o Espírito e logo Ele o deixará. Você está tentando o diabo e logo ele virá até você. Seu coração está pronto para ele e seu estado final será pior do que o inicial. Ah, leitor, endireite o que permanece e que está prestes a morrer. Como posso evitar a dúvida quanto a sua alma?

No entanto, não posso deixá-lo partir sem tentar ajudá-lo. Eu realmente sinto por você por estar tão infeliz. Eu tenho certeza. É inútil negar que isso seja verdade. Você tem estado infeliz desde que se afastou. Está infeliz em casa e infeliz fora dela. Infeliz quando com alguma companhia e também infeliz quando sozinho. Infeliz quando se deita e quando se levanta. Talvez você possa ter conquistado riquezas, honra, amor, obediência e amigos. Ainda assim, a angústia permanece. Existe uma estiagem de consolação em você, há uma carência total de paz interior. Seu coração está doente, você facilmente adoece, facilmente se descontenta com os outros, porque está descontente consigo mesmo. Você está semelhante a um pássaro que voou para longe de seu ninho – nunca sente que está no lugar certo. Você possui muita religião para curtir o mundo e pouquíssima religião para desfrutar a Deus. Você está cansado da vida e, mesmo assim, teme a morte. Verdadeiramente, as palavras de Salomão se aplicam ao seu caso: “Você está farto de seus próprios caminhos”.

Leitor, apesar de todos os seus desvios, há esperança até mesmo para você. Não há nenhuma doença da alma que o glorioso Evangelho não possa curar. Há um remédio até mesmo para o seu caso – humilhante, eu sei – mas um remédio certeiro, e eu sinceramente o incentivo a tomá-lo. Esse remédio é a fonte aberta e disponível a todos os pecados – a misericórdia gratuita de Deus em Jesus Cristo. Vá e lave-se nessa fonte sem demora e Jesus Cristo o tornará completo.

Pegue sua Bíblia rejeitada e veja como Davi caiu e cometeu um pecado imensamente reprovável por um ano inteiro e, mesmo assim, quando se arrependeu e voltou-se para Deus, houve misericórdia para ele. Tome a história do apóstolo Pedro e veja como ele negou a seu Mestre por três vezes e, ainda assim, quando chorou e se humilhou, houve misericórdia para ele. Ouça como são confortantes as palavras que nosso Senhor e Salvador envia a você neste dia: “Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados e eu lhes darei descanso”. “Mas você tem se prostituído com muitos amantes e, agora, quer voltar para mim?” “Embora seus pecados sejam vermelhos como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; embora sejam rubros como púrpura, como a lã se tornarão”. “Voltem, filhos rebeldes. Eu os curarei da sua rebeldia.” Que você possa tomar as palavras de Israel neste dia e responder: “Sim! Nós viremos a ti, pois tu és o Senhor, o nosso Deus.” (Mateus 11.28, Jeremias 3.1, Isaías 1.18, Jeremias 3.22.)

Leitor, oro a Deus que essas palavras não sejam trazidas a você em vão. Mas lembre-se que, até que você abandone a sua rebeldia, eu devo continuar em dúvida quanto a sua alma.

  1. Em terceiro lugar, existem alguns pelos quais a Bíblia afirma que eu devo ter uma boa esperança. Caro leitor, seria você um desses?

Aqueles de quem falo descobriram que são pecadores culpados e têm fugido para Cristo pela fé na salvação. Eles descobriram que o pecado é algo triste e horrível e, sendo assim, odeiam-no e desejam ser libertos de sua presença completamente. Não enxergam nada além de fraqueza e corrupção em si mesmos, mas no Senhor Jesus enxergam as muitas coisas que suas almas exigem: perdão, paz, luz, conforto e força. O sangue de Cristo, a cruz de Cristo, a justiça de Cristo, a intercessão de Cristo: são essas as coisas nas quais suas mentes amam refletir. Suas paixões estão agora postas nas coisas do alto. Preocupam-se apenas em agradar a Deus. Vivendo, seu maior desejo é viver para Deus. Morrendo, seu único desejo é morrerem no Senhor. Após a morte, sua esperança é que eles estejam com o Senhor.

Caro leitor, é esse o estado de sua alma? Você conhece algo da fé e esperança, paixões e experiências que eu acabei de descrever? Você encontra algo em seu coração que responda às questões que acabei de fazer? Se a resposta é sim, agradeço a Deus por isso e parabenizo a você por sua condição. Tenho uma boa esperança quanto à sua alma.

Sei bem que você vive em um mundo cheio de provações. Você ainda está no deserto, você não está em casa. Sei bem que orgulho, descrença e preguiça estão continuamente brigando pelo controle dentro de você. Você tem lutas lá fora e medos aí dentro de você. Não duvido que seu coração seja tão traiçoeiro e falso que você fique frequentemente cansado de si mesmo e diga: “Nunca houve coração como o meu”. Mas, apesar de tudo isso, eu devo ter uma boa esperança quanto à sua alma.

Eu tenho esperança, pois creio que Deus começou uma obra em você que Ele nunca deixará ser destruída. Quem o ensinou a odiar o pecado e amar a Cristo? Quem o fez abandonar o mundo e se deleitar no serviço de Deus? Essas coisas não vêm de seu próprio coração. A natureza não produz tal fruto. Essas coisas são a obra de Deus que, onde Ele começa, sempre termina; que, onde Ele concede a graça, também dará glória. Certamente, trata-se de um cenário para a esperança.

Eu tenho esperança, pois creio que você tenha um interesse por uma aliança eterna, uma aliança organizada em tudo e certa. O selo do paraíso está em você. As marcas do Senhor Jesus estão em sua alma. Pai, Filho e Espírito Santo, todos se engajaram e se comprometeram a lhe entregar a salvação de sua alma. Há um cordão de três dobras em sua volta que nunca foi rompido. Esse é um cenário para a esperança, com certeza.

Eu tenho esperança, pois tenho um Salvador, cujo sangue pode limpar todo pecado – um Salvador que convida a todos e não lança ninguém que vem até Ele fora, um Salvador que não quebrará o caniço rachado, nem apagará o pavio fumegante, um Salvador que pode se comover e sentir nossas enfermidades e não se envergonha de chamá-lo de irmão, um Salvador imutável: o mesmo ontem, hoje e sempre, sempre capaz de salvar e sempre poderoso para salvar. Certamente, esse é um cenário de esperança.

Eu tenho esperança, pois o amor de Cristo é um amor que excede todo entendimento. Tão livre, gratuito e imerecido! Tão caro, custando a própria morte! Tão poderoso e capaz de conquistar o que for! Tão imutável e duradouro! Tão paciente e longânimo! Tão amável e cheio de compaixão! Verdadeiramente, nossos pecados superam o conhecimento e isso é o amor de que nossas almas precisam. Certamente esse é um cenário de esperança.

Eu tenho esperança, porque Deus deu a você inúmeras e maravilhosas promessas – promessas que serão mantidas até o fim; promessas de graça para cada momento de necessidade, e força de acordo com o seu dia. Promessas que jamais foram quebradas, todas garantidas em Cristo Jesus. Certamente, esse é um cenário de esperança.

Ah, leitor, se você crê, todas essas coisas são uma grande segurança. Se Deus é por nós, quem estará contra nós? Não há condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus. Nada jamais os separará do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Agora, preste atenção e deixe-me dizer o que eu desejo que você e todo verdadeiro Cristão busquem. Desejo que vocês busquem mais esperança. Não quero que você fique satisfeito com aquela pequena confiança que forma muitos dos filhos de Deus. Desejo que você busque a convicção plena de esperança, aquela esperança viva que nunca deixa um homem envergonhado.

Eu falo isso como um amigo que também viaja pelo caminho estreito. Falo como alguém que deseja que sua própria esperança cresça e aumente a cada ano que vive, e deseja que a esperança de todos os seus irmãos na fé também possa crescer. Eu sei que escrevo tudo isso para trazer-lhe paz. Por todo o seu desejo de conforto para os momentos que estão por vir, eu imploro que procure a convicção plena de esperança.

Caro leitor, se você é, de fato, alguém que crê, você sabe bem que todos nós precisamos de exortações e conselhos mútuos. Você e eu, em nossa melhor forma, somos apenas crianças no culto a Deus. Nossas almas estão sempre prontas para voltarem ao pó. Podemos melhorar e progredir todos os dias. Ouça, então, algumas coisas que nunca devemos esquecer se desejamos um pouco mais de esperança; algo que nunca perderemos se soubermos como mantê-la quando a encontrarmos.

Se desejamos crescer em graça e ter mais esperança, devemos buscar mais conhecimento a respeito de nosso Senhor Jesus Cristo. Como sabemos pouco sobre Ele! Nosso amor frio por Ele testemunha contra nós mesmos. Nossos olhos não podem estar abertos para quem Ele é e para o que Ele faz por nós, ou então deveríamos amá-lo mais. Há alguns cristãos cujas mentes parecem estar sempre correndo para a doutrina da santificação e se esquecendo de todo o resto. Eles são capazes de defender calorosamente cada pequena prática e, ainda assim, estão frios no que diz respeito a Cristo. Eles vivem de acordo com as regras, vivem de maneira ética, fazem muitas coisas e pensam que, em pouco tempo, estarão muito mais fortes. No entanto, por todo esse tempo, eles perdem de vista a grande verdade: a de que nada santifica mais do que o conhecimento e a companhia do Senhor Jesus.

Ele diz: “Permaneçam em mim e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim”.  Cristo deve ser a fonte de nossa santidade, assim como a rocha da nossa fé. Cristo deve ser tudo em todos. Eu tenho certeza de que Ele é precioso para você que acredita. Ele deve ser precioso por Seu ministério e precioso por Sua obra. Ele deve ser precioso por tudo o que já fez: Ele nos chamou e estimulou, lavou-nos e nos justificou. Deve ser precioso pelo que Ele está fazendo agora mesmo: dando-nos força, intercedendo por nós, compadecendo-se de nós. Ele deve ser precioso pelo que ainda fará: Ele irá nos manter salvos até o fim, levantar-nos e nos reunir na Sua vinda, apresentando-nos inculpáveis diante do trono de Deus e irá nos dar descanso com Ele em Seu reino. Mas, leitor, Cristo deve ser ainda mais precioso para nós do que Ele já tem sido. Eu quero dizer, ainda que fossem as últimas palavras da minha vida, que acredito que nada além do conhecimento de Cristo poderia alimentar a alma de alguém. Toda a nossa escuridão surge por não nos mantermos próximos a Ele. Os moldes da religião são úteis para nos auxiliar e os mandamentos são importantes para nos fortalecer. Entretanto, a doutrina a que devemos nos apegar deve ser a de Cristo crucificado em favor dos pecadores, Cristo visto por meio da fé, Cristo presente no coração, Cristo como o pão da vida e Cristo como a água da vida. Nada além disso jamais irá salvar, satisfazer ou santificar uma alma pecadora. Todos nós precisamos conhecer mais a Cristo. Se iremos crescer em graça e esperança, comecemos por aqui.

Se desejamos crescer em graça e ter mais esperança, devemos buscar conhecer melhor nosso próprio coração. Pensamos que o conhecemos bem, mas não conhecemos. Metade dos pecados que estão nele ficam escondidos de nossos olhos. Não temos a menor ideia de como ele pode nos enganar se tentado ou quais abismos criados por Satanás podem fazer muitos de nós cairmos. Porém, todos nós sabemos, por uma experiência amarga que, por confiarmos em nosso coração, já cometemos muitos erros. Às vezes cometemos tantos erros que perdemos a esperança e chegamos a pensar que não conseguimos nenhuma graça. Se desejamos ser cristãos felizes, paremos de confiar tanto em nosso coração. Aprendamos a não esperar nada dele além de fraqueza e debilidade. Paremos de enxergar molduras e sentimentos nele para nosso conforto. A esperança que for construída baseada em algo dentro de nós será sempre vacilante e instável.

Se desejamos crescer na graça e ter mais esperança, devemos procurar mais santidade e diálogos em nossa vida. Esta é uma lição humilhante de se meditar, mas na qual não devemos pensar por muito tempo. Há uma ligação inseparável entre andar próximo de Deus e encontrar conforto em nossa religião. Nunca esqueça isso! Verdadeiramente, muitos vasos na casa de Deus são fracos, entediantes e sujos. Quando olho em volta, vejo muitas coisas faltando em nosso meio e que Jesus ama. Sinto falta da mansidão e da gentileza do nosso Mestre: muitos de nós somos duros, grosseiros e críticos, e nos afirmamos com orgulho que somos fieis. Sinto falta da verdadeira coragem de confessar a Cristo diante dos homens: muitas vezes pensamos bem mais na hora de ficarmos em silêncio do que na hora de falarmos. Sinto falta da verdadeira humildade: poucos de nós gostamos de ficar com a posição mais inferior ou pensamos mais dos outros do que de nós mesmos ou ainda consideramos nossa própria força nossa maior fraqueza. Eu sinto falta da verdadeira caridade: não muitos de nós temos aquele sentimento altruísta e que não buscam sua própria vontade e felicidade. Sinto falta do verdadeiro espírito de gratidão: nós reclamamos e murmuramos, nós nos inquietamos e nos incomodamos repetidamente com aquilo que não temos e esquecemos aquilo que já possuímos. Raramente estamos contentes. Geralmente há um Mardoqueu em nosso portão. Sinto falta de uma firme separação do mundo: muitas vezes a divisão é confusa. Muitos de nós, como camaleão, fica sempre tomando a cor de nossa empresa; vamos ficando tão semelhantes ao incrédulo que fica difícil de perceber a diferença. Leitor, não é para ser assim. Se queremos mais esperança, devemos ser mais zelosos com as boas obras.

Se desejamos crescer em graça e ter uma esperança mais viva, devemos buscar mais vigilância nos momentos de prosperidade. Não conheço nenhum momento em que a vida e a alma de um crente estejam tão em perigo quanto nos momentos em que tudo está dando certo para ele. Não conheço nenhum momento em que seja tão provável que o crente tenha alguma doença espiritual e deposite todo o fundamento que adquiriu nos dias sombrios e de dúvida em si mesmo. Você e eu gostamos que o curso da nossa vida seja suave e é natural que homens e mulheres de carne e osso pensem dessa maneira. Mas você e eu sabemos muito bem como esse curso suave é perigoso para nossa religião. As sementes das doenças geralmente são plantadas na saúde. É nas férias que as lições são esquecidas. São as coisas doces – e não as amargas – que fazem mal às crianças. São as gentilezas do mundo que machucam os crentes muito mais do que as negações do mundo. Davi não adulterou enquanto fugia da presença de Saul: foi quando Saul estava morto e Davi se tornou rei e quando havia paz em Israel. Cristão, em “O Peregrino”, não perdeu seu diploma selado enquanto lutava com seu inimigo. Foi quando Cristão dormia sob uma árvore agradável e não havia nenhum inimigo por perto. Ah, se nós desejamos uma esperança viva, sejamos vigilantes nos dias de prosperidade e sejamos sóbrios.

Se desejamos crescer em graça e ter uma esperança mais viva, devemos buscar mais fé e contentamento em tempos de provação. A provação muitas vezes faz com que um homem reto e justo fale sem pensar e faça e diga coisas que se levantam como névoa entre sua alma e Cristo. A provação é um fogo que geralmente traz consigo muito entulho para a superfície do coração de um crente e que o faz dizer: “Deus se esqueceu de mim e não há esperança para minha alma. Fui lançado para longe da vista de Deus. Eu estou certo em reclamar”. A provação é a mão de um Pai nos disciplinando para nosso crescimento, mesmo que demoremos a percebê-la dessa forma. A vara vem geralmente como resposta de uma oração por santificação: é uma das formas com que Deus mantém seu trabalho de santificação que nós professamos desejar. Jacó, José, Moisés e Davi: todos passaram por isso. Abençoados são aqueles que suportam pacientemente os cuidados do Senhor – que aguentam a cruz silenciosamente e dizem “está bem”. Aflições que são bem suportadas são promoções espirituais. A paciência que persiste em tempos de aflição, cedo ou tarde, irá produzir uma colheita preciosa de esperança interior.

Se desejamos crescer em graça, e ter uma esperança viva, devemos buscar estar prontos para a segunda vinda de Cristo. Não conheço nenhuma doutrina mais santificadora e estimulante do que a doutrina da segunda vinda de Cristo. Não conheço nenhuma doutrina mais planejada para nos tirar do mundo e nos tornar um cristão cheio de alegria com uma só visão e um só coração.  Mas como são poucos os cristãos que vivem como quem espera a volta de seu Mestre! Se alguém observasse os caminhos de muitos crentes será que pensaria que eles, de fato, amam e esperam a aparição de seu Senhor? Não é verdade que há muitos corações dentre os filhos de Deus que não estão muito prontos para receber Jesus? Esses encontrariam as janelas baixadas, as portas fechadas e fogo inconsumível. Seria uma recepção fria e desagradável. Leitor que crê, não é para ser assim. Nós desejamos mais do que um espírito de peregrinos: devemos estar sempre buscando nossa casa e nos apressando em direção a ela. O dia da vinda do Senhor é o dia do descanso, o dia da redenção completa, o dia em que a família de Deus estará, finalmente, toda reunida. É o dia em que não mais teremos que andar pela fé, mas pela visão: veremos a terra que está distante. Nós iremos contemplar o Rei em Sua beleza. Com certeza devemos dizer diariamente: “Venha, Senhor Jesus, deixe Seu reino vir”. Que vejamos a vinda de Cristo continuamente diante de nossos olhos. Que nós possamos dizer a nós mesmos a cada manhã: “O Senhor em breve voltará” e isso fará bem a nossas almas.

Por fim, se desejamos crescer em graça e termos mais esperança, devemos buscar mais diligência com as obras da graça. É inútil supor que nossa esperança não seja dependente das dores que levamos ao cumprir os mandamentos de Deus. Ela é dependente. E muito. Deus sabiamente tem ordenado isso para que os cristãos preguiçosos raramente gozem de qualquer certeza de sua própria salvação. Ele nos diz que devemos trabalhar e nos empenhar para que asseguremos nosso chamado e eleição. Que os crentes se lembrem disso e guardem essa necessidade no coração. Suspeito que muitos dos que fazem parte do reino de Deus são bem preguiçosos em sua forma de fazer as obras. Conhecem pouco do espírito de Davi quando este disse: “Minha alma anela e até desfalece pelos átrios do Senhor”. Eu tenho minhas dúvidas de que haja muita oração particular antes e após os sermões. E, ainda assim, ouvir apenas não é tudo: quando tudo já foi dito no púlpito, apenas metade do trabalho está feito. Eu tenho minhas dúvidas de que a Bíblia seja lida tanto quanto deveria ser. Nada em minha curta experiência me surpreende tanto quanto a ignorância que prevalece entre os crentes acerca das Escrituras. Eu tenho minhas dúvidas se as pessoas levam a oração pessoal a sério como deveriam levar. Frequentemente achamos natural nos levantarmos sem realmente termos visto ou ouvido qualquer coisa de Deus ou de seu Filho. E tudo isso está errado: é a alma diligente que, de fato, goza de uma esperança viva.

Leitor, mantenhamos o que acabei de mencionar em nossos corações. Resolvamos, com a ajuda de Deus, deixar tudo isso diante de nós continuamente. Oremos por isso, lutemos por isso e nos empenhemos por alcançá-lo.

É assim que se é um Cristão útil. O mundo conhece muito pouco sobre Cristo além do que vê dEle através de Seu povo. Como essas cartas devem ser simples e claras! Um crente esperançoso e que cresce é um sermão vivo. Ele prega muito mais do que eu, pois ele prega por toda a semana, envergonhando os que ainda não são convertidos, afiando os convertidos, mostrando a todos o que a graça é capaz de fazer. Esse é alguém que realmente faz o bem através de sua própria vida e que, após sua morte, deixa um bom testemunho. Como é grande o valor e o poder de um cristão que cresce. Que Deus nos transforme em cristãos assim

É assim que se é um cristão feliz. A felicidade é um presente de Deus, mas que nenhum homem duvide que haja uma relação muito próxima entre seguir a Deus de perto e a alegria completa. Um crente esperançoso e que está crescendo testemunha isso em si mesmo. Ele caminha sob a luz do sol e geralmente se sente iluminado e aquecido. Ele não sacia seu espírito com inconsistências contínuas e, assim, o fogo dentro dele raramente vai se consumindo. Ele conta com muita paz pois ama a lei de Deus de verdade, e todos que o veem são obrigados a reconhecer que é um privilégio e não uma escravidão ser um cristão. O conforto de uma consciência tranquila, um cuidado de Deus e uma caminhada de perto com o Pai. O Senhor faz com que todos nós tenhamos tal ânimo.

E agora, leitores de cada ala com quem falei, eu oro a Deus para que abençoe estas páginas em suas almas. Seja você um daqueles por quem eu temo, seja você um daqueles de quem estou na dúvida, ou um daqueles que eu olho com esperança, o desejo de meu coração e a minha oração é a de que você possa se tornar um homem ou mulher melhor e mais sábio.

Vivemos em tempos estranhos. O mundo parece estar ficando velho e agitado. As sombras estão surgindo. A noite parece estar vindo. A noite em breve estará diante de nós, quando nenhum homem pode trabalhar. Que cada leitor desse texto se volte a si mesmo e se pergunte: onde eu estou? O que eu sou? Para onde estou indo? Qual será o fim desse meu curso atual? Qual é a esperança da minha alma?

Leitor, mais uma vez peço que você não ignore minha pergunta. Pense nela e a considere: ore sobre ela. Que ela possa se apegar ao seu coração e nunca mais o deixar. Que ela possa ser para sua alma algo como a vida dentre os mortos. O tempo está rapidamente indo embora. A vida é uma vasta incerteza. A morte está se aproximando cada vez mais. O julgamento com certeza está por vir. Leitor, onde está você? Onde está você diante de Deus?

Eu permaneço seu Amigo carinhoso,

John Charles Ryle

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Pensai nas coisas que são de cima!

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Tema: A mente firme em Cristo para uma vida abundante, frutífera e agradável a Deus. Texto base: Colossenses 3: 1-10;

Textos auxiliares: Cl 1: 10-14; 1: 21-23; 2: 6-12; 6: 18/ Fp 4: 8; Gabriel F. M. Rocha/ março de 2015.

Introdução: Nosso tempo assiste a um gradativo esmaecer de alguns valores morais que antes se firmaram em vista de uma verdade absoluta e de um sentido. Junto do esmaecer dos bons paradigmas que regiam a forma de vida e conduta dos indivíduos há algum tempo atrás, percebe-se cada vez mais acentuada a fragmentação, também, dos valores cristãos em muitas sociedades. Essa fragmentação faz com que o pecado pareça cada vez mais “normal” e “natural” em nossa sociedade. De certo, a humanidade está corrompida desde o pecado de nossos pais no Édem e, a partir de então, afastada está de Deus (Rm 3: 23). Sendo assim, não se podia mesmo esperar do mundo uma postura que agrade a Deus. Impossível! Há uma humanidade escrava do pecado e totalmente inclinada para o mal. Contudo, muitos valores morais um dia foram construídos em parcial conformidade com a vontade de Deus, considerando a existência de um Ser Transcendente e Absoluto. Um exemplo específico disso é o fato de haver, embora criticado hoje por alguns, um modelo de casamento e família em total correspondência com os valores cristãos. Poderíamos citar aqui vários outros exemplos na filosofia clássica e medieval, mas não vem ao caso.

A questão é: o mundo caminha para a sua condenação e o homem sem Deus, se inclina cada vez mais para o mal (1Jo: 19) . Se as verdades concernentes a Deus e a boa conduta em conformidade com o mesmo Deus vão sendo esquecidas, várias “verdades” e formas de vida virão como paradigmas nessa complexa esfera cultural de nosso tempo e esses modelos de crença, conduta, ou o próprio niilismo que se instaura, vão se esforçar ao máximo para entrar nas igrejas, nos lares e na mente dos cristãos. Essa fragmentação – ou mesmo o abandono – dos valores propriamente cristãos que atravessam os séculos (desde o advento da modernidade) se dá, principalmente, em sociedades que antes o Evangelho foi pregado com notável poder e de forma triunfante. Relevantes homens foram usados por Deus. Homens que negaram suas vidas e aceitaram o martírio, provando por seus testemunhos pessoais e em praças públicas o que de fato é carregar a cruz de Cristo e morrer nela. Na modernidade, através da confiança depositada na razão, na racionalidade instrumental e na ciência como capazes de conferir sentido, dar respostas e dirigir a vida humana, o mundo, enfim, declarou sua inimizade com Deus, abandonando qualquer princípio que viesse sugerir uma fé e a existência de um Deus Verdadeiro, Absoluto e Bom. E agora, no seio da pós-modernidade, vemos esse alvoroço todo. Há uma crise de sentido. Muitos assumiram a postura de inimigos de Deus, sendo totalmente afastados da luz e amantes das trevas. Homens sem rumo e sem escrúpulos. O individualismo tomou conta de nossas sociedades.

O consumismo vem ditar quem nós somos e quem devemos nos tornar; o homem busca sua auto-realização na esfera do material, do financeiro, mergulhado num hedonismo sem limites. O indivíduo pós-moderno se vê arrastado pela incessante busca por satisfação de suas carências e necessidades, pois é essa imagem de humanidade que se constrói em nosso tempo, a saber: a imagem do indivíduo que precisa se preencher (preencher o seu vazio existencial), adquirir, possuir, assumindo, então, cada vez mais sua postura como ser mundano, totalmente imanentizado e afastado da Verdade. A verdade torna-se relativa, sendo a verdade da ciência, uma verdade mutável. O verdadeiro de hoje não é mais verdadeiro amanhã. Isso, de acordo com os avanços prodigiosos da ciência. Avanços que têm, porém, esquecido a vida propriamente humana.

Avanços, possibilidades e formatações que enxergam o homem como animal estruturalmente natural, sem espírito, sem alma e sem qualquer valor e qualidade que venha sugerir uma dignidade essencial para além do corpo, das necessidades físicas e do utilitarismo. Esse é o mundo. Não é, portanto, o nosso mundo (1 Jo 4: 4, 5; 5: 4, 5)! Se Jesus venceu o mundo, nós podemos vencer o mundanismo se nossa mente for como a de Cristo. Sim! Para nós que professamos a fé em Cristo, esse não é mais nosso mundo. Estamos nele. Participamos dele. Temos uma missão nele. Ele é o nosso campo de atuação para o bom serviço do Evangelho. Mas não pertencemos e não devemos jamais tomar a forma dele. Como Paulo mesmo disse em sua carta aos Romanos, “não vos conformeis com esse século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12: 2). Nossa mente deve estar firmada nas coisas do alto, pois foi renovada em Cristo para a glória de Deus.

Portanto, devemos andar conforme Deus, a fim de agradá-lo e não conforme o mundo, sendo o mundo feito inimigo de Deus. Somos livres em Cristo. Livres para vivermos conforme Deus. Mas, em detrimento disso, a proposta pós-moderna tem invadido muitas igrejas. Pode até ser aceita (como algo imbatível) a corrupção do mundo, uma vez que a Bíblia não nos engana sobre o destino do mundo e sobre o pecado. Mas o que causa espanto não é a corrupção que há no mundo, mas sim a corrupção que entra nas igrejas ditas cristãs e nas vidas dos que se dizem crentes. Muitos falsos líderes tem se levantado com idéias, supostas novas revelações e ensinando doutrinas de demônio e permitindo liberalmente a entrada de muitos pecados dentro de suas congregações (1 Jo 2: 18,19). A imagem de Cristo tem se desbotado nos corações de muitos que se um dia professaram a fé em Cristo. Muitos têm caído na graça. Alguns caíram totalmente da graça, pois dela nunca fizeram e nem farão parte, mas muitos crentes genuínos deixaram-se envolver com os ditames diabólicos desse mundo e aceitaram o pecado dentro de seus corações e lares. Os argumentos segundo o mundo estão ficando cada vez mais fortes e convincentes para os que não se firmaram totalmente em Cristo.

Falei das sociedades que antes levantaram com fervor a bandeira do Evangelho. Pois é! Muitas perderam o foco. Muitas deixaram as vãs sutilezas e filosofias entrarem deturpando a mensagem e a imagem de nosso Senhor. Muitas abandonaram a fé. Muitas igrejas têm fechado suas portas na Europa. Não sei se isso mexe com você, mas me entristeço inconformadamente com essa situação.  Nos EUA mesmo, a situação também se torna crítica e digna de nota. Muitas igrejas (de bons nomes, inclusive), perderam completamente o norte e estão deixando entrar tão livremente o pecado, tomando assim, a forma desse mundo. Deixando-se levar pelo argumento demoníaco do casamento homo afetivo, pela ausência de luta em favor dos casamentos que se destroem, pela naturalização do divórcio, pela aceitação do aborto, pela juventude que se afasta de Deus, pela falta de doutrina bíblica, pelos ventos doutrinários que mancham a fé, etc. Aqui no Brasil, por sua vez, a ortodoxia muitas vezes não caminha lado a lado com a ortopraxia em alguns grupos de memoráveis nomes e, quando a ortopraxia se vê de modo dinâmico e atuante em algumas igrejas de rótulo pentecostal, a Sã Doutrina perde lugar para o experimentalismo estranho e para as tantas heresias que emergem dentre os neopentecostais.

Ah! São muitas coisas mesmo! Se a mente não estiver em Cristo, tão facilmente se perde o rumo. Muitas novelas, séries, filmes e outras mídias tentam ensinar e ditar (quase autoritariamente) o pecado como forma de vida e tem conseguido influenciar nosso povo com o argumento de que somos antiquados, que nossa fé é fundamentalista, que estamos ultrapassados pelas razões científicas e filosóficas, etc. Os jovens têm em mãos algumas ferramentas que os mantém informados de toda e qualquer novidade e muitos filhos de crentes se perdem nesse viés. A mídia é boa, a internet é boa, tudo pode ser bom se a mente estiver firme em Cristo e a vida estiver depositada em Deus. Também, muitas “novas didáticas” apresentam seus novos modelos de família; a relativização da verdade e a relativização do pecado; desconhecimento e plena ignorância bíblica entre os cristãos; ausência notável de uma vida piedosa entre os que professam a Cristo, etc. Tudo isso vai colocando muitos crentes no cativeiro e na vida cristã estática e infrutífera.  Isso é sério! Enquanto os cristãos no Oriente Médio e em alguns lugares na África estão sendo perseguidos, mortos e vendo suas famílias desfeitas pela desgraça denominada de “Estado Islâmico”, muitos – aqui no Ocidente – estão passivamente cedendo e permitindo o  mal criar suas raízes, vivendo um cristianismo desfigurado. Estão errando o alvo. Estão perdendo o foco. Estão olhando para baixo e não para o alto. Não sabem mais, nesse pluralismo todo, para quem olhar.

  1. Entrando em Colossenses (breve abordagem dos capítulos 1 e 2):

O apóstolo Paulo, ao escrever sua carta à igreja de Colosso, quis exatamente advertir os crentes quanto aos ensinos falsos e mundanos que estavam entrando na igreja, suplantando a fé e também a centralidade e supremacia de Jesus Cristo na criação, na revelação, na redenção e na igreja. O apóstolo também quis ressaltar a verdadeira natureza da nova vida em Cristo e suas exigências para o crente. Embora se trate de contextos diferentes, o contexto do ministério paulino, assim como todo o contexto do primeiro século da era cristã foi marcado por uma chuva de heresias, legalismo, religiosidade e vãs filosofias que surgiam no meio do povo de Deus. A diferença para nossos dias, é que as mesmas coisas, os mesmos pecados se tornaram ainda maiores e afetaram todas as áreas da vida humana num tempo diversificado e mais complexo.

O apóstolo João mesmo, em sua primeira carta, faz a advertência: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. […] e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus […]” (1 Jo 4: 1 e 3). Segundo Paulo, eram muitas “filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (2: 8) que estavam ameaçando o real entendimento da igreja sobre a divindade de nosso Senhor e também afetando a postura em relação à Verdade. Junto dos maus ensinos, dos maus exemplos, das filosofias e ventos de doutrina, estava o legalismo judaizante que, assim como fora também entre os gálatas e outras comunidades, disputava entre os crentes a primazia da fé em detrimento do Evangelho da graça. O mundo é inimigo de Cristo e da igreja (Jo 15: 18,19). Sendo assim, os ditames do mundo sempre vão ter por intento destruir a imagem divina, santa e verdadeira de Cristo por meio do pluralismo de conceitos e pela relativização da fé e da vida cristã. Eis a astúcia-mor do adversário de nossas almas: fazer com que Cristo não seja contemplado por nossos olhos. Por isso, Cristo – em sua oração sacerdotal – foi tão enfático quando disse:

“É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste […]. Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo […]” (Jo 17: 9 e 11).

No mesmo sentido de exortação e desejo de ver guardadas as ovelhas de Cristo, Paulo faz sua admoestação à igreja. No capítulo 1(versículo 10 ao versículo 14), ele, tão logo, chama a atenção para que a igreja assuma uma vida digna diante do Senhor, procurando agradar a Deus em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus (v.10). Essa exortação para que venhamos assumir essas qualidades se dá com base na seguinte verdade: Deus já “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (1: 13). Somos, portanto, reconciliados com Deus em Cristo pelo sangue da cruz (1: 20), feitos inculpáveis, santos e irrepreensíveis. Por isso, devemos tão logo assumir tais qualidades, pois o poder do sacrifício de Jesus Cristo nos garante eficazmente essa transformação pessoal pelo auxílio e obra do Espírito Santo. Outra verdade que pode ser extraída desse contexto é a seguinte: se sua mente não está firme em Cristo e você ainda não provou da transformação pessoal em Cristo, amando o pecado, agradando a si próprio e plenamente conformado com esse mundo, a notícia para você é esta: você não tem a mente em Cristo e não pode pensar sobre as coisas do alto, pois você não se converteu ainda de seus pecados e não faz parte do rebanho de Cristo, a não ser que se arrependa e almeje viver para Deus, conforme Deus, firme em Cristo e transformado pelo Espírito Santo para uma vida santa e justa. Quanto a nós, devemos, então, permanecer na fé, alicerçados e firmes, não nos deixando afastar da esperança do Evangelho que ouvimos e aprendemos (1: 22, 23). Dessa forma, amados irmãos, não podemos – de forma alguma aceitar o mal, fazer vista grossa ao pecado (seja nosso, seja do irmão) e deixar com que as vãs filosofias e heresias adentrem nossas congregações e os maus costumes, as nossas casas.

Em Romanos 6: 12., Paulo faz a seguinte admoestação: “Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniqüidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça. porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estão debaixo da lei, mas da graça” (Rm 6: 12- 14). Nos versículos posteriores, Paulo adverte ainda sobre a postura cristã em conformidade com a vontade de Deus e deixa a seguinte afirmação: Deus – por sua graça – foi quem nos fez idôneos, afim que sejamos livres do “império das trevas” (v. 13), pois temos a redenção e a remissão dos pecados pelo sangue de Jesus. Ou seja: somos livres em Cristo para andar conforme quer Cristo. A princípio parece não haver liberdade nisso, mas no decorrer deste texto, veremos que sim. Há liberdade em Cristo e somos livres quando nossa vida é mortificada na carne e ressurreta em espírito. Portanto, no capítulo 1 e no capítulo 2 (mais especificamente nos versos 6 ao 12 e no verso 18 do segundo capítulo), Paulo deixa uma série de afirmações quanto a nossa nova natureza em Cristo, sendo nós agora, edificados nele (2: 7), confirmados na fé, abundantes e instruídos na fé e na ação de graças (2: 7).

Assim, devemos: estar aperfeiçoados nele, circuncidados nele, sepultados com ele no batismo e ressurretos nele pela fé. Assumindo, assim, a nossa liberdade com que Cristo nos libertou e vivendo conforme a nossa nova natureza em Deus, ninguém poderá nos dominar a seu arbítrio (ou bel-prazer) em pretextos de humildade. Assumindo a nossa posição como remidos por Cristo, cheios do Espírito Santo e amigos de Deus, devemos – portanto – provar a nossa fé, evidenciando diante das plurais filosofias e formas de vida ditadas pelo mundo, quem tem, de fato, a primazia de nosso ser. Como evidenciar e provar a nossa fé a fim de agradar somente a Cristo? Paulo responde no capítulo 3, no versículo 1 ao 17. Paulo inicia o terceiro capítulo com uma conjunção coordenativa conclusiva: “Portanto…”. E dá uma seqüência conclusiva ao que tratou nos dois primeiros capítulos de sua carta. O apóstolo diz:

“Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto…”.

Pois bem, Paulo faz, nessas palavras, um convite para a análise interior, para uma sondagem com o intuito de provarmos – em vista de nossas ações e forma de vida – se realmente estamos ressuscitados com Cristo. Evidenciamos mesmo o caráter de Cristo? É extremamente válida tal análise. E se realmente estamos firmados em Cristo, logo pensamos como Cristo. Se estivermos em Cristo, somos parte do Corpo de nosso Senhor. Se nós somos, então, parte do Corpo de Cristo, sendo Ele o cabeça desse corpo, nossas atitudes devem estar em plena conformidade com os pensamentos de Deus. Por isso, Paulo completa: “…se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto”. Estar ressuscitado com Cristo e buscar as coisas do alto trazem uma série de aprendizados que aqui menciono:

1) O ressuscitado com Cristo é aquele que já morreu para o mundo. O mundo e o pecado não o escravizam mais. É livre e vive uma vida para a glória de seu Senhor, em fidelidade à Palavra de Deus, em santidade, evidenciando uma vida frutificada pelo Espírito Santo e verdadeiramente piedosa;

2) Buscar as coisas do alto remete à busca, ao interesse e à total inclinação para aquilo que é do Reino. É aquele que vive o Reino e para o Reino de Deus. Buscar aquilo que é do alto é se interessar e se preocupar com os assuntos de Deus.

Como? Se envolvendo com a obra de Deus; se envolvendo com o evangelismo, com a pregação da Palavra. O que busca as coisas que são do alto, busca viver segundo a vontade de Deus, procurando saber qual é a perfeita e agradável vontade do Senhor. Ele lê a Bíblia, ele ora incessantemente, ele clama por sabedoria, ele roga a Deus para ser usado com poder no Evangelho, ele se preocupa em apresentar um bom testemunho na sociedade na qual se insere, ele se preocupa com as questões que envolvem sua congregação, ele busca melhorias para os irmãos, ele desenvolve seus talentos e dons, ele edifica, ele trabalha, ele oferta, etc. Sua mente está voltada para a glória de Deus e sua vida familiar, profissional, financeira, etc. reflete o seu movimento para Deus e sua firme adesão; 3) O que está ressuscitado com Cristo e busca as coisas que são do alto, está em plena sintonia com a mente de Cristo. Se ele está em plena sintonia com as coisas de Cristo, tem os mesmos interesses de Deus, a saber, o resgate de muitas almas. Quem tem a mente firme em Deus e busca as coisas do alto, conseqüentemente não suporta uma vida estática e vai ao encontro do perdido e do desamparado para evangelizá-lo, pois é o que Jesus faz. Portanto, se somos ressuscitados com Cristo, nossa vida frutifica. E essa é a prova de que somos ressurretos para Deus e firmados em Cristo: quando buscamos as coisas de do alto e mantemos nossa mente voltada para as coisas do reino. Eis o exemplo em João 15: 2-4 e 5:

“Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado;permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. […] Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto[…]”.

No versículo 2, a exortação continua assim: “pensai nas coisas que são de cima”. O termo usado no original, traduzido como “pensai”, é “phroneo” e pode ser traduzido também por: “exercitar a mente”, “alimentar a mente” e mesmo “interessar-se por algo”. E a advertência que nos cabe é exatamente essa: precisamos exercitar a nossa mente para desenvolvermos melhor nossos pensamentos sobre Deus a fim de melhorarmos a nossa postura cristã. Há uma profunda ligação entre o nosso pensamento e a nossa atitude. Nossas atitudes nada mais são o reflexo daquilo que pensamos. Se não temos nenhum conhecimento de Deus, não temos nenhum pensamento em conformidade com a vontade de Deus, o que poderemos esperar de nossas atitudes? Como exercitar a mente para pensar nas coisas que são de cima e buscar as coisas que são do alto? Lendo a Escritura! Isso! Lendo, estudando e examinando a Bíblia! Ela fala de Jesus. Ela é a revelação de Jesus Cristo, o Verbo de Deus! Conhecendo a Palavra de Deus, podemos agir conforme Deus e ter uma visão correta sobre nosso Senhor. Atitudes que nos afastam de Deus são atitudes cujos pensamentos estão longe das coisas de Deus. Não pensamos no próximo, não observamos a vontade de Deus, não trabalhamos e nem desejamos trabalhar no Evangelho, etc. Tudo isso por não ter uma mente firmada em Cristo. Se Deus não ocupa nossa mente, nosso ser poderá ser regido, então, pelo pecado. Isso é sério! Não somos mais escravos do pecado! Somos livres em Cristo para exercitar e desenvolver nossa salvação. Precisamos desde já alimentar a nossa mente e pensar nas coisas que são de cima, ou seja: precisamos fazer como Cristo. Precisamos nos alimentar de fazer a obra do Pai (João 4: 33,34), se envolver com as coisas de cima. Esse é o interesse de Cristo. Se nós estamos mesmo com Cristo e enxertados nele, os interesses de nosso Senhor passam a ser nosso interesse também. Uma curiosidade: a filosofia grega clássica e helenística exercia forte influencia na sociedade e nas comunidades onde Paulo exerceu seu apostolado. Não tenho dúvidas de que Paulo era conhecedor, pelo menos em parte, da filosofia grega, uma vez que ele tinha uma relevante desenvoltura entre os gregos na evangelização e no ensino. O modelo de vida realizada na sociedade grega clássica e helenística era o modelo do Sábio, a saber, o homem que era inteiramente realizado para os gregos era o que exercitava o pensamento em vista do bem da polis. Esse era o que exercia a phrónesis (phroneo), ou seja, sabedoria sobre as coisas que transcendiam o ser. Era a sabedoria do alto. Paulo, como era pregador bom, em consonância com essa forma de pensamento, lançou a verdade cristã sob o mesmo viés conceitual: o que se realiza em Deus é aquele que pensa sobre as coisas que são de cima. Esse é o sábio. A sabedoria do cristão estar no centro da vontade de Deus e não mergulhado no pecado. No entanto, muitos problemas, adversidades, e situações diversas tendem a roubar nossa atenção, nossa fé e até mesmo conseguem, às vezes, apagar a chama de nosso coração. Porém, não fomos chamados para uma vida de inconstância, mas sim de perseverança. No versículo 3, Paulo deixa um importante alento: “porque morrestes e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus”. As aflições desta vida, as lutas e provas que aparecem, junto com a força e o intento do pecado tentam ofuscar nossa visão e fazer com que abaixemos nossas cabeças e erremos o alvo. Nossa vida aqui é constante batalha. Contudo, devemos ter bem certo em nós a esperança de que Cristo está conosco e temos aliança com Deus através do sangue de Jesus Cristo. Estamos escondidos, agora, em Deus. Temos livre acesso a Ele pela graça e pelo sangue. Nenhum mal, nenhum ataque, nenhum desanimo, nenhuma provação, nenhum pecado que ainda cativa nosso ser pode ser mais forte que Jesus em nós. Por isso a importância de uma vida firmada a cada dia em Deus. Pois, buscando sempre as coisas do alto, nos fortalecemos e crescemos em fé e em graça para suportarmos firmes qualquer desafio que possa surgir. Em Deus, estamos protegidos. Não livres dos ataques, não livre das aspirações de nossa carne, não livres do pecado. Aliás, o pecado é uma constante possibilidade de perdermos o foco. Mas, tendo o foco em Deus e nas coisas de Deus, não há como ceder para o pecado. Há o sofrimento, mas há a esperança. Há a tristeza, mas há a alegria que sempre vem pelo amanhecer; existe a provação e a dificuldade, mas há a certeza que em Deus podemos tudo, a nudez, a fome, o perigo, a espada, etc. Tudo nós podemos, naquele que nos fortalece. Buscar as coisas do alto é, portanto, constante negação de nós mesmos (Cl 3: 5), pois esse é o sentido real da nossa morte e ressurreição. Vida virtuosa é isso: negação de suas aspirações e paixões para fazer aquilo que agrada a Deus. Olhar para as coisas que são de cima e focar nas coisas do alto é assumir o chamado; é esquecer das coisas que para trás ficam; é avançar para o alvo; é procurar não errar o alvo; é crescer em graça e em conhecimento; é se encher do Espírito Santo; é se preocupar com as coisas do Reino; é se alimentar de Jesus; é se envolver e se relacionar com nosso Senhor. Buscar as coisa de cima pressupõe uma vida que está determinada a carregar a cruz. Buscar as coisas de cima é poder orar com firmeza de coração: “venha a nós o teu Reino e seja feita a tua vontade!”. Buscar as coisas que são de cima é buscar em Deus e em sua Palavra o sentido para viver e poder olhar para o próximo com mais compaixão. Em Mateus 5: 1-48, Jesus nos deixa o modelo da vida bem-aventurada, ou da “beata vita”, que supõe uma vida de plena realização pessoal. E nos ensinamentos do Sermão da Montanha, Jesus ensina que a bem-aventurança (felicidade plena) está na constante negação de nós mesmos para o serviço do Reino de Deus e no servir o próximo e amar o próximo como marca de uma vida que conheceu a liberdade em Cristo. E não só isso: conheceu a graça e a própria miserabilidade diante do amor de Jesus Cristo. Buscar as coisa do alto pensar nas coisas de cima é, portanto, disposição mental, física e espiritual para morrer de vez para o mundo e viver uma vida ressurreta para Deus. Nossa bem-aventurança está no entendimento da mensagem da cruz. Na cruz consiste a verdadeira liberdade em Cristo. Por quê? Porque morrer para o mundo e para o pecado e vencer a carne, dizendo não para as paixões, inclinações e desapontando nossos fortes desejos em vista da glória de Deus, implica total domínio de si mesmo, numa vida frutificada pela obra do Espírito Santo. Poder dizer para a oferta do maligno e da própria carne que “eu vou agradar a Deus e não a mim mesmo” é vencer – como Cristo – a tentação do Diabo e se portar como verdadeiro liberto. O escravo não consegue. O livre sim, pois seu olhar está firme em Deus e tem constantemente buscado as coisas do alto. Assumir, portanto, a liberdade que Cristo nos concedeu na cruz. Somos livres quando nossa mente está buscando as coisas do alto e pensando nas coisas do alto, pois o pecado não mais nos domina. Temos vitória sobre o maligno! Veja em 1 João, 2: 12-17. Em continuidade de sua admoestação e ensino, Paulo ainda adverte sobre a importância de ainda morrermos totalmente em nossa velha natureza terrena, buscando superar e vencer toda prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e avareza. (3: 5), pois, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os homens. Muitos ainda não acordaram para a seriedade dessas palavras e vivem praticando uma ou todas essas coisas citadas. Mas a palavra de Deus para esses é: condenação! Morte eterna! Inferno.

A não ser que se arrependam agora e busquem a Deus. Buscai as coisas do alto! Perto está o Senhor daqueles que o invocam (Is 55: 6). Paulo ainda insiste: “despojai-vos, igualmente, de tudo isto” (v.8). Notemos que Paulo está falando para a igreja. Isto! Para a congregação de crentes. Amados, somos seres de pecado (1 Jo 1: 8). Temos tendência ao erro, enquanto tivermos esse corpo mortal, pois a morte está instaurada como salário (Rm 6: 23) de nosso pecado. Contudo, temos um advogado diante de Deus (1 Jo 2: 1), a saber, o próprio Cristo. Por isso devemos ter a mente voltada para Cristo, pois Ele é o intercessor, o que advoga e o que nos traz justificação (Rm 6:7).

Contudo, devemos – agora – despojar de tudo que ainda nos faz cativos. Ou vivemos livres para a glória de Deus, ou somos ainda escravos. O céu é para os livres em Cristo. Preocupe-se com isso! Despojando de todo o pecado e de tudo que rouba a primazia de nossa atenção, impedindo-nos de buscar e pensar nas coisas do alto, devemos, tão logo, assumir a forma da nova criatura (novo homem), pois essa nova natureza em espírito nos fará chegar ao pleno conhecimento de Deus e ao modelo de Cristo (v. 10). O velho homem não pode enxergar e conhecer os mistérios de Deus. Portanto, não pode entrar em sua glória, pois Deus é Santo. Mas o novo homem, em espírito e assumindo a cada instante a forma perfeita de Cristo, pode ver a Deus e já aqui, participar da glória e de Jesus Cristo. “não que eu tenha já recebido ou obtido a perfeição, mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.

[…] esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo

[…]” (Fp 3: 12-14). Uma excelente noite e auto-análise, reflexão, súplicas e paz!

Gabriel F. M. Rocha. Gabriel F. M. Rocha é professor, graduado em História (licenciatura e bacharelado); pós graduado em Sociologia (lato sensu) e mestrando em Filosofia (stricto sensu) nas áreas de Ética e Antropologia.

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Um chamado para o relacionamento

“Tu me amas?”
ZZZZZZZZZZ

Tema: renovo espiritual e despertamento para um relacionamento com Jesus.
Texto base: João 21: 15-17
Por Gabriel Felipe M. Rocha

Pedro foi um dos mais queridos apóstolos de Jesus. Sua presença nos evangelhos não é a mesma presença firme e peremptória das cartas que levam o seu nome. Muito pelo contrário, o Pedro dos evangelhos é o homem como qualquer um de nós. Não que o Pedro restaurado das cartas, do fiel apostolado e do heróico martírio não fosse também o mesmo homem no que tange as paixões, limitações e temporalidade, mas, nos evangelhos, mostra-se um Pedro com todo o destaque na figura do discípulo, aprendiz e vacilante. Simão de Betsaida – a quem Jesus chamava de Pedro – era um homem inconstante, errôneo e afoito, embora em seu coração houvesse declaradamente um altar erguido para Deus.
Contudo, na ocasião da prisão de seu Mestre, Pedro cometeu – podemos afirmar a partir da Escritura – um dos mais marcantes desvios de conduta de sua vida, a saber, a negação pública de seu Senhor (Jo 18: 17, 25, 27). Como disse certa vez o reverendo Alceu Cunha, certamente não bastavam os espinhos da coroa, os impropérios da multidão, a bofetada em seu rosto, ser cravado numa cruz com agudos pregos, Cristo ainda teve de enfrentar mais uma dor, a saber, a dor da negação pública por parte de um de seus discípulos mais íntimos.
No entanto, para Pedro, a dor gerou amargura de espírito, sentimento de remorso e um visível arrependimento quando esse se pôs a chorar. Segundo as Escrituras, Pedro chorou amargamente (Mt 26: 75). Cristo, embora conhecedor da situação e do propósito da mesma, certamente sofreu pelo ato de Pedro, mas pôde, dentre as tantas dores, sofrer esse acréscimo de suplício em sua alma e, como cordeiro mudo, entregar seu espírito e o pecado de sua Igreja na cruz. Mas Pedro não tinha o controle de situação alguma. Nem mesmo de sua vida e de suas ações, como prova os evangelhos. Podemos imaginar o quanto Pedro sofreu a dor, o remorso, o arrependimento, a culpa pela negação e tudo isso sem um imediato consolo. \talvez, se não fosse a graça divina na firmeza da eleição, Pedro teria o mesmo destino de Judas Iscariotes. Viu seu chamado perder o brilho. Viu seu ministério perder o sentido. Viu sua comunhão com Cristo como algo irreconciliável. Viu sua vida como uma vida imerecida da glória de um Deus tão Santo, tão Bom e tão misterioso. Tão misterioso que permitiu que o Cristo, Filho do Deus Vivo, fosse à cruz e morresse. Foi-se, por um momento, a esperança.
Mas, certa vez, após algum tempo de sua ressurreição, Jesus surge irreconhecível diante de alguns discípulos (v. 4-8), no entanto, com a mesma autoridade. Estavam todos no barco, pescando pela madrugada. Jesus, então, se revela mostrando-os mais um milagre no meio deles. Estavam todos precisando de um milagre. Estavam todos precisando de algum renovo e consolo. Seus ministérios não prosperariam (talvez nem saíssem do lugar) se não fosse a Palavra de Deus se revelar, a saber, o próprio Cristo em autoridade divina. Uma primeira lição que tiramos disso é: Jesus se importa com os seus escolhidos. Se Ele se entregou numa cruz, levando sobre si pecados que não eram seus, sofrendo a dor que seria nossa e morrendo a morte que seria também nossa, por que Ele simplesmente nos abandonaria? Não escaparemos de sua mão (João10: 17,18). Ainda bem que nada depende de nós no que tange a salvação, pois, se dependesse, o mais provável seria, diante das circunstâncias, deixarmos o Mestre e esquecermo-nos de suas palavras. Nossa escrava vontade só poderia nos levar para longe de Deus e nos fazer voltar pelo caminho, voltar para a origem, para os lugares de onde um dia nós fomos chamados e praticar as velhas coisas (João 21: 3). Embora erremos, falhemos, e sempre pequemos, Deus nos dá a oportunidade do arrependimento e, diante da sua graça e misericórdia, crescemos em novidade de vida, perseverança e firmes rumo à perfeição (Fp 3: 12-16). Embora venha o desânimo, a incerteza, alguma aflição, tristeza e, junto com tudo isso, a desesperança, Cristo surge com um milagre. Surge no tempo dele, surge na oração nossa, surge na perseverança, surge pela promessa e pelos decretos de um Deus soberano, justo e generoso. Jesus se revela! Jesus se revela na situação e no contexto de nossa prova, luta, embaraço ou mesmo desânimo.
Jesus, ali, pergunta aos seus discípulos se eles tinham algo para comer. Logo eles respondem que não. Ele, com sua Palavra, vai direto naquilo que nos incomoda e nos atribula. Ele arranca de nós a resposta e dá a solução. E da solução, vem o avivamento. Assim é a Palavra de Deus na vida do cristão: é a atuação e a revelação (o surgimento) de um Jesus vivo que transforma tudo, começando de nós mesmos.
Um momento interessante dessa passagem é quando João (identificado ali como o “discípulo a quem Jesus amava”) reconhece a Jesus e vai tão logo, em notável entusiasmo, a Pedro e diz: “é o Senhor!”. Imaginemos a cena da seguinte maneira: Pedro certamente podia ter compartilhado com João de sua angústia desde o trágico dia da negação. Algo muito natural, quando a própria Bíblia mostra que João e Pedro tinham certa proximidade, uma vez que os dois aparecem juntos em várias situações extras aos momentos de comunhão, banquetes e viagens (Mc 14: 33; Atos 3: 1). Quando João, então, percebe o Cristo, logo diz a Pedro em tom de esperança renovada: “É o Senhor”! Foi como dizer: “é o Mestre, Pedro! Não tem nada perdido! Ânimo!”. Posso imaginar o sentimento de esperança em Pedro mesclada com o medo de alguma reprovação por parte de seu Senhor, o que seria justo. Entretanto, o que se sabe é que Pedro se lançou ao mar e foi ao encontro de seu Senhor. Certamente esse ato evidencia o desespero de Pedro por Cristo e sua indisfarçável vontade de reconciliar-se tão logo com seu Senhor.
E, diferente de qualquer tipo de reprovação ou mesmo a retribuição da negação, Jesus, recebe a Pedro com a mesma igualdade com que recebe os demais discípulos e os convida a comer.
Uma segunda lição pode-se tirar dessa passagem bíblica: Deus está sempre pronto a perdoar, apagando toda a transgressão (Is 43: 25,26) quando o buscamos de coração contrito. Jesus está sempre pronto a se revelar e nos auxiliar quando damos ouvidos à Sua Palavra (João 21: 6-8). Ele está sempre disposto a nos receber quando vamos ao seu encontro (João 21: 7; João 10: 9).
Mas, a partir do verso 15, Pedro terá um acerto de contas com seu Senhor. Haverá um confronto onde toda a angústia, desesperança, crise, maus pensamentos, desânimo, etc. irão desaparecer para dar lugar ao avivamento que todo o discípulo e servo de Cristo precisam um dia, ou sempre. Uma terceira lição adianta-se: existem momentos e situações em que, em vista de algum panorama ruim, deixamo-nos levar por algum descontentamento, por alguma frieza no serviço cristão, por alguma aparente derrota, por um objetivo que não é realizado, maus pensamentos, etc. Todos nós – que professamos a fé em Cristo – estamos sujeitos à frieza. Podemos lembrar aqui do exemplo dos dois discípulos no caminho de Emaús (Lc 24: 13-35). Deixaram-se guiar pela desesperança das “últimas notícias” (v. 18) e, desanimados e angustiados (v. 17-21), deixaram Jerusalém indo de volta para Emaús. A ordem de Jesus, antes de sua ascensão, era para que ninguém se ausentasse de Jerusalém (Atos 1: 4), pois ali se cumpriria uma importante promessa para a efetivação da missão da Igreja (Atos 1: 4,5; 2: 1-47). Mas a primazia às circunstâncias, o não desenvolvimento da fé, o sentimento de culpa, a ausência de oração, a não vigilância e a desesperança provocam a perda de foco. Isso é algo, infelizmente, comum no seio de tantas igrejas, líderes, ministérios e grupos. Contudo, os decretos de Deus para com nossas vidas (incluindo a salvação) não podem ser minados, pois Cristo nos comprou com total suficiência e jamais escaparemos de suas mãos (Jo 10: 28; Fp 1: 6), mas, existem momentos onde exercer a nossa vocação e fazê-la firme só é possível através de um “impulso no motor” para fazer mover toda a máquina. Então, Cristo surge!
Assim foi também com Pedro. Houve, portanto, o marcante diálogo entre Jesus e Pedro. Foi uma interrogação feita na terceira aparição de Jesus após sua ressurreição (João 21: 1-14).
Jesus faz três perguntas a Pedro. Pela dinâmica do relato, pode-se entender que essas interrogações se deram ali mesmo diante dos outros discípulos. Assim como Pedro negara a Jesus em público, Pedro confessaria seu amor por Cristo em público. Obviamente Jesus não queria dar algum “troco” a Pedro e nem mesmo expor o mesmo diante do colégio apostólico ali reunido. Era mesmo um necessário momento de confronto!
Foi feita a primeira pergunta: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros?” (v. 15). Pedro respondeu: “sim, Senhor, tu sabes que te amo”. É interessante notar que a mesma boca que negou Jesus em público, diante de pessoas escarnecedoras e carentes de Deus, confessava o amor ao mesmo Cristo diante da congregação de santos. Não estamos aqui negando ou duvidando da sinceridade da resposta de Pedro, pois, a Bíblia não nos permite essa afirmação e acreditamos na total sinceridade de Pedro ao dar sua resposta. Mas o texto nos convida a refletir sobre uma quarta lição: a mesma boca pode professar benção e maldição (Tg 3: 10). Talvez, para alguns, seja difícil confessar seu chamado, sua vocação e sua postura diante do mundo e acaba negando a Cristo, mas – incrivelmente – confessa o seu incoerente amor a Cristo em sua congregação, cantando louvores, levantando as mãos para o alto em sinal de reverência e quebrantamento. Pregam a Cristo com total facilidade e talento, vestem a camisa da igreja, cuja estampa diz: “eu amo Jesus”, mas seu coração está longe dessa afirmação, pois as obras não manifestam e comprovam essa confissão. Esse não foi o caso de Pedro, pelo menos a Bíblia não nos dá margem para tais afirmações através da vida do mesmo. No caso de Pedro, a boca proferiu aquilo que estava latente no coração (Lc 6: 45). Por isso, Pedro respondeu dizendo: “tu sabes”. Isso pôde revelar uma coisa: o que tentar dizer com palavras no desgaste espiritual de uma vida que certa hora afirmou que morreria por Cristo (Mt 26: 33-35) e, no mesmo episódio, o negou três vezes? Mas há uma semelhança entre Pedro e nós mesmos, a saber, a humanidade, o pecado, a passividade em relação a algumas coisas, a vaidade, o orgulho, a descrença, o medo, etc. Embora possa haver isso, o chamado de Cristo às nossas vidas continua de pé. Ele nos chama para o serviço. Pedro, assim que respondeu a primeira pergunta, foi surpreendido com a ordem de Cristo: “apascenta os meus cordeiros” (v. 15). Pedro podia – com algumas razões – ter pensado que seu ministério, seu chamado, sua vocação, sua instrumentalidade estariam esgotados ou perdidos. Mas Jesus sempre dá novas chances. Ele nos chama para servir. Jesus como o Sumo Pastor da Igreja, convoca a Pedro para pastorear as suas ovelhas. Isso é o mesmo que dizer: “vem sofrer as minhas aflições” (2 Tm 4:5; Cl 1: 24). Pedro foi chamado para pastorear, para ser um ministro do Evangelho.
Cada um de nós tem um chamado, um talento ou um dom a ser desenvolvido para o Reino de Deus. Então, vem a quinta lição: Cristo quer restaurar nossa instrumentalidade para o serviço do Reino. Ele está disposto a esquecer o que se passou e avivar nossas vidas para a glória de seu Nome. Seu Espírito Santo – Consolador (parakletos) – faz-nos esquecer de tudo que para trás fica, dando o devido consolo e renovo. E admoesta-nos a prosseguir para o alvo. Como o “parakletos” (advogado, o que anda junto, consolador), Ele coloca o alvo novamente à nossa frente e nos ajuda a mirar e atirar corretamente. Essa analogia é de fundamental relevância aqui, pois, o “errar o alvo” é nada mais e nada menos que o significado do termo “hamartia” que se traduz também por “pecado”. Esse foi o renovo de Pedro e é também o nosso: Cristo faz com que esqueçamos o passado e nos faz mirar para o futuro, para agora, atirar certo, melhor e eficazmente.
Logo, veio a segunda pergunta: “Pedro, amas-me?”, E Pedro novamente respondeu: “sim, Senhor, tu sabes…”.

Semelhante à primeira, a segunda pergunta de Jesus foi transcrita para o grego através do mesmo termo, a saber, “agapao”, que vem de “agan” (muito). Esse termo traduzido para o português como “amas-me” remete, em vista do original, a um amor social e moral. Remete também ao amor por veneração, respeito, obrigação. Sua raiz, “ágape”, trata-se de um amor sublime. É o mesmo amor citado nas Escrituras para definir o amor ao próximo, por exemplo. Vamos para a sexta lição: responder diante da igreja, do mundo, dos amigos e da família esse amor não tem sido tão difícil quando não se tem a disposição para vivê-lo na íntegra. É o tipo de amor que se banalizou na fala, nas pregações, nos cânticos de vários cristãos (e até mesmo não cristãos). Para vestir uma camisa ou pegar um microfone e dizer “eu amo Jesus” não necessita de uma adesão tão séria a essa afirmação. Na verdade, necessitaria sim, mas o simples dizer com os lábios “sim, Senhor, eu te amo” pode não implicar um real compromisso com a confissão. Muitos que dizem “eu te amo” não têm a vida transformada pelo Evangelho. Vivem de fantasias, experimentalismos ou, até mesmo, participam de alguma forma, da graça de Deus. Mas suas vidas são infrutíferas. São capazes de responder as duas primeiras perguntas, mas são incapazes de apascentar as ovelhas de Deus, ou, em outras palavras, trabalhar e se envolver – em diferentes modos – no serviço cristão. Suas bocas professam um nobre sentimento e uma declaração comum às pessoas piedosas, mas suas atitudes revelam rebelião contra Deus em várias áreas. Para a conclusão da sexta lição, colocamos o seguinte: deve haver uma coerência entre a nossa confissão e a nossa atitude. O fato de Jesus, nas três interrogações, ter imediatamente convocado ao serviço nada mais é para mostrar que a confissão deve se estreitar com a atitude. Só prova que ama o Senhor quem a Ele serve (João 15: 2-15; Mc 3: 35; Mt 7: 21).
Mas a terceira pergunta causa confronto. Ela mexe no íntimo. Causa reboliço e auto-análise. Leva para o arrependimento e causa a tristeza segundo Deus.
Tendo Pedro respondido já a segunda pergunta com aparente facilidade, Jesus tão logo reafirma a convocação para o serviço. Mas faltava a última pergunta. No verso 17, Jesus faz a terceira interrogação: “Simão, filho de João, tu me amas?” O relato bíblico deixa evidente que a tristeza surgiu diante dessa terceira pergunta. Mas, por quê?
Diferente das duas primeiras perguntas, Jesus usou o termo, que transcrito para o grego, foi “phileo”, e que traduzido para o nosso português, ficou, como nas duas perguntas, “me amas”. Porém, o amor “phíleo” tem outra conotação. “Phíleo” significa “ser amigo”, “gostar de”, “ter prazer em”, “sentir afeto”. Pode expressar a deliberada concordância da vontade com aquilo que se conhece e deseja. A tradução mais popular para “phíleo” é “amigo”, ou, “amor de amigo”. Também pode conotar “relacionamento” e “intimidade”, como a intimidade e o relacionamento entre um casal.
Essa expressão – na terceira pergunta – deixou Pedro triste, pois, era exatamente o que faltava em sua vida: correspondência de sua vontade com a vontade de Deus. Havia em Pedro o amor por Jesus Cristo, mas era um amor ainda estático, sem crescimento, influenciável, volúvel e insuficiente para assumir em sua vida o ministério. Diante do relato da terceira pergunta de Jesus a Pedro, deixamos a sétima e última lição: a escrava e corrupta vontade apenas levaram a Pedro ao pecado e à angústia, ao desânimo e à vergonha, mas, a vontade de Deus se manifestou na revelação de Jesus Cristo, tocando em seu espírito, comunicando-o a sua vocação, fazendo-o desejar servir a Deus com mais intensidade, amor, devoção, amizade, relacionamento, intimidade, etc. Por isso, confiantemente, embora com tristeza, Pedro respondeu à terceira interrogação: “Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo” (v. 17). “Tu sabes” havia sido ainda a única argumentação possível a Pedro diante do confronto. Dizer ao Senhor “tu sabes” é um convite que podemos fazer ao nosso Deus em oração para sondar nosso coração (Sl 7: 9; Sl 17: 3; Sl 139: 1). É o mesmo que dizer a Deus que não podemos nada por nós mesmos, mas, Ele sabe que há um pequeno fogo aceso em nosso coração e basta só uma ação e palavra Sua para fazer arder o nosso coração (Lc 24: 32).
Ainda nessa sétima e última lição, o amor com que Cristo nos convida a amá-lo é o amor que implica não só as palavras e declarações. Mas, sobretudo, o amor que implica relacionamento, intimidade, serviço, atitudes, piedade, compromisso, afeto, zelo, reverência, fidelidade, obediência, resignação, santificação e perseverança. Quando a “terceira pergunta” é feita a muitos, a tristeza toma conta e muitos não prosperam nesse amor (Mt 16: 19-22). Por outro lado, alguns repensam se realmente amam ao Senhor e perseveram.
Para quem não é capaz de responder com total certeza a essa terceira pergunta, Jesus surge! Há uma chama acesa, pois o próprio Senhor nos batizou com o Seu Santo Espírito para que possamos ser efetivamente seus. As provações ministeriais, pessoais e familiares sempre virão. O desânimo e a desesperança poderão bater aas portas. Contudo, Cristo está ao nosso lado como esteve com os discípulos no barco. Ele nos ensina a pescar. Ele – através da Palavra – se revela com autoridade e muda a situação. Ele responde nossa oração e renova a alma, removendo a tristeza. Ele, portanto, nos faz capazes de cumprir aquilo que Ele mesmo nos chamou para fazer.
Para quem já pôde responder e para quem ainda vai responder á pergunta de Jesus, a convocação está posta: “apascenta as minhas ovelhas!”. Em outras palavras, “participe de minhas aflições e da minha glória”. “Se relacione comigo”. “Seja meu amigo”. “Ande comigo sempre”. “Não perca o foco em mim”.

“Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo o quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (João 15: 15);

“Mas, como está escrito: nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1 Co 2: 9).

Com orações,

Gabriel Felipe M. Rocha

Gabriel F. M. Rocha é professor, graduado em História (licenciatura e bacharelado); pós graduado em Sociologia (lato sensu) e mestrando em Filosofia (stricto sensu) nas áreas de Ética e Antropologia.

Referências:
Bíblia de Estudos de Genebra (Edição Revista e Ampliada/ Almeida revista e atualizada);

Bíblia de Estudos Palavras-chave/ Hebraico e Grego (Almeida revista e corrigida).