Como pode Deus ser justo na eleição incondicional?

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Uma das objeções à eleição incondicional que ouvimos com mais frequência é que ela impugna a justiça de Deus. O arminiano afirma que Deus é desleal e injusto se trata as pessoas diferentemente ou concede a alguns um favor que nega a outros.

Mas essa é, certamente, uma maneira estranha de definir justiça. A justiça é o princípio em virtude do qual uma pessoa recebe o que lhe é devido. Negar a uma pessoa o que ela merece ou o que a lei exige que ela receba é agir injustamente. Como pode, então, ser injusto negar a uma pessoa o que ela não merece? Se você me deve e eu exijo pagamento, dificilmente se pode dizer que agi injustamente. De semelhante maneira, se você não me pagar, como é obrigado por lei, a justiça exige que você sofra as consequências.

Toda a humanidade tem uma dívida infinita para com Deus, tendo sido condenada justamente a sofrer as consequências penais que o pecado merece. Ninguém pode afirmar legitimamente que merece misericórdia ou clemência divina, porque “não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.12). O veredicto das Sagradas Escrituras é “culpado das acusações”, sem base para novo julgamento ou recurso.

Nenhuma acusação legítima pode ser movida contra o tribunal se o “Meritíssimo” entregar imediatamente toda a raça de Adão à morte eterna. Não há recurso cabível para os réus, nem na lei nem em si mesmos. Nenhum detalhe técnico do desenvolvimento processual do julgamento ou testemunha de caráter em favor do acusado pode ser reivindicado. Ao contrário dos juízes terrenos que podem ser confundidos por advogados de raciocínio rápido ou subornados por partidários inescrupulosos, Deus pesa todas as provas e julga com absoluta imparcialidade. O veredicto é o mesmo para todos: Culpado! A punição é a mesma para todos: Morte Eterna!

Deus não tem obrigação de salvar a ninguém, e é inteiramente justo em condenar a todos. O seu perdão a alguns se deve inteiramente à graça livre e soberana. Assim, “a maravilha das maravilhas”, diz Benjamin Warfield, “não é Deus, em seu infinito amor, não ter elegido todos desta raça culpada para serem salvos, mas ter elegido alguns. O que realmente precisa ser reconhecido — embora reconhecê-lo vá muito além do que nossa imaginação possa conceber — é como o Deus santo poderia consentir salvar um único pecador sem ir contra a sua natureza. Se sabemos o que é o pecado, o que é a santidade e o que é a salvação do pecado para a santidade, isso é o que enfrentaremos”.

Vejo-me obrigado a confessar que a pergunta que assombra meu coração não é “Como pode Deus ser justo?”, mas “Como pode Deus ser misericordioso?” Não é “rejeitei Esaú” que me incomoda, mas “amei Jacó” que me surpreende absolutamente.

Texto de Sam Storms, extraído do livro “Escolhidos: uma exposição da doutrina da eleição”.

16 argumentos que mostram que Cristo não morreu pela salvação de todos os homens

(Por John Owen)

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  1. Dois argumentos baseados na natureza do novo concerto

Argumento 1 – Em Mateus 26:28 o Senhor Jesus Cristo fala de “o meu sangue, o sangue do Novo Testamento”. Este novo “testamento”, ou “concerto” é um novo acordo, ou contrato, que Deus fez para salvar os homens. O sangue de Cristo derramado em Sua morte, é o preço desse acordo, e diz respeito somente àqueles a quem o acordo se aplica.

Este novo acordo, ou aliança, é diferente do velho acordo que Deus fez com os homens. Pelo velho acordo (ou concerto) Deus prometeu salvar todos os que guardassem as Suas leis: “o homem que fizer estas coisas viverá por elas”. (Romanos 10:5; Levítico 18:5). Mas, em razão dos homens serem pecadores, eles não podem guardar as leis de Deus. Portanto, o velho acordo ficou sem efeito.

No novo acordo, Deus promete colocar Suas leis em nossas mentes e escrevê-las em nossos corações (Hebreus 8:10). É claro, então, que esse acordo diz respeito somente àqueles em cujos corações e mentes Deus realmente faz isso. Desde que Deus, obviamente, não faz isso para todos os homens, todos os homens não podem estar incluídos no acordo pelo qual Cristo morreu.

Alguns têm sugerido que Deus iria escrever Sua lei em nossas mentes se apenas crêssemos. Mas, fé é a mesma coisa que ter a lei de Deus escrita em nossos corações!

Então, falar como alguns, significa dizer: “se a lei está em nossos corações (isto é, como ela é, em todos os crentes), Deus promete que Ele irá escrever Sua lei em nossos corações” – o que é uma tolice! A natureza do novo concerto deixa claro que a morte de Cristo não foi por todos os homens.

Argumento 2 – O evangelho – em outras palavras, as novas sobre o novo concerto – tem estado no mundo desde os tempos de Cristo. Contudo, nações inteiras têm vivido sem qualquer conhecimento dele. Se o objetivo da morte de Cristo era salvar todos os homens, sob a condição de que eles cressem, então o evangelho devia ter sido anunciado a todos os homens.

Se Deus não providenciou para que todos os homens ouvissem o evangelho, então, ou deveria ser possível que todos os homens fossem salvos sem fé e sem conhecimento do evangelho, ou o propósito de salvar todos os homens falhou, uma vez que nem todos os homens ouviram o evangelho. A primeira afirmativa não pode ser verdadeira, pois a fé é uma parte da salvação (ver Parte Dois, capítulo cinco). A última afirmativa também não pode ser verdadeira; seria próprio da sabedoria de Deus enviar Cristo para morrer a fim de que todos os homens fossem salvos, sem, contudo, certificar-Se de que todos os homens ouvissem o evangelho? Seria a benignidade de Deus demonstrada através de tal comportamento?

Isso seria como se um médico dissesse que tem um remédio que curaria a doença de todos. E, no entanto, escondesse, deliberadamente, tal conhecimento de muitas pessoas. Poderíamos realmente argumentar, nesse caso, que o médico pretendia, genuinamente, curar a doença de todos?

Há muitos versículos bíblicos que deixam claro que milhões jamais ouviram uma palavra sobre Cristo. E não podemos apresentar outra razão para isso, senão a razão que o próprio Jesus deu: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve”. (Mateus 11:26). Tais versículos como Salmo 147: 19-20; Atos 14: 16; Atos 16: 6-7; confirmam os fatos de nossa experiência comum de que o Senhor não tomou qualquer providência para assegurar que todos ouvissem o evangelho. Precisamos concluir que não é propósito de Deus salvar todos os homens.

  1. Três argumentos baseados nas descrições bíblicas da salvação

Argumento 3 – As Escrituras descrevem o que Jesus Cristo obteve com Sua morte como “redenção eterna” (isto é, nossa libertação do pecado, da morte e do inferno, para sempre). Ora, se esta bênção foi comprada para todos os homens, então todos os homens têm esta redenção eterna automaticamente; ou ela está à disposição de todos os homens na dependência do cumprimento de certas condições.

De acordo com nossa experiência, não é verdade, de maneira alguma, que todos os homens têm redenção eterna. Portanto, seria a redenção eterna disponível sob certas condições?

Pergunto, Cristo satisfez essas condições por nós, ou apenas nos tornamos merecedores do cumprimento dessas condições se outras condições forem cumpridas por nós? A primeira dessas afirmativas – que Cristo realmente cumpriu todas as condições necessárias quanto ao dom da redenção eterna – significa que todos os homens têm realmente essa redenção; o que, como já temos visto, não concorda com nossa experiência a respeito dos homens! Temos que dizer, portanto, que se Cristo não cumpriu as condições para que todos os homens obtivessem a redenção, Ele deveria ter cumprido essas condições apenas por aqueles que cumpririam outras condições. Estamos agora andando em círculos, fazendo com que aquelas condições que foram cumpridas dependam de que outras condições sejam cumpridas! Estes argumentos demonstram quão irracional é supor que Cristo morreu a fim de obter a salvação eterna para todos os homens.

Se insiste ainda que a redenção eterna é obtida sob o cumprimento de certas condições, então, todos os homens deveriam ser notificados. Mas, esse conhecimento lhes tem sido sonegado, como vimos na Terceira Parte, capítulo um.

Além disso, se a obtenção da redenção eterna depende do homem cumprir condições, então ou eles têm ou não têm o poder para fazer isso. Se são capazes por si mesmos de cumprir as condições necessárias, então temos que dizer que todos os homens podem, por si mesmos, crer no evangelho. Mas isto é bastante contrário às Escrituras, as quais mostram que os homens estão mortos em pecado e, portanto, não podem cumprir quaisquer condições.

Se concordamos que os homens não podem, por si mesmos, cumprir as condições para a obtenção da salvação eterna, então, ou Deus intenta dar-lhes esta habilidade, ou não. Se Ele realmente intenta isto, então, por que não o faz? Assim, todos os homens seriam salvos.

Se, entretanto, Deus não pretende dar a todos os homens a capacidade de crer, e, contudo, Cristo morreu para que todos os homens tenham a salvação eterna, então, Deus está requerendo dos homens que tenham habilidades as quais Ele recusa dar-lhes. Isto não seria uma loucura? É como se Deus prometesse dar a um homem morto o poder de vivificar-se a si mesmo, mas ao mesmo tempo não tenha a intenção de lhe dar o poder prometido!

Argumento 4 – A Bíblia descreve cuidadosamente aqueles pelos quais Cristo morreu. Lemos que toda a raça humana pode ser dividida em dois grupos, e que Cristo morreu apenas por um desses grupos.

Os versículos bíblicos que mostram que Deus dividiu os homens em dois grupos são:

Mat. 25:12 e 32 Jo. 10:14,26
Jo. 17:9, 1Ts. 5:9
Rom. 9:11-23

Daí aprendemos que há aqueles a quem Deus ama, e aqueles a quem Ele odeia; aqueles a quem Ele conhece, e aqueles a quem Ele não conhece.

Outros versículos deixam claro que Cristo morreu apenas por um destes dois grupos. É-nos dito que Ele morreu por:

Seu povo – Mt. 1:21
Suas ovelhas – Jo. 10:11,14
Sua igreja – At. 20:28
Seus eleitos – Rom. 8:32-34
Seus filhos – Heb. 2:13

Acaso não deveríamos concluir, de tudo isso, que Cristo nã morreu por aqueles que não são Seu povo, ou Suas ovelhas, ou Sua Igreja? Ele não pode, portanto, ter morrido por todos os homens.

Argumento 5 – Não devemos descrever a salvação de nenhuma maneira diferente daquela que a Bíblia a descreve. E a Bíblia não diz, em lugar algum, que Cristo morreu “por todos os homens”, ou por cada homem em particular. Ela diz que Cristo deu Sua vida “em resgate de todos”; entretanto, isso não pode provar que signifique mais que “todas as Suas ovelhas” ou “todos os Seus eleitos”. Se estudarmos cuidadosamente qualquer versículo que emprega a palavra “todos” e o examinarmos em seu contexto, logo estaremos convencidos de que, em lugar algum, as Escrituras dizem que Cristo morreu por todos os homens, sem exceção de nenhum.

(Na Quarta Parte, capítulos três e quatro, vamos considerar, detalhadamente, muitos versículos bíblicos nos quais as palavras “mundo” e “todos” são usadas em conexão com a morte de Cristo.)

  1. Dois argumentos baseados na natureza da obra de Cristo

Argumento 6 – Há muitos versículos bíblicos que falam do Senhor Jesus Cristo tornando-Se responsável por outros na Sua morte; por exemplo:

Ele morreu por nós – Rom. 5:8
Foi feito maldição por nós – Gál. 3:13
Foi feito pecado por nós – 2Co. 5:21

Tais expressões deixam claro que qualidade de substituto de outro.

Ora, se Ele morreu em lugar de outros, segue-se que todos aqueles cujo lugar Ele tomou devem estar agora livres da ira e do julgamento de Deus. (Deus não pode punir justamente Cristo e aqueles a quem Ele substituiu!) Contudo, está claro que nem todos os homens estão livres da ira de Deus (ver João 3:36). Portanto, Cristo não pode ter sido o substituto de todos os homens.

Se insiste ainda que Cristo realmente morreu como um substituto de todos os

homens, então devemos concluir que Sua morte não foi um sacrifício bastante suficiente, pois nem todos os homens são salvos do pecado e do julgamento!

De fato, se Cristo realmente morreu em lugar de todos os homens, então, ou Ele Se ofereceu a Si mesmo como um sacrifício por todos os pecados deles (neste caso, todos os homens são salvos), ou foi um sacrifício por alguns dos pecados deles apenas (neste caso, ninguém é salvo, pois alguns pecados permanecem). Nem uma nem outra dessas declarações pode ser verdadeira, como nós já temos visto neste livro (Primeira Parte, capítulo três). Deve ser evidente que não podemos dizer, de maneira alguma, que Cristo morreu por todos os homens.

Argumento 7 – As Escrituras descrevem a natureza da obra que Cristo realizou, como a obra de um mediador e de um sacerdote:

Ele “é Mediador dum novo Testamento” (Hebreus 9:15). Ele age como um mediador sendo o sacerdote daqueles que Ele leva a Deus. Que Jesus Cristo não é o sacerdote de todos é óbvio, tanto pela experiência como pelas Escrituras; nós já discutimos isso na Segunda Parte, capítulo dois.

  1. Três argumentos baseados na natureza da santidade e da fé

Argumento 8 – Se a morte de Cristo é o meio pelo qual aqueles por quem Ele morreu são purificados do pecado e são santificados, então Ele deve ter morrido somente por aqueles que realmente estão limpos de pecados e santificados. É óbvio que nem todos os homens são santificados. Portanto, Cristo não morreu por todos os homens.

Talvez eu deva provar que a morte de Cristo é, de fato, o meio para obter a purificação e a santidade. Vou fazer isso de duas maneiras:

Primeira, o padrão de adoração do Velho Testamento destinava-se a ensinar verdades a respeito da morte de Cristo. O sangue dos sacrifícios do Velho Testamento fez com que aqueles por quem era derramado se tornassem adoradores aceitáveis a Deus. Se foi assim, quanto mais o sangue de Cristo deve realmente purificar do pecado aqueles por quem Ele morreu? (Hebreus 9: 13-14).

Segunda, há versículos bíblicos que declaram com clareza que a morte de Cristo faz realmente as coisas que ela intencionava fazer; o corpo do pecado é destruído, para que não mais sirvamos ao pecado (Romanos 6:6); temos redenção através do Seu sangue (Colossenses 1: 14); Ele Se deu a Si mesmo para nos remir e nos purificar (Tito 2: 14). Estes versículos, e muitos outros, enfatizam que a santidade é o resultado certo nas vidas daqueles por quem Cristo morreu. Visto que todos os homens não são santos, Cristo não morreu por todos os homens.

Alguns sugerem – inutilmente! – que a morte de Cristo não é a única causa dessa santidade. Dizem que ela somente se torna verdadeira ou real quando o Espírito Santo a traz, ou quando é recebida por fé. Mas a obra do Espírito Santo, e o dom da fé, são também o resultado ou o fruto da morte de Cristo! Assim sendo, essa sugestão não altera o fato que a verdadeira santidade é o resultado certo somente nas vidas daqueles por quem Cristo morreu. O fato do juiz dar permissão ao carcereiro para destrancar a porta da prisão, não é a causa do prisioneiro ser posto em liberdade; a causa é que alguém pagou seus débitos por ele.

Argumento 9 – A fé é essencial à salvação. Isso é claro nas Escrituras (Hebreus 11:6) e a maioria das pessoas aceita o fato. Mas, como já temos visto, tudo que é necessário para a salvação foi obtido para nós por Cristo.

Ora, se esta fé essencial é obtida para todos os homens por Cristo, então é nossa com ou sem certas condições. Se é sem condições, então todos os homens a têm. Mas isso é contrário à experiência, e também às Escrituras (2 Tessalonicenses 3:2). Se a fé é dada somente sob certas condições, então eu pergunto: sob que condições?

Alguns dizem que a fé é dada sob a condição de que nós não resistamos à graça de Deus. Contudo, não resistir significa, realmente, obedecer. Obedecer significa crer. Portanto, o que estes amigos realmente estão dizendo é: “a fé é concedida somente àqueles que crêem” (isto é, àqueles que têm fé!). Isso é completamente absurdo.

Por outro lado, alguns argumentam que a fé não é obtida para nós pela morte de Cristo. Então, seria a fé um ato de nossa própria vontade? Mas isso é bastante contrário àquilo que muitos versículos bíblicos ensinam, e ignora o fato de que os incrédulos estão mortos em pecados, incapazes de realizar qualquer ato espiritual (I Coríntios 2:14). Portanto, volto à posição de que a fé é obtida por Cristo.

A fé é uma parte essencial da santidade. No Argumento 8, mostrei que a santidade é obtida para nós pela morte de Cristo. Portanto, Ele também obteve a fé para nós. Negar isso é dizer que Ele obteve apenas uma santidade parcial, isto é, uma fé deficiente. Ninguém sugere isso seriamente. Mais ainda, Deus escolheu Seu povo, como nos é dito, a fim de que ele fosse santo; Deus “nos elegeu … para que fôssemos santos” (Efésios 1 :4). Repetindo, a fé é uma parte essencial da santidade. Ao eleger Seu povo para ser santo, necessariamente Deus decidiu que ele teria fé.

Era parte do pacto entre Deus, o Pai, e Deus, o Filho, que todos aqueles por quem Cristo morreu tivessem as bênçãos que o Pai tencionava dar-lhes. A fé é uma das bênçãos que o Pai dá (Hebreus 8:10,11).

As Escrituras afirmam claramente que a fé é obtida para nós por Jesus Cristo, que é “o autor e consumador da fé” (Hebreus 12:2). Declarações como esta e as declarações dos três parágrafos acima, que acabamos de ler, confirmam, todas elas, que a morte de Cristo obtém fé para Seu povo. Visto que não são todos os homens que a têm, Cristo não pode ter morri do por todos os homens.

Argumento 10 – O povo de Israel era, de muitas maneiras, uma espécie de ilustração da Igreja de Deus do Novo Testamento (I Coríntios 10:11). Seus sacerdotes e sacrifícios eram exemplos daquilo que Jesus viria fazer pela Igreja de Deus. Jerusalém, a cidade deles, é usada como uma figura do céu do crente (Hebreus 12:22).

Um verdadeiro israelita é um crente (João 1:47) e um verdadeiro crente é um israelita (Gálatas 3:29). Portanto, eu argumento da seguinte maneira:

Se a nação dos judeus foi escolhida por Deus, entre todas as nações do mundo, para ilustrar Suas relações com a Igreja, segue-se, então, que a morte de Cristo foi somente pela Igreja e não pelo. mundo todo. A maneira como Deus tratou o Seu povo escolhido no Velho Testamento é uma ilustração de que a salvação obtida por Cristo não é para todos os homens, mas é apenas para o Seu povo escolhido.

  1. Um argumento baseado no significado da palavra “redenção”

Argumento 11 – A maneira como a Bíblia descreve uma doutrina deve nos ajudar a entender a doutrina. Uma palavra bíblica que é usada para descrever a salvação obtida por Cristo é a palavra redenção. Exemplo: ” …temos a redenção pelo seu sangue”(Colossenses 1:14). Essa palavra significa “libertar uma pessoa do cativeiro através do pagamento de um preço”. A pessoa não está redimida a não ser que seja libertada. Por isso, a própria palavra nos ensina que Cristo não pode ter obtido a redenção para aqueles que não estão livres. A redenção universal (assim chamada!) que finalmente deixa alguns ainda no cativeiro é uma contradição de termos.

O sangue de Cristo é realmente chamado de preço, e de resgate, em alguns versículos bíblicos (vide Mateus 20:28). Ora, o propósito de um resgate é obter a libertação daqueles pelos quais o preço é pago. É inconcebível que um resgate seja pago e a pessoa ainda continue prisioneira. Por conseguinte, como pode ser argumentado que Cristo morreu por todos os homens, quando nem todos os homens são salvos? Somente os que estão realmente livres do pecado podem ser aqueles por quem Cristo morreu. “Redenção” não pode ser “universal”, como “romano” não pode ser “católico”! A redenção tem que ser particular, visto que somente alguns são redimidos.

  1. Um argumento baseado no significado da palavra “reconciliação” 

Argumento 12 – Uma outra palavra que a Bíblia usa para descrever aquilo que

Cristo obteve mediante Sua morte, é a palavra reconciliação: “…inimigos… vos reconciliou.” (Colossenses 1:21). Reconciliação quer dizer restaurar as relações de amizade entre duas partes que anteriormente eram inimigas. Na salvação, da qual a Bíblia nos fala, Deus é reconciliado conosco e nós somos reconciliados com Deus.

Estas duas coisas têm que ser verdadeiras; a reconciliação de uma parte e da outra são dois atos separados, mas ambos são necessários para tornar uma reconciliação completa. É uma tolice sugerir que Deus, por intermédio da morte de Cristo, agora está reconciliado com todos os homens, mas que somente alguns homens estão reconciliados com Ele. Espero que ninguém sugira que Deus e todos os homens estão reconciliados desta maneira. Isso seria uma reconciliação capenga! Não há verdadeira reconciliação a menos que ambas as partes estejam reconciliadas uma com a outra.

O efeito da morte de Cristo foi a reconciliação tanto de Deus com os homens como os homens com Deus; “fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho” (Romanos 5:10) e “nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a reconciliação.”(Romanos 5:11). Ambas as reconciliações são, também, mencionadas em II Coríntios 5:19-20 – “Deus … reconciliando consigo”, e “vos reconcilieis com Deus”.

Ora, como esta dupla reconciliação pode ser “reconciliada” com a noção de que

a morte de Cristo é para todos os homens, eu não posso entender! Porque, se todos os homens são, pela morte de Cristo, assim duplamente reconciliados, como pode acontecer que a ira de Deus esteja sobre alguns? (João 3:36). Sem dúvida alguma, Cristo somente pode ter morri do por aqueles que estão realmente reconciliados.

  1. Um argumento baseado no significado da palavra ” satisfação

Argumento 13 – E verdade que a palavra satisfação não é usada na versão inglesa da Bíblia, com referência à morte de Cristo. Mas, aquilo que a palavra significa, isto é, “um pagamento total daquilo que é devido a um credor por um devedor” é um pensamento frequentemente usado no Novo Testamento, quando se refere à morte de Cristo.

Em nosso caso, os homens são devedores a Deus, pois falharam em obedecer aos Seus mandamentos. A satisfação requerida para pagar nosso pecado é a morte – “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). As leis de Deus nos acusam, expressando a justiça e a verdade de Deus. Perante elas estamos convictos de que somos seus transgressores, merecendo, portanto, morrer. A salvação só é possível se Cristo pagar nosso débito e, assim, satisfazer a justiça de Deus. Sua morte é chamada de uma”oferta” (Efésios 5:2) e de “propiciação” (l João 2:2). A palavra oferta significa um sacrifício de expiação ou um sacrifício para fazer reparação devido o pecado.

Propiciação significa uma oferta para satisfazer a justiça ofendida. Dessa forma, podemos usar corretamente a palavra satisfação para abranger todo o ensino bíblico quanto ao significado da morte de Cristo.

Ora, se Cristo pela Sua morte realmente fez uma satisfação por alguns, então Deus precisa agora estar completamente satisfeito com eles. Deus não pode requerer licitamente um segundo pagamento de qualquer espécie. Então, como pode ser que Cristo tenha morrido por todos os homens e ainda muitos vivam e morram como pecadores sob a condenação da lei de Deus? Reconciliem essas coisas aqueles que podem! Afirmo que somente os que estão realmente livres do débito nesta vida podem ser aqueles pelos quais Cristo pagou a satisfação.

  1. Dois argumentos baseados no valor da morte de Cristo

Argumento 14 – O Novo Testamento fala, frequentemente, do valor da morte de Cristo, com a qual Ele pôde comprar e obter certas coisas. Exemplo: é dito que a redenção eterna é obtida “por seu próprio sangue” (Hebreus 9:12); é dito que a Igreja de Deus foi resgatada “com seu próprio sangue.” (Atos 20:28); e os cristãos são chamados “povo adquirido” (I Pedro 2:9).

Cristo por Sua morte, então, comprou para todos aqueles por quem Ele morreu, todas aquelas coisas que a Bíblia salienta como resultados de Sua morte. O valor da Sua morte comprou a libertação do poder do pecado e da ira de Deus, da morte e do poder do diabo, da maldição da lei e da culpa do pecado. O valor da Sua morte obteve a reconciliação com Deus, paz e redenção eterna. Estas coisas são agora dons gratuitos de Deus, porque Cristo as comprou. Se Cristo morreu por todos os homens, por que então todos os homens não têm essas coisas? Será que o valor da Sua morte não é suficiente?

Será que Deus é injusto por não dar a todos aquilo que Cristo comprou? Tem que ser óbvio que Cristo não pode ter morrido para adquirir essas coisas para todos os homens, e sim somente para aqueles que realmente desfrutam delas.

Argumento 15 – Há frases que são frequentemente empregadas para se fazer referência à morte de Cristo, tais como: morrendo por nós; suportando nossospecados; sendo nossa segurança. O significado evidente de tais frases é que Cristo, em Sua morte, foi um substituto de outros para que eles pudessem ser livres.

Se, em Sua morte, Cristo foi um substituto de outros. como podem eles mesmos morrerem também, carregando ainda seus próprios pecados? Assim sendo, Cristo não pode ter sido um substituto a favor deles. Daí, fica claro que Ele não pode ter morrido por todos os homens.

De fato, dizer que Cristo morreu por todos os homens é a maneira mais rápida de provar que Ele não morreu por ninguém. Porque se Ele morreu em lugar de todos, e, contudo, nem todos são salvos, então Ele falhou em Seu propósito.

  1. Um argumento geral baseado em versículos específicos das Escrituras 

Argumento 16 – Há um grande número de versículos bíblicos que eu poderia usar para argumentar que Cristo não morreu pelos pecados de todos os homens. Vou selecionar apenas nove, e, com eles, encerrar nossos argumentos nesta parte.

  1. Gênesis 3: 15. Este é o primeiro versículo bíblico no qual Deus indica que há uma diferença entre o povo de Deus e seus inimigos. “…sua semente” (da mulher) significa Jesus Cristo e, portanto, também todos os crentes em Cristo. (Isto é claro a partir do fato de que a profecia sobre a semente da mulher é cumprida em Cristo e em Seu povo). “…tua semente”(da serpente) significa todos os homens incrédulos do mundo (Vide João 8:44). Desde que Deus prometeu somente inimizade entre a semente da serpente e a semente da mulher, é óbvio que Cristo, a semente da mulher, não morreu pela semente da serpente!
  1. Mateus 7:23. Cristo aqui declara que há pessoas que Ele jamais conheceu. Contudo, em outro lugar (João 10:14 a 17) Ele diz que conhece todo o Seu povo. Será que Ele não conhece todos aqueles por quem morreu? Se há alguns que Ele não conhece, então Ele não pode ter morrido por eles.
  1. Mateus 11:25-27. Conforme estas palavras, é claro que há alguns dos quais Deus esconde o evangelho. Se é a vontade do Pai que o evangelho não seja revelado a eles, Cristo não pode ter morrido por eles. E nós devemos notar que Cristo, aqui, agradece ao Pai por fazer esta diferença entre homens – uma diferença que somente alguns homens ainda se recusam a acreditar!
  1. João 10:11, 15-16, 27-28. Destes versículos fica bastante claro que:

    I. Nem todos os homens são ovelhas de Cristo.
    II. A diferença entre os homens um dia será óbvia.
    III. As ovelhas de Cristo são identificadas como “aquelas que ouvem a voz de Cristo”; outros não a ouvem.
    IV. Alguns que ainda não são identificados como ovelhas já estão escolhidos e se tornarão conhecidos (“outras ovelhas”).
    V. Cristo morreu, não por todos, mas especificamente por Suas ovelhas.
    VI. Aqueles por quem Cristo morreu são os que Lhe foram dados pelo Pai. Ele não pode, então, ter morrido por aqueles que não Lhe foram dados.

    5.Romanos 8:32-34. Destes versículos entendemos com clareza que a morte de Cristo pertence somente ao povo eleito de Deus e, também, que a intercessão de Cristo é somente em favor desse mesmo povo.

  1. Efésios 1: 7. A partir deste versículo, podemos dizer que se o sangue de Cristo foi derramado por todos, então todos devem ter esta redenção e este perdão. Mas, certamente, nem todas as pessoas os possuem.
  1. II Coríntios 5:21. Portanto, em Sua morte Cristo foi feito pecado por todos aqueles que nEle foram feitos justiça de Deus. Se Ele foi feito pecado por todos, então, por que todos não são feitos justiça?
  2. João 17:9. A intercessão de Cristo não é por todos os homens, e, portanto, nem a Sua morte o foi. (Ver Segunda Parte, capítulos quatro e cinco).
  1. Efésios 5:25. Cristo ama a Igreja e isto é um exemplo de como um homem deve amar a sua esposa. Mas se Cristo amou outros tanto quanto a Sua Igreja, até ao ponto de morrer por eles, então os homens podem certamente amar outras mulheres além de suas esposas!

Pensei que poderia acrescentar outros argumentos – mas, considerando aquilo que já disse, estou certo de que o que já foi argumentado é bastante para satisfazer os que se satisfarão com argumentos; no entanto, aqueles que são obstinados não se satisfarão ainda que eu inclua outros argumentos. Portanto, encerro meus argumentos aqui.

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Fonte: John Owen, Por quem Cristo morreu, págs. 49-70. Editora PES – 1986.

A obra de Deus em nossa obra

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Por Abraham Kuyper

O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo (1Ts 5:23)

A diferença entre santificação e boas obras precisa ficar bem entendida.

Muitos confundem as duas, e creem que santificação significa viver uma vida honrável e virtuosa; e, uma vez que isto é o mesmo que boas obras, a santificação, sem a qual nenhum homem verá a Deus, é tomada no sentido de um sincero e diligente esforço para fazer boas obras.

Mas este raciocínio é falso. A uva não deve ser confundida com a vinha, o relâmpago com o trovão, o nascimento com a concepção, não mais do que santificação com boas obras. A santificação é o grão, a semente da qual germinarão o caule e folhas das boas obras; mas, isto não identifica o grão com o broto. Aquele encontra-se no solo e através de suas fibras se agarra às raízes internamente. O último dispara do solo, externamente e visivelmente. Assim, a santificação é o implantar do germe, da disposição e da inclinação, os quais produzirão a florada e o fruto de uma boa obra.

Santificação é obra de Deus em nós, através da qual Ele concede aos nossos membros uma disposição santa, enchendo-nos interiormente com regozijo na Sua lei com repugnância ao pecado. Mas boas obras são atos de homem, que brotam desta disposição santa. Por conseguinte, a santificação é a fonte de boas obras, a lâmpada que brilhará com a sua luz, o capital do qual elas são o dividendo.

Permita-nos repetir: Santificação é uma obra de Deus; boas obras são de homens. A santificação opera internamente; boas obras são externas. A santificação comunica algo ao homem, as boas obras tiram algo dele. A santificação força a raiz dentro do chão, as boas obras forçam o fruto para fora da árvore frutífera. Confundir estes dois faz as pessoas se extraviarem.

O Pietista diz: A santificação é obra do homem; não se pode insistir nisso com ênfase suficiente. Trata-se do nosso melhor esforço para sermos santos. E o Místico mantém: Nós não podemos fazer boas obras, e não podemos insistir nelas, pois o homem é incapaz; só Deus pode operá-las nele, independentemente dele.

Naturalmente, ambos estão igualmente errados e não estão de acordo com a Escritura. O primeiro, ao reduzir a santificação a boas obras, tira-a das mãos de Deus a coloca sobre os homens, que nunca as podem executar; e o último, em fazendo as boas obras tomarem o lugar da santificação, libera o homem da tarefa que lhe foi designada e clama que Deus a executará. Ambos erros devem ser combatidos.

Tanto a santificação como as boas obras devem ser reconhecidas. Ministros da Palavra, e através deles o povo de Deus, devem entender que a santificação é um ato de Deus, que Ele executa no homem; e que Deus ordenou ao homem fazer boas obras para a glória do Seu nome. E isto terá efeito duplo: (1) O povo de Deus reconhecerá sua completa incapacidade para receber uma disposição santa que não seja como uma dádiva da graça livre, e então eles sinceramente orarão por esta graça. (2) Eles orarão para que os Seus eleitos, nos quais esta obra já foi operada, possam mostrá-la adiante, em obras que glorifiquem a Deus: ― assim como nos escolheu nEle (Jesus Cristo), antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante Ele; e em amor (Ef 1:4).

Embora esta distinção seja bem clara, duas coisas podem causar confusão: Primeira, o fato de que a santidade pode ser atribuída às próprias boas obras. Alguém pode ser santo, mas também fazer boas obras. A Confissão, falando de Jesus Cristo, diz das tantas obras santas, que fez por nós e em nosso lugar [Confissão de Fé Belga — Artigo 22 — A Justificação Pela Fé Em Cristo]. Assim é que a santidade pode ser externa e interna.

A passagem seguinte refere-se não a santificação, mas a boas obras: Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento… (2Pe 3:11); segundo é santo Aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento (1Pe 1:15); de conceder-nos que, livres das mãos de inimigos, O adorássemos sem temor, em santidade e justiça perante Ele, todos os nossos dias (Lc 1:74-75).

Vemos que a palavra “santo” é utilizada em ambos, na nossa disposição interior e dos resultados dela, a vida exterior. Pode ser dito tanto da fonte como da água, que contém ferro; tanto da árvore como do fruto, que são bons; tanto da vela como da luz, que são claras. E, uma vez que santidade pode ser atribuída a ambas, a disposição interior e a vida exterior, santificação pode ser entendida como se referindo à santificação da nossa vida. Isto pode levar à suposição que uma vida exterior impecável é a mesma coisa que santificação. E se for assim, então santificação nada mais é senão uma tarefa imposta, e não um dom concedido. Deveria ser, portanto, cuidadosamente notado que a santificação da mente, das afeições e disposições não é obra nossa, mas sim de Deus; e que a vida santa a qual surge a partir daí é nossa.

Segunda, a outra causa de confusão são as muitas passagens da Bíblia que exortam e encorajam-nos a santificar, a purificar e a aperfeiçoar as nossas vidas, sim, mesmo a ― aperfeiçoar a nossa santidade (2Cor 7:1) e oferecermo-nos como servos para santificação (Ro 6:19); e a sermos isentos de culpa (1Ts 3:13).

E não devemos enfraquecer estas passagens, como os místicos o fazem; que dizem que estes textos significam, não que devêssemos oferecer os nossos membros, mas que Deus Ele Próprio tomará cuidado especial para que eles sejam assim oferecidos. Esses são truques que levam homens a brincar com a Palavra de Deus: É um abuso da Escritura, em benefício de introduzir as teorias próprias de alguém, sob a cobertura de autoridade divina. Os pregadores que, por medo de imporem responsabilidades sobre homens se abstêm da exortação, e cegam o fio dos mandamentos divinos por representa-los como promessas, tomam sobre si mesmos uma pesada responsabilidade.

Embora saibamos que nenhum homem jamais executou uma única boa obra sem Deus, quem nEle operou ambos, o querer e o executar; embora sinceramente concordemos com a Confissão, que diz que somos devedores a Deus pelas boas obras que fazemos e não Ele a nós… [Confissão de Fé Belga — Artigo 24 ― A Santificação — Referências Bíblicas: 1Co 1:30: 1Co 4:7; Ef 2:10]; e regozijamo-nos com o apóstolo no fato ― Pois somos feitura dEle, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas (Ef 2:10); ainda assim isto não nos absolve da tarefa de exortarmos os irmãos.

É um fato que apraz a Deus usar o homem como um instrumento, e pelo estímulo de sua própria capacidade e responsabilidade, incitá-lo à atividade. Um soldado da cavalaria, no campo de batalha, é bem ciente do quanto ele depende dos bons serviços do seu cavalo; e também de que o animal não pode correr a não ser que Deus o capacite. Sendo um homem reverente a Deus, ele ora antes de montar para que o Senhor capacite seu cavalo para trazer-lhe vitória; mas após haver montado, ele usa os joelhos e as esporas, relho e voz, ele usa toda sua força para fazer com que o cavalo faça o que deve fazer. E o mesmo é verdade na santificação. A menos que o sopro do Senhor mova-se no jardim da alma, nem uma folha pode mexer-se. Só o Senhor executa a obra, desde o início ao fim. Mas Ele a executa, parcialmente através de meios; e o instrumento escolhido muitas vezes é o próprio homem, que coopera com Deus. E a esta instrumentalidade humana a Bíblia se refere quando, com relação à santificação, ela nos admoesta a fazermos boas obras. Como na natureza Deus dá a semente e as forças e nutrientes no solo e na chuva e na luz do sol para o completo desenvolvimento natural do fruto da terra, enquanto que ao mesmo tempo Ele usa o agricultor para executar a Sua obra, assim também na santificação: Deus faz com que ela opera efetivamente, mas Ele usa o instrumento humano para cooperar consigo, assim como o serrote trabalha em conjunto com aquele que o maneja.

No entanto, isto não deveria ser entendido como se na santificação Deus Se houvesse feito absolutamente dependente do instrumento humano. Isto é impossível; por sua própria natureza o homem pode realmente danificar a santificação, mas nunca, jamais adicionalmente a ela. Por sua natureza ele a odeia e opõe-se a ela. Ademais, ele é absolutamente incapaz de produzir a partir da sua própria e corrupta natureza qualquer coisa que seja para o seu próprio crescimento em santificação. A cooperação instrumental do homem não deve, portanto, ser inapropriadamente tomada, por atribuir-se ao homem um poder para o bem, ou por obscurecer-se a obra de Deus.

É necessário uma cuidadosa discriminação. Aquele que implanta a disposição santa é o Senhor. Os esforços combinados de todos estes instrumentos não poderiam implantar uma única característica da mente santa, não mais do que todas as ferramentas juntas de um carpinteiro não podem produzir o rascunho do molde de um painel. O artista pinta sobre a tela; mas com todos os seus esforços, o seu cavalete, seus pincéis e sua caixa de tintas não podem nunca rascunhar uma única figura. O escultor molda a imagem; mas por si mesmos o seu cinzel, sua marreta e seu tamborete não podem nunca destacar uma única lasca do mármore rude. Gravar as características de santidade no pecador é uma obra do mais elevado sentido artístico, indizivelmente divina. E o Artista que a executa é o Senhor, como São Paulo O chama, O Artista e O Arquiteto da Cidade que tem fundamentos (Hb 11:10). O fato de que apraz ao Senhor utilizar-se de instrumentos para algumas partes da obra não concede aos instrumentos qualquer valor que seja, muito menos capacidade para alcançar qualquer coisa por si mesmos, sem o Artista. Ele é O único Operador.

Mas como Artista, Ele usa três instrumentos diferentes, a saber, a Palavra, Suas relações providenciais, e a própria pessoa regenerada.

1. A Palavra é um poder vital na Igreja, que penetra até ao ponto de dividir as juntas e tutano, e, como tal, é um instrumento divinamente decretado para criar impressões numa pessoa; e estas impressões são os meios pelos quais as inclinações santas são implantadas em seu coração.

2. Experiências de vida também nos causam impressões mais ou menos duradouras; e Deus usa estas também como instrumentos para criar disposições santas.

3. O terceiro instrumento refere-se ao efeito do hábito, do costume. Atos pecaminosos repetitivos fazem audacioso o pecador e criam hábitos pecaminosos; desta forma ele coopera para tornar-se um pecador ainda maior. Numa maneira similar o santo coopera para com a sua própria salvação, ao permitir que a disposição santa irradie-se em boas obras. O ato frequente de fazer o bem cria o hábito. O hábito gradualmente torna-se uma segunda natureza. E é esta poderosa influência do hábito, do costume, que Deus usa para ensinar-nos a santidade. Desta forma Deus pode fazer de um santo o instrumental na santificação de outro.

Um arquiteto constrói um palácio o qual o faz famoso, como um artista. É verdade que o contratante, uma pessoa importante no lugar, é quem erigiu a estrutura; mas o seu nome raramente é mencionado; toda a honra só é reservada para o arquiteto. Na santificação não é a Palavra por Si só que é efetiva, mas aquela Palavra manejada pelo Espírito Santo. Nem é só a experiência de vida, mas aquela experiência usada pelo Artista Santo. E nem tampouco é a pessoa regenerada que serve de exemplo e capataz, mas o Deus Triúno, glorioso, ao serviço de quem ele trabalha.

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Fonte: A Obra do Espírito Santo, Cultura Cristã, págs 493-497.

Os três benefícios que vivenciamos por meio da obra do Espírito Santo

Por Kevin DeYoung

O Espírito não opera para fazer cristãos anônimos que têm as bênçãos de Cristo dissociada da fé em Cristo. Os benefícios são nossos apenas pela fé. É pela confiança em Cristo, por descansarmos em Cristo e dependermos unicamente de Cristo que o Espírito Santo opera nós.

O primeiro benefício é que partilhamos de Cristo e de todas as suas bênçãos. Certamente, se alguém é abençoado de Deus, é seu Filho. E pelo Espírito, nós também partilhamos agora de todas as suas bênçãos. Também somos contemplados com favor. Tudo o que Cristo realizou é nosso. Tudo o que ele ganhou é nosso. A herança prometida a Abraão é nossa (Gl 3.14). Tudo isso e muito mais, porque nós pertencemos a Cristo e as bênçãos de Cristo pertencem a nós mediante as ministrações do Espírito.

O segundo benefício é o consolo do Espírito Santo. A maioria de nós já ouviu que o Espírito Santo é um Consolador (Jo 14.16). Outras traduções trazem paracletos como um “Ajudante” (ESV). um “Conselheiro” (NVI), ou um”Advogado” (NRSV), mas a verdade ainda está lá: Deus consola o seu povo pelo o Espírito Santo. Isso acontece de várias maneiras. O Espírito Santo pode sobrenaturalmente fortalecer a sua alma e dar-lhe uma paz que ultrapassa o entendimento ou uma calma confiança no trabalho do Senhor (At 9.31). Ele também pode consolar você por meio de outros cristãos enquanto você compartilha da comunhão do Espírito Santo. Como o Espírito da verdade, ele, muitas vezes, fala com você por meio da Palavra de Deus, levando-o a toda a verdade (Jo 16.13), incentivando-o com as palavras da Escritura que ele inspirou e a gora ilumina. Ele pode levar você a se lembrar de uma preciosa verdade bíblica ou direcionar seus pensamentos para a obra consumada de Cristo ou fazer com que seus olhos vejam mais claramente a glória de Deus.

O terceiro benefício é a presença do Espírito Santo para sempre. No céu, o Espírito continuará a nos ensinar mais sobre as riquezas inesgotáveis de Cristo. Ele continuará a ser o vinculo pessoal que une os crentes em comunhão. E ele continuará a ministrar para nós a presença de Deus Pai e Deus Filho, que juntamente com o Espírito Santo são o Deus triuno, bendito para sempre, amém.

Fonte: Trecho extraído do livro As Boas novas que quase esquecemos (pags. 101,102)

Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo 3/4

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(Por Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima)

3 – Das bênçãos desfrutadas pelos réprobos segundo às Escrituras

Existem algumas passagens nas Sagradas Escrituras que fundamentam o que foi dito até aqui. Algumas, como por exemplo, Salmo 145.9,15-16; Mateus 5.45 e Atos dos Apóstolos 14.14-17 e 17.25-28 podem ser usadas por aqueles que defendem que a graça comum e os benefícios desfrutados pelos ímpios estão fundamentados na criação, não na redenção. Levando isso em consideração, é necessário encontrar passagens que mostrem que os ímpios recebem certas bênçãos, ainda que de forma indireta, por causa da cruz de Cristo. Nesse sentido, destacam-se 1Coríntios 7.14 e Hebreus 6.4-8.

3.1. 1CORÍNTIOS 7.14

A passagem em questão diz o seguinte: “Porque o marido incrédulo é santificado no convívio da esposa, e a esposa incrédula é santificada no convívio do marido crente. Doutra sorte, os vossos filhos seriam impuros; porém, agora, são santos”.

O capítulo 7 da primeira epístola do apóstolo Paulo aos coríntios versa a respeito de várias questões relacionadas ao casamento. No trecho que se estende a partir do versículo 12 o apóstolo orienta aqueles que já são casados. De forma bem específica, ele tem em mente pessoas recentemente convertidas à fé cristã que possuíam cônjuges incrédulos: “Nesses versos Paulo trata de um problema causado pela intrusão do evangelho”.[41] O argumento apostólico é que a parte convertida à fé cristã e salva por Cristo não deveria abandonar o seu cônjuge descrente caso este consentisse em permanecer casado. No versículo 14 Paulo consubstancia o seu argumento apontando para benefícios desfrutados pela parte incrédula em razão da fé do cônjuge crente.

Literalmente, o marido descrente é “santificado” na esposa crente, e a esposa descrente é “santificada” no marido crente. Por “santificar” o apóstolo Paulo não quer dizer que “o cônjuge gentílico tem um relacionamento pessoal com Cristo, pois nesse caso ele não seria mais chamado de incrédulo”.[42] O termo grego não “expressa qualquer mudança interior ou subjetiva”.[43] Charles Hodge afirma que o sentido da afirmação apostólica

Não é que eles [o marido ou a esposa incrédula] se tornam interiormente santos, nem que eles são trazidos sob uma influência santificadora, mas que são santificados por sua íntima união com um crente, da mesma forma como o templo santificava o ouro ligado a ele, ou da maneira como o altar santificava a dádiva colocada sobre ele […] Então, o marido pagão, em virtude da sua união com uma esposa cristã, embora permanecesse pagão, era santificado; ele assumia uma nova relação; ele era separado para o serviço de Deus, como o guardião dos seus escolhidos, e como o pai de crianças que, em virtude da sua mãe crente, eram filhos da aliança.[44]

Percebe-se, então, que o marido incrédulo desfrutava da bênção de possuir uma esposa crente que, através da sua comunhão com Deus, santificava-o, separava-o para servir ao propósito soberano de Deus, de zelar pelo bem-estar dos membros do povo de Deus que faziam parte da sua família. É preciso salientar que, o marido ou a esposa descrente permaneciam ímpios, incrédulos. A graça comum usufruída por eles não operava a sua salvação.

A conexão com a obra redentora de Cristo se dá exatamente pelo fato de a parte crente ter sido alvo da operação da graça especial de Deus. Somente porque Deus manifestou a sua graça especial a uma das partes é que a outra é beneficiária de alguns dos efeitos colaterais da cruz de Cristo, sendo que a consagração é uma delas.

Ademais, em razão de a mãe ou o pai ser salvo, os próprios filhos desfrutam do benefício dessa santificação. Paulo, ao chamar os filhos de “santos” também não tem em mente que eles são moralmente santos. “Filhos nascidos dentro da teocracia e, portanto, santos, não eram menos concebidos em pecado, e concebidos em iniqüidade. Eles eram por natureza filhos da ira, como os outros (Ef 2.3)”.[45] Contudo, por sua ligação com um pai ou uma mãe crente eles eram abençoados por pertencerem à aliança.

3.2. HEBREUS 6.4-8

O texto em foco diz:

“É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Porque a terra que absorve a chuva que freqüentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada.”

A primeira observação que deve ser feita a respeito de Hebreus 6.4-8, é que, trata-se, nos dizeres de Geerhardus Vos, de uma “difícil e importante passagem” sobre a aliança de Deus com o seu povo.[46] A razão dessa dificuldade está no fato de o autor da epístola mencionar especificamente o aspecto fenomenológico da religião nessa perícope.[47]

Os “iluminados” de Hebreus 6.4-8 eram pessoas que “abandonaram esta assembleia dos santos”. Eram pessoas não-regeneradas, não-eleitas, incrédulas que durante algum tempo fizeram parte de uma igreja visível, mas que apostataram. Muito se questiona acerca de como pessoas ímpias puderam “provar” de vários benefícios, como por exemplo: 1) do dom celestial; 2) da participação comum do Espírito Santo; 3) da boa palavra de Deus; e 4) dos poderes do mundo vindouro. Como tais pessoas puderam desfrutar, em alguma medida, de bênçãos destinadas àqueles que foram os beneficiários diretos do sacrifício substitutivo de Cristo?

D. Mathewson, no seu artigo intitulado Reading Heb 6:4-6 in Light of the Old Testament, lança luz sobre esse questionamento, ao afirmar que, “a linguagem do autor em 6.4-6 é colorida por referências do AT que aludem e ecoam como citação direta”.[49] De forma específica, Mathewson sugere que a referência àqueles que foram “iluminados” lembra a coluna de fogo que alumiou os israelitas através do deserto.[50] Algumas passagens veterotestamentárias podem demonstrar o ponto. Neemias 9.12,19 diz o seguinte:

“Guiaste-os, de dia, por uma coluna de nuvem e, de noite, por uma coluna de fogo, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir […] Todavia, tu, pela multidão das tuas misericórdias, não os deixaste no deserto. A coluna de nuvem nunca se apartou deles de dia, para os guiar pelo caminho, nem a coluna de fogo de noite, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir.”

O “dom celestial” lembra o dom celestial do maná, que foi dado por Deus ao seu povo quando este se encontrava no deserto (Êxodo 16.15). Em Neemias 9.15 é dito que o pão celestial foi dado aos israelitas “na sua fome”. Por sua vez, a referência àqueles que “se tornaram participantes do Espírito Santo” ecoa a experiência dos peregrinos do deserto, que “tinham extensiva interação com o Espírito de Deus” [51], como é testemunhado em Neemias 9.20: “E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar; não lhes negaste para a boca o teu maná; e água lhes deste na sua sede”.

Após considerar os elementos descritos em Hebreus 6.4-6, Mathewson conclui: “O autor não está apenas aludindo a textos fragmentados e a vocabulário isolado para apresentar uma retórica colorida, mas por aludir a textos que pertencem a uma enorme matriz de idéias ele está evocando o contexto inteiro e história da experiência de Israel no deserto”.[52] Quando se leva em consideração que os destinatários dessa epístola eram cristãos judeus, essa interpretação se mostra bastante plausível. O autor de Hebreus utiliza a linguagem do Antigo Testamento para descrever um abandono doloroso de uma congregação por parte de algumas pessoas.

Dessa forma, a iluminação recebida, o dom celestial provado e o Espírito compartilhado se mostram bênçãos da graça comum de Deus destinada a pessoas ímpias ou, nas palavras de Charles Hodge, “influências do Espírito concedidas a todos os homens”.[53] Tais pessoas, “tiveram um claro entendimento do juízo de Deus sobre o mundo, das promessas de Deus, o desvendar do mundo futuro; tiveram uma clara distinção do juízo, bem como provaram dos milagres da era apostólica”, afirma o teólogo genebrino Matthew Poole.[54]

No seu comentário a respeito do versículo 4, João Calvino endossa a opinião de que mesmo os réprobos recebem algumas chispas da luz divina:

Mas aqui surge uma nova questão, como pode que aqueles que fizeram tal progresso venham a apostatar depois de tudo? Pois Deus, isso pode ser dito, não chama ninguém eficazmente a não ser os seus eleitos, e Paulo testifica que eles realmente são seus filhos e que são guiados por seu Espírito (Romanos 8.14) e ele nos ensina que, é um seguro penhor de adoção quando Cristo nos faz participantes do seu Espírito. O eleito também está além do perigo da apostasia final; pois o Pai que o elegeu para ser preservado em Cristo é maior do que tudo, e Cristo promete vigiar por eles de maneira que nenhum pereça. A tudo isso, eu respondo que Deus, de fato, favorece apenas os seus eleitos com o Espírito de regeneração e que, por isso eles são distinguidos dos réprobos; pois eles são renovados segundo a sua imagem e recebem a seriedade do Espírito na esperança da herança futura, e pelo mesmo Espírito o Evangelho é selado em seus corações. Mas eu não posso admitir que tudo isso seja alguma razão pela qual Ele não conceda também aos réprobos algum sabor da sua graça, que Ele não irradie suas mentes com algumas chispas da sua luz, ou não lhes dê alguma percepção da sua bondade, e de alguma maneira grave sua palavra em seus corações. De outra forma, o que viria a ser a fé temporal mencionada em Marcos 4.17? Portanto, existe algum conhecimento mesmo nos réprobos, o qual posteriormente vem a desvanecer, porque não possui raízes suficientemente profundas, ou porque elas murcham ao serem sufocadas.[55]

O que pode ser apreendido a partir desse comentário é que, de acordo com Calvino, bênçãos fluidas da obra expiatória de Cristo e destinadas diretamente aos eleitos e salvos como, por exemplo, a iluminação, o dom celestial da Palavra e a comunhão no Espírito, podem ser destinadas, ainda que de forma indireta a pessoas ímpias e incrédulas. Como Grudem acertadamente frisa, “a graça especial, que Deus dá aos salvos, leva a maior parte das bênçãos da graça comum aos incrédulos que vivem no campo de influência da igreja”.[56]

Não perca a última parte nos próximos dias…
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Notas:
[41] G. K. Beale e D. A. Carson (Eds.). Commentary on the New Testament Use of the Old Testament. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008. p. 715.
[42] Simon Kistemaker. Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 318.
[43] Charles Hodge. 1&2 Corinthians. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 2000. p. 115.
[44] Ibid. p. 116. Ênfase acrescentada
[45] Ibid. p. 115.
[46] Geerhardus Vos. The Teaching of the Epistle to the Hebrews. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1956. p. 28.
[47] Ibid.
[48] Moisés Bezerril. A Queda dos Iluminados de Hebreus 6.4-6. p. 16.Acessado em 18/08/2011.
[49] D. Mathewson. “Reading Heb 6:4-6 in Light of the Old Testament”, In: Westminster Theological Journal. Ed. 61. 1999. p. 214.
[50] Ibid. p. 216.
[51] Ibid. p. 217.
[52] Ibid. p. 223.
[53] Charles Hodge. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001. p. 981
[54] Matthew Poole. A Commentary on the Whole Bible: Matthew – Revelation. Vol. 3. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 2003. p. 737.
[55] John Calvin. Commentary on Hebrews. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 2000. p. 94. Acessado em 25/Ago/2011.
[56] Wayne Grudem. Teologia Sistemática. p. 554.

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Fonte: Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo, por Alan Rennê Alexandrino Lima, São Paulo 2011. Trabalho apresentado ao Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em cumprimento dos requisitos do módulo A Obra do Redentor, ministrado pelo professor Dr. Heber Carlos de Campos.

Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo 2/4

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(Por Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima)

O fundamento das bênçãos usufruídas pelos incrédulos: criação ou expiação?

Leandro Antonio de Lima afirma que arminianos, luteranos e calvinistas são de acordo “que todos os seres humanos, mesmo os incrédulos, recebem algum benefício da morte de Cristo”.[19] Deve ser observado, não obstante, que os teólogos calvinistas não são unânimes em afirmar isso. Nem todos os calvinistas concordam que os réprobos recebam algum benefício da morte de Cristo. É interessante observar que mesmo entre os teólogos reformados que admitem a existência da graça comum e de bênçãos destinadas aos ímpios não existe unanimidade quanto ao fundamento de tais benesses. Há alguns que acreditam que a graça comum manifestada para com os réprobos está alicerçada na criação, enquanto outros enxergam a expiação como o seu elemento patrocinador.

2.1. A criação como fundamento da graça comum e das bênçãos concedidas aos répobros

No primeiro grupo podem ser elencados estudiosos como Abraham Kuyper e David Martyn Lloyd-Jones.

Abraham Kuyper, na sua obra De Gemene Gratie, publicada em 1902, afirma que “Deus oferece graça a todas as pessoas por permitir que o mundo siga adiante após a queda no pecado”.[20] Para Kuyper a essência da graça comum consiste tanto numa certa restrição de Deus sobre o processo de desenvolvimento do pecado quanto numa certa realização positiva na história, de maneira que o homem pecador é habilitado por Deus através dos dons e talentos concedidos pelo Espírito Santo.[21] Deve ser observado, entretanto, que apesar de Kuyper desenvolver o seu pensamento a este respeito levando em consideração a ação de Deus após a entrada do pecado no mundo, a doutrina da graça comum, como afirma Franklin Ferreira, “está intimamente relacionada com a compreensão das várias esferas da criação, do Estado, da Igreja, da família e do indivíduo”.[22]

Desse modo, as bênçãos conferidas aos incrédulos têm a sua origem na bondade comum de Deus como o Criador e o Sustentador da criação, mesmo após a queda. No livro A Obra do Espírito Santo Kuyper afirma claramente que dons e talentos são concedidos tanto a ímpios como aos crentes com base na atividade criadora de Deus. No Volume I, discorrendo sobre a concessão de dons e talentos por ocasião da criação, Kuyper destaca as bênçãos concedidas aos descendentes de Caim na forma de dons e habilidades artísticas. Ele se refere às bênçãos de Deus como sendo “tesouros de Deus”:

O primeiro impulso dado à habilidade artística foi entre os descendentes de Caim: os Jubal e os Jabal Tubalcaim foram os primeiros artistas. Não obstante esse desenvolvimento todo, embora se alimentando dos tesouros de Deus, afastaram-se mais e mais dele, enquanto seu próprio povo simplesmente não tinha esse impulso.[23]

Se há, no pensamento de Kuyper, uma ligação entre tais bênçãos e Cristo, ela se explica devido ao papel de Cristo como “o Mediador da criação, a luz que ilumina todo homem vindo ao mundo”.[24] Henry Van Til expõe o pensamento kuyperiano com propriedade:

A graça comum, embora não salvadora e restrita a esta vida (I, 220, 497; II, 277, 679), tem sua fonte em Cristo como mediador da criação (II, 645) já que todas as coisas existem por meio da Palavra eterna. Por isso, o ponto de partida para a graça comum é a criação e a esfera do natural.[25]

Para Kuyper, apenas a graça especial, ou graça particular, está relacionada à expiação. A graça comum, por sua vez, está relacionada à criação, como ele mesmo afirma:

Ao mesmo tempo o Calvinismo tem dado proeminência ao grande princípio de que há uma graça particular que opera a salvação, e também uma graça comum pela qual Deus, mantendo a vida no mundo, suaviza a maldição que repousa sobre ele, suspende seu processo de corrupção, e assim permite o desenvolvimento de nossa vida sem obstáculos, na qual glorifica-se a Deus como Criador. [26]

D. Martyn Lloyd-Jones também é da opinião que as bênçãos desfrutadas por aqueles que não fazem parte do povo de Deus têm o seu fundamento, não na obra expiatória do Senhor Jesus Cristo, mas na criação. Para ele, o Espírito Santo atua distribuindo tais benefícios a todos os homens indistintamente como uma parte do desígnio criativo de Deus: “O Espírito Santo tem estado operante neste mundo desde o princípio, e Ele tem exercido Sua influência e suas ações sobre os homens e mulheres que não são salvos e que têm ido para a perdição”.[27] Ele diz ainda que, essa influência do Espírito “não é de caráter salvífico nem uma influência redentiva, e sim, é uma parte do propósito divino”.[28] Tal influência é necessária para o desenvolvimento do que ele chama de “opinião pública” a respeito de temas morais e, principalmente, para o desenvolvimento da cultura, algo que Kuyper sempre enfatizou.

2.2. A expiação como fundamento da graça comum e dos benefícios desfrutados pelos ímpios

O grande problema com a posição anterior é que ela não considera o fato de que mesmo os ímpios e réprobos estão em uma relação com a cruz de Cristo. Berkhof fala de uma relação pactual: “Em toda transação pactual registrada na Escritura se vê que a aliança da graça traz, não somente bênçãos espirituais, mas também bênçãos materiais, e essas bênçãos materiais são de tal natureza que delas participam também os descrentes”.[29] É bem verdade que os mesmos não são objetos das influências salvíficas da expiação, não obstante, é de se esperar que uma obra dessa magnitude também possua efeitos cósmicos. Diante disso, não é um absurdo que os réprobos sejam beneficiários dos efeitos colaterais e cósmicos da cruz de Cristo, como afirma Herman Bavinck:

Embora a expiação vicária como a aquisição de salvação em sua totalidade não possa ser expandida para incluir todas as pessoas individualmente, não quer dizer que ela não tenha significado para aqueles que estão perdidos. Nesse sentido, entre a igreja e o mundo não existe apenas separação e contraste. Não é o caso que Cristo tenha adquirido todas as coisas para a primeira e nada para o último. Ao rejeitar o universalismo não se pode esquecer que o mérito de Cristo tem seus limites ainda para a igreja e seu valor e significado para o mundo.[30]

O teólogo escocês John Murray também enxerga a expiação como a fonte, ainda que indireta, das bênçãos e dos benefícios usufruídos por aqueles que não fazem parte do povo de Deus:

Os descrentes e reprovados neste mundo desfrutam de numerosos benefícios que fluem do fato de Cristo ter morrido e ressuscitado. O domínio da mediação de Cristo é universal. Cristo é o cabeça sobre todas as coisas e a ele foi dada autoridade nos céus e na terra. É dentro desse domínio mediador que todas as bênçãos que os homens desfrutam são dispensadas. Cristo, porém, exerce esse domínio com base na recompensa de sua obra consumada de redenção: “A si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome” (Fp 2.8,9). Consequentemente, uma vez que todos os benefícios e bênçãos estão dentro da esfera do domínio de Cristo e que esse domínio repousa sobre sua obra consumada de expiação, conclui-se que os inumeráveis benefícios dos quais todos os homens desfrutam estão, indiscriminadamente, relacionados à morte de Cristo, da qual resultam, pode-se dizer, de uma forma ou outra.[31]

Isso é reforçado quando o conceito de “graça” é levado em consideração. De acordo com Bavinck, “todos os benefícios do pacto que Cristo adquiriu e o Espírito Santo aplica podem ser sumariados pela palavra ‘graça’”.[32] Por essa razão, acredita-se que tanto a graça comum como a graça especial fluam a partir da obra expiatória de Cristo na cruz do Calvário.

Isto posto, a grande questão se torna determinar quais são os efeitos colaterais da cruz de Cristo que recaem como bênçãos sobre os incrédulos e réprobos. Mais uma vez, Bavinck afirma que Jesus como o Mediador – o Messias – concede aos incrédulos muitos benefícios: “o chamado do evangelho, a advertência quanto ao arrependimento, a fé histórica, uma vida virtuosa, uma variedade de dons e poderes, ofícios e ministérios dentro da igreja, como, por exemplo, o ofício apostólico no caso de Judas”.[33]

Merece consideração também o refreamento do pecado como um dos efeitos colaterais da cruz de Cristo. É possível que alguém argumente que o efeito restringente do pecado, em vez de ser uma bênção fundamentada na expiação, seja uma manifestação da graça comum de Deus tendo a criação como o seu fundamento. Abraham Kuyper, por exemplo, afirma o seguinte:

O pecado, segundo o Calvinismo – e essa explicação está em pleno acordo com as Escrituras Sagradas[sic] o pecado desenfreado e desacorrentado, deixado a si mesmo, teria imediatamente conduzido a uma degeneração total da vida humana, como pode ser inferido do que foi visto nos dias anteriores ao dilúvio. Mas Deus interrompeu o curso do pecado a fim de evitar a completa aniquilação de seu divino trabalho manual, o que naturalmente teria acontecido. Ele interferiu na vida do indivíduo, na vida da humanidade como um todo e na vida da própria natureza por meio da sua graça comum. Esta graça, contudo, não aniquila a essência do pecado, nem a salva para a vida eterna, porém impede a execução completa do pecado, do mesmo modo como o discernimento humano impede a fúria de animais selvagens.[34]

Ele assevera ainda que:

Deus, por meio da sua “graça comum”, restringe a operação do pecado no homem, em parte quebrando seu poder, em parte domando seu espírito mal[sic], e em parte domesticando sua nação ou sua família. Assim, a graça comum tem levado ao resultado de que um pecador não regenerado pode cativar-nos e atrair-nos pelo que é nele belo e cheio de energia, exatamente como acontece com nossos animais domésticos, mas isto certamente à maneira do homem. A natureza do pecado, contudo, permanece tão venenosa quanto era.[35]

Deve ser observado, porém, que a suspensão do processo de corrupção do mundo, de acordo com Kuyper, é uma expressão da graça comum de Deus pela qual ele é glorificado como Criador.[36] Na sua obra De Gemene Gratie, Kuyper deixa essa relação clara:

Mas, após a morte segue um processo de desintegração do cadáver. E é essa desintegração espiritual do cadáver que poderia ser e foi restringida, não totalmente mas em parte. Não totalmente, de maneira que o temeroso resultado do pecado pode ser evidente para todos, mas em parte, de maneira que também dessa maneira a saúde da criação de Deus e de Seu poder re-criador em nossa raça pecaminosa possa ser glorificado.[37]

A dificuldade envolvida nesse pensamento reside no fato de não se considerar a função da manifestação da graça comum, de uma forma geral, e do refreamento do pecado, de forma específica. A graça comum serve aos propósitos da graça especial de Deus na salvação dos seus eleitos. Num artigo intitulado Common Grace, John Murray expõe essa relação:

O propósito redentivo de Deus repousa no centro da história desse mundo. Embora não seja o único propósito a ser cumprido na história e não seja a única finalidade à qual todas as outras estão subordinadas, certamente é o fluxo central da história. No entanto, é no contexto mais amplo da história que o propósito redentivo de Deus é realizado. Encontramos esse contexto amplo para ser uma dispensação da paciência e da bondade divinas. Em outras palavras, é que a esfera de vida ou fluxo amplo da história providenciado pela graça comum que provê a esfera de operação do propósito especial de redenção e salvação de Deus. Isso significa simplesmente que esse mundo ajudado e preservado pela graça de Deus é a esfera e plataforma sobre a qual sobrevêm as operações da graça especial e na qual a graça especial trabalha para a realização do seu propósito de salvação e a perfeição de todo o corpo dos eleitos. A graça comum, então, recebe ao menos uma explicação a partir do fato da graça especial, e a graça especial tem a sua pré-condição e esfera de operação na graça comum. Sem a graça comum a graça especial não seria possível porque não teria nenhum material sobre o qual pudesse erguer a sua estrutura. É a graça comum que fornece não apenas a esfera sobre a qual, mas também o material a partir do qual, o edifício bem ajustado pode crescer num templo santo no Senhor. É a raça humana preservada por Deus, dotada de diversos dons por Deus, num mundo sustentado e enriquecido por Deus, subsistindo por meio de várias perseguições e campos de labor, que provê os sujeitos para a graça redentiva e regeradora… Para concluir… a graça comum provê a esfera de operação da graça especial e a graça especial, portanto, fornece uma lógica da graça comum.[38]

A graça comum dispensada por Deus sobre os ímpios e réprobos manifestada através dos benefícios desfrutados por eles serve aos propósitos salvíficos de Deus. Os incrédulos recebem a graça comum por causa dos eleitos de Deus – os que já foram salvos e os que ainda serão. Berkhof se expressa da seguinte maneira:

Se Cristo devia salvar uma raça eleita, paulatinamente chamada do mundo da humanidade no transcurso dos séculos, era necessário que Deus exercesse paciência, detivesse o curso do mal, promovesse o desenvolvimento das faculdades naturais do homem, mantivesse vivo nos corações dos homens o desejo de manter a justiça civil, a moralidade exterior e a boa ordem da sociedade, e derramasse incontáveis bênçãos sobre a humanidade em geral.[39]

Nesse sentido, é imprescindível compreender que os benefícios recebidos pelos ímpios não fluem diretamente da cruz de Cristo, mas indiretamente. Em outras palavras, nada mais são do que efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo, visando o benefício direto do povo de Deus. Wayne Grudem se expressa da seguinte forma: “Entretanto, sobre esse último ponto é necessário dizer que a graça comum flui indiretamente da obra redentora de Cristo, visto que Deus não julgou o mundo quando o pecado se introduziu porque ele planejou finalmente salvar alguns pecadores através da morte de seu Filho”.[40]

Continua nos próximos dias…

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Notas:
[19] Leandro Antonio de Lima. Razão da Esperança: Teologia para Hoje. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 283.
[20] J. van Genderen e W. H. Velema. Concise Reformed Dogmatics. Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing, 2008. p. 294.
[21] Cornelius Van Til. Common Grace & The Gospel. Nutley, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing, 1977. p. 15.
[22] Franklin Ferreira. Teologia Cristã. p. 154.
[23] Abraham Kuyper. A Obra do Espírito Santo. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 78. Ênfase acrescentada.
[24] Louis Berkhof. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. p. 403.
[25] Henry Van Til. O Conceito Calvinista de Cultura. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 141.
[26] Abraham Kuyper. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. pp. 38-39. Ênfase acrescentada.
[27] D. Martyn Lloyd-Jones. Deus o Espírito Santo. pp. 36-37.
[28] Ibid. p. 37.
[29] Louis Berkhof. Teologia Sistemática. p. 404.
[30] Herman Bavinck. Reformed Dogmatics: Sin and Salvation in Christ. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2009. p. 470.
[31] John Murray. Redenção Consumada e Aplicada. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 55. Ênfase acrescentada.
[32] Herman Bavinck. Reformed Dogmatics. Vol. 3. p. 573. Aqui Bavinck também tem em mente a graça comum, como as suas próprias palavras demonstram: “Mas graça significa diferentes coisas para diferentes pessoas. Em primeiro lugar, ela pode denotar o favor imerecido que Deus concede a suas criaturas, especialmente aos seres humanos como pecadores. Segundo, é um termo para toda sorte de benefícios espirituais e físicos que Deus em sua graça concede a suas criaturas e que são coletivamente chamados de ‘dons da graça’ e ‘graça’”. Cf. Herman Bavinck. Reformed Dogmatics. Vol. 3. p. 574.
[33] Ibid. p. 471.
[34] Abraham Kuyper. Calvinismo. p. 130.
[35] Ibid. p. 131.
[36] Ibid. pp. 38-39.
[37] Apud in Cornelius Van Til. Common Grace & The Gospel. p. 15.
[38] Apud in Robert L. Reymond. A New Systematic Theology of the Christian Faith. Nashville, TN: Thomas Nelson, 1998. p. 403. Ênfase acrescentada.
[39] Louis Berkhof. Teologia Sistemática. p. 404.
[40] Wayne Grudem. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2002. p. 550.

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Fonte: Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo, por Alan Rennê Alexandrino Lima, São Paulo 2011. Trabalho apresentado ao Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em cumprimento dos requisitos do módulo A Obra do Redentor, ministrado pelo professor Dr. Heber Carlos de Campos.

Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo 1/4

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(Por Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima)

Introdução

É ponto pacífico, e até mesmo algo óbvio, o fato de que a expiação realizada por Jesus Cristo na cruz do Calvário significou a obtenção de bênçãos destinadas aos eleitos, como expressão da graça de Deus. Tais bênçãos são de natureza salvífica e estão alicerçadas sobre o sangue derramado na cruz. A expiação trouxe consigo a remoção da culpa e da ira de Deus, o perdão dos pecados e garantiu a aplicação da salvação por parte do Espírito Santo: chamado eficaz, regeneração, arrependimento, fé, justificação, santificação e a glorificação. Além disso, a obra salvífica realizada por Jesus Cristo conquistou dons excelentes para os eleitos, como atesta o apóstolo Paulo, ecoando o Salmo 68.18: “Por isso, diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens” (Efésios 4.8). Não obstante, objeto de grande controvérsia é o assunto a respeito das benesses desfrutadas pelos preteridos e ímpios na presente vida. Essas benesses, ou bênçãos, possuem alguma relação com a obra expiatória de Jesus? Mais especificamente, existem, de fato, os chamados efeitos colaterais da cruz de Cristo? Deus faz uso da obra de Jesus na cruz para abençoar os ímpios, ainda que indiretamente, a fim de que o seu povo, em última análise, possa viver melhor?

Inegavelmente, a experiência cotidiana atesta que os descrentes e ímpios desfrutam de bênçãos terrenas e até mesmo de favores espirituais. Além disso, as Sagradas Escrituras são claras nas suas afirmações no sentido de que, Deus “faz com que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos” (Mateus 5.45), que “todos esperam de ti que lhes dês o seu sustento em ocasião oportuna” (Salmo 104.27), e que Deus “é benigno até para com os ingratos e maus” (Lucas 6.35). É inegável, então, que os ímpios e réprobos gozam de coisas boas nesta vida. Eles são prósperos, ricos, saudáveis e inteligentes. De onde vem isso? Qual a fonte das suas realizações positivas e das bênçãos usufruídas por eles? Será que elas se originam da expiação? Ou estão diretamente relacionadas com Deus como Criador e Sustentador da sua criação?

Como já foi afirmado, isso tem sido objeto de grande controvérsia no meio reformado. O ensinamento majoritário, todavia, tem sido o de que tais manifestações nada mais são do que expressões da graça comum operada nos réprobos pelo Espírito Santo.[1] Não obstante, um grupo de estudiosos reformados tem contestado a doutrina da graça comum, bem como a ideia de que as benesses usufruídas pelos réprobos e ímpios sejam expressões do amor de Deus e efeitos colaterais da cruz de Cristo. Para eles, mesmo as bênçãos desfrutadas pelos ímpios nada mais são do que laços colocados diante deles pelo Senhor.[2]

O propósito do presente trabalho é contribuir com esse debate, apresentando uma resposta ao questionamento: Há alguma bênção oriunda da expiação de caráter não-salvífico, endereçada aos não-eleitos para o bem dos filhos de Deus? Para que esse objetivo seja alcançado, a doutrina da graça comum será discutida em primeiro lugar, considerando-se tanto o ensinamento reformado clássico quanto a sua contraparte reformada radical. Logo em seguida, discutir-se-á o fundamento da graça comum: criação ou expiação? Em terceiro lugar, duas passagens das Sagradas Escrituras, que mencionam benesses recebidas pelos inimigos da cruz de Cristo serão consideradas. Em quarto e último lugar, inquirir-se-á sobre o propósito de Deus na concessão de benefícios àqueles que não fazem parte do seu povo amado.

1 A Doutrina Reformada da Graça Comum

1.1. Origem do termo

A doutrina da graça comum procura responder a um importante questionamento que tem sido levantado ao longo dos séculos, conforme expresso por Henry Meeter: “Como nós podemos solucionar o problema do mal relacionado pela Bíblia com o homem não regenerado e as ‘excelentes proezas’ feitas por estes mesmos homens não regenerados e pagãos?”[3] A resposta conhecida como “graça comum” atribui ao Espírito Santo, “não somente o papel de refrear aquilo de negativo que existe no ser humano e no meio em que vive, mas também de produzir em seu coração algumas possibilidades de realizações positivas, como o desenvolvimento cultural saudável, as artes de maneira geral e, porque não dizer também, até a magistratura”.[4]

O termo “graça comum” foi cunhado já no século XX. Existe dúvida quanto a quem o cunhou. Alguns acreditam que o teólogo holandês Herman Bavinck (1854-1921) tenha sido o responsável [5], ao passo que outros o atribuem ao também holandês Abraham Kuyper (1837-1920).[6] Não resta dúvida, porém, de que Kuyper foi o principal difusor tanto do conceito quanto da doutrina da graça comum.

Várias tentativas de definição de graça comum têm sido feitas ao longo dos anos por teólogos representativos da tradição reformada. D. Martyn Lloyd-Jones, por exemplo, afirma que graça comum

É o termo aplicado àquelas bênçãos gerais que Deus comunica a todos os homens e mulheres, indiscriminadamente, como Lhe apraz, não só a Seu próprio povo, mas a todos os homens e mulheres, segundo o Seu beneplácito. Ou, de outra forma, graça comum significa aquelas operações gerais do Espírito Santo nas quais, sem renovar o coração, Ele exerce influência moral por meio da qual o pecado é restringido, a ordem é preservada na vida social e a justiça civil é promovida.[7]

Archibald Alexander Hodge, filho do ilustre teólogo princetoniano Charles Hodge, define a graça comum da seguinte maneira:

A graça comum é a influência restritiva e persuasiva do Espírito Santo, operando somente por meio das verdades reveladas no evangelho, ou por meio da luz natural da razão e da consciência, aumentando o natural efeito moral dessas verdades sobre o coração, a inteligência e o a consciência. Não envolve mudança do coração, e, sim, unicamente um aumento do poder natural da verdade, uma ação restritiva das más paixões e um aumento das emoções naturais em face do pecado, do dever e do interesse próprio.[8]

Hodge entende que a ação do Espírito Santo denominada de “graça comum” se dá também por meio das verdades reveladas do evangelho. Dessa forma, ele parece entender que existem algumas dádivas recebidas pelos ímpios que têm a sua origem na obra expiatória de Jesus Cristo.

1.2. A contraparte radical reformada

No ano de 1924 a Christian Reformed Church, em sua Assembleia Geral, adotou uma posição que ratificava a doutrina da graça comum. Sua posição foi a afirmação de que Deus é favoravelmente disposto a todos os homens, tanto aos eleitos quanto aos réprobos. Isso levou os teólogos Herman Hoeksema, George Ophoff e Henry Danhof a romperem com a Christian Reformed Church e a fundar a Protestante Reformed Church. De acordo com Hoeksema, a única coisa que Deus manifestava ao não-eleito era a sua ira. Não há, segundo ele, nenhuma medida de graça oferecida ao réprobo nem nenhuma oferta séria do evangelho ao não-eleito.[9]

David J. Engelsma, professor de Teologia Sistemática e Antigo Testamento na Theological School of the Protestant Reformed Churches, em Grandville, e duro oponente da doutrina da graça comum a define como:

Um favor não-salvífico de Deus a todos os humanos; uma operação do Espírito Santo dentro dos réprobos pela qual, sem regenerá-los, restringe o pecado neles, de maneira que se tornam depravados apenas parcialmente; e a habilidade dos incrédulos, por virtude dessa graça do Espírito Santo, para praticarem boas obras, especialmente no lugar de uma cultura que é verdadeiramente, mas não definitivamente, boa.[10]

Não se sabe de um só teólogo reformado que afirme que, por meio da ação do Espírito Santo na graça comum os incrédulos deixem de ser totalmente depravados. A afirmação de Engelsma, de que a crença na graça comum implica a crença numa depravação apenas parcial se mostra desprovida de fundamentação teórica e documental. Todos os teólogos reformados que acreditam na existência da graça comum afirmam conjuntamente a total corrupção do ser humano.

O grande problema com David Engelsma e os outros oponentes da doutrina da graça comum é que eles acabam fazendo uma confusão entre depravação total e depravação absoluta. James Daane faz um comentário interessante sobre isso:

Partidários da visão tradicional da graça comum que conhecem algo da história do pensamento reformado não serão convencidos facilmente de que a graça comum mina as doutrinas da depravação total e da antítese.[11] Eles sabem muito bem que aqueles que forjaram a doutrina da graça comum também criam na depravação total. Antes de aceitar a crítica que diz que a graça comum enfraquece essas doutrinas, eles levantam a questão se aqueles que se opõem a essa visão ainda estão lidando com a concepção reformada da depravação total e da antítese, ou se talvez eles não tenham transformado a depravação total em depravação absoluta e a antítese em uma antítese absoluta.[12]

Mark Driscoll e Gerry Breshears seguem na mesma linha ao afirmarem que “enquanto as pessoas não são absolutamente depravadas e tão más quanto elas poderiam ser, todas as pessoas são totalmente depravadas em que todos os seus motivos, palavras, atos e pensamentos são afetados, manchados e corrompidos pelo pecado”.[13] Daane prossegue afirmando que, “é simplesmente uma questão de registro histórico que todos os teólogos reformados que foram mais ativos na formulação da graça comum foram justamente aqueles que de todo coração também aceitaram a doutrina da depravação total”.[14] Nesse sentido, Richard J. Mouw cita especificamente o reformador João Calvino como alguém que defendeu a depravação total e a antítese e ao mesmo tempo reconhecia a capacidade dos incrédulos de produzirem boas coisas. Ele diz:

A ideia de antítese estava presente no pensamento calvinista desde o início. O próprio João Calvino usou o termo de um modo que antecipou o sentido mais técnico desenvolvido no calvinismo holandês do século dezenove. Quando uma pessoa é convertida, Calvino argumenta, Deus graciosamente transforma “uma má vontade em uma boa vontade”. Então, “a nova criação… varre para longe tudo da nossa natureza [deprava] comum”. Essa ação transformadora é exigida, Calvino observou na sua exposição da linha de raciocínio de Paulo em Efésios 2, por causa de “uma antítese entre Adão e Cristo”.[15]

Fica claro, então, que é característico da teologia reformada o ensino da graça comum. Ademais, é necessário que fique claro, que sustentar a graça comum em nada implica a desconstrução das doutrinas da depravação total e da antítese. Prova-se isso a partir da constatação de que a doutrina da graça comum não surgiu dos sistemas teológicos que não acreditam da depravação total, como por exemplo, o semi-pelagianismo católico romano e o arminanismo.[16]

Através da graça comum Deus revela a sua bondade para com todas as pessoas, mas não de uma forma salvífica. “A graça comum de Deus inclui a água que bebemos, a comida que comemos, o sol que nos alegra, e a chuva de que necessitamos, pois Deus é bom para com os pecadores e com os santos igualmente”.[17] Sobre os efeitos dessa graça comum, Mark Driscoll e Gerry Breshears afirmam que, “a graça comum de Deus faz com que aqueles que O desprezam a aprender e crescer em áreas como ciência, filosofia, tecnologia, educação e medicina. A graça comum de Deus faz com que sociedades floresçam, famílias existam, cidades surjam e nações prosperem”.[18]

Fica patente que os benefícios desfrutados pelos réprobos e ímpios possuem estreita relação com a graça comum de Deus. A questão agora é determinar se essas bênçãos manifestadas através da graça comum fluem da obra expiatória de Jesus Cristo ou simplesmente da bondade de Deus enquanto Criador e Sustentador de todas as coisas.

Continua nos próximos dias…

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Notas:
[1] Fernando de Almeida. “O Ensino da Graça Comum na Tradição Reformada”, In: Franklin Ferreira (Ed.). A Glória da Graça de Deus: Ensaios em Honra a J. Richard Denham Jr. Sobre História, Teologia, Igreja e Sociedade. São José dos Campos: Fiel, 2010. p. 619.
[2] Cf. Angus Stewart. Graça Comum. p. 1. Acessado em 18/08/2011.
[3] H. Henry Meeter. The Basics Ideas of Calvinism. Grand Rapids, MI: Baker Books, 1990. p. 51.
[4] Fernando de Almeida. “O Ensino da Graça Comum na Tradição Reformada”, In: Franklin Ferreira (Ed.). A Glória da Graça de Deus. p. 619.
[5] Ibid. p. 620.
[6] Franklin Ferreira. Teologia Cristã: Uma Introdução à Sistematização das Doutrinas. São Paulo: Vida Nova, 2011. p. 154. David J. Engelsma. Common Grace Revisited: A Response to Richard J. Mouw’s He Shines in All That’s Fair. Grandville, MI: Reformed Free Publishing Association, 2003. p. 2.
[7] D. Martyn Lloyd-Jones. Deus o Espírito Santo. São Paulo: PES, 1998. p. 36.
[8] D. Martyn Lloyd-Jones. Deus o Espírito Santo. São Paulo: PES, 1998. p. 36.
[9] Morton H. Smith. Systematic Theology. Vol. 1. Greenville, SC: Greenville Seminary Press, 1994. p. 214.
[10] David J. Engelsma. Common Grace Revisited. p. 2. Ênfase acrescentada.
[11] Os teólogos calvinistas discutem a graça comum em conexão com a ideia de antítese. Abraham Kuyper frequentemente se referia à antítese, que significa “a radical oposição que caracteriza, nas palavras de Stob, a ‘real e inflexível , embora irregular, luta existente entre Deus e Satanás, entre Cristo e o anticristo, entre a semente da mulher e a semente da serpente, entre a igreja e o mundo’”. Cf. Richard J. Mouw. He Shines In All That’s Fair: Culture and Common Grace. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2001. p. 15.
[12] James Daane. A Theology of Grace: Na Inquiry Into and Evaluation of Dr. C. Van Til’s Doctrine of Common Grace. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1954. p. 32.
[13] Mark Driscoll e Gerry Breshears. Doctrine: What Christians Should Believe. Wheaton, IL: Crossway, 2010. p. 157.
[14] Ibid.
[15] Richard J. Mouw. He Shines In All That’s Fair. p. 15.
[16] James Daane. A Theology of Grace. p. 33.
[17] Mark Driscoll e Gerry Breshears. Doctrine. p. 39.
[18] Ibid.

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Fonte: Os efeitos colaterais da obra expiatória de Jesus Cristo, por Alan Rennê Alexandrino Lima, São Paulo 2011. Trabalho apresentado ao Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em cumprimento dos requisitos do módulo A Obra do Redentor, ministrado pelo professor Dr. Heber Carlos de Campos.