Na inquietante realidade, uma surpreendente esperança!

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(Texto de Leandro Lima)

A suprema corte dos Estados Unidos acabou de aprovar o casamento de pessoas do mesmo sexo em todos os cinquenta estados americanos. A prática já era aceita na maioria dos estados, porém, treze estados (onde há mais evangélicos conservadores) ainda proibiam a prática. Agora, com a decisão da suprema corte, todos os cinquenta estados americanos são obrigados a aceitar o casamento de pessoas do mesmo sexo.

Essa sem dúvida é uma decisão emblemática, tratando-se do país mais “evangélico” do mundo. Se lembrarmos que há apenas dez anos, a grande maioria dos estados americanos repudiava o casamento de pessoas do mesmo sexo, a comemoração dos ativistas pró LGBT diante da suprema corte americana mostra que a virada de jogo foi mesmo surpreendente.

Meu ponto aqui não é tratar de “direitos civis”. É preciso reconhecer que, perante a Lei, todas as pessoas têm os mesmos direitos. E que, se alguém pretende “casar-se” com quem quer que seja, em tese, essa pessoa tem o “direito” de fazer isso, desde que não prejudique outra pessoa no caso. Ao mesmo tempo, e isso ainda parece ser realidade nos Estados Unidos, as pessoas e instituições religiosas que discordam continuam tendo o direito de discordar, e, provavelmente, as igrejas não serão obrigadas a realizarem esse tipo de casamento tão cedo.

Porém, o que me chama atenção nesse caso é justamente a rápida mudança no pensamento mundial acerca desse assunto, e a consolidação disso na maior democracia cristã do mundo. Quando a maioria da população em uma democracia é favorável a uma prática, a tendência é que essa prática venha a ser institucionalizada. Foi o caso aqui. E isso mostra que os poderosos ventos de mudança que começaram a soprar mais fortemente no mundo desde o final do século 20, com a queda do muro de Berlim por exemplo, estão se intensificando cada vez, removendo com facilidade marcos antigos, em prol de uma unificação do paganismo na terra. A era cristã está terminando. E, tudo isso parece ter sido minuciosamente planejado.
Talvez seja exatamente isso o que as pessoas estejam comemorando diante da suprema corte americana. Um cartaz no meio da multidão dizia: “a constituição é nosso escudo contra a Bíblia da intolerância e preconceito”. Esse é o ponto mais crucial me parece. Aqui está o verdadeiro motivo da disputa, o qual subjaz por detrás de todos os demais discursos.

Mas o que, como cristãos, podemos dizer disso tudo? Reclamar e exclamar horrorizados expressões como: “é o fim dos tempos”? Talvez seja mesmo, e nesse caso, não deveríamos estar horrorizados, mas com a certeza indirimível de que tudo está acontecendo como tinha que ser. Sim, a era cristã precisa terminar, pois se ela não terminar, Jesus não voltará. O Apóstolo Paulo disse que antes que Cristo volte “primeiro” precisa “vir” a apostasia (2Ts 2.3). E o próprio Cristo disse que os dias que antecederiam sua volta recapitulariam dois importantes momentos da história bíblica. Um dos exemplos evocados por Cristo foi justamente os “dias de Noé”, quando as pessoas “comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento” (Lc 17.26-27). Questões em relação ao casamento, portanto, estariam no centro da agenda do mundo mais uma vez, antes da volta de Cristo. Em Gênesis 6 temos a descrição de padrões de casamento inaceitáveis por Deus, e isso resultou diretamente no dilúvio. É interessante que o arco-íris que estaria nas nuvens como prova da aliança divina, agora esteja numa bandeira que contraria aquilo que o próprio Deus ordenou, porém institucionalizado na forma da lei. Mas, talvez isso faça Deus se lembrar mais uma vez… Mas, o segundo momento evocado por Cristo é ainda mais emblemático: “O mesmo aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas, no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre e destruiu a todos. Assim será no dia em que o Filho do Homem se manifestar” (Lc 17.28-30). Em Sodoma e Gomorra, um dos maiores pecados, que resultou na destruição das cidades, foi o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo!

Tudo isso aponta para uma inquietante realidade e, ao final, para uma surpreendente esperança. Todas as ações malignas no mundo, e que estão a todo vapor como podemos ver, trabalhando para a implantação do paganismo como sistema, apesar disso, estão debaixo dos desígnios daquele que anunciou o fim desde o começo. Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito (Rm 8.28). Fica, entretanto, o alerta do Senhor: “Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24.13).

Rev. Leandro Lima

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Um Engano Chamado “Teologia Inclusiva” ou “Teologia Gay”

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Postado por Augustus Nicodemus Lopes

O padrão de Deus para o exercício da sexualidade humana é o relacionamento entre um homem e uma mulher no ambiente do casamento. Nesta área, a Bíblia só deixa duas opções para os cristãos: casamento heterossexual e monogâmico ou uma vida celibatária. À luz das Escrituras, relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo são vistas não como opção ou alternativa, mas sim como abominação, pecado e erro, sendo tratada como prática contrária à natureza. Contudo, neste tempo em que vivemos, cresce na sociedade em geral, e em setores religiosos, uma valorização da homossexualidade como comportamento não apenas aceitável, mas supostamente compatível com a vida cristã. Diferentes abordagens teológicas têm sido propostas no sentido de se admitir que homossexuais masculinos e femininos possam ser aceitos como parte da Igreja e expressar livremente sua homoafetividade no ambiente cristão.

Existem muitas passagens na Bíblia que se referem ao relacionamento sexual padrão, normal, aceitável e ordenado por Deus, que é o casamento monogâmico heterossexual. Desde o Gênesis, passando pela lei e pela trajetória do povo hebreu, até os evangelhos e as epístolas do Novo Testamento, a tradição bíblica aponta no sentido de que Deus criou homem e mulher com papéis sexuais definidos e complementares do ponto de vista moral, psicológico e físico. Assim, é evidente que não é possível justificar o relacionamento homossexual a partir das Escrituras, e muito menos dar à Bíblia qualquer significado que minimize ou neutralize sua caracterização como ato pecaminoso. Em nenhum momento, a Palavra de Deus justifica ou legitima um estilo homossexual de vida, como os defensores da chamada “teologia inclusiva” têm tentado fazer. Seus argumentos têm pouca ou nenhuma sustentação exegética, teológica ou hermenêutica.

A “teologia inclusiva” é uma abordagem segundo a qual, se Deus é amor, aprovaria todas as relações humanas, sejam quais forem, desde que haja este sentimento. Essa linha de pensamento tem propiciado o surgimento de igrejas onde homossexuais, nesta condição, são admitidos como membros e a eles é ensinado que o comportamento gay não é fator impeditivo à vida cristã e à salvação. Assim, desde que haja amor genuíno entre dois homens ou duas mulheres, isso validaria seu comportamento, à luz das Escrituras. A falácia desse pensamento é que a mesma Bíblia que nos ensina que Deus é amor igualmente diz que ele é santo e que sua vontade quanto à sexualidade humana é que ela seja expressa dentro do casamento heterossexual, sendo proibidas as relações homossexuais.

Em segundo lugar, a “teologia inclusiva” defende que as condenações encontradas no Antigo Testamento, especialmente no livro de Levítico, se referem somente às relações sexuais praticadas em conexão com os cultos idolátricos e pagãos, como era o caso dos praticados pelas nações ao redor de Israel. Além disso, tais proibições se encontram ao lado de outras regras contra comer sangue ou carne de porco, que já seriam ultrapassadas e, portanto, sem validade para os cristãos. Defendem ainda que a prova de que as proibições das práticas homossexuais eram culturais e cerimoniais é que elas eram punidas com a morte – coisa que não se admite a partir da época do Novo Testamento.

É fato que as relações homossexuais aconteciam inclusive – mas não exclusivamente – nos cultos pagãos dos cananeus. Contudo, fica evidente que a condenação da prática homossexual transcende os limites culturais e cerimoniais, pois é repetida claramente no Novo Testamento. Ela faz parte da lei moral de Deus, válida em todas as épocas e para todas as culturas. A morte de Cristo aboliu as leis cerimoniais, como a proibição de se comer determinados alimentos, mas não a lei moral, onde encontramos a vontade eterna do Criador para a sexualidade humana. Quando ao apedrejamento, basta dizer que outros pecados punidos com a morte no Antigo Testamento continuam sendo tratados como pecado no Novo, mesmo que a condenação capital para eles tenha sido abolida – como, por exemplo, o adultério e a desobediência contumaz aos pais.

PECADO E DESTRUIÇÃO
Os teólogos inclusivos gostam de dizer que Jesus Cristo nunca falou contra o homossexualismo. Em compensação, falou bastante contra a hipocrisia, o adultério, a incredulidade, a avareza e outros pecados tolerados pelos cristãos. Este é o terceiro ponto: sabe-se, todavia, que a razão pela qual Jesus não falou sobre homossexualidade é que ela não representava um problema na sociedade judaica de sua época, que já tinha como padrão o comportamento heterossexual. Não podemos dizer que não havia judeus que eram homossexuais na época de Jesus, mas é seguro afirmar que não assumiam publicamente esta conduta. Portanto, o homossexualismo não era uma realidade social na Palestina na época de Jesus. Todavia, quando a Igreja entrou em contato com o mundo gentílico – sobretudo as culturas grega e romana, onde as práticas homossexuais eram toleradas, embora não totalmente aceitas –, os autores bíblicos, como Paulo, incluíram as mesmas nas listas de pecados contra Deus. Para os cristãos, Paulo e demais autores bíblicos escreveram debaixo da inspiração do Espírito Santo enviado por Jesus Cristo. Portanto, suas palavras são igualmente determinantes para a conduta da Igreja nos dias de hoje.

O quarto ponto equivocado da abordagem que tenta fazer do comportamento gay algo normal e aceitável no âmbito do Cristianismo é a suposição de que o pecado de Sodoma e Gomorra não foi o homossexualismo, mas a falta de hospitalidade para com os hóspedes de Ló. A base dos teólogos inclusivos para esta afirmação é que no original hebraico se diz que os homens de Sodoma queriam “conhecer” os hóspedes de Ló (Gênesis 19.5) e não abusar sexualmente deles, como é traduzido em várias versões, como na Almeida atualizada. Outras versões como a Nova versão internacional e a Nova tradução na linguagem de hoje entendem que conhecer ali é conhecer sexualmente e dizem que os concidadãos de Ló queriam “ter relações” com os visitantes, enquanto a SBP é ainda mais clara: “Queremos dormir com eles”. Usando-se a regra de interpretação simples de analisar palavras em seus contextos, percebe-se que o termo hebraico usado para dizer que os homens de Sodoma queriam “conhecer” os hóspedes de Ló (yadah) é o mesmo termo que Ló usa para dizer que suas filhas, que ele oferecia como alternativa à tara daqueles homens, eram virgens: “Elas nunca conheceram (yadah) homem”, diz o versículo 8. Assim, fica evidente que “conhecer”, no contexto da passagem de Gênesis, significa ter relações sexuais. Foi esta a interpretação de Filo, autor judeu do século 1º, em sua obra sobre a vida de Abraão: segundo ele, “os homens de Sodoma se acostumaram gradativamente a ser tratados como mulheres.”

Ainda sobre o pecado cometido naquelas cidades bíblicas, que acabaria acarretando sua destruição, a “teologia inclusiva” defende que o profeta Ezequiel claramente diz que o erro daquela gente foi a soberba e a falta de amparo ao pobre e ao necessitado (Ez 16.49). Contudo, muito antes de Ezequiel, o “sodomita” era colocado ao lado da prostituta na lei de Moisés: o rendimento de ambos, fruto de sua imoralidade sexual, não deveria ser recebido como oferta a Deus, conforme Deuteronômio 23.18. Além do mais, quando lemos a declaração do profeta em contexto, percebemos que a soberba e a falta de caridade era apenas um entre os muitos pecados dos sodomitas. Ezequiel menciona as “abominações” dos sodomitas, as quais foram a causa final da sua destruição: “Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado. Foram arrogantes e fizeram abominações diante de mim; pelo que, em vendo isto, as removi dali” (Ez 16.49-50). Da mesma forma, Pedro, em sua segunda epístolas, refere-se às práticas pecaminosas dos moradores de Sodoma e Gomorra tratando-as como “procedimento libertino”.

Um quinto argumento é que haveria alguns casos de amor homossexual na Bíblia, a começar pelo rei Davi, para quem o amor de seu amigo Jônatas era excepcional, “ultrapassando o das mulheres” (II Samuel 1.26). Contudo, qualquer leitor da Bíblia sabe que o maior problema pessoal de Davi era a falta de domínio próprio quanto à sua atração por mulheres. Foi isso que o levou a casar com várias delas e, finalmente, a adulterar com Bate-Seba, a mulher de Urias. Seu amor por Jônatas era aquela amizade intensa que pode existir entre duas pessoas do mesmo sexo e sem qualquer conotação erótica. Alguns defensores da “teologia inclusiva” chegam a categorizar o relacionamento entre Jesus e João como homoafetivo, pois este, sendo o discípulo amado do Filho de Deus, numa ocasião reclinou a sua cabeça no peito do Mestre (João 13.25). Acontece que tal atitude, na cultura oriental, era uma demonstração de amizade varonil – contudo, acaba sendo interpretada como suposta evidência de um relacionamento homoafetivo. Quem pensa assim não consegue enxergar amizade pura e simples entre pessoas do mesmo sexo sem lhe atribuir uma conotação sexual.

“TORPEZA”
Há uma sexta tentativa de reinterpretar passagens bíblicas com objetivo de legitimar a homossexualidade. Os propagadores da “teologia gay” dizem que, no texto de Romanos 1.24-27, o apóstolo Paulo estaria apenas repetindo a proibição de Levítico à prática homossexual na forma da prostituição cultual, tanto de homens como de mulheres – proibição esta que não se aplicaria fora do contexto do culto idolátrico e pagão. Todavia, basta que se leia a passagem para ficar claro o que Paulo estava condenando. O apóstolo quis dizer exatamente o que o texto diz: que homens e mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza, e que se inflamaram mutuamente em sua sensualidade – homens com homens e mulheres com mulheres –, “cometendo torpeza” e “recebendo a merecida punição por seus erros”. E ao se referir ao lesbianismo como pecado, Paulo deixa claro que não está tratando apenas da pederastia, como alguns alegam, visto que a mesma só pode acontecer entre homens, mas a todas as relações homossexuais, quer entre homens ou mulheres.

É alegado também que, em I Coríntios 6.9, os citados efeminados e sodomitas não seriam homossexuais, mas pessoas de caráter moral fraco (malakoi, pessoa “macia” ou “suave”) e que praticam a imoralidade em geral (arsenokoites, palavra que teria sido inventada por Paulo). Todavia, se este é o sentido, o que significa as referências a impuros e adúlteros, que aparecem na mesma lista? Por que o apóstolo repetiria estes conceitos? Na verdade, efeminado se refere ao que toma a posição passiva no ato homossexual – este é o sentido que a palavra tem na literatura grega da época, em autores como Homero, Filo e Josefo – e sodomita é a referência ao homem que deseja ter coito com outro homem.

Há ainda uma sétima justificativa apresentada por aqueles que acham que a homossexualidade é compatível com a fé cristã. Segundo eles, muitas igrejas cristãs históricas, hoje, já aceitam a prática homossexual como normal – tanto que homossexuais praticantes, homens e mulheres, têm sido aceitos não somente como membros mas também como pastores e pastoras. Essas igrejas, igualmente, defendem e aceitam a união civil e o casamento entre pessoa do mesmo sexo. É o caso, por exemplo, da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos – que nada tem a ver com a Igreja Presbiteriana do Brasil –, da Igreja Episcopal no Canadá e de igrejas em nações européias como Suécia, Noruega e Dinamarca, entre outras confissões. Na maioria dos casos, a aceitação da homossexualidade provocou divisões nestas igrejas, e é preciso observar, também, que só aconteceu depois de um longo processo de rejeição da inspiração, infalibilidade e autoridade da Bíblia. Via de regra, essas denominações adotaram o método histórico-crítico – que, por definição, admite que as Sagradas Escrituras são condicionadas culturalmente e que refletem os erros e os preconceitos da época de seus autores. Desta forma, a aceitação da prática homossexual foi apenas um passo lógico. Outros ainda virão. Todavia, cristãos que recebem a Bíblia como a infalível e inerrante Palavra de Deus não podem aceitar a prática homossexual, a não ser como uma daquelas relações sexuais consideradas como pecaminosas pelo Senhor, como o adultério, a prostituição e a fornicação.

Contudo, é um erro pensar que a Bíblia encara a prática homossexual como sendo o pecado mais grave de todos. Na verdade, existe um pecado para o qual não há perdão, mas com certeza não se trata da prática homossexual: é a blasfêmia contra o Espírito Santo, que consiste em atribuir a Satanás o poder pelo qual Jesus Cristo realizou os seus milagres e prodígios aqui neste mundo, mencionado em Marcos 3.22-30. Consequentemente, não está correto usar a Bíblia como base para tratar homossexuais como sendo os piores pecadores dentre todos, que estariam além da possibilidade de salvação e que, portanto, seriam merecedores de ódio e desprezo. É lamentável e triste que isso tenha acontecido no passado e esteja se repetindo no presente. A mensagem da Bíblia é esta: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus”, conforme Romanos 3.23. Todos nós precisamos nos arrepender de nossos pecados e nos submetermos a Jesus Cristo, o Salvador, pela fé, para recebermos o perdão e a vida eterna.

Lembremos ainda que os autores bíblicos sempre tratam da prática homossexual juntamente com outros pecados. O 20º capítulo de Levítico proíbe não somente as relações entre pessoas do mesmo sexo, como também o adultério, o incesto e a bestialidade. Os sodomitas e efeminados aparecem ao lado dos adúlteros, impuros, ladrões, avarentos e maldizentes, quando o apóstolo Paulo lista aqueles que não herdarão o Reino de Deus (I Coríntios 6.9-10). Porém, da mesma forma que havia nas igrejas cristãs adúlteros e prostitutas que haviam se arrependido e mudado de vida, mediante a fé em Jesus Cristo, havia também efeminados e sodomitas na lista daqueles que foram perdoados e transformados.

COMPAIXÃO
É fundamental, aqui, fazer uma importante distinção. O que a Bíblia condena é a prática homossexual, e não a tentação a esta prática. Não é pecado ser tentado ao homossexualismo, da mesma forma que não é pecado ser tentado ao adultério ou ao roubo, desde que se resista. As pessoas que sentem atração por outras do mesmo sexo devem lembrar que tal desejo é resultado da desordem moral que entrou na humanidade com a queda de Adão e que, em Cristo Jesus, o segundo Adão, podem receber graça e poder para resistir e vencer, sendo justificados diante de Deus.

Existem várias causas identificadas comumente para a atração por pessoas do mesmo sexo, como o abuso sexual sofrido na infância. Muitos gays provêm de famílias disfuncionais ou tiveram experiências negativas com pessoas do sexo oposto. Há aqueles, também, que agem deliberadamente por promiscuidade e têm desejo de chocar os outros. Um outro fator a se levar em conta são as tendências genéticas à homossexualidade, cuja existência não está comprovada até agora e tem sido objeto de intensa polêmica. Todavia, do ponto de vista bíblico, o homossexualismo é o resultado do abandono da glória de Deus, da idolatria e da incredulidade por parte da raça humana, conforme Romanos 1.18-32. Portanto, não é possível para quem crê na Bíblia justificar as práticas homossexuais sob a alegação de compulsão incontrolável e inevitável, muito embora os que sofrem com esse tipo de impulso devam ser objeto de compaixão e ajuda da Igreja cristã.

É preciso também repudiar toda manifestação de ódio contra homossexuais, da mesma forma com que o fazemos em relação a qualquer pessoa. Isso jamais nos deveria impedir, todavia, de declarar com sinceridade e respeito nossa convicção bíblica de que a prática homossexual é pecaminosa e que não podemos concordar com ela, nem com leis que a legitimam. Diante da existência de dispositivos legais que permitem que uma pessoa deixe ou transfira seus bens a quem ele queira, ainda em vida, não há necessidade de leis legitimando a união civil de pessoas de mesmo sexo – basta a simples manifestação de vontade, registrada em cartório civil, na forma de testamento ou acordo entre as partes envolvidas. O reconhecimento dos direitos da união homoafetiva valida a prática homossexual e abre a porta para o reconhecimento de um novo conceito de família. No Brasil, o reconhecimento da união civil de pessoas do mesmo sexo para fins de herança e outros benefícios aconteceu ao arrepio do que diz a Constituição: “Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento” (Art. 226, § 3º).

Cristãos que recebem a Bíblia como a palavra de Deus não podem ser a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, uma vez que seria a validação daquilo que as Escrituras, claramente, tratam como pecado. O casamento está no âmbito da autoridade do Estado e os cristãos são orientados pela Palavra de Deus a se submeter às autoridades constituídas; contudo, a mesma Bíblia nos ensina que nossa consciência está submissa, em última instância, à lei de Deus e não às leis humanas – “Importa antes obedecer a Deus que os homens” (Atos 5.29). Se o Estado legitimar aquilo que Deus considera ilegítimo, e vier a obrigar os cristãos a irem contra a sua consciência, eles devem estar prontos a viver, de maneira respeitosa e pacífica em oposição sincera e honesta, qualquer que seja o preço a ser pago.

[Artigo publicado na revista Cristianismo Hoje]

O Reino, antes de tudo! (Um sermão em Lucas 12. 22-34)

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Por Gabriel Felipe M. Rocha
Junho de 2015/ Belo Horizonte- MG

Introduzindo:

Desde sua queda no Éden (Gn 3. 1-7), o homem se vê frente à tarefa de buscar, com esforço e trabalho, o próprio pão. Isso, até “voltar para o pó” de onde fora formado (Gn 3.19). Pois, diante do pecado da desobediência, o mesmo recebe do Criador uma imediata sentença, a saber, a sentença da morte (Rm 6.23). Junto dessa, a sentença da submissão à ordem natural (Gn 3. 16-19). O homem, mesmo com uma especial e determinada autoridade e inteligência para transformar seu mundo, passou a ser um subalterno da terra. Ou seja, a criatura que fora criada para um relacionamento santo e abundante com o Eterno, via-se, ali, distante e em inimizade com Deus, recebendo do Criador o justo castigo pela desobediência (ver Rm 3.23).

A humanidade dominaria a terra, sendo o homem a única criação dotada de uma imagem e de uma semelhança em relação ao Criador (Gn 1.26). Ou seja, como “imagem”, o homem – em todo o seu ser (alma e corpo) – passou a ser uma representação fiel de Deus, possuindo vida proveniente dele, razão e consciência de si próprio e potencial de intimidade com Ele (o que os outros seres criados não tinham). Como “semelhança”, o homem passou a ser uma criatura com autoridade, racionalidade e poder de deliberação, algo que as outras criaturas também não experimentavam e não experimentam ainda hoje, além do instinto próprio. Em suma, dentro da ordenação divina, o homem não teria necessidade alguma, pois todas seriam imediatamente supridas.

No entanto, com o castigo, o homem passou a ser uma criatura que, mesmo dotada ainda de uma especial estrutura (imagem e semelhança do Criador), provaria, desde então, do trabalho e da morte, como um ser finito e situado em seu mundo. Um ser que, como os outros seres, ia se submeter, agora, ao espaço-tempo de seu mundo, trabalhando incessantemente, envelhecendo e morrendo. Desse modo, surge paralelo ao seu castigo a constante e profunda aspiração pela sua auto-realização, satisfação e suprimento de suas necessidades e carências. Assim como (também) a sua profunda, essencial e instigante tentativa de evitar a morte, projetando – desde as primeiras comunidades humanas –, meios, sentido, modelos de vida, crenças, normas e condutas (ou seja, a cultura) como uma evidencia de sua constitutiva aspiração pela vida, pela transcendência, pelo infinito e pelo sentido da própria existência.

Contudo, é claro, foi vã a busca da humanidade que – afastada espiritualmente e fisicamente do Criador – nunca conseguiu alcançar sua plena realização, felicidade, liberdade, paz e re-ligação com o Criador. Por causa do nosso pecado, fomos um dia afastados do Reino celeste, pois as obras do mal e das trevas não são compatíveis com o Bem e com a Luz. Mesmo projetando para si interessantes religiões, variedades de crenças e pluralidade de deuses, o afastamento continuou como sentença imutável para os inimigos de Deus.

Portanto, o que marca a vida humana, desde os primórdios é a dinâmica (e sempre preocupante) solicitude pela própria vida. O homem é um ser que, diferente dos outros seres, está sempre preocupado com o amanhã. Ele vive ansioso. Vive trabalhando e ajuntando bens e valores para envelhecer bem e, muitas vezes, sem poder desfrutar de tudo o que juntou ao longo de sua vida temporal e limitada.

Talvez, você (homem, mulher, jovem, idoso, esteja nesta situação. Está sobrecarregado, aflito, sobremaneira ocupado ajuntando bens, sem tempo para Deus, cansado e, até mesmo, angustiado. Talvez você faz parte daqueles que já provaram da luz e já ouviram a proposta do Evangelho, mas recusaram o convite para o banquete, pois, a solicitude desse vida fez com que você não tivesse tempo, disposição, interesse ou crédito para aceitar o convite do Reino.

E é falando sobre isso que Jesus nos passa o seu ensino. Antes do contexto de “[…] Buscai, antes de tudo, o seu reino, e estas coisas vos serão acrescentadas […]” (Lc 12. 31), nota-se que a temática abordada por Jesus sobre as solicitudes da vida humana inicia-se, na verdade, nos versículos de 13 a 21 do mesmo capítulo, quando o Mestre trata da questão da avareza.

No versículo 13, um indivíduo entre a multidão apresenta uma causa de nível judicial a Jesus:

“ordena que meu irmão reparta comigo a herança”.

Jesus tão logo o responde negando ser uma espécie de “juiz” ou “repartidor”, como ele mesmo cita. Contudo, lança um ensinamento sobre a questão da avareza e, logo, discorre a respeito do valor que há na vida humana.

Desenvolvendo:

“Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundancia dos bens que ele possui” (v. 15).

Aqui reside um ponto interessante a respeito da vida humana e da graça divina. A recomendação de Jesus para se guardar de qualquer avareza, sendo a vida humana algo que não consiste na abundancia de bens que um homem possa adquirir, nos remete a uma verdade:

A)

Há um limite entre a real solicitude pela a própria vida (que sempre vai partir da consciência da pessoal dependência de Deus como o provedor, assim como a fé operante na sua provisão. veja o que diz o Sl 23) e a avareza (que implica no amor pelo dinheiro, pelos bens materiais, pelos valores pessoais, etc.)

B)
A vida humana, mesmo culpada de seu pecado e mesmo debaixo de uma justa condenação, continua participando da ordem e da determinação divina. Olhando para o mundo hoje e vendo tantas guerras, fomes, pestilências, desastres naturais e maldade, podemos até pensar que Deus abandonou o mundo e o entregou totalmente ao maligno, mas isso não é verdade. Embora o mundo padeça no maligno (1 Jo5. 19) e o príncipe deste mundo tenha ainda poder para tentar, perseguir e atribuir-se de alguma autoridade sobre pessoas, coisas e situações (dentro dos limites impostos pelo próprio Deus), o Eterno é quem está sob o controle. Ele é soberano! Ele cuida de todas as coisas e todas as coisas estão debaixo de seu ilimitado poder (Sl 22. 28; Sl 145. 9-16). E, assim como nenhuma folha cai no chão sem o conhecimento de Deus, a vida humana está debaixo da soberania do mesmo Deus. Todo homem participa da graça comum (Mt 5.45; Rm 1.20). Portanto, para os desesperados, ansiosos, aflitos, avarentos, dispersos, ocupados, cansados, e sobrecarregados, há a provisão de Deus, mas a esperança capaz de saciar o desejo da alma humana é para os que buscarem de todo o coração o Deus Criador e Abençoador em arrependimento e genuína regeneração. Diante da grandeza de Deus, anunciada pelas obras de suas mãos, venha e se lance aos pés do Salvador. Venha a Cristo, pois, de todas as provisões, Ele é a maior provisão de Deus para aquele que ao qual o Pai desejou dar o Reino. Pode ser que Deus tenha misericórdia de sua vida, ó avarento! Pode ser que Deus te perdoe, ó disperso e ocupado com as coisas deste mundo! Pode ser que Deus te alivie e te acrescente, ó aflito e necessitado! Há um Reino cujo convite é este:

“Vinde a mim todos que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei […]” (Mt 11: 28).

Ao homem cabe buscar a cada dia seu pão, mas Deus é quem supre tudo e todos. Mas há um convite especial e esse convite se resume em crer que Jesus Cristo é a provisão de Deus para a redenção humana, sendo Ele o Filho de Deus e altamente capaz e suficiente para perdoar a nossa dívida diante do Pai e eficientemente capaz de nos oferecer paz, cuidado, descanso e, sobretudo, certeza da salvação. O convite ao Reino é esse: “vinde a mim”. Para entrar e fazer parte do Reino, é preciso passar pela porta principal e essa porta é Cristo.
Outra verdade que pode ser extraída da resposta de Cristo no v. 15 do capítulo 12 de Lucas é esta:

C)
Quando Jesus afirma que a vida humana não consiste na abundancia de bens, Ele está dizendo exatamente que a vida humana é muito mais que isso. Muito mais que bens materiais, mesmo os mais básicos para a sobrevivência humana. E quando Ele (em Mt 11. 28-30) convida a todos os cansados e sobrecarregados para virem a Ele, o Mestre está implicitamente mostrando-nos que o fim para o excesso de preocupação, ocupação e amor ao dinheiro, bens e ao bem-estar só pode ser o cansaço e a sobrecarga, pois, a vida humana é sempre mais que isso. Mesmo conseguindo tudo nesta vida, a sobrecarga continua. Mesmo rodeado de bens, a ausência de paz permanece. Por quê? Porque há em cada ser humano (crente e não crente) uma atualidade infinita de ser que o faz aspirar sempre algo exterior à sua contingência, limitação, finitude e situação. O homem (mesmo em pecado, sem Deus e, portanto, impossibilitado totalmente de “escolher” Deus), deseja profundamente a transcendência, pois, em sua estrutura há uma essencial abertura ao infinito, pois, com o sopro do infinito fora criado. Para a glória de Deus foi criado.

Dada à sua depravação e impossibilidade de discernimento espiritual, tem buscado o sentido de sua existência nas coisas contingentes que participam da mesma finitude e situação de seu mundo. Os bens materiais, o dinheiro, o conforto, etc. são importantes, mas não podem garantir a plena vida ao homem. Nada podem acrescentar ao homem no que diz respeito à sede de sua alma.

O homem não é só seu corpo, mas ele é alma e o aspecto espiritual que também forma sua estrutura pede sempre mais. O homem é, desse modo, um eterno insatisfeito. Porém, só é eterno insatisfeito quando não tem um real encontro com Cristo.

Jesus disse:

“Que aproveita o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”. E “Que daria um homem em troca de sua alma?” (Mc 8. 36,37).

Como disse R. C. Sproul: “Jesus pôs uma etiqueta de preço bem alto no valor da alma humana”. E isso é verdade! Portanto, meus amados, nós não podemos desperdiçar a nossa alma no vazio, num Cristo vazio pregado pelos religiosos, pragmáticos e liberais. Não podemos oferecer nada à nossa alma edificando a nossa existência nos bens, valores e coisas deste mundo. Não podemos desperdiçar a nossa alma buscando o real sentido de nossa existência na satisfação individual.

Em 1 João, há uma clara distinção entre “os que são do mundo” e “os que são filhos de Deus” (1Jo 1. 15-17). Nós que cremos em Cristo não podemos agir como os que não crêem, pois os que não crêem nutrem suas esperanças nas coisas terrenas, mas os filhos de Deus nutrem suas esperanças nas coisas que são de cima (Cl 3. 1-4). E isso, definitivamente, implica uma postura diferente para ambos os lados.

Os filhos deste mundo são individualistas e amam a si próprios. Trabalham, ajuntam, se apegam, consomem, lucram, mas só pensam em si mesmos. Já os filhos de Deus, segundo a própria conceituação joanina, amam o seu próximo e vive em comunhão, pois têm a Deus como Pai (1 Jo 2. 1-11). Em outras palavras, há uma diferenciação drástica entre o reino das trevas e o Reino da Luz. Em qual você tem sido cidadão? Não será a sua denominação religiosa quem definirá isso, mas, tão logo, suas atitudes e as obras de sua fé. Tem buscado, antes de tudo, o Reino de Deus ou tem depositado suas esperanças nas coisas terrenas?

Atentem-se! Existe uma condenação! “O que não crê já está julgado”! (Jo 3. 18). Não esperar em Deus e não buscar nele nossos anseios, necessidades e sustento para esta vida é ausência de confiança. Ausência de confiança nada mais é do que ausência de fé. Portanto, quem não crê, está já condenado. Venha você que está cansado e sobrecarregado! Pode ser que Deus te aceite se, com todo o coração, crer e se arrepender. Há em Cristo a esperança! Há em Cristo o sentido para a existência! Há em Cristo o cuidado e o amor do Pai. Há em Cristo uma novidade de vida.

No capítulo 12 do Evangelho de Lucas, desde o versículo 13 à exortação de Cristo para se buscar, antes de tudo o Reino, há essencialmente duas classes de pessoas:

1) A primeira diz respeito da multidão, representada pelo anônimo homem que falou ao Mestre sobre a divisão da herança.

A multidão, desde o ministério de Cristo nesta terra, segue a Jesus, busca a Jesus, mas, geralmente, não quer um compromisso com o Reino. Uma prova disso está nos quatro Evangelhos. Os tais não relatam “uma multidão” integralmente envolvida nos eventos de maior comunhão em todo o relato bíblico neotestamentário. Falo, por exemplo, das missões comissionadas aos discípulos, da Santa Ceia, do dia de Pentecostes, das aparições de Cristo, da assunção de Cristo aos céus, etc. Mas, por outro lado, a multidão estava em meios aos milagres e em meio aos sermões, pois esses ativavam alguns interesses terrenos da mesma. Os milagres eram bons, pois atendiam algumas carências e necessidades entre a multidão. Alguns sermões sobre o Reino de Deus eram interessantes em alguns pontos, pois pareciam pressupor uma reação contra o governo romano estabelecido ali. Podemos lembrar-nos do sermão pregado por Cristo (em João 6. 27-65). Logo após a mesma multidão ter presenciado um milagre de multiplicação de pães e peixes (João 6. 1-14), as palavras posteriores foram bastante indigestas. Não gostaram do sermão! Escandalizaram-se quando Cristo se revelou como o Pão que desceu do céu e que era necessário comer de sua carne e beber de seu sangue. Saíram logo dali. Não conheciam o Cristo “real”, mas aguardavam um revolucionário que atendesse seus anseios imediatos, multiplicando sempre o pão e o peixe, curando e afrontando autoridades. Isso evidencia o total apego pelas coisas terrenas. A esperança estava amplamente fincada no mundo e não no céu. Jesus falava do Reino de Deus. E, para conhecer e participar do reino de Deus, seria (e continua sendo) necessário comer da carne e berber do sangue. Muitos hoje se escandalizam e voltam para os vales para tomarem conta de suas tantas e preocupantes coisas. Comer a carne de Cristo e beber de seu sangue implica total envolvimento com o Cristo. Implica participar de suas aflições e de sua glória. Implica fazer parte de seu corpo. Implica ter uma comunhão real com Ele. Implica estar cheio dele, cheio do Santo Espírito dele. E isso não tem sido para a multidão, mas apenas para os discípulos genuínos. Ser cidadão do Reino implica algumas renúncias e algumas posturas. Contudo, Jesus, nosso Senhor, aliviou toda a nossa carga quando na cruz derramou seu sangue para o perdão nosso. O convite está posto: “Vinde a mim todos que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”.

Aquele anônimo que pede para Cristo julgar uma causa sua (que envolve uma repartição de herança) conheceu o Jesus- juiz e o Jesus partidor, mas não conheceu o Cristo Libertador, Salvador, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da paz, Conselheiro, maravilhoso, etc. Ignorou o Reino, dando primazia à briga pela repartição da herança. Vale lembrar que a multidão só participou de um grande momento do Evangelho do Reino, a saber, a crucificação de Jesus na qual uma multidão brava pedia para que o crucificassem naquela hora. Nem mesmo a boa recepção de Cristo em Jerusalém diminuiu a culpa daquela multidão.

2) A segunda classe de pessoas diz respeito dos discípulos:

Citei apouco João 6. 27-65. Note que em 6. 66 está registrado que muitos discípulos abandonam a Cristo diante do duro sermão. A partir dali já não eram mais discípulos e passaram para o grupo da multidão. Discípulo segue. Simplesmente! Discípulo deixa tudo para seguir (Mt 19.29).

O discípulo é aquele que, se preciso for, deixa casa, pais, irmão e irmã, mulher e filhos por amor de Cristo. Isso parece muito duro! É uma proposta duríssima e até soa um pouco injusta. “Como assim? Deixar casa, pais, esposa, filhos…”. Pois é! Se for preciso, essa é a proposta na qual o verdadeiro discípulo está disposto a cumprir. Logicamente, Deus não nos tem pedido isso. Muito pelo contrário, a Bíblia está cheia de admoestações a respeito dos cuidados que devemos ter com a nossa família, nossa casa e, até mesmo, nossas riquezas, bens, valores, etc. A proposta do Evangelho não é uma vida marcada por um tipo de platonismo, totalmente desligada das coisas terrenas. Isso se chama alienação e Evangelho não implica em alienação. Mas a força da expressão de Cristo é exatamente essa: se necessário for, o discípulo deve deixar tudo e seguir. Isso fala também de: a carreira do discípulo (algo que é proposto a todo crente sem exceção) implica na primazia ao reino de Deus. O que é dar primazia ao Reino de Deus? É valorizar acima de tudo os interesses do Reino. Lembremo-nos das palavras de Jesus sobre os dois principais mandamentos (Mt 22. 38). Ambos pressupõem o cumprimento de toda a Lei, certo? Pois então, veja que estão neles os interesses centrais do Reino. Primeiro: amar a Deus acima de todas as coisas. Isso implicará em uma série de posturas como:

1) Guardar os mandamentos (Jo 15. 10-15);
2) Santificação;
3) Vida de oração e leitura bíblica;
4) Vida de testemunho e real adesão ao Evangelho;
5) Vida frutificada para a glória de Deus.

Segundo: amar o próximo como a si mesmo. E isso, igualmente, implica numa série de posturas que, também, condizem com a proposta do Reino de Deus, a saber:

1) Vida que evidencia os frutos do Espírito Santo;
2) Vida piedosa;
3) Vida que compartilha;
4) Vida que acolhe;
5) Vida que evangeliza e ganha almas para Cristo.

Está aí, portanto, o cumprimento de toda a justiça! Está aí o Reino de Deus como a prioridade na vida do verdadeiro discípulo de Cristo. O cidadão do Reino ama o seu Senhor e Rei acima de tudo, pois está convencido pelo Espírito Santo de que Jesus Cristo é Filho do Deus Altíssimo, Senhor e Rei. O cidadão do Reino ama o seu Deus e ama as suas leis. O cidadão do Reino, enquanto (ainda) habitante deste mundo, sabe que o seu Deus provê tudo e não anda sobremaneira preocupado a ponto de se afastar da luz. Suas preocupações são logo depositadas em oração e súplicas aos pés do Rei. Em Deus ele espera. Em Deus ele também sabe padecer de algumas faltas. Como disse Paulo: “Tanto sei estar humilhado como também ser honrado, de tudo e em todas as circunstâncias […] posso todas as coisas naquele que me fortalece”, (Fp 4. 12,13). O cidadão do Reino vê o outro como um “outro eu”, por isso é cheio de compaixão e misericórdia. O cidadão do Reino se coloca tão logo no lugar do outro. O cidadão do Reino prega a Palavra, ama as almas perdidas e busca trazê-las para a Luz. Eis o Reino estabelecido na vida daquele que ama o seu Deus acima de todas as coisas e ama o próximo como a si mesmo. Uma nação santa se estabelece através da vida do real discípulo de Jesus Cristo.

Logo após Jesus falar sobre a avareza, partindo da resposta que deu àquele homem entre a multidão, solícito pela sua herança, discorre para a importância de se valorizar primeiro o Reino, antes de todas as outras coisas.

Note que no versículo 22 Jesus dirige-se aos seus discípulos. Há uma verdade a ser considerada neste ponto: a admoestação para se priorizar o Reino é dada aos discípulos à parte da multidão. Por quê? Porque, como falamos agora a pouco, a multidão não quer decisivamente um compromisso com o Reino, pois não quer assumir um compromisso com o Cristo. Mas o discípulo verdadeiro sim. Por isso, a advertência para se valorizar o reino pertence aos que foram chamados para o Reino. Valorizar o Reino é questão que envolve, sobretudo, fé e, sabemos que a fé não pertence a todos. De igual modo, nós sabemos que a falta de fé faz com que o homem permaneça em sua própria condenação. E a vida sem fé é evidenciada, principalmente, pela falta de confiança em Deus para todas as coisas.

Do versículo 22 ao versículo 27, algumas considerações podem ser tiradas:

1) A preocupação com as riquezas deste mundo é, portanto, sinal de incredulidade: “Ora, se Deus veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais se tratando de vós, homens de pequena fé!” (v. 28). A exacerbada solicitude pela vida supõe falta de confiança em Deus, falta de fé na Palavra de Deus e tais modos revelam a vida daquele que não atendeu o convite para o Reino. Há uma condenação!

2) A preocupação com as coisas desta vida podem implicar em infidelidade a Deus, pois o crente fiel sabe que Deus cuida dos seus e, portanto, segue a Cristo e anseia por um relacionamento com seu Deus. Pelo contrário, o solícito se afasta de Deus quando se volta para suas preocupações e ocupações terrenas, esquecendo-se de Deus e de seu próximo. Ou seja, ele descumpre os dois importantes mandamentos ensinados por Cristo. Portanto, o Reino não o pertence. O mundo sim o pertence:

“Não ameis o mundo nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne e a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1 Jo 3. 15-17).

3) O excesso de preocupação e a falta de zelo pelas coisas mais importantes, como o cuidado da própria alma e a missão cristã (que cabe a todo crente sem exceção no Evangelho), produz uma vida estática e improdutiva. Por que improdutiva? Porque, embora os solícitos pela vida trabalhem e produzem muito, nada acrescentam para a vida eterna e seus dias são dias que, naturalmente, mais se aproximam para a morte e para a condenação. O ansioso, conforme diz Cristo, não pode acrescentar nenhum côvado ou nenhuma hora a mais para sua vida (v. 25). Pelo contrário, o discípulo que valoriza o Reino, acrescenta à sua vida, além dos cuidados e provisões de Deus (Sl 145. 9-16), a abundancia de vida eterna, sendo essa a finalidade do Reino. Como disse nosso Senhor:

“Trabalhai não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com seu selo” (Jo 6. 27).

4) A excessiva solicitude pela vida pode fazer com que o crente caia em diversas tentações, pecados, ruínas e perdições. Pois, como Paulo adverte a Timóteo, “os que querem ser ricos caem em tentação e em laço e em muitas concupiscências loucas e nocivas que submergem os homens na perdição e ruína, Porque o amor do dinheiro é a raiz de toda espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé e se transpassaram a si mesmo com muitas dores” (1Tm 6. 9,10).

5) A exagerada solicitude pela vida, além de significar ausência de fé e confiança e evidenciar um preocupante amor ao mundo, é também uma espécie de rebelião. Por quê? Porque a vida humana tem muito mais valor que todos os exemplos dados por Cristo nesta passagem bíblica. A erva, o corvo, os lírios e o próprio corpo corruptível do homem não são maiores que a própria vida humana e desta cabe a Deus cuidar e prover. O homem insensato não confia na provisão divina e evidencia desse modo a sua inimizade com o Criador. Evidencia sua rebeldia. Evidencia sua auto-suficiência.

Mas, embora muitas coisas sejam importantes para a nossa existência neste mundo, para nossa saúde, bem estar, etc., a maior importância está na busca pelo Reino. A busca (ou a primazia) pelo Reino implica em:

1) Buscar a Deus e depositar nele toda a confiança;
2) Amar a Deus sobre todas as coisas, amando e seguindo seus mandamentos;
3) Se fiel em tudo;
4) Crescer em graça e conhecimento e dar muitos frutos;
5) Procurar o caminho da santidade;
6) Realizar a obra do Pai e proclamar o Evangelho
7) Servir o seu próximo/ amparar o próximo em tudo que for necessário e possível;
8) Aguardar em fidelidade e serviço a volta de Jesus Cristo.

Valorizar, antes de tudo, o Reino de Deus, não supõe jamais o descaso com as outras coisas. Em todo país ou reino, a família, o trabalho, os filhos, a saúde, o bem-estar, e boa educação e formação acadêmica, o entretenimento e tantas outras coisas são importantes para a qualidade do país ou do reino. No Reino de Deus é semelhante. Cuidando e valorizando as coisas de Deus, todas as outras estão já incluídas. Porém, com uma considerável diferença: enquanto aqui, corremos atrás da boa saúde, da boa educação, do bom trabalho, da comida, da bebida, das roupas, do lazer, etc. Mas no reino celestial seremos satisfeitos em tudo, pois receberemos com Cristo a Herança eterna.

Na carta aos colossenses, Paulo fala com os santos que foram chamados para a salvação para que esses dêem graças ao Pai que os fizeram “idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz” (Cl 1. 12). De fato, há uma herança eterna! Se há uma herança eterna prometida para os que estão em Cristo, há – também para esta vida – a certeza do cuidado e da provisão de Deus. Não importa o muito ou o pouco, Deus cuida daqueles que fazem parte do Reino. Citei agora a carta aos colossenses. Pois bem, veja que Paulo registra tal esperança pela herança dos santos, mas antes os convida a participarem efetivamente do Reino que a eles também foi oferecido por Deus (Cl 1. 9-11). O convite ao reino é um convite para uma nova postura em Cristo! O Reino pertence aos que foram perdoados e remidos pelo sangue de Cristo. Vir ao Reino implica numa vida santa, honesta, fortalecida e firmada em Cristo, digna, exemplar e em constante crescimento para a glória de Deus. O Reino é para os que estão com Cristo e Cristo é o sentido de nossa existência.

Cristo é o sentido! É o perdão. Ele é a reconciliação pelo seu sangue com o Criador. Ele é a esperança nossa para vencer a morte. Ele venceu a nossa morte! Ele é a esperança da vida eterna! Seu Reino é eterno! Ele é quem faz com o homem creia que há um Deus que cuida de tudo e que, antes de tudo, há um Reino. Se há um Reino, há uma “nova cultura”, a saber, a cultura do Reino. Existindo uma “nova cultura”, há uma nova postura quando – por fé – se adere à mensagem do Reino. A saber, a mensagem do santo Evangelho.
O convite, então, continua posto:

“Vinde a mim todos que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei […]” (Mt 11: 28).

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A obra de Deus em nossa obra

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Por Abraham Kuyper

O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo (1Ts 5:23)

A diferença entre santificação e boas obras precisa ficar bem entendida.

Muitos confundem as duas, e creem que santificação significa viver uma vida honrável e virtuosa; e, uma vez que isto é o mesmo que boas obras, a santificação, sem a qual nenhum homem verá a Deus, é tomada no sentido de um sincero e diligente esforço para fazer boas obras.

Mas este raciocínio é falso. A uva não deve ser confundida com a vinha, o relâmpago com o trovão, o nascimento com a concepção, não mais do que santificação com boas obras. A santificação é o grão, a semente da qual germinarão o caule e folhas das boas obras; mas, isto não identifica o grão com o broto. Aquele encontra-se no solo e através de suas fibras se agarra às raízes internamente. O último dispara do solo, externamente e visivelmente. Assim, a santificação é o implantar do germe, da disposição e da inclinação, os quais produzirão a florada e o fruto de uma boa obra.

Santificação é obra de Deus em nós, através da qual Ele concede aos nossos membros uma disposição santa, enchendo-nos interiormente com regozijo na Sua lei com repugnância ao pecado. Mas boas obras são atos de homem, que brotam desta disposição santa. Por conseguinte, a santificação é a fonte de boas obras, a lâmpada que brilhará com a sua luz, o capital do qual elas são o dividendo.

Permita-nos repetir: Santificação é uma obra de Deus; boas obras são de homens. A santificação opera internamente; boas obras são externas. A santificação comunica algo ao homem, as boas obras tiram algo dele. A santificação força a raiz dentro do chão, as boas obras forçam o fruto para fora da árvore frutífera. Confundir estes dois faz as pessoas se extraviarem.

O Pietista diz: A santificação é obra do homem; não se pode insistir nisso com ênfase suficiente. Trata-se do nosso melhor esforço para sermos santos. E o Místico mantém: Nós não podemos fazer boas obras, e não podemos insistir nelas, pois o homem é incapaz; só Deus pode operá-las nele, independentemente dele.

Naturalmente, ambos estão igualmente errados e não estão de acordo com a Escritura. O primeiro, ao reduzir a santificação a boas obras, tira-a das mãos de Deus a coloca sobre os homens, que nunca as podem executar; e o último, em fazendo as boas obras tomarem o lugar da santificação, libera o homem da tarefa que lhe foi designada e clama que Deus a executará. Ambos erros devem ser combatidos.

Tanto a santificação como as boas obras devem ser reconhecidas. Ministros da Palavra, e através deles o povo de Deus, devem entender que a santificação é um ato de Deus, que Ele executa no homem; e que Deus ordenou ao homem fazer boas obras para a glória do Seu nome. E isto terá efeito duplo: (1) O povo de Deus reconhecerá sua completa incapacidade para receber uma disposição santa que não seja como uma dádiva da graça livre, e então eles sinceramente orarão por esta graça. (2) Eles orarão para que os Seus eleitos, nos quais esta obra já foi operada, possam mostrá-la adiante, em obras que glorifiquem a Deus: ― assim como nos escolheu nEle (Jesus Cristo), antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante Ele; e em amor (Ef 1:4).

Embora esta distinção seja bem clara, duas coisas podem causar confusão: Primeira, o fato de que a santidade pode ser atribuída às próprias boas obras. Alguém pode ser santo, mas também fazer boas obras. A Confissão, falando de Jesus Cristo, diz das tantas obras santas, que fez por nós e em nosso lugar [Confissão de Fé Belga — Artigo 22 — A Justificação Pela Fé Em Cristo]. Assim é que a santidade pode ser externa e interna.

A passagem seguinte refere-se não a santificação, mas a boas obras: Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento… (2Pe 3:11); segundo é santo Aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento (1Pe 1:15); de conceder-nos que, livres das mãos de inimigos, O adorássemos sem temor, em santidade e justiça perante Ele, todos os nossos dias (Lc 1:74-75).

Vemos que a palavra “santo” é utilizada em ambos, na nossa disposição interior e dos resultados dela, a vida exterior. Pode ser dito tanto da fonte como da água, que contém ferro; tanto da árvore como do fruto, que são bons; tanto da vela como da luz, que são claras. E, uma vez que santidade pode ser atribuída a ambas, a disposição interior e a vida exterior, santificação pode ser entendida como se referindo à santificação da nossa vida. Isto pode levar à suposição que uma vida exterior impecável é a mesma coisa que santificação. E se for assim, então santificação nada mais é senão uma tarefa imposta, e não um dom concedido. Deveria ser, portanto, cuidadosamente notado que a santificação da mente, das afeições e disposições não é obra nossa, mas sim de Deus; e que a vida santa a qual surge a partir daí é nossa.

Segunda, a outra causa de confusão são as muitas passagens da Bíblia que exortam e encorajam-nos a santificar, a purificar e a aperfeiçoar as nossas vidas, sim, mesmo a ― aperfeiçoar a nossa santidade (2Cor 7:1) e oferecermo-nos como servos para santificação (Ro 6:19); e a sermos isentos de culpa (1Ts 3:13).

E não devemos enfraquecer estas passagens, como os místicos o fazem; que dizem que estes textos significam, não que devêssemos oferecer os nossos membros, mas que Deus Ele Próprio tomará cuidado especial para que eles sejam assim oferecidos. Esses são truques que levam homens a brincar com a Palavra de Deus: É um abuso da Escritura, em benefício de introduzir as teorias próprias de alguém, sob a cobertura de autoridade divina. Os pregadores que, por medo de imporem responsabilidades sobre homens se abstêm da exortação, e cegam o fio dos mandamentos divinos por representa-los como promessas, tomam sobre si mesmos uma pesada responsabilidade.

Embora saibamos que nenhum homem jamais executou uma única boa obra sem Deus, quem nEle operou ambos, o querer e o executar; embora sinceramente concordemos com a Confissão, que diz que somos devedores a Deus pelas boas obras que fazemos e não Ele a nós… [Confissão de Fé Belga — Artigo 24 ― A Santificação — Referências Bíblicas: 1Co 1:30: 1Co 4:7; Ef 2:10]; e regozijamo-nos com o apóstolo no fato ― Pois somos feitura dEle, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas (Ef 2:10); ainda assim isto não nos absolve da tarefa de exortarmos os irmãos.

É um fato que apraz a Deus usar o homem como um instrumento, e pelo estímulo de sua própria capacidade e responsabilidade, incitá-lo à atividade. Um soldado da cavalaria, no campo de batalha, é bem ciente do quanto ele depende dos bons serviços do seu cavalo; e também de que o animal não pode correr a não ser que Deus o capacite. Sendo um homem reverente a Deus, ele ora antes de montar para que o Senhor capacite seu cavalo para trazer-lhe vitória; mas após haver montado, ele usa os joelhos e as esporas, relho e voz, ele usa toda sua força para fazer com que o cavalo faça o que deve fazer. E o mesmo é verdade na santificação. A menos que o sopro do Senhor mova-se no jardim da alma, nem uma folha pode mexer-se. Só o Senhor executa a obra, desde o início ao fim. Mas Ele a executa, parcialmente através de meios; e o instrumento escolhido muitas vezes é o próprio homem, que coopera com Deus. E a esta instrumentalidade humana a Bíblia se refere quando, com relação à santificação, ela nos admoesta a fazermos boas obras. Como na natureza Deus dá a semente e as forças e nutrientes no solo e na chuva e na luz do sol para o completo desenvolvimento natural do fruto da terra, enquanto que ao mesmo tempo Ele usa o agricultor para executar a Sua obra, assim também na santificação: Deus faz com que ela opera efetivamente, mas Ele usa o instrumento humano para cooperar consigo, assim como o serrote trabalha em conjunto com aquele que o maneja.

No entanto, isto não deveria ser entendido como se na santificação Deus Se houvesse feito absolutamente dependente do instrumento humano. Isto é impossível; por sua própria natureza o homem pode realmente danificar a santificação, mas nunca, jamais adicionalmente a ela. Por sua natureza ele a odeia e opõe-se a ela. Ademais, ele é absolutamente incapaz de produzir a partir da sua própria e corrupta natureza qualquer coisa que seja para o seu próprio crescimento em santificação. A cooperação instrumental do homem não deve, portanto, ser inapropriadamente tomada, por atribuir-se ao homem um poder para o bem, ou por obscurecer-se a obra de Deus.

É necessário uma cuidadosa discriminação. Aquele que implanta a disposição santa é o Senhor. Os esforços combinados de todos estes instrumentos não poderiam implantar uma única característica da mente santa, não mais do que todas as ferramentas juntas de um carpinteiro não podem produzir o rascunho do molde de um painel. O artista pinta sobre a tela; mas com todos os seus esforços, o seu cavalete, seus pincéis e sua caixa de tintas não podem nunca rascunhar uma única figura. O escultor molda a imagem; mas por si mesmos o seu cinzel, sua marreta e seu tamborete não podem nunca destacar uma única lasca do mármore rude. Gravar as características de santidade no pecador é uma obra do mais elevado sentido artístico, indizivelmente divina. E o Artista que a executa é o Senhor, como São Paulo O chama, O Artista e O Arquiteto da Cidade que tem fundamentos (Hb 11:10). O fato de que apraz ao Senhor utilizar-se de instrumentos para algumas partes da obra não concede aos instrumentos qualquer valor que seja, muito menos capacidade para alcançar qualquer coisa por si mesmos, sem o Artista. Ele é O único Operador.

Mas como Artista, Ele usa três instrumentos diferentes, a saber, a Palavra, Suas relações providenciais, e a própria pessoa regenerada.

1. A Palavra é um poder vital na Igreja, que penetra até ao ponto de dividir as juntas e tutano, e, como tal, é um instrumento divinamente decretado para criar impressões numa pessoa; e estas impressões são os meios pelos quais as inclinações santas são implantadas em seu coração.

2. Experiências de vida também nos causam impressões mais ou menos duradouras; e Deus usa estas também como instrumentos para criar disposições santas.

3. O terceiro instrumento refere-se ao efeito do hábito, do costume. Atos pecaminosos repetitivos fazem audacioso o pecador e criam hábitos pecaminosos; desta forma ele coopera para tornar-se um pecador ainda maior. Numa maneira similar o santo coopera para com a sua própria salvação, ao permitir que a disposição santa irradie-se em boas obras. O ato frequente de fazer o bem cria o hábito. O hábito gradualmente torna-se uma segunda natureza. E é esta poderosa influência do hábito, do costume, que Deus usa para ensinar-nos a santidade. Desta forma Deus pode fazer de um santo o instrumental na santificação de outro.

Um arquiteto constrói um palácio o qual o faz famoso, como um artista. É verdade que o contratante, uma pessoa importante no lugar, é quem erigiu a estrutura; mas o seu nome raramente é mencionado; toda a honra só é reservada para o arquiteto. Na santificação não é a Palavra por Si só que é efetiva, mas aquela Palavra manejada pelo Espírito Santo. Nem é só a experiência de vida, mas aquela experiência usada pelo Artista Santo. E nem tampouco é a pessoa regenerada que serve de exemplo e capataz, mas o Deus Triúno, glorioso, ao serviço de quem ele trabalha.

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Fonte: A Obra do Espírito Santo, Cultura Cristã, págs 493-497.

Os três benefícios que vivenciamos por meio da obra do Espírito Santo

Por Kevin DeYoung

O Espírito não opera para fazer cristãos anônimos que têm as bênçãos de Cristo dissociada da fé em Cristo. Os benefícios são nossos apenas pela fé. É pela confiança em Cristo, por descansarmos em Cristo e dependermos unicamente de Cristo que o Espírito Santo opera nós.

O primeiro benefício é que partilhamos de Cristo e de todas as suas bênçãos. Certamente, se alguém é abençoado de Deus, é seu Filho. E pelo Espírito, nós também partilhamos agora de todas as suas bênçãos. Também somos contemplados com favor. Tudo o que Cristo realizou é nosso. Tudo o que ele ganhou é nosso. A herança prometida a Abraão é nossa (Gl 3.14). Tudo isso e muito mais, porque nós pertencemos a Cristo e as bênçãos de Cristo pertencem a nós mediante as ministrações do Espírito.

O segundo benefício é o consolo do Espírito Santo. A maioria de nós já ouviu que o Espírito Santo é um Consolador (Jo 14.16). Outras traduções trazem paracletos como um “Ajudante” (ESV). um “Conselheiro” (NVI), ou um”Advogado” (NRSV), mas a verdade ainda está lá: Deus consola o seu povo pelo o Espírito Santo. Isso acontece de várias maneiras. O Espírito Santo pode sobrenaturalmente fortalecer a sua alma e dar-lhe uma paz que ultrapassa o entendimento ou uma calma confiança no trabalho do Senhor (At 9.31). Ele também pode consolar você por meio de outros cristãos enquanto você compartilha da comunhão do Espírito Santo. Como o Espírito da verdade, ele, muitas vezes, fala com você por meio da Palavra de Deus, levando-o a toda a verdade (Jo 16.13), incentivando-o com as palavras da Escritura que ele inspirou e a gora ilumina. Ele pode levar você a se lembrar de uma preciosa verdade bíblica ou direcionar seus pensamentos para a obra consumada de Cristo ou fazer com que seus olhos vejam mais claramente a glória de Deus.

O terceiro benefício é a presença do Espírito Santo para sempre. No céu, o Espírito continuará a nos ensinar mais sobre as riquezas inesgotáveis de Cristo. Ele continuará a ser o vinculo pessoal que une os crentes em comunhão. E ele continuará a ministrar para nós a presença de Deus Pai e Deus Filho, que juntamente com o Espírito Santo são o Deus triuno, bendito para sempre, amém.

Fonte: Trecho extraído do livro As Boas novas que quase esquecemos (pags. 101,102)

Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo 3/4

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(Por Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima)

3 – Das bênçãos desfrutadas pelos réprobos segundo às Escrituras

Existem algumas passagens nas Sagradas Escrituras que fundamentam o que foi dito até aqui. Algumas, como por exemplo, Salmo 145.9,15-16; Mateus 5.45 e Atos dos Apóstolos 14.14-17 e 17.25-28 podem ser usadas por aqueles que defendem que a graça comum e os benefícios desfrutados pelos ímpios estão fundamentados na criação, não na redenção. Levando isso em consideração, é necessário encontrar passagens que mostrem que os ímpios recebem certas bênçãos, ainda que de forma indireta, por causa da cruz de Cristo. Nesse sentido, destacam-se 1Coríntios 7.14 e Hebreus 6.4-8.

3.1. 1CORÍNTIOS 7.14

A passagem em questão diz o seguinte: “Porque o marido incrédulo é santificado no convívio da esposa, e a esposa incrédula é santificada no convívio do marido crente. Doutra sorte, os vossos filhos seriam impuros; porém, agora, são santos”.

O capítulo 7 da primeira epístola do apóstolo Paulo aos coríntios versa a respeito de várias questões relacionadas ao casamento. No trecho que se estende a partir do versículo 12 o apóstolo orienta aqueles que já são casados. De forma bem específica, ele tem em mente pessoas recentemente convertidas à fé cristã que possuíam cônjuges incrédulos: “Nesses versos Paulo trata de um problema causado pela intrusão do evangelho”.[41] O argumento apostólico é que a parte convertida à fé cristã e salva por Cristo não deveria abandonar o seu cônjuge descrente caso este consentisse em permanecer casado. No versículo 14 Paulo consubstancia o seu argumento apontando para benefícios desfrutados pela parte incrédula em razão da fé do cônjuge crente.

Literalmente, o marido descrente é “santificado” na esposa crente, e a esposa descrente é “santificada” no marido crente. Por “santificar” o apóstolo Paulo não quer dizer que “o cônjuge gentílico tem um relacionamento pessoal com Cristo, pois nesse caso ele não seria mais chamado de incrédulo”.[42] O termo grego não “expressa qualquer mudança interior ou subjetiva”.[43] Charles Hodge afirma que o sentido da afirmação apostólica

Não é que eles [o marido ou a esposa incrédula] se tornam interiormente santos, nem que eles são trazidos sob uma influência santificadora, mas que são santificados por sua íntima união com um crente, da mesma forma como o templo santificava o ouro ligado a ele, ou da maneira como o altar santificava a dádiva colocada sobre ele […] Então, o marido pagão, em virtude da sua união com uma esposa cristã, embora permanecesse pagão, era santificado; ele assumia uma nova relação; ele era separado para o serviço de Deus, como o guardião dos seus escolhidos, e como o pai de crianças que, em virtude da sua mãe crente, eram filhos da aliança.[44]

Percebe-se, então, que o marido incrédulo desfrutava da bênção de possuir uma esposa crente que, através da sua comunhão com Deus, santificava-o, separava-o para servir ao propósito soberano de Deus, de zelar pelo bem-estar dos membros do povo de Deus que faziam parte da sua família. É preciso salientar que, o marido ou a esposa descrente permaneciam ímpios, incrédulos. A graça comum usufruída por eles não operava a sua salvação.

A conexão com a obra redentora de Cristo se dá exatamente pelo fato de a parte crente ter sido alvo da operação da graça especial de Deus. Somente porque Deus manifestou a sua graça especial a uma das partes é que a outra é beneficiária de alguns dos efeitos colaterais da cruz de Cristo, sendo que a consagração é uma delas.

Ademais, em razão de a mãe ou o pai ser salvo, os próprios filhos desfrutam do benefício dessa santificação. Paulo, ao chamar os filhos de “santos” também não tem em mente que eles são moralmente santos. “Filhos nascidos dentro da teocracia e, portanto, santos, não eram menos concebidos em pecado, e concebidos em iniqüidade. Eles eram por natureza filhos da ira, como os outros (Ef 2.3)”.[45] Contudo, por sua ligação com um pai ou uma mãe crente eles eram abençoados por pertencerem à aliança.

3.2. HEBREUS 6.4-8

O texto em foco diz:

“É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Porque a terra que absorve a chuva que freqüentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada.”

A primeira observação que deve ser feita a respeito de Hebreus 6.4-8, é que, trata-se, nos dizeres de Geerhardus Vos, de uma “difícil e importante passagem” sobre a aliança de Deus com o seu povo.[46] A razão dessa dificuldade está no fato de o autor da epístola mencionar especificamente o aspecto fenomenológico da religião nessa perícope.[47]

Os “iluminados” de Hebreus 6.4-8 eram pessoas que “abandonaram esta assembleia dos santos”. Eram pessoas não-regeneradas, não-eleitas, incrédulas que durante algum tempo fizeram parte de uma igreja visível, mas que apostataram. Muito se questiona acerca de como pessoas ímpias puderam “provar” de vários benefícios, como por exemplo: 1) do dom celestial; 2) da participação comum do Espírito Santo; 3) da boa palavra de Deus; e 4) dos poderes do mundo vindouro. Como tais pessoas puderam desfrutar, em alguma medida, de bênçãos destinadas àqueles que foram os beneficiários diretos do sacrifício substitutivo de Cristo?

D. Mathewson, no seu artigo intitulado Reading Heb 6:4-6 in Light of the Old Testament, lança luz sobre esse questionamento, ao afirmar que, “a linguagem do autor em 6.4-6 é colorida por referências do AT que aludem e ecoam como citação direta”.[49] De forma específica, Mathewson sugere que a referência àqueles que foram “iluminados” lembra a coluna de fogo que alumiou os israelitas através do deserto.[50] Algumas passagens veterotestamentárias podem demonstrar o ponto. Neemias 9.12,19 diz o seguinte:

“Guiaste-os, de dia, por uma coluna de nuvem e, de noite, por uma coluna de fogo, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir […] Todavia, tu, pela multidão das tuas misericórdias, não os deixaste no deserto. A coluna de nuvem nunca se apartou deles de dia, para os guiar pelo caminho, nem a coluna de fogo de noite, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir.”

O “dom celestial” lembra o dom celestial do maná, que foi dado por Deus ao seu povo quando este se encontrava no deserto (Êxodo 16.15). Em Neemias 9.15 é dito que o pão celestial foi dado aos israelitas “na sua fome”. Por sua vez, a referência àqueles que “se tornaram participantes do Espírito Santo” ecoa a experiência dos peregrinos do deserto, que “tinham extensiva interação com o Espírito de Deus” [51], como é testemunhado em Neemias 9.20: “E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar; não lhes negaste para a boca o teu maná; e água lhes deste na sua sede”.

Após considerar os elementos descritos em Hebreus 6.4-6, Mathewson conclui: “O autor não está apenas aludindo a textos fragmentados e a vocabulário isolado para apresentar uma retórica colorida, mas por aludir a textos que pertencem a uma enorme matriz de idéias ele está evocando o contexto inteiro e história da experiência de Israel no deserto”.[52] Quando se leva em consideração que os destinatários dessa epístola eram cristãos judeus, essa interpretação se mostra bastante plausível. O autor de Hebreus utiliza a linguagem do Antigo Testamento para descrever um abandono doloroso de uma congregação por parte de algumas pessoas.

Dessa forma, a iluminação recebida, o dom celestial provado e o Espírito compartilhado se mostram bênçãos da graça comum de Deus destinada a pessoas ímpias ou, nas palavras de Charles Hodge, “influências do Espírito concedidas a todos os homens”.[53] Tais pessoas, “tiveram um claro entendimento do juízo de Deus sobre o mundo, das promessas de Deus, o desvendar do mundo futuro; tiveram uma clara distinção do juízo, bem como provaram dos milagres da era apostólica”, afirma o teólogo genebrino Matthew Poole.[54]

No seu comentário a respeito do versículo 4, João Calvino endossa a opinião de que mesmo os réprobos recebem algumas chispas da luz divina:

Mas aqui surge uma nova questão, como pode que aqueles que fizeram tal progresso venham a apostatar depois de tudo? Pois Deus, isso pode ser dito, não chama ninguém eficazmente a não ser os seus eleitos, e Paulo testifica que eles realmente são seus filhos e que são guiados por seu Espírito (Romanos 8.14) e ele nos ensina que, é um seguro penhor de adoção quando Cristo nos faz participantes do seu Espírito. O eleito também está além do perigo da apostasia final; pois o Pai que o elegeu para ser preservado em Cristo é maior do que tudo, e Cristo promete vigiar por eles de maneira que nenhum pereça. A tudo isso, eu respondo que Deus, de fato, favorece apenas os seus eleitos com o Espírito de regeneração e que, por isso eles são distinguidos dos réprobos; pois eles são renovados segundo a sua imagem e recebem a seriedade do Espírito na esperança da herança futura, e pelo mesmo Espírito o Evangelho é selado em seus corações. Mas eu não posso admitir que tudo isso seja alguma razão pela qual Ele não conceda também aos réprobos algum sabor da sua graça, que Ele não irradie suas mentes com algumas chispas da sua luz, ou não lhes dê alguma percepção da sua bondade, e de alguma maneira grave sua palavra em seus corações. De outra forma, o que viria a ser a fé temporal mencionada em Marcos 4.17? Portanto, existe algum conhecimento mesmo nos réprobos, o qual posteriormente vem a desvanecer, porque não possui raízes suficientemente profundas, ou porque elas murcham ao serem sufocadas.[55]

O que pode ser apreendido a partir desse comentário é que, de acordo com Calvino, bênçãos fluidas da obra expiatória de Cristo e destinadas diretamente aos eleitos e salvos como, por exemplo, a iluminação, o dom celestial da Palavra e a comunhão no Espírito, podem ser destinadas, ainda que de forma indireta a pessoas ímpias e incrédulas. Como Grudem acertadamente frisa, “a graça especial, que Deus dá aos salvos, leva a maior parte das bênçãos da graça comum aos incrédulos que vivem no campo de influência da igreja”.[56]

Não perca a última parte nos próximos dias…
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Notas:
[41] G. K. Beale e D. A. Carson (Eds.). Commentary on the New Testament Use of the Old Testament. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008. p. 715.
[42] Simon Kistemaker. Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 318.
[43] Charles Hodge. 1&2 Corinthians. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 2000. p. 115.
[44] Ibid. p. 116. Ênfase acrescentada
[45] Ibid. p. 115.
[46] Geerhardus Vos. The Teaching of the Epistle to the Hebrews. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1956. p. 28.
[47] Ibid.
[48] Moisés Bezerril. A Queda dos Iluminados de Hebreus 6.4-6. p. 16.Acessado em 18/08/2011.
[49] D. Mathewson. “Reading Heb 6:4-6 in Light of the Old Testament”, In: Westminster Theological Journal. Ed. 61. 1999. p. 214.
[50] Ibid. p. 216.
[51] Ibid. p. 217.
[52] Ibid. p. 223.
[53] Charles Hodge. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001. p. 981
[54] Matthew Poole. A Commentary on the Whole Bible: Matthew – Revelation. Vol. 3. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 2003. p. 737.
[55] John Calvin. Commentary on Hebrews. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 2000. p. 94. Acessado em 25/Ago/2011.
[56] Wayne Grudem. Teologia Sistemática. p. 554.

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Fonte: Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo, por Alan Rennê Alexandrino Lima, São Paulo 2011. Trabalho apresentado ao Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em cumprimento dos requisitos do módulo A Obra do Redentor, ministrado pelo professor Dr. Heber Carlos de Campos.

Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo 2/4

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(Por Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima)

O fundamento das bênçãos usufruídas pelos incrédulos: criação ou expiação?

Leandro Antonio de Lima afirma que arminianos, luteranos e calvinistas são de acordo “que todos os seres humanos, mesmo os incrédulos, recebem algum benefício da morte de Cristo”.[19] Deve ser observado, não obstante, que os teólogos calvinistas não são unânimes em afirmar isso. Nem todos os calvinistas concordam que os réprobos recebam algum benefício da morte de Cristo. É interessante observar que mesmo entre os teólogos reformados que admitem a existência da graça comum e de bênçãos destinadas aos ímpios não existe unanimidade quanto ao fundamento de tais benesses. Há alguns que acreditam que a graça comum manifestada para com os réprobos está alicerçada na criação, enquanto outros enxergam a expiação como o seu elemento patrocinador.

2.1. A criação como fundamento da graça comum e das bênçãos concedidas aos répobros

No primeiro grupo podem ser elencados estudiosos como Abraham Kuyper e David Martyn Lloyd-Jones.

Abraham Kuyper, na sua obra De Gemene Gratie, publicada em 1902, afirma que “Deus oferece graça a todas as pessoas por permitir que o mundo siga adiante após a queda no pecado”.[20] Para Kuyper a essência da graça comum consiste tanto numa certa restrição de Deus sobre o processo de desenvolvimento do pecado quanto numa certa realização positiva na história, de maneira que o homem pecador é habilitado por Deus através dos dons e talentos concedidos pelo Espírito Santo.[21] Deve ser observado, entretanto, que apesar de Kuyper desenvolver o seu pensamento a este respeito levando em consideração a ação de Deus após a entrada do pecado no mundo, a doutrina da graça comum, como afirma Franklin Ferreira, “está intimamente relacionada com a compreensão das várias esferas da criação, do Estado, da Igreja, da família e do indivíduo”.[22]

Desse modo, as bênçãos conferidas aos incrédulos têm a sua origem na bondade comum de Deus como o Criador e o Sustentador da criação, mesmo após a queda. No livro A Obra do Espírito Santo Kuyper afirma claramente que dons e talentos são concedidos tanto a ímpios como aos crentes com base na atividade criadora de Deus. No Volume I, discorrendo sobre a concessão de dons e talentos por ocasião da criação, Kuyper destaca as bênçãos concedidas aos descendentes de Caim na forma de dons e habilidades artísticas. Ele se refere às bênçãos de Deus como sendo “tesouros de Deus”:

O primeiro impulso dado à habilidade artística foi entre os descendentes de Caim: os Jubal e os Jabal Tubalcaim foram os primeiros artistas. Não obstante esse desenvolvimento todo, embora se alimentando dos tesouros de Deus, afastaram-se mais e mais dele, enquanto seu próprio povo simplesmente não tinha esse impulso.[23]

Se há, no pensamento de Kuyper, uma ligação entre tais bênçãos e Cristo, ela se explica devido ao papel de Cristo como “o Mediador da criação, a luz que ilumina todo homem vindo ao mundo”.[24] Henry Van Til expõe o pensamento kuyperiano com propriedade:

A graça comum, embora não salvadora e restrita a esta vida (I, 220, 497; II, 277, 679), tem sua fonte em Cristo como mediador da criação (II, 645) já que todas as coisas existem por meio da Palavra eterna. Por isso, o ponto de partida para a graça comum é a criação e a esfera do natural.[25]

Para Kuyper, apenas a graça especial, ou graça particular, está relacionada à expiação. A graça comum, por sua vez, está relacionada à criação, como ele mesmo afirma:

Ao mesmo tempo o Calvinismo tem dado proeminência ao grande princípio de que há uma graça particular que opera a salvação, e também uma graça comum pela qual Deus, mantendo a vida no mundo, suaviza a maldição que repousa sobre ele, suspende seu processo de corrupção, e assim permite o desenvolvimento de nossa vida sem obstáculos, na qual glorifica-se a Deus como Criador. [26]

D. Martyn Lloyd-Jones também é da opinião que as bênçãos desfrutadas por aqueles que não fazem parte do povo de Deus têm o seu fundamento, não na obra expiatória do Senhor Jesus Cristo, mas na criação. Para ele, o Espírito Santo atua distribuindo tais benefícios a todos os homens indistintamente como uma parte do desígnio criativo de Deus: “O Espírito Santo tem estado operante neste mundo desde o princípio, e Ele tem exercido Sua influência e suas ações sobre os homens e mulheres que não são salvos e que têm ido para a perdição”.[27] Ele diz ainda que, essa influência do Espírito “não é de caráter salvífico nem uma influência redentiva, e sim, é uma parte do propósito divino”.[28] Tal influência é necessária para o desenvolvimento do que ele chama de “opinião pública” a respeito de temas morais e, principalmente, para o desenvolvimento da cultura, algo que Kuyper sempre enfatizou.

2.2. A expiação como fundamento da graça comum e dos benefícios desfrutados pelos ímpios

O grande problema com a posição anterior é que ela não considera o fato de que mesmo os ímpios e réprobos estão em uma relação com a cruz de Cristo. Berkhof fala de uma relação pactual: “Em toda transação pactual registrada na Escritura se vê que a aliança da graça traz, não somente bênçãos espirituais, mas também bênçãos materiais, e essas bênçãos materiais são de tal natureza que delas participam também os descrentes”.[29] É bem verdade que os mesmos não são objetos das influências salvíficas da expiação, não obstante, é de se esperar que uma obra dessa magnitude também possua efeitos cósmicos. Diante disso, não é um absurdo que os réprobos sejam beneficiários dos efeitos colaterais e cósmicos da cruz de Cristo, como afirma Herman Bavinck:

Embora a expiação vicária como a aquisição de salvação em sua totalidade não possa ser expandida para incluir todas as pessoas individualmente, não quer dizer que ela não tenha significado para aqueles que estão perdidos. Nesse sentido, entre a igreja e o mundo não existe apenas separação e contraste. Não é o caso que Cristo tenha adquirido todas as coisas para a primeira e nada para o último. Ao rejeitar o universalismo não se pode esquecer que o mérito de Cristo tem seus limites ainda para a igreja e seu valor e significado para o mundo.[30]

O teólogo escocês John Murray também enxerga a expiação como a fonte, ainda que indireta, das bênçãos e dos benefícios usufruídos por aqueles que não fazem parte do povo de Deus:

Os descrentes e reprovados neste mundo desfrutam de numerosos benefícios que fluem do fato de Cristo ter morrido e ressuscitado. O domínio da mediação de Cristo é universal. Cristo é o cabeça sobre todas as coisas e a ele foi dada autoridade nos céus e na terra. É dentro desse domínio mediador que todas as bênçãos que os homens desfrutam são dispensadas. Cristo, porém, exerce esse domínio com base na recompensa de sua obra consumada de redenção: “A si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome” (Fp 2.8,9). Consequentemente, uma vez que todos os benefícios e bênçãos estão dentro da esfera do domínio de Cristo e que esse domínio repousa sobre sua obra consumada de expiação, conclui-se que os inumeráveis benefícios dos quais todos os homens desfrutam estão, indiscriminadamente, relacionados à morte de Cristo, da qual resultam, pode-se dizer, de uma forma ou outra.[31]

Isso é reforçado quando o conceito de “graça” é levado em consideração. De acordo com Bavinck, “todos os benefícios do pacto que Cristo adquiriu e o Espírito Santo aplica podem ser sumariados pela palavra ‘graça’”.[32] Por essa razão, acredita-se que tanto a graça comum como a graça especial fluam a partir da obra expiatória de Cristo na cruz do Calvário.

Isto posto, a grande questão se torna determinar quais são os efeitos colaterais da cruz de Cristo que recaem como bênçãos sobre os incrédulos e réprobos. Mais uma vez, Bavinck afirma que Jesus como o Mediador – o Messias – concede aos incrédulos muitos benefícios: “o chamado do evangelho, a advertência quanto ao arrependimento, a fé histórica, uma vida virtuosa, uma variedade de dons e poderes, ofícios e ministérios dentro da igreja, como, por exemplo, o ofício apostólico no caso de Judas”.[33]

Merece consideração também o refreamento do pecado como um dos efeitos colaterais da cruz de Cristo. É possível que alguém argumente que o efeito restringente do pecado, em vez de ser uma bênção fundamentada na expiação, seja uma manifestação da graça comum de Deus tendo a criação como o seu fundamento. Abraham Kuyper, por exemplo, afirma o seguinte:

O pecado, segundo o Calvinismo – e essa explicação está em pleno acordo com as Escrituras Sagradas[sic] o pecado desenfreado e desacorrentado, deixado a si mesmo, teria imediatamente conduzido a uma degeneração total da vida humana, como pode ser inferido do que foi visto nos dias anteriores ao dilúvio. Mas Deus interrompeu o curso do pecado a fim de evitar a completa aniquilação de seu divino trabalho manual, o que naturalmente teria acontecido. Ele interferiu na vida do indivíduo, na vida da humanidade como um todo e na vida da própria natureza por meio da sua graça comum. Esta graça, contudo, não aniquila a essência do pecado, nem a salva para a vida eterna, porém impede a execução completa do pecado, do mesmo modo como o discernimento humano impede a fúria de animais selvagens.[34]

Ele assevera ainda que:

Deus, por meio da sua “graça comum”, restringe a operação do pecado no homem, em parte quebrando seu poder, em parte domando seu espírito mal[sic], e em parte domesticando sua nação ou sua família. Assim, a graça comum tem levado ao resultado de que um pecador não regenerado pode cativar-nos e atrair-nos pelo que é nele belo e cheio de energia, exatamente como acontece com nossos animais domésticos, mas isto certamente à maneira do homem. A natureza do pecado, contudo, permanece tão venenosa quanto era.[35]

Deve ser observado, porém, que a suspensão do processo de corrupção do mundo, de acordo com Kuyper, é uma expressão da graça comum de Deus pela qual ele é glorificado como Criador.[36] Na sua obra De Gemene Gratie, Kuyper deixa essa relação clara:

Mas, após a morte segue um processo de desintegração do cadáver. E é essa desintegração espiritual do cadáver que poderia ser e foi restringida, não totalmente mas em parte. Não totalmente, de maneira que o temeroso resultado do pecado pode ser evidente para todos, mas em parte, de maneira que também dessa maneira a saúde da criação de Deus e de Seu poder re-criador em nossa raça pecaminosa possa ser glorificado.[37]

A dificuldade envolvida nesse pensamento reside no fato de não se considerar a função da manifestação da graça comum, de uma forma geral, e do refreamento do pecado, de forma específica. A graça comum serve aos propósitos da graça especial de Deus na salvação dos seus eleitos. Num artigo intitulado Common Grace, John Murray expõe essa relação:

O propósito redentivo de Deus repousa no centro da história desse mundo. Embora não seja o único propósito a ser cumprido na história e não seja a única finalidade à qual todas as outras estão subordinadas, certamente é o fluxo central da história. No entanto, é no contexto mais amplo da história que o propósito redentivo de Deus é realizado. Encontramos esse contexto amplo para ser uma dispensação da paciência e da bondade divinas. Em outras palavras, é que a esfera de vida ou fluxo amplo da história providenciado pela graça comum que provê a esfera de operação do propósito especial de redenção e salvação de Deus. Isso significa simplesmente que esse mundo ajudado e preservado pela graça de Deus é a esfera e plataforma sobre a qual sobrevêm as operações da graça especial e na qual a graça especial trabalha para a realização do seu propósito de salvação e a perfeição de todo o corpo dos eleitos. A graça comum, então, recebe ao menos uma explicação a partir do fato da graça especial, e a graça especial tem a sua pré-condição e esfera de operação na graça comum. Sem a graça comum a graça especial não seria possível porque não teria nenhum material sobre o qual pudesse erguer a sua estrutura. É a graça comum que fornece não apenas a esfera sobre a qual, mas também o material a partir do qual, o edifício bem ajustado pode crescer num templo santo no Senhor. É a raça humana preservada por Deus, dotada de diversos dons por Deus, num mundo sustentado e enriquecido por Deus, subsistindo por meio de várias perseguições e campos de labor, que provê os sujeitos para a graça redentiva e regeradora… Para concluir… a graça comum provê a esfera de operação da graça especial e a graça especial, portanto, fornece uma lógica da graça comum.[38]

A graça comum dispensada por Deus sobre os ímpios e réprobos manifestada através dos benefícios desfrutados por eles serve aos propósitos salvíficos de Deus. Os incrédulos recebem a graça comum por causa dos eleitos de Deus – os que já foram salvos e os que ainda serão. Berkhof se expressa da seguinte maneira:

Se Cristo devia salvar uma raça eleita, paulatinamente chamada do mundo da humanidade no transcurso dos séculos, era necessário que Deus exercesse paciência, detivesse o curso do mal, promovesse o desenvolvimento das faculdades naturais do homem, mantivesse vivo nos corações dos homens o desejo de manter a justiça civil, a moralidade exterior e a boa ordem da sociedade, e derramasse incontáveis bênçãos sobre a humanidade em geral.[39]

Nesse sentido, é imprescindível compreender que os benefícios recebidos pelos ímpios não fluem diretamente da cruz de Cristo, mas indiretamente. Em outras palavras, nada mais são do que efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo, visando o benefício direto do povo de Deus. Wayne Grudem se expressa da seguinte forma: “Entretanto, sobre esse último ponto é necessário dizer que a graça comum flui indiretamente da obra redentora de Cristo, visto que Deus não julgou o mundo quando o pecado se introduziu porque ele planejou finalmente salvar alguns pecadores através da morte de seu Filho”.[40]

Continua nos próximos dias…

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Notas:
[19] Leandro Antonio de Lima. Razão da Esperança: Teologia para Hoje. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 283.
[20] J. van Genderen e W. H. Velema. Concise Reformed Dogmatics. Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing, 2008. p. 294.
[21] Cornelius Van Til. Common Grace & The Gospel. Nutley, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing, 1977. p. 15.
[22] Franklin Ferreira. Teologia Cristã. p. 154.
[23] Abraham Kuyper. A Obra do Espírito Santo. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 78. Ênfase acrescentada.
[24] Louis Berkhof. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. p. 403.
[25] Henry Van Til. O Conceito Calvinista de Cultura. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 141.
[26] Abraham Kuyper. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. pp. 38-39. Ênfase acrescentada.
[27] D. Martyn Lloyd-Jones. Deus o Espírito Santo. pp. 36-37.
[28] Ibid. p. 37.
[29] Louis Berkhof. Teologia Sistemática. p. 404.
[30] Herman Bavinck. Reformed Dogmatics: Sin and Salvation in Christ. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2009. p. 470.
[31] John Murray. Redenção Consumada e Aplicada. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 55. Ênfase acrescentada.
[32] Herman Bavinck. Reformed Dogmatics. Vol. 3. p. 573. Aqui Bavinck também tem em mente a graça comum, como as suas próprias palavras demonstram: “Mas graça significa diferentes coisas para diferentes pessoas. Em primeiro lugar, ela pode denotar o favor imerecido que Deus concede a suas criaturas, especialmente aos seres humanos como pecadores. Segundo, é um termo para toda sorte de benefícios espirituais e físicos que Deus em sua graça concede a suas criaturas e que são coletivamente chamados de ‘dons da graça’ e ‘graça’”. Cf. Herman Bavinck. Reformed Dogmatics. Vol. 3. p. 574.
[33] Ibid. p. 471.
[34] Abraham Kuyper. Calvinismo. p. 130.
[35] Ibid. p. 131.
[36] Ibid. pp. 38-39.
[37] Apud in Cornelius Van Til. Common Grace & The Gospel. p. 15.
[38] Apud in Robert L. Reymond. A New Systematic Theology of the Christian Faith. Nashville, TN: Thomas Nelson, 1998. p. 403. Ênfase acrescentada.
[39] Louis Berkhof. Teologia Sistemática. p. 404.
[40] Wayne Grudem. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2002. p. 550.

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Fonte: Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo, por Alan Rennê Alexandrino Lima, São Paulo 2011. Trabalho apresentado ao Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em cumprimento dos requisitos do módulo A Obra do Redentor, ministrado pelo professor Dr. Heber Carlos de Campos.