A cruz e o “eu”

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(Por Arthur W. Pink)

Antes de abordarmos o tema deste versículo, desejamos fazer algumas considerações sobre os seus termos. “Se alguém” — o termo utilizado refere-se a todos os que desejam unir-se ao grupo dos seguidores de Cristo e alistar-se sob a bandeira dEle. “Se alguém quer” — o grego é muito enfático, significando não somente a anuência da vontade, mas também o propósito completo do coração, uma resolução determinada. “Vir após mim” — como um servo sujeito a seu Senhor, um aluno, ao seu Mestre, um soldado, ao seu Capitão. “Negue” — o vocábulo grego significa negue-se completamente. Negue-se a si mesmo — a sua natureza pecaminosa e corrupta. “Tome” — não quer dizer leve ou suporte passivamente, e sim assuma voluntariamente, adote ativamente. “A sua cruz” — que é desprezada pelo mundo, odiada pela carne, mas, apesar disso, é a marca distintiva de um verdadeiro crente. “E siga-me” — viva como Cristo viveu, para a glória de Deus.

O contexto imediato é ainda mais solene e impressionante. O Senhor Jesus acabara de anunciar aos seus apóstolos, pela primeira vez, a aproximação de sua morte de humilhação (v. 21). Pedro, admirado, disse-Lhe: “Tem compaixão de ti, Senhor” (v. 22). Estas palavras expressaram a política da mentalidade carnal. O caminho do mundo é a satisfação e a preservação do “eu”. “Poupa-te a ti mesmo” é a síntese da filosofia do mundo. Mas a doutrina de Cristo não é “salva-te a ti mesmo”, e sim sacrifica-te a ti mesmo. Cristo discerniu no conselho de Pedro uma tentação da parte de Satanás (v. 23) e, imediatamente, a repeliu. Jesus disse a Pedro não somente que Ele tinha de ir a Jerusalém e morrer ali, mas também que todos os que desejassem tornar-se seguidores dEle tinham de tomar a sua cruz (v. 24). Existia um imperativo tanto em um caso como no outro. Como instrumento de mediação, a cruz de Cristo permanece única; todavia, como um elemento de experiência, ela tem de ser compartilhada por todos os que entram na vida.

O que é um “cristão”? Alguém que possui membresia em uma igreja na terra? Não. Alguém que afirma um credo ortodoxo? Não. Alguém que adota certo modo de conduta? Não. Então, o que é um cristão? É alguém que renunciou o “eu” e recebeu a Cristo Jesus como Senhor (Cl 2.6). O verdadeiro cristão é alguém que tomou sobre si o jugo de Cristo e aprende dEle, que é “manso e humilde de coração” (Mt 11.29). O verdadeiro cristão é alguém que foi chamado à comunhão do Filho de Deus, “Jesus Cristo, nosso Senhor” (1 Co 1.9): comunhão em sua obediência e sofrimento agora; em sua recompensa e glória no futuro eterno. Não existe tal coisa como o pertencer a Cristo e viver para satisfazer o “eu”. Não se engane nesse ponto. “Qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo” (Lc 14.27) — disse o Senhor Jesus. E declarou novamente: “Aquele que [em vez de negar-se a si mesmo] me negar diante dos homens [e não para os homens — é a conduta, o andar que está em foco nestas palavras], também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10.33).

A vida cristã tem início com um ato de auto-renúncia, sendo continuada por automortificação (Rm 8.13). A primeira pergunta de Saulo de Tarso, quando Cristo o deteve, foi esta: “Que farei, Senhor?” (At 22.10.) A vida cristã é comparada a uma corrida, e o atleta é chamado a desembaraçar-se “de todo peso e do pecado que tenazmente… assedia” (Hb 12.1) — ou seja, o pecado que está no amor ao “eu”, o desejo e a resolução de seguir nosso próprio caminho (Is 53.6). O grande e único alvo, objetivo e tarefa colocados diante do cristão é seguir a Cristo: seguir o exemplo que Ele nos deixou (1 Pe 2.21); e Ele não agradou a Si mesmo (Rm 15.3). Existem dificuldades no caminho, obstáculos na jornada, dos quais o principal é o “eu”. Portanto, ele tem de ser “negado”. Este é o primeiro passo em direção a seguir a Cristo.

O que significa negar completamente a si mesmo? Primeiramente, significa o completo repúdio de sua própria bondade: cessar de confiar em quaisquer de nossas obras para recomendar-nos a Deus. Significa uma aceitação irrestrita do veredicto divino de que todos os nossos melhores feitos são “como trapo da imundícia” (Is 64.6). Foi neste ponto que Israel falhou, “porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus” (Rm 10.3). Esta afirmativa deve ser contrastada com a declaração de Paulo: “E ser achado nele, não tendo justiça própria” (Fp 3.9).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar de todo a sua própria sabedoria. Ninguém pode entrar no reino de Deus, se não se tornar como uma “criança” (Mt 18.3). “Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito!” (Is 5.21.) “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1.22). Quando o Espírito Santo aplica o evangelho com poder em uma alma, Ele o faz “para destruir fortalezas, anulando… sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Co 10.4,5). Um lema sábio que todo cristão deve adotar é: “Não te estribes no teu próprio entendimento” (Pv 3.5).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar suas próprias forças: não ter qualquer confiança na carne (Fp 3.3). Significa prostrar o coração à afirmativa de Cristo: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Foi neste ponto que Pedro falhou (Mt 26.33). “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda” (Pv 16.18). Quão necessário é que estejamos sempre atentos! “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (1 Co 10.12). O segredo do vigor espiritual se encontra em reconhecermos nossa fraqueza pessoal (ver Is 40.29; 2 Co 12.9). Sejamos, pois, fortes “na graça que está em Cristo Jesus” (2 Tm 2.1).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar de todo a sua própria vontade. A linguagem de uma pessoa não-salva é: “Não queremos que este reine sobre nós” (Lc 19.14). A atitude de um verdadeiro cristão é: “Para mim, o viver é Cristo” (Fp 1.21) — honrar, agradar e servir a Ele. Renunciar a nossa própria vontade significa dar atenção à exortação de Filipenses 2.5: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”; e isto é definido nos versículos seguintes como auto-renúncia. Renunciar a nossa própria vontade é o reconhecimento prático de que não somos de nós mesmos e de que fomos “comprados por preço” (1 Co 6.20); é dizermos juntamente com Cristo:

“Não seja o que eu quero, e sim o que tu queres” (Mc 14.36).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar as suas próprias concupiscências ou desejos carnais. “O ego de um homem é um pacote de ídolos” (Thomas Manton), e esses ídolos têm de ser repudiados. Os não-crentes amam a si mesmos (2 Tm 3.2 – ARC). Todavia, alguém que foi regenerado pelo Espírito diz, assim como Jó: “Sou indigno… Por isso, me abomino” (40.4; 42.6). A respeito dos não-crentes, a Bíblia afirma: “Todos eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus” (Fp 2.21). Mas, a respeito dos santos de Deus, está escrito: “Eles… mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.11). A graça de Deus está nos educando “para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.12).

Este negar a si mesmo que Cristo exige dos seus seguidores é total. Não há qualquer restrição, quaisquer exceções — “Nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências” (Rm 13.14). Este negar a si mesmo tem de ser contínuo e não ocasional — “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23). Tem de ser espontâneo, não forçado; realizado com alegria e não com relutância — “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens” (Cl 3.23). Oh! quão perversamente tem sido abaixado o padrão que Deus colocou diante de nós! Como este padrão condena a negligência, a satisfação carnal e a vida mundana de muitos que se declaram (inutilmente) “cristãos”!

“Tome a sua cruz.” Isto se refere à cruz não como um objeto de fé, e sim como uma experiência na alma. Os benefícios legais do Calvário são recebidos por meio de crer, quando a culpa do pecado é cancelada, mas as virtudes experimentais da cruz de Cristo são desfrutadas apenas quando somos conformados, de modo prático, “com ele na sua morte” (Fp 3.10). É somente quando aplicamos a cruz, diariamente, ao nosso viver e regulamos nosso comportamento pelos princípios dela, que a cruz se torna eficaz sobre o poder do pecado que habita em nós. Não pode haver ressurreição onde não há morte; não pode haver um andar prático, “em novidade de vida”, enquanto não levamos “no corpo o morrer de Jesus” (2 Co 4.10). A cruz é a insígnia, a evidência do discipulado cristão. É a cruz de Cristo e não o credo dEle que faz a distinção entre um verdadeiro seguidor de Cristo e os religiosos mundanos.

Ora, em o Novo Testamento a “cruz” representa realidades definidas. Primeiramente, a cruz expressa o ódio do mundo. O Filho de Deus não veio para julgar, e sim para salvar; não veio para castigar, e sim para redimir. Ele veio ao mundo “cheio de graça e de verdade”. O Filho de Deus sempre estava à disposição dos outros: ministrando aos necessitados, alimentando os famintos, curando os enfermos, libertando os possessos de espíritos malignos, ressuscitando mortos. Ele era cheio de compaixão — manso como um cordeiro, totalmente sem pecado. O Filho de Deus trouxe consigo boas-novas de grande alegria. Ele buscou os perdidos, pregou aos pobres, mas não desprezou os ricos; e perdoou pecadores. De que modo Cristo foi recebido? Que boas-vindas os homens Lhe ofereceram? Os homens O desprezaram e rejeitaram (Is 53.3). Ele disse: “Odiaram-me sem motivo” (Jo 15.25). Os homens sentiram sede do sangue de Jesus. Nenhuma morte comum lhes satisfaria. Exigiram que Jesus fosse crucificado. Por conseguinte, a cruz foi a manifestação do ódio inveterado do mundo para com o Cristo de Deus.

O mundo não se alterou, assim como o etíope ainda não mudou a sua pele e o leopardo, as suas manchas. O mundo e Cristo ainda estão em antagonismo. Por isso, a Bíblia afirma: “Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). É impossível andarmos com Cristo e gozarmos de comunhão com Ele, enquanto não tivermos nos separado do mundo. Andar com Cristo envolve necessariamente compartilhar de sua humilhação — “Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hb 13.13). Foi isso o que Moisés fez (ver Hb 11.24-26). Quanto mais intimamente eu estiver andando com Cristo, tanto mais incorretamente serei compreendido (1 Jo 3.2), tanto mais serei ridicularizado (Jó 12.4) e odiado pelo mundo (Jo 15.19). Não cometa erro neste ponto: é totalmente impossível ser amigo do mundo e andar com Cristo. Portanto, tomar a cruz significa que eu desprezo voluntariamente a amizade do mundo, recusando conformar-me com ele (Rm 12.2). Que me importa a carranca do mundo, se estou desfrutando do sorriso do Salvador?

Tomar a cruz significa uma vida de sujeição voluntária a Deus. No que concerne à atitude de homens ímpios, a morte de Cristo foi um assassinato. Mas, no que se refere à atitude do próprio Senhor Jesus, a sua morte foi um sacrifício espontâneo, uma oferta de Si mesmo a Deus. Foi também um ato de obediência a Deus. Ele mesmo disse: “Ninguém a tira de mim [a vida dEle]; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la” (Jo 10.18). E por que Ele a entregou espontaneamente? As próximas palavras do Senhor Jesus nos dizem: “Este mandato recebi de meu Pai”. A cruz foi a suprema demonstração da obediência de Cristo. Nisto, Ele é nosso exemplo. Citamos novamente Filipenses 2.5: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”. Nas palavras seguintes, vemos o Amado do Pai assumindo a forma de um servo e “tornando-se obediente até à morte e morte de cruz”.

Ora, a obediência de Cristo tem de ser a obediência do cristão — voluntária, alegre, irrestrita, contínua. Se esta obediência envolve vergonha e sofrimento, menosprezo e perdas, não devemos vacilar; pelo contrário, temos de fazer o nosso “rosto como um seixo” (Is 50.7). A cruz é mais do que um objeto da fé do cristão, é a insígnia do discipulado, o princípio pelo qual a vida do crente deve ser regulada. A cruz significa entrega e dedicação a Deus — “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

A cruz representa sofrimento e sacrifício vicários. Cristo entregou sua própria vida em favor de outros; e os seguidores dEle são chamados a fazerem espontaneamente o mesmo — “Devemos dar nossa vida pelos irmãos” (1 Jo 3.16). Esta é a lógica inevitável do Calvário. Somos chamados a seguir o exemplo de Cristo, à comunhão de seus sofrimentos, a sermos cooperadores em sua obra. Assim como Cristo “a si mesmo se esvaziou” (Fp 2.7), assim também devemos nos esvaziar. Cristo “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20.28); temos de agir da mesma maneira. Assim como Cristo “não se agradou a si mesmo” (Rm 15.3), assim também não devemos agradar a nós mesmos. Como o Senhor Jesus sempre pensou nos outros, assim devemos nos lembrar “dos encarcerados, como se presos com eles; dos que sofrem maus tratos”, como se fôssemos nós mesmos os maltratados (Hb 13.3).

“Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á” (Mt 16.25). Palavras quase idênticas a estas se encontram também em Mateus 10. 39, Marcos 8.35, Lucas 9.24; 17.33, João 12.25. Esta repetição certamente é um argumento em favor da profunda importância de prestarmos atenção e atendermos às palavras de Cristo. Ele morreu para que vivêssemos (Jo 12.24); devemos agir de modo semelhante (Jo 12.25). Assim como Paulo, devemos ser capazes de afirmar: “Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo” (At 20.24). A “vida” de satisfação do “eu” neste mundo é perdida na eternidade. A vida que sacrifica os interesses do “eu” e se rende a Cristo, essa vida será achada novamente e preservada em toda eternidade.

Um jovem que concluíra a universidade e tinha perspectivas brilhantes respondeu à chamada de Cristo para uma vida de serviço para Ele na Índia, entre as classes mais pobres. Seus amigos exclamaram: “Que tragédia! Uma vida desperdiçada!” Sim, foi uma vida “perdida” para este mundo, mas “achada” no mundo por vir.

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Cristo, nosso exemplo de obediência (Andrew Murray)

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“Assim, também, por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos” (Rm 5.19). Estas palavras nos revelam o que recebemos graças à obra de Cristo. Da mesma forma como o fato de estarmos em Adão nos torna pecadores, por estarmos em Cristo somos feitos justos.
Essas palavras também nos revelam exatamente o que é em Cristo que nos torna justos. Assim como a desobediência de Adão nos deu a natureza de pecador, a obediência de Cristo nos faz justos. Nós devemos tudo à obediência de Cristo.

Entre todos os tesouros da nossa herança em Cristo, este é um dos mais ricos. Quantas pessoas nunca o estudaram, a tal ponto de amá-lo e se deleitar nele, e assim obter dele a bênção completa!

Ao estudarmos o papel da obediência de Cristo na sua obra para nos salvar, veremos nela a verdadeira raiz da nossa redenção e saberemos dar-lhe o devido lugar no nosso coração e na nossa vida.

“…por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores.” Como foi isso?

A única coisa que Deus pediu a Adão no paraíso foi obediência. A única coisa através da qual uma criatura pode glorificar a Deus ou gozar do seu favor e sua bênção é a obediência. A única causa do poder que o pecado conseguiu no mundo e da ruína que ele desencadeou – é a desobediência. Toda a maldição do pecado que recai sobre nós é devido à desobediência a nós imputada. Todo o poder do pecado que opera em nós nada mais é que isto: que ao recebermos a natureza de Adão, herdamos também a sua desobediência e, conseqüentemente, nascemos já como “filhos da desobediência”.

É evidente que a única obra para a qual seria necessário que Cristo viesse era, precisamente, remover essa desobediência – com sua maldição, seu domínio, sua natureza e suas obras más. A desobediência é a raiz de todo pecado e miséria. O primeiro objetivo da sua obra salvadora foi cortar de vez a raiz do mal e restaurar o homem para o seu destino original: uma vida em obediência ao seu Deus.

Como Cristo Fez Isso?

Em primeiro lugar, ele o fez vindo como o segundo Adão para desfazer o que o primeiro tinha feito. O pecado nos fez acreditar que era uma humilhação sempre ter que buscar e fazer a vontade de Deus. Cristo veio para nos mostrar a nobreza, a bênção, o caráter celestial da obediência.

Quando Deus nos deu o manto de criatura para usar, não sabíamos que sua beleza, sua pureza imaculada, era a obediência a Deus. Cristo veio e vestiu aquele manto para nos mostrar como usá-lo e como, através dele, podíamos entrar na presença e glória de Deus. Cristo veio para vencer e, assim, carregar para longe nossa desobediência, substituindo-a com sua própria obediência sobre nós e em nós. O poder da obediência de Cristo seria tão universal, tão poderoso e tão profundamente arraigado quanto a desobediência de Adão – sim, e muito mais ainda!

O objetivo da vida de obediência de Cristo era triplo: (1) Como um exemplo, para mostrar-nos o que é a verdadeira obediência; (2) Como nossa garantia, satisfazendo pela sua obediência toda a exigência da justiça divina por nós; (3) Como nossa Cabeça, para preparar uma natureza nova e obediente a ser comunicada para nós.

Obediência é Salvação

Cada pessoa que quiser compreender plenamente o que é obediência deve considerar bem o seguinte: é a obediência de Cristo que é o segredo da justiça e da salvação que encontro nele. A obediência é a verdadeira essência dessa justiça: obediência é salvação. Em primeiro lugar, preciso aceitar, confiar e regozijar-me na obediência de Cristo para cobrir, engolir e aniquilar terminantemente toda minha desobediência. Essa precisa ser a base inabalável, invariável, jamais esquecida, da minha aceitação por Deus. E, depois, a obediência dele torna-se o poder de vida da nova natureza em mim – assim como a desobediência de Adão era o poder que me governava até então.

A minha sujeição à obediência é a única maneira que posso manter a minha relação com Deus e com a justiça. A obediência de Cristo à justiça é o único começo de vida para mim; minha obediência à justiça é sua única continuação. Há somente uma lei para a cabeça e para os membros. Tão certamente como a desobediência e a morte foram a lei para Adão e sua semente, a obediência e a vida o são para Cristo e sua descendência.

O único vínculo, a única marca de semelhança, entre Adão e a sua semente é a desobediência. O único elo de ligação entre Cristo e sua semente, a única marca de semelhança, é a obediência.

Examine a Obediência de Cristo

Em Cristo, essa obediência era um princípio de vida. A obediência para ele não era um ato individual de obediência de vez em quando, nem mesmo uma série de atos, mas o espírito de toda sua vida. “Eu não vim para fazer a minha vontade.” “Eis que venho para fazer a tua vontade, ó Deus.” Ele veio ao mundo com um único propósito. Ele vivia somente para fazer a vontade de Deus. O poder supremo, a força mestre de toda sua vida, era a obediência.

Ele deseja produzir o mesmo em nós. Foi isso que prometeu quando disse: “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está no céu, este é meu irmão e irmã e mãe.”

O vínculo dentro de uma família é a vida comum compartilhada por todos e uma semelhança familiar. O elo entre Cristo e nós é que ele e nós juntos fazemos a vontade de Deus.

Em Cristo, essa obediência era uma alegria. “Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus.” “Minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou.”

Nossa comida é refrigério e revigoramento. O homem saudável come seu pão com alegria. Mas comida é mais do que prazer – é uma necessidade vital. Da mesma forma, fazer a vontade de Deus era a comida da qual Cristo sentia fome e sem a qual ele não podia viver. Era a única coisa que satisfazia sua fome, que o refrescava, o fortalecia e o tornava feliz.

Em Cristo, essa obediência levava a uma espera pela vontade de Deus. Deus não revelou toda a sua vontade a Cristo de uma só vez e, sim, dia a dia, de acordo com as circunstâncias da ocasião. Na sua vida de obediência, havia crescimento e progresso; a lição mais difícil veio por último. Cada ato de obediência o preparava para a nova descoberta do próximo comando de Deus. Ele disse: “Tu abriste os meus ouvidos; alegro-me em fazer a tua vontade, ó Deus.”

É quando a obediência se torna a paixão da nossa vida que nossos ouvidos serão abertos pelo Espírito de Deus para aguardar os seus ensinamentos, e não nos contentaremos com nada menos que uma orientação divina para nos conduzir à vontade de Deus para nós.

Em Cristo, essa obediência foi até a morte. Quando ele disse: “Eu não vim para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”, ele estava pronto para ir às últimas conseqüências para negar a sua própria vontade e fazer a vontade do Pai. Ele não estava brincando. “Em nada a minha vontade; a todo custo a vontade de Deus.”

Esta é a obediência para a qual ele nos convida e nos capacita. Essa entrega de coração à obediência em tudo é a única verdadeira obediência, a única força capaz de nos levar à vitória. Quem dera que os cristãos compreendessem que nada menos do que isso é o que traz alegria e força para a alma!

Em Cristo, essa obediência nascia da mais profunda humildade. “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que esvaziou-se a si mesmo… que tomou a forma de servo… que humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte.”

Ao homem que está disposto a se esvaziar por completo, a se tornar e a viver como servo, “um servo obediente”, a se humilhar profundamente diante de Deus e dos homens – é para este homem que a obediência de Jesus descortinará toda sua beleza celestial e seu poder constrangedor.

Pode ser que haja em nós uma vontade muito forte que secretamente confia em si mesmo e que falha nos seus esforços para obedecer. É quando caímos cada vez mais baixo diante de Deus em humildade, em mansidão, em paciência, em total resignação à sua vontade, dispostos a nos curvar em absoluta incapacidade e dependência dele, que nos será revelado que a única obrigação e bênção de uma criatura é obedecer a este glorioso Deus!

Em Cristo, essa obediência provinha da fé – em total dependência da força de Deus. “Eu não faço nada por mim mesmo.” “O Pai que está em mim é quem faz as obras.”

A resposta à entrega sem reservas do Filho à vontade do Pai foi a concessão ininterrupta e irrestrita pelo Pai de todo o seu poder para operar nele.

Assim também será conosco. Se aprendermos que a proporção em que desistirmos da nossa própria vontade será sempre a mesma medida da concessão do seu poder a nós, veremos que uma rendição à obediência total nada mais é que uma fé completa de que Deus haverá de operar tudo em nós.

Vamos fixar a nossa atenção em Cristo, examinando-o como servo obediente e confiando nele como nunca antes. Seja este o Cristo que recebemos e amamos, e com quem procuramos nos parecer. Como a sua justiça é a nossa esperança, deixemos que a sua obediência seja nosso único desejo. Que nossa fé nele, com sinceridade e confiança no poder sobrenatural de Deus operando em nós, aceite Cristo, o obediente, verdadeiramente como nossa vida, aquele que habita em nós.

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Extraído de The School of Obedience (A Escola da Obediência), de Andrew Murray (1828-1917), ministro, missionário e autor na África do Sul.

Onde Estás? (John Charles Ryle)

E o Senhor Deus chamou a Adão e disse-lhe: onde estás?” (GENESIS 3.9)

CARO LEITOR,

A pergunta que está diante dos seus olhos é a primeira que Deus fez ao homem após a queda. É a pergunta que Ele fez a Adão no dia em que comeu o fruto proibido e se tornou um pecador.

Adão e sua esposa esconderam-se entre as árvores do jardim do Éden em vão. Foi em vão que tentaram se esconder dos olhos do Deus que tudo vê. Eles ouviram a voz do Senhor Deus andando na viração do dia. “E o SENHOR Deus chamou a Adão e disse-lhe: onde estás?” (Gn. 3.9). Pense por um momento no quão terrível deve ter sido ouvir essas palavras! Quais devem ter sido os sentimentos de Adão e Eva?

Caro leitor, passaram-se 6 mil anos desde que essa pergunta foi feita pela primeira vez. Milhões de filhos de Adão têm vivido e morrido, e têm tomado sua própria direção. Milhões ainda estão por toda a face da terra e cada um deles tem uma alma a ser salva ou perdida. Mas nenhuma pergunta jamais foi feita ou jamais poderá ser feita de modo mais solene do que esta que está diante de você: onde você está? Onde você está aos olhos de Deus? – Venha e me dê sua atenção enquanto lhe digo algumas coisas que podem iluminar essa questão.

Não sei quem você é – se você é membro de uma igreja ou um descrente, se você é culto ou inculto, se rico ou pobre, jovem ou velho: não sei nada sobre isso. Mas eu sei que você possui uma alma imortal e desejo que essa alma seja salva. Sei que você terá de se apresentar diante do trono de Deus e eu quero prepará-lo para isso. Eu sei também que você estará para sempre no paraíso ou no inferno, e quero que você escape do inferno e alcance o paraíso. Eu sei que a Bíblia contém muitas informações importantes e confiáveis sobre os habitantes da Terra e quero que todo homem, mulher e criança no mundo todo as conheçam e ouçam. Eu creio em cada palavra da Bíblia e, porque eu acredito, pergunto a cada leitor deste texto: “Onde você está aos olhos de Deus?”

Em primeiro lugar, existem muitas pessoas, segundo a Bíblia, pelas quais eu devo temer e me preocupar. Caro leitor, você é uma delas?
Há aqueles que, se as palavras da Bíblia significam alguma coisa, ainda não se converteram e nasceram novamente. Eles não estão justificados. Não estão santificados. Eles não possuem o Espírito. Eles não têm fé. Eles não têm graça. Seus pecados não foram perdoados. Seus corações não foram transformados. Eles não estão prontos para morrer. Eles não estão preparados para o paraíso. Eles não são nem retos nem santos. Se isso tudo não é verdade, as palavras da Bíblia não possuem valor nenhum.

Algumas dessas pessoas, ao que tudo indica, pensam tanto em suas almas quanto um animal que perece. Não há nada que indique que elas pensem na vida que está por vir mais do que um cavalo ou um boi, que não têm nenhum entendimento. Evidentemente, seus tesouros estão todos na Terra. Aquilo para que elas dão valor está plenamente deste lado do túmulo. Sua atenção é engolida pelas coisas perecíveis do tempo. Carne, bebida e vestimenta, dinheiro, casas e terras, negócios, prazer ou política, casamento, leituras ou empresas, essas são as coisas que preenchem seus corações e as ocupam. Elas vivem como se a Bíblia não existisse. Elas seguem a vida como se a ressurreição e o julgamento eterno não fossem verdade. Já a graça, conversão, justificação e santidade são coisas com as quais, como Lucius Galio, não se importam (Atos 18: 14-15). São palavras e nomes que elas não conhecem ou desprezam. Todas essas pessoas irão morrer e todas irão ser julgadas. E, ainda assim, parecem estar ainda mais duras do que o diabo, pois parecem não crer nem tremer. Pobres homens! Que estado terrível para uma alma imortal se encontrar! E como isso é frequente!

Algumas das pessoas têm uma forma de religião, mas não é nada além de uma forma, no final das contas. Elas se declaram cristãs. Elas vão a um lugar de adoração aos domingos. Mas isso é tudo. Onde a religião do Novo Testamento é vista em suas vidas? Em lugar nenhum! O pecado simplesmente não é o pior inimigo delas, nem o Senhor Jesus é seu melhor amigo, nem a vontade de Deus é quem rege suas vidas, e também a salvação não é o grande propósito de sua existência. O espírito de inércia controla seus corações e elas são facilmente contentadas e autossatisfeitas. Sua forma de pensar está como em Laodiceia e elas imaginam que possuem uma religião suficiente.

Deus fala a elas continuamente, pelas Suas misericórdias, por meio de aflições, por sermões, mas elas não desejam ouvir. Jesus bate à porta de seus corações, mas elas não querem abri-la. Elas ouvem sobre a morte e a eternidade, mas não se preocupam. Elas são alertadas a respeito do perigo do amor ao mundo e se lançam nele sem culpa. Elas ouvem sobre a vinda de Cristo à Terra para morrer pelos pecadores, mas não se comovem. Parece haver um lugar para qualquer coisa em seus corações, menos para Deus. Há espaço para os negócios, para os prazeres, para o que é leviano, para o pecado, para o diabo e para o mundo. No entanto, assim como aquela pousada em Belém, não há espaço para Aquele que os criou: sem permissão para Jesus, o Espírito e a Palavra! Pobres homens! E como isso é frequente!

Caro leitor, solenemente eu pergunto à sua consciência, diante de Deus, você seria uma dessas pessoas que eu acabei de descrever? Há milhares de pessoas como essas em nosso planeta – milhares no Reino Unido e na Irlanda. Milhares em nosso país perecem, milhares em nossas cidades, milhares no meio de homens religiosos, milhares entre os descrentes, milhares entre os ricos e também entre os pobres. Agora, você é uma dessas pessoas? Se a resposta é sim, eu temo por você. Tremo e estou alarmado por você, além de muito preocupado.

O que exatamente eu temo? Tudo. Temo que você persista rejeitando a Cristo até que perca sua própria alma. Temo que seja entregue a uma mente depravada e que não acorde nunca mais. Temo que você chegue à tamanha morte e dureza de coração que nada além da voz de um arcanjo e da trombeta de Deus interrompa seu sono. Temo que você se apegue tanto a este mundo inútil que nada além da morte possa separá-lo dele. Temo que você viva sem Cristo, morra sem perdão, levante-se novamente sem esperança, receba o julgamento sem misericórdia e seja tomado pelo inferno.

Leitor, devo alertá-lo. Fuja da ira vindoura, assim como Ló. Eu imploro que se lembre de que a Bíblia é verdadeira e irá se cumprir, que o fim de seu modo atual de viver é o sofrimento e a dor. Lembre-se de que sem santidade ninguém verá a Deus, que os ímpios e todos aqueles que se esqueceram de Deus deverão ser lançados ao inferno, e que Deus um dia irá pedir contas sobre tudo o que você fizer. Lembre-se também que os pecadores sem Cristo como você nunca poderão entrar na presença dEle, pois Ele é santo e fogo consumidor. Ah! Que você considere tudo isso! Onde está o homem que pode deixar seu dedo na chama de uma vela por um minuto? Quem poderá viver em chamas eternas?

Eu conheço bem os pensamentos que Satanás colocará em seu coração à medida que você lê essas palavras. Conheço bem as desculpas que você usará. Você irá dizer: “a religião é boa, mas o homem deve viver”. Eu lhe respondo: “é bem verdade que o homem deve viver, mas é também é verdade que o homem deve morrer”. Você pode dizer: “o homem não pode morrer de fome”. Eu respondo que não quero que alguém morra de fome, mas também não desejo que alguém queime no inferno. Talvez você ainda me diga: “o homem deve se preocupar primeiramente com seus negócios neste mundo”. Eu lhe respondo: “Sim! E o primeiro negócio com que o homem deve se preocupar é aquele que é eterno: sua alma”.

Caro leitor, eu peço que você, de todo o coração, liberte-se de seus pecados, arrependa-se e converta-se. Eu peço que você mude seu curso – altere seus caminhos no que se refere à religião. Peço que saia da sua atual displicência em relação à sua alma e se torne um novo homem. Eu lhe ofereço, através de Jesus Cristo, o perdão de todos os seus pecados anteriores: perdão gratuito e completo! Perdão pronto, presente e eterno. Digo-lhe, em nome do meu Mestre, que se você se voltar ao Senhor Jesus Cristo, esse perdão será seu de uma vez por todas. Ah! Não recuse esse convite gracioso! Não ouça sobre como Cristo morreu por você, derramando Seu próprio sangue por você, esticando Suas mãos até você e continue indiferente. Não ame esse pobre mundo perecível mais do que a vida eterna. Ouse ser corajoso e decidido. Tome a decisão de abandonar a larga estrada que leva à destruição. Levante-se e fuja pela sua vida no tempo que se chama hoje. Arrependa-se, creia, ore e seja salvo!

Leitor, eu temo por você devido a seu estado atual. O desejo de meu coração é que Deus o faça temer por você mesmo.

Em segundo lugar, existem muitos que pensam que a Bíblia afirma que devem continuar em dúvida.Leitor, você é um deles?
Há muitos que eu devo chamar de “quase cristãos”, pois não conheço nenhuma outra expressão na Bíblia que descreva tão corretamente seu estado. Eles fazem muitas coisas que são corretas e boas, e até mesmo louváveis aos olhos de Deus. Eles vivem de maneira moral e estão livres de pecados evidentes. Eles mantêm hábitos decentes e apropriados. Eles costumam ser cuidadosos na prática da graça. Eles parecem amar a mensagem do Evangelho. Eles não se ofendem com a verdade presente em Jesus, mesmo que dita claramente. Eles não se opõem a companhias, conversas e livros religiosos. Eles concordam com tudo o que é dito sobre suas almas e tudo isso é bom.

No entanto, não há qualquer movimento em seus corações e nem mesmo um microscópio poderia detectá-lo. Eles são como aqueles que permanecem imóveis. Semanas e anos se passam diante deles e eles permanecem onde estão. Eles sentam-se diante de nossos púlpitos e aprovam nossos sermões. Ainda assim, não parecem melhorar apesar de tudo o que ouvem e leem. Há sempre a mesma regularidade, a mesma preocupação com os meios de graça, o mesmo desejo e a mesma esperança, o mesmo modo de se falar sobre religião, mas não há nada além disso. Não há progressos em seu Cristianismo. Não há vida, nem calor ou realidade nele. Suas almas parecem estar congeladas e, infelizmente, tudo isso está errado.

Caro leitor, você é uma dessas pessoas? Há milhares delas nos dias de hoje, em nossas igrejas e capelas. Peço que você dê uma resposta honesta a esta pergunta: é este o estado de sua alma diante de Deus? Se a resposta é sim, posso apenas dizer que sua condição não é satisfatória. Como o apóstolo disse aos gálatas, assim eu lhe digo: “temo que seus esforços sejam inúteis”.

Como posso me sentir de maneira diferente? Há apenas dois lados no mundo: o lado de Cristo e o lado do inimigo, e você nos deixa em dúvida quanto ao lado em que se encontra. Não me atrevo a dizer que você não se preocupa com religião, mas não posso dizer que você tenha se decidido. Não deveria contá-lo entre os descrentes, mas não posso colocá-lo entre os filhos de Deus. Você tem uma luz, mas estará ela guardando o conhecimento? Você tem um sentimento, mas seria a graça? Você não é profano, mas será que é um homem de Deus? Pode ser que seja parte do povo de Deus, mas você vive tão próximo à fronteira que não posso dizer com segurança a que nação você pertence. Talvez você não esteja espiritualmente morto mas, como uma árvore doente no inverno, também não posso saber se você está vivo. E assim você vive sem provas satisfatórias. Não posso evitar algumas dúvidas sobre você e certamente há um motivo para isso.

Não posso ler os segredos de seu coração. Talvez ali exista um pecado de estimação que você segura e do qual não quer abrir mão. Essa é uma doença que impede o crescimento de muitos cristãos confessos. Talvez você não avance por receio dos homens: você pode estar com medo ou vergonha de seus amigos. Essa é uma corrente de ferro que amarra a muitos. Talvez você seja negligente com suas orações pessoais e com sua comunhão com Deus. Esse é um dos motivos de tantos cristãos fracos e doentes espiritualmente. Entretanto, não importa qual seja a sua razão, eu o alerto a fim de que preste atenção no que está fazendo. Seu estado não é satisfatório nem seguro. Como os gibeonitas, você se encontra caminhando para Israel, mas semelhantemente a eles, você não possui nenhum direito à herança, ou às consolações e recompensas de Israel. Ah, desperte para o perigo em que se encontra! Esforce-se para que possa entrar.

Caro leitor, você deve sair de cima do muro se deseja aproveitar as boas evidências de sua salvação. É preciso que haja uma mudança em você. Não pode ficar parado! Não há um estado inerte no verdadeiro Cristianismo. Se a obra de Deus não está avançando no coração de um homem, a obra do inimigo é que está progredindo. E se um homem permanece sempre no mesmo lugar espiritual, a probabilidade é a de que ele não tenha uma religião verdadeira. Não basta vestir a armadura de Cristo, devemos também lutar em sua batalha. Não basta parar de fazer o mal, devemos aprender a fazer o bem. Ah, cuidado para não ser considerado um servo inútil, por não saber o que fazer com seus talentos, pois será sua destruição e sofrimento. Lembre-se: quem não está com Cristo, está contra Ele.

Leitor, nunca descanse até que descubra se você possui ou não a graça em seu coração. Desejos, bons sentimentos e convicções são excelentes, mas sozinhos não são suficientes para salvá-lo. Gosto de ver os botões e as flores em uma árvore, mas prefiro ver frutos maduros. Na parábola, os ouvintes que estavam à beira do caminho ouviram, mas a palavra não fincou raízes em seus corações: eles não foram salvos. Os ouvintes do solo pedregoso ouviram com alegria, mas a palavra não alcançou profundidade neles e não foram salvos. Os ouvintes do terreno cheio de espinhos conseguiram algo semelhante a um fruto, mas a palavra foi sufocada pelo mundo e eles não foram salvos. Você treme com a palavra? Assim também ficou Felix, mas ele não foi salvo. Você gosta de ouvir bons sermões e tudo aquilo que é correto? Herodes também gostava, mas ele não foi salvo. Você deseja ter a morte dos justos? Assim também desejava Balaão, mas ele não foi salvo. Você conhece a Verdade? Judas Iscariotes também conhecia, mas não foi salvo. E você será salvo se continuar da maneira que é? Duvido. Lembre-se da esposa de Ló.

Caro leitor, mais uma vez peço-lhe que preste atenção no que está fazendo. Se você se acomodar e não seguir em frente, como poderia não ficar em dúvida quanto à sua alma?

Porém, há aqueles sobre os quais permaneço na dúvida. Aqueles que estão até mesmo em situação pior do que a dos “quase cristãos”. Esses são aqueles que um dia fizeram uma pública profissão de fé, mas que hoje desistiram. Um dia foram reconhecidos como crentes verdadeiros, mas se voltaram para o mundo e caíram. Eles retrocederam e não mais se encontram onde haviam conseguido chegar. Não andam mais nos caminhos que pareciam ter escolhido. Em resumo, são apóstatas.

Leitor, é esse o estado de sua alma? Se a resposta é sim, saiba que é certo que sua situação não é satisfatória. Não importa quais foram as experiências que um dia você teve? Não importa que um dia você tenha sido contado entre os cristãos verdadeiros? Talvez tenha sido tudo um engano e uma ilusão. É para a situação atual da sua alma que eu olho agora e, enquanto faço isso, permaneço em dúvida.

Eu acredito que houve um tempo em que todos os santos de Deus alegravam-se ao vê-lo. Naquela época você parecia amar ao Senhor Jesus com sinceridade e desejar abandonar aquela estrada larga para sempre por amor a Deus. A Palavra de Deus parecia-lhe doce e preciosa, a voz dos ministros de Cristo soava agradável e na reunião do povo de Deus era onde você amava estar. Você nunca faltava aos encontros semanais. Seu lugar nunca estava vazio na igreja. Sua Bíblia nunca estava longe de suas mãos. Não havia dias em sua vida sem uma oração. Seu zelo era, de fato, fervoroso. Suas afeições espirituais eram verdadeiramente calorosas. Você foi bem por um tempo. Mas onde você se encontra agora?

Você voltou ao mundo. Você levou um tempo, olhou para trás e voltou. Temo que tenha deixado seu coração para trás. Você voltou aos atos e obras do velho homem. Você abandonou seu primeiro amor. Sua bondade era como as nuvens da manhã e, com o orvalho, dissipou-se. Suas convicções estão morrendo, enfraquecendo-se a cada dia. Elas estão murchando e mudando de cor como as folhas no outono, que logo caem e desaparecem. Os cabelos brancos, que revelam o tempo, estão chegando aos poucos à sua cabeça. A pregação, a qual você amava, hoje o cansa. Os livros que lhe davam prazer, hoje não mais o alegram. O progresso do Evangelho de Cristo não mais o interessa. A companhia dos filhos de Deus não é mais procurada. Eles ou você devem mudar. Você está ficando com vergonha do povo santo, está ficando impaciente com a repreensão e o aconselhamento, inseguro em seu temperamento, despreocupado acerca de seus pequenos pecados, sem medo de se misturar ao mundo. Um dia não foi assim – talvez você mantenha alguma religião, mas você está esfriando. Você já está morno e aos poucos ficará frio, e não demorará para que se torne congelado: religiosamente congelado e mais morto do que estava antes. Você está entristecendo o Espírito e logo Ele o deixará. Você está tentando o diabo e logo ele virá até você. Seu coração está pronto para ele e seu estado final será pior do que o inicial. Ah, leitor, endireite o que permanece e que está prestes a morrer. Como posso evitar a dúvida quanto a sua alma?

No entanto, não posso deixá-lo partir sem tentar ajudá-lo. Eu realmente sinto por você por estar tão infeliz. Eu tenho certeza. É inútil negar que isso seja verdade. Você tem estado infeliz desde que se afastou. Está infeliz em casa e infeliz fora dela. Infeliz quando com alguma companhia e também infeliz quando sozinho. Infeliz quando se deita e quando se levanta. Talvez você possa ter conquistado riquezas, honra, amor, obediência e amigos. Ainda assim, a angústia permanece. Existe uma estiagem de consolação em você, há uma carência total de paz interior. Seu coração está doente, você facilmente adoece, facilmente se descontenta com os outros, porque está descontente consigo mesmo. Você está semelhante a um pássaro que voou para longe de seu ninho – nunca sente que está no lugar certo. Você possui muita religião para curtir o mundo e pouquíssima religião para desfrutar a Deus. Você está cansado da vida e, mesmo assim, teme a morte. Verdadeiramente, as palavras de Salomão se aplicam ao seu caso: “Você está farto de seus próprios caminhos”.

Leitor, apesar de todos os seus desvios, há esperança até mesmo para você. Não há nenhuma doença da alma que o glorioso Evangelho não possa curar. Há um remédio até mesmo para o seu caso – humilhante, eu sei – mas um remédio certeiro, e eu sinceramente o incentivo a tomá-lo. Esse remédio é a fonte aberta e disponível a todos os pecados – a misericórdia gratuita de Deus em Jesus Cristo. Vá e lave-se nessa fonte sem demora e Jesus Cristo o tornará completo.

Pegue sua Bíblia rejeitada e veja como Davi caiu e cometeu um pecado imensamente reprovável por um ano inteiro e, mesmo assim, quando se arrependeu e voltou-se para Deus, houve misericórdia para ele. Tome a história do apóstolo Pedro e veja como ele negou a seu Mestre por três vezes e, ainda assim, quando chorou e se humilhou, houve misericórdia para ele. Ouça como são confortantes as palavras que nosso Senhor e Salvador envia a você neste dia: “Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados e eu lhes darei descanso”. “Mas você tem se prostituído com muitos amantes e, agora, quer voltar para mim?” “Embora seus pecados sejam vermelhos como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; embora sejam rubros como púrpura, como a lã se tornarão”. “Voltem, filhos rebeldes. Eu os curarei da sua rebeldia.” Que você possa tomar as palavras de Israel neste dia e responder: “Sim! Nós viremos a ti, pois tu és o Senhor, o nosso Deus.” (Mateus 11.28, Jeremias 3.1, Isaías 1.18, Jeremias 3.22.)

Leitor, oro a Deus que essas palavras não sejam trazidas a você em vão. Mas lembre-se que, até que você abandone a sua rebeldia, eu devo continuar em dúvida quanto a sua alma.

Em terceiro lugar, existem alguns pelos quais a Bíblia afirma que eu devo ter uma boa esperança. Caro leitor, seria você um desses?
Aqueles de quem falo descobriram que são pecadores culpados e têm fugido para Cristo pela fé na salvação. Eles descobriram que o pecado é algo triste e horrível e, sendo assim, odeiam-no e desejam ser libertos de sua presença completamente. Não enxergam nada além de fraqueza e corrupção em si mesmos, mas no Senhor Jesus enxergam as muitas coisas que suas almas exigem: perdão, paz, luz, conforto e força. O sangue de Cristo, a cruz de Cristo, a justiça de Cristo, a intercessão de Cristo: são essas as coisas nas quais suas mentes amam refletir. Suas paixões estão agora postas nas coisas do alto. Preocupam-se apenas em agradar a Deus. Vivendo, seu maior desejo é viver para Deus. Morrendo, seu único desejo é morrerem no Senhor. Após a morte, sua esperança é que eles estejam com o Senhor.

Caro leitor, é esse o estado de sua alma? Você conhece algo da fé e esperança, paixões e experiências que eu acabei de descrever? Você encontra algo em seu coração que responda às questões que acabei de fazer? Se a resposta é sim, agradeço a Deus por isso e parabenizo a você por sua condição. Tenho uma boa esperança quanto à sua alma.

Sei bem que você vive em um mundo cheio de provações. Você ainda está no deserto, você não está em casa. Sei bem que orgulho, descrença e preguiça estão continuamente brigando pelo controle dentro de você. Você tem lutas lá fora e medos aí dentro de você. Não duvido que seu coração seja tão traiçoeiro e falso que você fique frequentemente cansado de si mesmo e diga: “Nunca houve coração como o meu”. Mas, apesar de tudo isso, eu devo ter uma boa esperança quanto à sua alma.

Eu tenho esperança, pois creio que Deus começou uma obra em você que Ele nunca deixará ser destruída. Quem o ensinou a odiar o pecado e amar a Cristo? Quem o fez abandonar o mundo e se deleitar no serviço de Deus? Essas coisas não vêm de seu próprio coração. A natureza não produz tal fruto. Essas coisas são a obra de Deus que, onde Ele começa, sempre termina; que, onde Ele concede a graça, também dará glória. Certamente, trata-se de um cenário para a esperança.

Eu tenho esperança, pois creio que você tenha um interesse por uma aliança eterna, uma aliança organizada em tudo e certa. O selo do paraíso está em você. As marcas do Senhor Jesus estão em sua alma. Pai, Filho e Espírito Santo, todos se engajaram e se comprometeram a lhe entregar a salvação de sua alma. Há um cordão de três dobras em sua volta que nunca foi rompido. Esse é um cenário para a esperança, com certeza.

Eu tenho esperança, pois tenho um Salvador, cujo sangue pode limpar todo pecado – um Salvador que convida a todos e não lança ninguém que vem até Ele fora, um Salvador que não quebrará o caniço rachado, nem apagará o pavio fumegante, um Salvador que pode se comover e sentir nossas enfermidades e não se envergonha de chamá-lo de irmão, um Salvador imutável: o mesmo ontem, hoje e sempre, sempre capaz de salvar e sempre poderoso para salvar. Certamente, esse é um cenário de esperança.

Eu tenho esperança, pois o amor de Cristo é um amor que excede todo entendimento. Tão livre, gratuito e imerecido! Tão caro, custando a própria morte! Tão poderoso e capaz de conquistar o que for! Tão imutável e duradouro! Tão paciente e longânimo! Tão amável e cheio de compaixão! Verdadeiramente, nossos pecados superam o conhecimento e isso é o amor de que nossas almas precisam. Certamente esse é um cenário de esperança.

Eu tenho esperança, porque Deus deu a você inúmeras e maravilhosas promessas – promessas que serão mantidas até o fim; promessas de graça para cada momento de necessidade, e força de acordo com o seu dia. Promessas que jamais foram quebradas, todas garantidas em Cristo Jesus. Certamente, esse é um cenário de esperança.

Ah, leitor, se você crê, todas essas coisas são uma grande segurança. Se Deus é por nós, quem estará contra nós? Não há condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus. Nada jamais os separará do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Agora, preste atenção e deixe-me dizer o que eu desejo que você e todo verdadeiro Cristão busquem. Desejo que vocês busquem mais esperança. Não quero que você fique satisfeito com aquela pequena confiança que forma muitos dos filhos de Deus. Desejo que você busque a convicção plena de esperança, aquela esperança viva que nunca deixa um homem envergonhado.

Eu falo isso como um amigo que também viaja pelo caminho estreito. Falo como alguém que deseja que sua própria esperança cresça e aumente a cada ano que vive, e deseja que a esperança de todos os seus irmãos na fé também possa crescer. Eu sei que escrevo tudo isso para trazer-lhe paz. Por todo o seu desejo de conforto para os momentos que estão por vir, eu imploro que procure a convicção plena de esperança.

Caro leitor, se você é, de fato, alguém que crê, você sabe bem que todos nós precisamos de exortações e conselhos mútuos. Você e eu, em nossa melhor forma, somos apenas crianças no culto a Deus. Nossas almas estão sempre prontas para voltarem ao pó. Podemos melhorar e progredir todos os dias. Ouça, então, algumas coisas que nunca devemos esquecer se desejamos um pouco mais de esperança; algo que nunca perderemos se soubermos como mantê-la quando a encontrarmos.

Se desejamos crescer em graça e ter mais esperança, devemos buscar mais conhecimento a respeito de nosso Senhor Jesus Cristo. Como sabemos pouco sobre Ele! Nosso amor frio por Ele testemunha contra nós mesmos. Nossos olhos não podem estar abertos para quem Ele é e para o que Ele faz por nós, ou então deveríamos amá-lo mais. Há alguns cristãos cujas mentes parecem estar sempre correndo para a doutrina da santificação e se esquecendo de todo o resto. Eles são capazes de defender calorosamente cada pequena prática e, ainda assim, estão frios no que diz respeito a Cristo. Eles vivem de acordo com as regras, vivem de maneira ética, fazem muitas coisas e pensam que, em pouco tempo, estarão muito mais fortes. No entanto, por todo esse tempo, eles perdem de vista a grande verdade: a de que nada santifica mais do que o conhecimento e a companhia do Senhor Jesus.

Ele diz: “Permaneçam em mim e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim”. Cristo deve ser a fonte de nossa santidade, assim como a rocha da nossa fé. Cristo deve ser tudo em todos. Eu tenho certeza de que Ele é precioso para você que acredita. Ele deve ser precioso por Seu ministério e precioso por Sua obra. Ele deve ser precioso por tudo o que já fez: Ele nos chamou e estimulou, lavou-nos e nos justificou. Deve ser precioso pelo que Ele está fazendo agora mesmo: dando-nos força, intercedendo por nós, compadecendo-se de nós. Ele deve ser precioso pelo que ainda fará: Ele irá nos manter salvos até o fim, levantar-nos e nos reunir na Sua vinda, apresentando-nos inculpáveis diante do trono de Deus e irá nos dar descanso com Ele em Seu reino. Mas, leitor, Cristo deve ser ainda mais precioso para nós do que Ele já tem sido. Eu quero dizer, ainda que fossem as últimas palavras da minha vida, que acredito que nada além do conhecimento de Cristo poderia alimentar a alma de alguém. Toda a nossa escuridão surge por não nos mantermos próximos a Ele. Os moldes da religião são úteis para nos auxiliar e os mandamentos são importantes para nos fortalecer. Entretanto, a doutrina a que devemos nos apegar deve ser a de Cristo crucificado em favor dos pecadores, Cristo visto por meio da fé, Cristo presente no coração, Cristo como o pão da vida e Cristo como a água da vida. Nada além disso jamais irá salvar, satisfazer ou santificar uma alma pecadora. Todos nós precisamos conhecer mais a Cristo. Se iremos crescer em graça e esperança, comecemos por aqui.

Se desejamos crescer em graça e ter mais esperança, devemos buscar conhecer melhor nosso próprio coração. Pensamos que o conhecemos bem, mas não conhecemos. Metade dos pecados que estão nele ficam escondidos de nossos olhos. Não temos a menor ideia de como ele pode nos enganar se tentado ou quais abismos criados por Satanás podem fazer muitos de nós cairmos. Porém, todos nós sabemos, por uma experiência amarga que, por confiarmos em nosso coração, já cometemos muitos erros. Às vezes cometemos tantos erros que perdemos a esperança e chegamos a pensar que não conseguimos nenhuma graça. Se desejamos ser cristãos felizes, paremos de confiar tanto em nosso coração. Aprendamos a não esperar nada dele além de fraqueza e debilidade. Paremos de enxergar molduras e sentimentos nele para nosso conforto. A esperança que for construída baseada em algo dentro de nós será sempre vacilante e instável.

Se desejamos crescer na graça e ter mais esperança, devemos procurar mais santidade e diálogos em nossa vida. Esta é uma lição humilhante de se meditar, mas na qual não devemos pensar por muito tempo. Há uma ligação inseparável entre andar próximo de Deus e encontrar conforto em nossa religião. Nunca esqueça isso! Verdadeiramente, muitos vasos na casa de Deus são fracos, entediantes e sujos. Quando olho em volta, vejo muitas coisas faltando em nosso meio e que Jesus ama. Sinto falta da mansidão e da gentileza do nosso Mestre: muitos de nós somos duros, grosseiros e críticos, e nos afirmamos com orgulho que somos fieis. Sinto falta da verdadeira coragem de confessar a Cristo diante dos homens: muitas vezes pensamos bem mais na hora de ficarmos em silêncio do que na hora de falarmos. Sinto falta da verdadeira humildade: poucos de nós gostamos de ficar com a posição mais inferior ou pensamos mais dos outros do que de nós mesmos ou ainda consideramos nossa própria força nossa maior fraqueza. Eu sinto falta da verdadeira caridade: não muitos de nós temos aquele sentimento altruísta e que não buscam sua própria vontade e felicidade. Sinto falta do verdadeiro espírito de gratidão: nós reclamamos e murmuramos, nós nos inquietamos e nos incomodamos repetidamente com aquilo que não temos e esquecemos aquilo que já possuímos. Raramente estamos contentes. Geralmente há um Mardoqueu em nosso portão. Sinto falta de uma firme separação do mundo: muitas vezes a divisão é confusa. Muitos de nós, como camaleão, fica sempre tomando a cor de nossa empresa; vamos ficando tão semelhantes ao incrédulo que fica difícil de perceber a diferença. Leitor, não é para ser assim. Se queremos mais esperança, devemos ser mais zelosos com as boas obras.

Se desejamos crescer em graça e ter uma esperança mais viva, devemos buscar mais vigilância nos momentos de prosperidade. Não conheço nenhum momento em que a vida e a alma de um crente estejam tão em perigo quanto nos momentos em que tudo está dando certo para ele. Não conheço nenhum momento em que seja tão provável que o crente tenha alguma doença espiritual e deposite todo o fundamento que adquiriu nos dias sombrios e de dúvida em si mesmo. Você e eu gostamos que o curso da nossa vida seja suave e é natural que homens e mulheres de carne e osso pensem dessa maneira. Mas você e eu sabemos muito bem como esse curso suave é perigoso para nossa religião. As sementes das doenças geralmente são plantadas na saúde. É nas férias que as lições são esquecidas. São as coisas doces – e não as amargas – que fazem mal às crianças. São as gentilezas do mundo que machucam os crentes muito mais do que as negações do mundo. Davi não adulterou enquanto fugia da presença de Saul: foi quando Saul estava morto e Davi se tornou rei e quando havia paz em Israel. Cristão, em “O Peregrino”, não perdeu seu diploma selado enquanto lutava com seu inimigo. Foi quando Cristão dormia sob uma árvore agradável e não havia nenhum inimigo por perto. Ah, se nós desejamos uma esperança viva, sejamos vigilantes nos dias de prosperidade e sejamos sóbrios.

Se desejamos crescer em graça e ter uma esperança mais viva, devemos buscar mais fé e contentamento em tempos de provação. A provação muitas vezes faz com que um homem reto e justo fale sem pensar e faça e diga coisas que se levantam como névoa entre sua alma e Cristo. A provação é um fogo que geralmente traz consigo muito entulho para a superfície do coração de um crente e que o faz dizer: “Deus se esqueceu de mim e não há esperança para minha alma. Fui lançado para longe da vista de Deus. Eu estou certo em reclamar”. A provação é a mão de um Pai nos disciplinando para nosso crescimento, mesmo que demoremos a percebê-la dessa forma. A vara vem geralmente como resposta de uma oração por santificação: é uma das formas com que Deus mantém seu trabalho de santificação que nós professamos desejar. Jacó, José, Moisés e Davi: todos passaram por isso. Abençoados são aqueles que suportam pacientemente os cuidados do Senhor – que aguentam a cruz silenciosamente e dizem “está bem”. Aflições que são bem suportadas são promoções espirituais. A paciência que persiste em tempos de aflição, cedo ou tarde, irá produzir uma colheita preciosa de esperança interior.

Se desejamos crescer em graça, e ter uma esperança viva, devemos buscar estar prontos para a segunda vinda de Cristo. Não conheço nenhuma doutrina mais santificadora e estimulante do que a doutrina da segunda vinda de Cristo. Não conheço nenhuma doutrina mais planejada para nos tirar do mundo e nos tornar um cristão cheio de alegria com uma só visão e um só coração. Mas como são poucos os cristãos que vivem como quem espera a volta de seu Mestre! Se alguém observasse os caminhos de muitos crentes será que pensaria que eles, de fato, amam e esperam a aparição de seu Senhor? Não é verdade que há muitos corações dentre os filhos de Deus que não estão muito prontos para receber Jesus? Esses encontrariam as janelas baixadas, as portas fechadas e fogo inconsumível. Seria uma recepção fria e desagradável. Leitor que crê, não é para ser assim. Nós desejamos mais do que um espírito de peregrinos: devemos estar sempre buscando nossa casa e nos apressando em direção a ela. O dia da vinda do Senhor é o dia do descanso, o dia da redenção completa, o dia em que a família de Deus estará, finalmente, toda reunida. É o dia em que não mais teremos que andar pela fé, mas pela visão: veremos a terra que está distante. Nós iremos contemplar o Rei em Sua beleza. Com certeza devemos dizer diariamente: “Venha, Senhor Jesus, deixe Seu reino vir”. Que vejamos a vinda de Cristo continuamente diante de nossos olhos. Que nós possamos dizer a nós mesmos a cada manhã: “O Senhor em breve voltará” e isso fará bem a nossas almas.

Por fim, se desejamos crescer em graça e termos mais esperança, devemos buscar mais diligência com as obras da graça. É inútil supor que nossa esperança não seja dependente das dores que levamos ao cumprir os mandamentos de Deus. Ela é dependente. E muito. Deus sabiamente tem ordenado isso para que os cristãos preguiçosos raramente gozem de qualquer certeza de sua própria salvação. Ele nos diz que devemos trabalhar e nos empenhar para que asseguremos nosso chamado e eleição. Que os crentes se lembrem disso e guardem essa necessidade no coração. Suspeito que muitos dos que fazem parte do reino de Deus são bem preguiçosos em sua forma de fazer as obras. Conhecem pouco do espírito de Davi quando este disse: “Minha alma anela e até desfalece pelos átrios do Senhor”. Eu tenho minhas dúvidas de que haja muita oração particular antes e após os sermões. E, ainda assim, ouvir apenas não é tudo: quando tudo já foi dito no púlpito, apenas metade do trabalho está feito. Eu tenho minhas dúvidas de que a Bíblia seja lida tanto quanto deveria ser. Nada em minha curta experiência me surpreende tanto quanto a ignorância que prevalece entre os crentes acerca das Escrituras. Eu tenho minhas dúvidas se as pessoas levam a oração pessoal a sério como deveriam levar. Frequentemente achamos natural nos levantarmos sem realmente termos visto ou ouvido qualquer coisa de Deus ou de seu Filho. E tudo isso está errado: é a alma diligente que, de fato, goza de uma esperança viva.

Leitor, mantenhamos o que acabei de mencionar em nossos corações. Resolvamos, com a ajuda de Deus, deixar tudo isso diante de nós continuamente. Oremos por isso, lutemos por isso e nos empenhemos por alcançá-lo.

É assim que se é um Cristão útil. O mundo conhece muito pouco sobre Cristo além do que vê dEle através de Seu povo. Como essas cartas devem ser simples e claras! Um crente esperançoso e que cresce é um sermão vivo. Ele prega muito mais do que eu, pois ele prega por toda a semana, envergonhando os que ainda não são convertidos, afiando os convertidos, mostrando a todos o que a graça é capaz de fazer. Esse é alguém que realmente faz o bem através de sua própria vida e que, após sua morte, deixa um bom testemunho. Como é grande o valor e o poder de um cristão que cresce. Que Deus nos transforme em cristãos assim

É assim que se é um cristão feliz. A felicidade é um presente de Deus, mas que nenhum homem duvide que haja uma relação muito próxima entre seguir a Deus de perto e a alegria completa. Um crente esperançoso e que está crescendo testemunha isso em si mesmo. Ele caminha sob a luz do sol e geralmente se sente iluminado e aquecido. Ele não sacia seu espírito com inconsistências contínuas e, assim, o fogo dentro dele raramente vai se consumindo. Ele conta com muita paz pois ama a lei de Deus de verdade, e todos que o veem são obrigados a reconhecer que é um privilégio e não uma escravidão ser um cristão. O conforto de uma consciência tranquila, um cuidado de Deus e uma caminhada de perto com o Pai. O Senhor faz com que todos nós tenhamos tal ânimo.

E agora, leitores de cada ala com quem falei, eu oro a Deus para que abençoe estas páginas em suas almas. Seja você um daqueles por quem eu temo, seja você um daqueles de quem estou na dúvida, ou um daqueles que eu olho com esperança, o desejo de meu coração e a minha oração é a de que você possa se tornar um homem ou mulher melhor e mais sábio.

Vivemos em tempos estranhos. O mundo parece estar ficando velho e agitado. As sombras estão surgindo. A noite parece estar vindo. A noite em breve estará diante de nós, quando nenhum homem pode trabalhar. Que cada leitor desse texto se volte a si mesmo e se pergunte: onde eu estou? O que eu sou? Para onde estou indo? Qual será o fim desse meu curso atual? Qual é a esperança da minha alma?

Leitor, mais uma vez peço que você não ignore minha pergunta. Pense nela e a considere: ore sobre ela. Que ela possa se apegar ao seu coração e nunca mais o deixar. Que ela possa ser para sua alma algo como a vida dentre os mortos. O tempo está rapidamente indo embora. A vida é uma vasta incerteza. A morte está se aproximando cada vez mais. O julgamento com certeza está por vir. Leitor, onde está você? Onde está você diante de Deus?

Eu permaneço seu Amigo carinhoso,

John Charles Ryle

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Cristo – tudo e em todos

Cristo-tudo-em-todos

Cl 1:18 = “Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia”.

Cl 3:11 = “no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos”.

Muito tem sido feito nos últimos dias para trazer as grandes magnitudes do universo à compreensão do homem e mulher comuns. Isto significa que muitas pessoas estão interessadas na explicação do universo e, sem dúvida alguma, do curso desta Terra e da criação e história do homem; mas cremos ter a resposta final e positiva para esta investigação. Para nós há somente uma definida e conclusiva explicação do universo, e esta explicação é uma Pessoa – o Senhor Jesus Cristo, com tudo que é eternamente relacionado a Ele. Não importa quanto leiamos e estudemos, nunca teremos a explicação do universo, no todo ou em parte, até que venhamos a enxergar o lugar do Senhor Jesus no eterno propósito de Deus. As simples contudo abrangentes palavras “Cristo é tudo em todos” resumem toda a matéria desde a eternidade, através de todos os estágios de tempo, até a eternidade.

Primeiramente, então, vemos que “Cristo é tudo em todos” significa:

1. A explicação da própria criação

Esta carta aos colossenses faz esta mesma declaração em outras palavras. Ela nos diz que “pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste” (1:16-17). Esta é uma declaração abrangente, e claramente mostra que Cristo sendo tudo em todos é a explicação de toda a criação. Por que foram todas as coisas criadas? Por que Deus por meio dele trouxe o universo à existência? Por que este grande sistema universal existe e se mantém? Qual é a explicação do mundo? A resposta é para que Cristo possa ser tudo e em todos.

A intenção no coração de Deus ao ter trazido este universo à existência era que, ao final, toda a criação pudesse apresentar a glória e a supremacia de Seu Filho, Jesus Cristo. E este específico pequeno fragmento “e nele tudo subsiste” diz muito claramente que, se não fosse o Senhor Jesus Cristo, o universo inteiro se desintegraria, desmembrar-se-ia; ele estaria sem seu fator unificador; ele cessaria de ter uma razão para ser mantido como uma completa e concreta unidade. Seu subsistir, sua falha em se desintegrar e acabar é por causa disto: Deus tem determinado que o Senhor Jesus será o centro – o centro governante – deste universo inteiro, e Ele, o Filho de Deus, é a explicação da criação. Se não fosse por Ele, nunca teria havido uma criação. Tire-o fora e a criação perde seu propósito e seu objeto, e não precisa mais ir adiante. “Cristo é tudo, e em todos” era o pensamento – o pensamento dominante – na mente de Deus durante a criação do universo.

Isto pode deixá-los indiferentes em certa medida e não levá-los muito longe, mas eu arrisco pensar que o que irei dizer irá levá-los um pouco mais adiante e aquecerá seus corações. Pois a perspectiva é esta, que quando Deus tiver as coisas como na eternidade passada determinou tê-las – e Ele irá tê-las assim – cada átomo deste universo inteiro irá mostrar a glória de Jesus Cristo. Vocês não serão capazes de olhar para algo ou alguém sem ver Cristo glorificado. Uma abençoada perspectiva!

É algo feliz quando, como um grupo de filhos do Senhor, nós podemos estar juntos por horas a fio ou mesmo dias a fio; quando nós estamos ocupados com o Senhor como nosso único interesse comum e todos estão enlevados nele. Quando temos um tempo como este e voltamos ao mundo, que atmosfera diferente encontramos! Como nos sentimos frios! É algo agradável encontrar o Senhor em seus filhos e estar enclausurado com Ele desta forma; contudo mesmo isto é apenas em parte. Todavia o eterno dia está chegando quando não haverá o voltar para o mundo em uma manhã de segunda-feira depois de um dia nos átrios do Senhor; quando estaremos tocando ninguém mais além do Senhor, e o universo inteiro estará cheio dele – “Cristo, tudo em todos”! Este é o alvo de Deus. Isto é o que Ele tem determinado; tudo mostrando o Senhor Jesus; tudo para Ele.

Agora vemos uns nos outros muitas outras coisas que não o Senhor Jesus; o dia está chegando quando vocês nada verão exceto o Senhor Jesus em mim, e eu nada verei exceto o Senhor Jesus em vocês; nós seremos “conformados à imagem do Seu Filho”: Sua glória moral brilhará e será mostrada; Cristo será “tudo em todos”. Deus o determinou, e o que Deus determinou, Ele terá. Esta, então, é a explicação da criação, que Cristo seja tudo, e em todos, e sobre tudo tenha a preeminência.

Em Romanos, o apóstolo Paulo tem uma declaração muito notável dentro deste contexto: “A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (8:19-22).

Notem o que isto realmente diz e implica. A criação está imbuída por uma expectativa ardente. Esta expectativa é com gemidos tais como em árduo trabalho, uma expectativa de esperança – não da dissolução do universo, sobre o quê certos cientistas tanto falam. Contudo, a esperança e os gemidos até o momento estão deliberadamente colocados sob um reinado de vaidade – feitos para ser tudo em vão – até um tempo e alvo fixados. Este clímax é em duas partes: uma, a revelação dos filhos de Deus; a outra – ligada com aquela – o livramento da criação de estar sujeita à corrupção.

Tudo isto é levado de volta à eternidade passada e unido com o Senhor Jesus como Filho: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (8:29).

Na passagem anterior há uma declaração definida e uma clara implicação. A declaração é que a criação estava sujeita à vaidade, e seu estado é o cativeiro da corrupção. Claramente, a implicação é que houve um tempo definido quando, por causa de sua corrupção, a criação inteira foi levada a uma condição na qual é forçada a gemer e se esforçar em direção a um alvo que não pode ser alcançado. É em conexão com isto que surge espaço para toda a gama e a natureza da interferência satânica na criação, a qual objetiva a desafiar o propósito divino final na criação e a frustrá-lo ao trazer corrupção. Tão universal foi esta corrupção que uma sentença de vaidade foi pronunciada sobre “toda a criação”. O efeito disto foi, e é, que a criação nunca pode atingir o objetivo de sua existência, salvo no campo da santidade e semelhança divina.

Aqui também se encaixa toda a gama da “redenção que está em Cristo Jesus”; a obra universal que Ele consumou por meio de Sua cruz destruindo a obra do diabo e, potencialmente, o próprio diabo; com todo o poder destruidor do pecado e destruidor da corrupção advindos de Sua natureza e vida sem pecado, a eficácia de Seu incorruptível sangue, e a provisão de justificação e santificação para todos os que crêem, estes por regeneração se tornando uma nova criatura em Cristo Jesus (2Co 5:17).

Apenas por este meio a criação pode ser liberta. Quando estes filhos de Deus forem manifestos – seu número completo – e todos que têm recusado esta salvação forem rejeitados do domínio de Deus, então a criação será liberta e sua intenção original será atingida, Cristo sendo tudo, e em todos.

2. A explicação do homem

Depois, em seguida, como uma parte central da criação, temos o homem. Qual é a explicação do homem? Qual é a explicação de Adão como o primeiro homem? Há uma pequena passagem da Escritura que responde a isto: “… Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir” (Rm 5:14), que é Cristo. Uma figura daquele que havia de vir; esta é a explicação do homem. Deus planejou que cada homem ingresso neste mundo seja conformado à imagem de Seu Filho, Jesus Cristo. Multidões perderão isto, mas haverá multidões tais que nenhum homem poderá enumerar, de cada tribo, raça, nação e língua, que alcançarão isto. Que alto chamado! Que concepção diferente do homem esta é daquela que é popularmente aceita, e que tremenda coisa a ser perdida! E ainda assim, há muitos que dizem reclamando que se tivessem podido escolher, nunca teriam vindo a este mundo. Tem havido aqueles que, numa hora de eclipse, maldizem o dia em que viram a luz. Ah! Mas algo deu errado aí; isto não é como o Senhor planejou que fosse. E não importa quantos dias depressivos tenhamos: quando nos perguntarmos depois de tudo se realmente vale a pena, retornemos em nosso íntimo ao pensamento de Deus. É nosso tremendo privilégio, a mais alta honra que podia ser conferida a nós do ponto de vista divino, que tenhamos nascido.

Nem sempre nos sentimos ou falamos deste jeito, mas constantemente somos compelidos a nos voltarmos ao ponto de vista de Deus sobre isto e a nos lembrarmos que Seu propósito é o de ter um universo povoado com tais que sejam conformados à imagem de Seu Filho, Jesus Cristo, um povo que é uma manifestação universal do Cristo glorificado com a glória do Pai. Este é um privilégio, uma honra, algo para o qual vale a pena ter nascido! Esta é a explicação do homem.

Podemos apenas tocar levemente muitos destes assuntos, e caminhar adiante.

3. A explicação da redenção

Além disso, esta palavra “Cristo é tudo em todos” é a explicação da redenção. As coisas, é claro, deram errado: o propósito de Deus sofreu interferência. Ele não poderia nunca ser frustrado completamente, mas houve outro que determinou, tanto quanto estivesse em seu poder, que aquela apresentação universal de Jesus Cristo – o “ser-tudo-em-todos” do Senhor Jesus – nunca acontecesse. Houve alguém que desejou ter aquilo para si mesmo – que ele pudesse ser o senhor universal da terra e céu. Esta interferência tem feito uma grande diferença por certo tempo. Ela tem interferido com o homem e o transformado em outro, aquém do que Deus pretendia que ele fosse. Ela tem arruinado a imagem.

No entanto, há redenção através da cruz do Senhor Jesus. Qual é a explicação da cruz? Por um lado, qual é a explicação de toda aquela expiação, aquela obra redentiva do Senhor Jesus ao tratar com o pecado, em tomar o pecado universal sobre Si, e ser feito uma maldição por nós, em nosso lugar?

E ainda, por outro lado, como complemento disto, qual é a explicação daquela cruz sendo operada no crente de forma que o crente se torne unido com Ele na semelhança de Sua morte e enterro como uma experiência espiritual? – toda aquela aplicação do Calvário que é tão dolorosa, tão terrível de passar através: sim, a desintegração do “velho homem”, o cortar fora do “corpo da carne”, aquele conhecimento interior do poder da cruz, tão terrível à carne. Qual é a explicação? Amados, é que Cristo seja tudo, e em todos.

Por que somos quebrados? Para dar lugar ao Senhor Jesus. Por que somos trazidos ao pó pelo Espírito Santo quando Ele opera a morte do Calvário sobre nós? De forma que o Senhor Jesus possa tomar o lugar que nós na carne temos ocupado. Algumas vezes entendemos errado esta aplicação da cruz. O inimigo está sempre em nosso ombro, insinuando e sugerindo a inclemência de Deus em nos esmagar, nos humilhar, nos reduzir a nada, e dizendo que não há fim nisto, tentando assim nos derrubar.

Amados, a cruz foi pretendida somente para fazer o Senhor Jesus tudo em todos, para nós. Devido ao modo como o Senhor tem tratado conosco, o modo pelo qual Ele tem aplicado a cruz, nos plantando naquela morte e enterro, não é verdade que nós O conhecemos de um modo que nunca O conhecêramos antes? Não é por este modo que Ele tem se tornado o que é para nós, cada vez mais e mais amado dos nossos corações? O aumento do Senhor Jesus em nós e para nós é pelo caminho da cruz. Sabemos muito bem que o nosso principal inimigo é o nosso eu, a nossa carne. Esta carne não nos dá descanso, nem paz, nem satisfação; não temos alegria nela. Ela é obsessiva, nos absorve, constantemente se pavoneia atravessando nosso caminho para nos roubar a verdadeira alegria de viver. O que deve ser feito com ela?

Bem, na cruz e pela cruz somos libertos de nós mesmos; não apenas de nossos pecados, mas de nós

mesmos; e sendo libertos de nós mesmos somos libertos para Cristo, e Cristo se torna muito mais que nós.

É um processo doloroso, mas gera um fim abençoado; e aqueles dentre nós que tenham tido a maior agonia ao longo deste caminho testificariam, eu creio, que o que isto nos trouxe do conhecimento e das riquezas do Senhor Jesus faz todo o sofrimento valer a pena. Assim é a obra do Senhor por nós! E a obra do Senhor em nós, pela cruz, somente é pretendida no pensamento divino para abrir espaço para o Senhor Jesus.

O altar de bronze do tabernáculo, assim como o do templo, era um altar bem grande. Era possível pôr toda a mobília restante do tabernáculo inteiro dentro dele. Sim, o altar tem que ser bem grande; deve haver um grande espaço para Cristo Crucificado. Ele irá preencher todas as coisas e Ele será a plenitude de tudo, e não haverá lugar para nós no final de tudo. Isto o deixa atônito? Certamente não. Assim a cruz, a obra de redenção através daquela cruz, tem como sua explicação simplesmente isto, que Cristo seja tudo, e em todos; que em todas as coisas Ele possa ter a preeminência.

Isto, pois, é a explicação de nossas experiências – o porquê do Senhor tratar conosco como Ele trata; o porquê dos crentes passarem através das experiências que atravessam; o porquê eles passam por coisas que ninguém mais parece chamado a atravessar; o porquê de algumas vezes eles quase invejarem os incrédulos pela vida fácil que tantos deles têm. Isto explica os tratamentos do Senhor com Israel no deserto. Mesmo após sua libertação do cativeiro e tirania do Egito, houve quebrantamento de corações e agonia. Por que esta disciplina? No deserto, eles ainda pensavam no Egito. A obra que o Senhor estava fazendo neles era de forma que Ele pudesse ser tudo neles e para eles. Se Ele cortava seus recursos naturais, era apenas para mostrar quais eram seus recursos celestiais. Se Ele cortava seu poder natural, era para que eles pudessem vir a conhecer o poder dos céus. O que quer que seja que Ele pudesse tirar deles ou os conduzir a, era com vista a tirá-los de si mesmos e com vista a que Ele mesmo pudesse ser tudo em todos.

Esta é a explicação de nossas dificuldades. O Senhor conhece como melhor tratar com cada um de nós, e Ele não usa métodos padronizados. Ele trata com você de um modo e comigo de outro. Ele sabe como nos conduzir a experiências que são bem calculadas para nos trazer à posição aonde o Senhor é tudo e em todos.

4. A explicação do crescimento cristão

O que é crescimento espiritual? O que é maturidade espiritual? O que é caminhar no Senhor? Temo que tenhamos idéias embaralhadas sobre isto. Muitos pensam que maturidade espiritual é um conhecimento mais abrangente da doutrina cristã, uma compreensão mais larga da verdade das Escrituras, uma ampla expansão do conhecimento das coisas de Deus; e muitas destas características são registradas como marcas de crescimento, desenvolvimento, maturidade espiritual. Amados, não é nada disso. A marca distintiva do verdadeiro desenvolvimento e maturidade espiritual é esta: que nóstenhamos crescido bem pouco e que o Senhor Jesus tenha crescido muito mais. A alma madura é aquela que é pequena a seus próprios olhos, mas em cujos olhos o Senhor Jesus é grande. Isto é crescimento. Nós podemos saber muitas coisas, podemos ter uma maravilhosa compreensão da doutrina, do ensino, da verdade, até mesmo das Escrituras, e ainda ser espiritualmente muito pequenos, muito imaturos, muito infantis. (Há muita diferença entre ser infantil e ser semelhante a uma criança). O crescimento espiritual real é somente isto: eu diminuo, Ele cresce. É o Senhor Jesus se tornando mais. Vocês podem testar o crescimento espiritual através disto.

Então, de novo, esta palavra é

5. A explicação de todo o serviço

O que é o serviço cristão de acordo com a mente de Deus? Não é necessariamente termos uma programação cheia de atividades cristãs. Também não é que estejamos sempre ocupados naquilo que denominamos “coisas do Senhor”. Não é a medida e a quantidade de nossa atividade e trabalho, nem o grau de nossa energia e entusiasmo nas coisas do reino de Deus. Não são nossos esquemas, nossos projetos para o Senhor. Amados, o teste de todo serviço é seu motivo. Será que o motivo é, do começo ao fim, que em todas as coisas Ele possa ter a preeminência, que Cristo possa ser tudo em todos?

Vocês conhecem as tentações e a fascinação do serviço cristão; a fascinação de estar engajado, de estar ocupado com muitas coisas; ter sua programação, esquemas, projetos; estar envolvido nestas coisas e sempre presente a elas. Há um perigo aí que tem apanhado multidões dentre os servos do Senhor. O perigo é que isto os leva à projeção, torna a obra deles; é a obra deles, interesses deles, e quanto mais governam e caminham nisto mais satisfeitos ficam.

Não, há uma diferença entre passar o dia no serviço cristão como mero desfrutar da atividade, com a fascinação disto e todas as vantagens e facilidades que isto provê para nós mesmos, e a gratificação disto à nossa carne – há uma grande diferença entre isto e “Cristo, tudo em todos”. Algumas vezes este último é alcançado ao sermos postos fora de ação. Pois então, este é o teste: se estamos ou não completamente satisfeitos de sermos colocados totalmente fora de ação para que tão somente o Senhor possa ser mais glorificado deste modo. Se tão somente Ele puder vir ao que é seu, não importa nada se somos vistos ou ouvidos. Estamos alcançando um lugar, na graça de Deus, aonde ficamos bem contentes em ser largados num canto, sem ser vistos ou notados, se deste modo o Senhor Jesus puder vir para o que é seu mais rápida e completamente.

De algum modo temos sido pegos nisto e pensamos que o Senhor somente pode vir ao que é Seu se nós formos o instrumento. A rivalidade na plataforma e no púlpito; a sensibilidade porque um é posto antes do outro, porque o sermão de um recebe mais atenção que o do outro; os comentários favoráveis feitos todos em uma só direção, etc! Conheço bem tudo isto. Afinal de contas, o que nós estamos buscando? Estamos buscando impressionar nossa audiência pela nossa habilidade ou fazer conhecido nosso Senhor? É uma grande diferença! Algumas vezes o Senhor ganha mais de nossos maus momentos do que pensamos, e pode ser que quando temos bons momentos Ele não tenha obtido o máximo. É por causa disto que há a necessidade de sermos postos de lado, mantidos fracos e humildes, para que Ele possa ter a preeminência.

O desafio do serviço conforme o pensamento de Deus é somente este – por que o estamos fazendo? Queremos estar na obra porque gostamos de estar ocupados? Ou é absolutamente e somente para que, por qualquer meio, Ele possa vir ao que é Seu, para que o alvo de Deus possa ser concretizado? Se Ele puder ser tudo, e em todos, pela nossa morte assim como pela nossa vida, será que chegamos ao ponto onde realmente desejamos que “Cristo seja glorificado em meu corpo, quer pela vida ou pela morte” (Fp 1:20)? Esta é a explicação do serviço do ponto de vista de Deus.

É claro, isto é a explicação de muitas outras coisas. É também…

6. A explicação de todo o Antigo Testamento

Nós não nos demoraremos examinando em detalhes como é isto, mas apenas o indicaremos e passaremos adiante. O que é o Antigo Testamento? Ele está todo resumido em grandes representações de Jesus Cristo. Veja as duas principais, o tabernáculo e o templo. Estas são representações abrangentes do Senhor Jesus tanto em Sua pessoa como em Sua obra e elas ocupam, desta forma, o lugar central na vida do povo escolhido, cuja vida é unida a elas. As duas são uma. Enquanto o povo eleito se mantém num relacionamento correto com aquele objeto central (o tabernáculo ou o templo), enquanto lhe dá seu lugar de honra e reverência e o mantém em seu lugar da mais alta santidade, enquanto eles são verdadeiros ao seu espírito, suas leis e seu testemunho, e embora sejam entre todos os povos da terra os menos capazes naturalmente de cuidar de seus próprios interesses, ainda assim são o povo supremo da terra: não há uma nação ou povo na terra capaz de permanecer diante deles. Eles nunca foram treinados na arte da guerra, não têm uma longa história de armas e estratégia militar, e são em si mesmos um povo indefeso, ainda assim eles tomam ascendência não apenas sobre nações individuais maiores e mais fortes que eles, mas sobre uma combinação de nações. E embora todos se unam contra eles, enquanto verdadeiros àquele objeto central, eles são supremos. Aquele objeto central é uma representação do Senhor Jesus em Sua pessoa e obra.

A interpretação espiritual disto é que quando o Senhor Jesus tem Seu lugar há supremacia; há absoluta supremacia quando Ele em todas as coisas tem a preeminência em, através e por meio de Seu povo. “Cristo é tudo em todos”. Quando isto é verdade em Seu povo não existem forças capazes de lhes resistir. O segredo da absoluta supremacia e soberania é o Senhor Jesus ter Seu lugar nas vidas e nos corações, em todos os afazeres e relacionamentos do Seu próprio povo; então os portões do inferno não poderão prevalecer.

Além disto, é também…

7. A explicação do Novo Testamento

O Novo Testamento traz diminutos grupos, pequenos entre os povos da terra, desprezados, expulsos, dificilmente permitidos a falar sem serem amargamente molestados, e sobre os quais eventualmente vinha a ira e o ódio organizado das nações deste mundo, culminando em que todos os recursos do grande império de ferro foram explorados e postos em operação para destruir a memória deste humilde e desprezado povo.

A história é exatamente esta, que os impérios quebraram, e os poderes mundiais cessaram de existir. Nós rodamos o mundo agora para olhar as relíquias e ruínas destes grandes impérios; mas onde está aquele povo do Caminho do desprezado Nazareno? Uma grande multidão que nenhum homem pode numerar! O céu está cheio deles, e aqui na terra há dezenas de milhares que conhecem e amam o Senhor Jesus, que são deste Caminho. A explicação é que Deus determinou que Seu Filho seja tudo, e em todas as coisas tenha a preeminência.

Tenha um relacionamento vivo com o Filho de Deus, e homens e inferno podem fazer o que quiserem – Deus irá atingir Seu alvo e tal povo será triunfante.

Uma palavra mais. Isto também é…

8. A explicação da Igreja

O que é a igreja? O pensamento de Deus não é o Cristianismo; não é o de ter igrejas como centros organizados do Cristianismo; não é a propagação do ensino e empreendimento cristãos. O pensamento de Deus é o de ter um povo na terra no qual, e no meio do qual, Cristo é tudo em todos. Esta é a igreja. Temos que revisar nossas idéias. No pensamento de Deus a igreja começa e termina com isto – a absoluta supremacia do Senhor Jesus Cristo. E o que Deus está sempre buscando é juntar aqueles de Seu povo que mais completamente concretizarão este pensamento dele, e serão para Ele a satisfação de Seu próprio desejo eterno: o Senhor Jesus em todas as coisas tendo a preeminência e sendo tudo em todos. Ele ignora a grande instituição, a assim chamada “Igreja”, e está com aqueles que em si mesmos são de um humilde e contrito espírito e que tremem diante de Sua palavra, e nos quais o Senhor Jesus é o único objeto de reverência e adoração. Estes satisfazem o coração de Deus. Estes, para Ele, são a resposta à Sua eterna busca.

Vocês percebem que a Palavra de Deus diz isto. Vejam novamente Cl 3:11: “no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos”. Eles têm se revestido “do novo homem, que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou”. Observem atentamente estas palavras e vocês entenderão que este é o homem corporativo, a Igreja, o Corpo de Cristo, “a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1:23). E ali, naquele homem corporativo, não pode haver grego ou judeu. Note as palavras. Não diz que gregos e judeus se unem em uma abençoada comunhão. Não, não há nacionalidades na igreja; temos nos livrado de todas as nacionalidades, e agora temos um novo homem espiritual, uma nova criação, onde não pode haver grego, judeu, escravo, livre. Todas as distinções terrenas se foram para sempre – é um novo homem. O braço direito não é um judeu e o braço esquerdo um grego!

Não, isto passou. Nesta Igreja há apenas um novo homem – não uma combinação onde anglicanos, metodistas, batistas, congregacionais e todo o resto se juntam e esquecem suas diferenças por um tempo; isto não é a Igreja. Na Igreja estas diferenças não são meramente cobertas por um tempo – elas não existem. Há um Corpo, um Espírito. A Igreja é isto, “Cristo é tudo em todos”. Tenha isto e tem-se a Igreja. Chamar qualquer outra coisa de Igreja e deixar isto de fora é uma contradição. Testem-na através disto.

Se é verdade que a vida cristã conforme o pensamento e a mente de Deus é somente isto, “Cristo, tudo em todos”, então somos eu e você verdadeiros cristãos? Pois temos visto que mediante a cruz nós desaparecemos para dar lugar para o Senhor Jesus. Agora, se professamos ter vindo pelo caminho do Calvário até o Senhor, a implicação é que desaparecemos por intermédio desta cruz, para que Cristo seja tudo em todos.

O que pensar? Queremos nós um pedacinho do mundo? Nós ainda voluntariamente nos apegamos a esta ou aquela coisa fora do Senhor, porque o Senhor Jesus não tem nos satisfeito plenamente e precisamos ter um contrapeso? Um cristão mundano é uma contradição de termos. Ter um pouquinho de algo fora de Cristo é negar o Calvário e permanecer diretamente em oposição ao eterno propósito de Deus referente a Cristo. Você assume esta responsabilidade? Deus determinou isto desde toda a eternidade no referente a Seu Filho. Podemos nós professar pertencer ao Senhor Jesus e ao mesmo tempo ainda não ser verdade que Ele é tudo em todos para nós? Se podemos, há algo errado, há uma negação, uma contradição.

Estamos nos opondo ao pensamento e propósito de Deus. É verdade que Ele é tudo em todos? Ele será isto se tomarmos todo o caminho.

Oh! Estas sugestões sutis que estão sempre sendo sussurradas em nossos ouvidos, que se desistirmos disto ou daquilo iremos nos arruinar, e a vida será mais pobre, e seremos reduzidos até que nada tenha restado. É uma mentira! É isto que contrapõe o grande pensamento de Deus sobre nós. O pensamento de Deus sobre nós é que alguém, nada menos que Seu Filho, Jesus Cristo, em Quem toda a plenitude da divindade habita em forma corpórea, seja a nossa plenitude. Toda a plenitude de Deus em Cristo para nós! Você nunca obterá isto ao rejeitá-lo. A vida será muito menos do que precisa ser se você não for até o fim com o Senhor. E o que se obtém em matéria de nossa consagração ao Senhor, nosso inteiro e completo abandono a Ele em nossa vida, nosso deixar completamente tudo que não é do Senhor, isto se obtém no domínio do serviço. Esta carne ama se jactar na obra cristã, e nos diz que se passarmos a ser dependentes do Senhor nós passaremos a ter um tempo de ansiedade. Mas uma vida de dependência de Deus pode ser uma vida de contínuo romance. É ali que fazemos descobertas que são constantes maravilhas.

Você pode estar quase morto num minuto e no seguinte o Senhor lhe dá algo para fazer e você fica muito vivo, dependendo dele para cada respiração sua. Assim você vem a conhecer o Senhor. Mas, depois daquela experiência, você se torna de novo inútil e morto por um tempo, contudo você se lembra de que o Senhor fez algo. Então Ele faz de novo; e a vida se torna um romance. Ninguém pensaria que você estava dependendo do Senhor para sua própria respiração. É algo muito abençoado saber que o Senhor está fazendo isto, quando você não pode fazê-lo de jeito nenhum – é humana e naturalmente impossível, mas o Senhor o está fazendo!

Prossigamos, amados, no assunto da Igreja. Apliquem o teste. Não estou falando com julgamento ou censura, nem tenciono discriminar num sentido errado, mas deixe-me ser fiel – para nós, nossa comunhão deve estar onde o Senhor Jesus é mais honrado. Nossa comunhão deve estar onde Deus tem o que é seu mais plenamente, onde Cristo é tudo em todos. Nós não podemos estar presos por tradições, por coisas que levantam um clamor e assumem uma denominação. Onde o Senhor é mais honrado, aí é onde nossos corações devem estar; onde tudo o mais é feito subserviente a apenas isto: “Cristo, tudo em todos”. Este é o pensamento de Deus sobre a Igreja, e este deve ser o lugar aonde nossos corações gravitam. O lugar onde Deus vai registrar Seu testemunho e trazer o impacto deste testemunho sobre outros será encontrado onde o Senhor Jesus é mais honrado. E vocês perceberão que onde houver pessoas famintas vocês terão oportunidade de ministério se vocês estiverem completamente em acordo com o propósito de Deus referente a Seu Filho.

9. Vivenciando tudo

Lembre-se que tudo relacionado ao cristão é experimental. Tudo em relação ao Senhor Jesus é essencialmente experimental. Não é apenas doutrina. Não é questão de credo. Não é que aceitemos certas declarações de doutrina ou credo, e que somente por isto sejamos trazidos a um relacionamento com o Senhor Jesus. Nós não nos tornamos cristãos por aceitar declarações doutrinárias ou credos ortodoxos, ou fatos sobre o Senhor Jesus. A Igreja não se constitui sobre estes parâmetros, embora a Igreja defenda certos princípios. A experiência tem que ser operada na vida, você deve ser tornar parte dela e ela parte de você. Não é suficiente crer que Cristo morreu na cruz. Isto deve se aplicar aqui em nossas vidas tornando-se uma experiência, uma poderosa e operante força e fator em nosso ser. A igreja não é constituída sobre uma base de declarações doutrinárias. Você não pode juntar pessoas e dizer: “isto parece perfeitamente confiável, constituiremos nossa igreja sobre esta base”. Você não pode fazer isto.

A Igreja é aquela na qual a verdade tem sido operada, na qual ela tem se tornado experimental. Credos não podem nos manter juntos quando o inferno se levanta para nos dividir. Não, o credo mais ultra-fundamentalista não tem conseguido manter as pessoas juntas. A unidade do Espírito é algo trabalhado lá dentro. A menos que seja assim, nada pode resistir contra os espíritos de divisão e cismas que estão por aí. Tudo precisa ser experimental, não apenas doutrinário ou confessional.

Agora, é aqui onde você chega à realidade de Deus. É uma coisa cantar hinos sobre Cristo ser tudo em todos, olhar para isto como algo objetivo e concordar com isto; mas é outra coisa ser trazido experimentalmente ao lugar onde a verdade realmente opera. Há muitos que dirão hoje “sim, isto está certo. Cristo é tudo em todos”, e amanhã de manhã, quando você os toca sobre algum assunto melindroso em que suas preferências estão envolvidas, você percebe que Cristo não é tudo em todos. Temos que chegar a isto pela experiência. Que o Senhor nos dê graça para isto.

O apelo final que faço é que nós todos busquemos novamente a entronização do Senhor Jesus como supremo Senhor em nossos corações, em cada parte de nossa vida, em todos os nossos relacionamentos; que se houver algo que temos segurado, que deixemos ir; se temos tido qualquer reserva, que a quebremos agora; se temos sido menos que completamente comprometidos com Ele, de agora em diante isto não seja mais assim, mas que Ele seja tudo em todos, a partir de agora. Este deve ser nosso entendimento, nosso compromisso com o Senhor. Fará você isto? Peça ao Senhor para quebrar cada amarra que está no caminho de Ele ser tudo em todos. Estamos preparados para isto?

Que o Senhor nos dê graça.

Autor: T. Austin Sparks (1888-1971)

Mortificando o pecado pelo Espírito Santo (D. M. Lloyd Jones)

“Assim, pois, irmãos, somos devedores, não à carne como se constrangidos a viver segundo a carne. Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis” (Romanos 8.12-13).

A santificação é um processo em que o próprio homem desempenha uma parte. Nessa parte, o homem é chamado a fazer algo “pelo Espírito”, que está nele. Consideraremos agora o que exatamente o homem tem de fazer. A exortação é esta: “Se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo”. O crente é chamado a mortificar os feitos do corpo.

Temos, primeiramente, de abordar a palavra corpo, que se refere ao nosso corpo físico, nossa estrutura física, conforme vemos também no versículo 10. A palavra não significa “carne”. Até o grande Dr. John Owen se enganou neste ponto e trata a palavra como uma alusão à “carne” e não ao “corpo”. Mas o apóstolo, que antes falara tanto a respeito de “carne”, agora fala sobre o “corpo”. Ele fez isso no versículos 10 e 11, assim como o fizera no versículo 12 do capítulo 6. Paulo se referia a este corpo físico em que o pecado ainda permanece e que um dia será ressuscitado em “incorruptibilidade” e glorificado, para tornar-se semelhante ao corpo glorificado de nosso bendito Senhor e Salvador.

Enfatizo novamente que temos de ser claros neste assunto, porque está sujeito a ser mal entendido. O ensino não é que o corpo humano ou a matéria são inerentemente pecaminosos. Já houve heréticos que ensinaram esse erro conhecido como dualismo. Ao contrário disso, o Novo Testamento ensina que o homem foi criado bom tanto em corpo, alma e espírito. Não ensina que a matéria é sempre má e que, por essa razão, o corpo é sempre mau. Houve um tempo em que o corpo era… totalmente livre do pecado. Mas, quando o homem caiu e pecou, todo o seu ser caiu, e ele se tornou pecaminoso no corpo, mente e espírito.

Temos visto que pelo novo nascimento o espírito do homem é liberto. Ele recebe vida nova — “O espírito é vida, por causa da justiça” (Rm 8.10). Mas o corpo ainda “está morto por causa do pecado”. Esse é o ensino do Novo Testamento! Em outras palavras, embora o crente seja regenerado, ainda permanece em um corpo mortal. Por isso enfrentamos problemas para viver a vida cristã, visto que temos de lutar contra o pecado enquanto estivermos neste mundo, pois o corpo é fonte e instrumento de pecado e corrupção. Nossos corpos ainda não foram redimidos. Eles o serão, mas agora o pecado ainda permanece neles.

Conforme vimos, o apóstolo deixa isso bem claro. Em 1 Coríntios 9.27, ele disse: “Esmurro o meu corpo” (1 Coríntios 9.27), porque o corpo nos impele a obras más. Isso não significa que os instintos do corpo são em si mesmos pecaminosos. Os instintos são naturais e normais, não sendo, inerentemente, pecaminosos. Mas o pecado que permanece em nós está sempre tentando levar os instintos naturais a direções erradas. O pecado tenta levá-los a “afeições imoderadas”, a exagerá-los; tenta fazer-nos comer demais, satisfazer em excesso todos os nossos instintos, de modo que se tornem “imoderados”. Vendo esse assunto de outro ângulo, esse princípio pecaminoso tenta impedir-nos de dar atenção ao processo de disciplina e autocontrole ao qual somos constantemente chamados nas páginas das Escrituras. O pecado remanescente no corpo tende a agir dessa maneira. Por isso, o apóstolo fala sobre os “feitos do corpo”. O pecado tenta tornar o natural e normal em algo pecaminoso e mau.

O termo “mortificar” explica-se a si mesmo. “Mortificar” significa matar, trazer à morte… logo, a exortação diz que temos de matar, por um fim nos “feitos do corpo”. De uma perspectiva prática, esta é a grande exortação do Novo Testamento em conexão com a santificação e se dirige a todos os crentes.

Como devemos fazer isso?… O apóstolo esclarece: “Se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo” — pelo Espírito! É claro que o Espírito é mencionado particularmente porque a sua presença e sua obra são características peculiares do verdadeiro cristianismo. Isto é o que diferencia o cristianismo da moralidade, do “legalismo” e do falso puritanismo — “pelo Espírito”. O Espírito Santo, conforme já vimos, está em nós crentes. Você não pode ser um crente sem o Espírito Santo. Se você é um crente, o Espírito Santo de Deus está em você, agindo em você. Ele nos capacita, nos dá forças e poder. Ele nos traz a grande salvação que o Senhor Jesus Cristo realizou, capacitando-nos a desenvolvê-la. Portanto, o crente nunca deve se queixar de falta de capacidade e poder. Se o crente diz: “Eu não posso fazer isso”, está negando as Escrituras. Aquele que é habitado pelo Espírito Santo nunca deve proferir tais palavras; fazê-lo significa negar a verdade a respeito dele mesmo.

Conforme disse o apóstolo João, o crente é alguém que pode dizer: “Temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça” (Jo 1.16). No capítulo 15 de seu evangelho, João descreve os cristãos como ramos da Videira Verdadeira. Por isso, nunca devemos afirmar que não temos poder. Certamente, o Diabo está ativo no mundo e tem grande poder; contudo, “maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo” (1 Jo 4.4). Ou considere novamente aquela importante declaração feita em 1 João 5.18-19: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado”. A expressão “não vive em pecado” expressa uma ação contínua no presente, e o sentido é este: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive pecando”. Por que não? Porque “Aquele que nasceu de Deus” — ou seja, o Senhor Jesus Cristo — “o guarda, e o Maligno não lhe toca”.

João afirmou que isso é verdade em relação a todos os crentes. O crente não vive no pecado porque Cristo está vivendo nele, e o Maligno não pode tocar-lhe. Isso significa não somente que o Maligno não exerce controle sobre o crente, mas também que o Maligno não pode nem mesmo tocar-lhe. O crente não está sobre o poder do Maligno. E, para incutir isso no crente, João afirmou em seguida: “Sabemos que somos de Deus”; e quanto ao mundo: “O mundo inteiro jaz no Maligno” (1 Jo 5.19). O mundo está nos braços e domínio do Maligno, que o controla… O Diabo tem completamente em suas mãos e controle o mundo e os homens que pertencem ao mundo, os quais são suas vítimas indefesas. Não há sentido em dizer a tais pessoas que mortifiquem “os feitos do corpo”; elas não podem fazer isso, porque estão sob o poder do Diabo. Mas a situação do crente é outra; ele pertence a Deus e o Maligno não lhe pode tocar. O Diabo pode rugir para o crente e amedrontá-lo ocasionalmente, mas não pode tocar-lhe e, muito menos, controlá-lo.

Essas são afirmações típicas que o Novo Testamento faz a respeito do crente. E, quando compreendemos que o Espírito está em nós, experimentamos o seu poder. Somos chamados a usar e exercitar o poder que está em nós pela habitação do Espírito Santo. “Assim, pois, irmãos, somos devedores, não à carne como se constrangidos a viver segundo a carne. Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito” — que habita em vós —, “mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis.” A exortação diz que devemos exercitaro poder que está em nós “pelo Espírito”. O Espírito é poder e está habitando em nós. Por isso, somos instados a exercer o poder que está em nós.

Mas, como isso se realiza na prática?… Para começar, temos de entender nossa posição espiritual, pois muitos de nossos problemas se devem ao fato de que não compreendemos e não recordamos quem e o que somos como crentes. Muitos se queixam de que não têm poder e de que não sabem fazer isto ou aquilo. O que precisamos dizer-lhes não é que eles são absolutamente incapazes e que devem desistir. Pelo contrário, todos os crentes precisam ouvir estas palavras de 2 Pedro 1.2-4: “Graça e paz vos sejam multiplicadas, no pleno conhecimento de Deus e de Jesus, nosso Senhor. Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade”. Tudo que “conduz à vida e piedade” nos foi dado por meio do “conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude”. E, outra vez: “Pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas [por meio dessas mui grandes e preciosas promessas] vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo”.

Apesar disso, há crentes que lamentam e se queixam de não terem forças. A respostas para esses crentes é esta: “Todas as coisas que dizem respeito à vida e à piedade lhes foram dadas. Parem de lamentar, murmurar e queixar-se. Levantem-se e usem o que está em vocês. Se vocês são crentes, o poder está em vocês pelo Espírito Santo. Você não estão desamparados”. Todavia, o apóstolo Pedro não parou ali. Ele disse também: “Aquele a quem estas coisas não estão presentes” — em outras palavras, o homem que não faz as coisas sobre as quais foi exortado — “é cego, vendo só o que está perto” (2 Pe 1.9). Ele tem uma visão curta, havendo “esquecido da purificação dos seus pecados de outrora”. Não possui uma visão verdadeira da vida cristã. Está falando e vivendo como se fosse uma pessoa não-regenerada. Ele diz: “Não posso continuar sendo cristão; é demais para mim”. Pedro exorta esse homem a compreender a verdade a respeito de si mesmo. Precisa ser despertado, ter seus olhos abertos e sua memória refrescada. Ele precisa se animar e fazer, em vez de lamentar as suas imperfeições.

Além disso, temos de compreender que, se somos culpado de pecado, entristecemos o Espírito Santo de Deus, que está em nós. Pecamos a todo momento. O fato deveras grave não é o de que pecamos e nos tornamos infelizes, e sim o de que entristecemos o Espírito de Deus que habita em nosso corpo. Quão frequentemente pensamos nisso? Acho que, ao falarem comigo a respeito desse assunto, as pessoas sempre falam sobre si mesmas — “meu erro”. “Estou sempre caindo nesse pecado.” “Este pecado está me desanimando.” Falam completamente a respeito de si mesmas. Não falam sobre o seu relacionamento com o Espírito Santo. E, por essa razão: o homem que compreende que o maior problema de sua vida pecaminosa é o fato de que está entristecendo o Espírito Santo, esse homem para de fazer isso imediatamente. No momento que o crente percebe que esse é o seu verdadeiro problema, ele lida com esse problema. Não se preocupa mais com seus próprios sentimos. Quando o crente compreende que está entristecendo o Espírito Santo de Deus, ele age imediatamente.

Outra consideração importante sobre este tema geral é o fato de que temos sempre de fixar-nos no alvo crucial. Pedro enfatizou isso no mesmo capítulo da sua epístola: “Procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum. Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 1.10-11). Se vocês fizerem o que exorto-os a fazer, ele disse, a morte, quando lhes chegar, será algo maravilhoso. Você não somente entrarão no reino de Deus; antes, terão uma entrada ampla. Haverá um desfile triunfante; os portões do céu serão abertos, e haverá grande regozijo. Pedro não estava se referindo à nossa salvação presente, e sim à nossa glorificação final, à nossa entrada nos “tabernáculos eternos” (Lc 16.9).

Portanto, temos de manter os olhos fixos nesse alvo. Nosso maior problema é que sempre estamos olhando para nós mesmos e para o mundo. Se pensarmos mais e mais sobre nós mesmos como peregrinos da eternidade (o que, de fato, somos), todo o nosso viver será transformado. Paulo afirmou isso no versículo 11 deste capítulo. Mantenham seus olhos nisso, eles disse em outras palavras; mantenham seus olhos no alvo. João disse a mesma coisa: “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro” (1 Jo 3.2-3). A causa de muitos de nossos problemas, como crentes, é que vivemos demais para este mundo. Persistimos em esquecer que somos apenas “peregrinos e forasteiros” neste mundo. Pertencemos ao céu; nossa pátria está no céu (Fp 3.20), e estamos indo para lá. Se apenas mantivéssemos isso diante de nossa mente, o problema de nossa luta contra o pecado assumiria um aspecto diferente…

Devemos nos mover agora do geral para o específico, relembrando-nos de que tudo é feito “pelo Espírito”, com uma mente iluminada por Ele. O que temos de fazer especificamente? O ensino do apóstolo pode ser considerado sob dois aspectos: direto e negativo, indireto e positivo.

No aspecto direto ou negativo, a primeira coisa que o crente tem de fazer é abster-se do pecado. É bem simples e direto! Pedro disse: “Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma” (1 Pe 2.11). Esse é um ensino bastante claro. Aqui não há qualquer sugestão de que somos incapazes, temos de desistir da luta e entregar tudo ao Senhor ressuscitado. Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes…” — parem de fazer isso, parem imediatamente, não o façam mais! Vocês precisam se abster totalmente desses pecados, essas “paixões carnais, que fazem guerra contra a alma”. Vocês não têm o direito de dizer: “Sou fraco, não posso; as tentações são poderosas”.

A resposta do Novo Testamento é: “Parem de fazer isso”. Vocês não precisam de hospital e de um tratamento médico; precisam recompor-se e compreender que são “peregrinos e forasteiros”. “Exorto-vos… a vos absterdes.” Vocês não têm qualquer negócio com essas coisas. Lembrem outra vez o ensino de Efésios 4: “Aquele que furtava não furte mais… Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe”. Não haja em vocês nenhuma dessas conversas ou gracejos tolos! Não façam isso! Abstenham-se! É tão simples e claro como estas palavras: parem de fazer isso!

Em segundo lugar, de modo específico, citando outra vez as palavras do apóstolo em Efésios: “Não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as. Porque o que eles fazem em oculto, o só referir é vergonha” (Ef 5.11-12). Observe o que ele disse: “Não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas”. Vocês não devem apenas abster-se dessas coisas, mas também não ter comunhão com pessoas que fazem essas coisas ou têm esse modo de vida. “Não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as.” O princípio governante de sua deve ser o não associar-se com pessoas desse tipo. Fazer isso é ruim para você e lhe será prejudicial… Não devemos ter qualquer comunhão com o mal; antes, precisamos fugir dele e manter-nos tão distantes quanto pudermos.

Outro termo é “esmurrar” (1 Co 9.27). “Esmurro o meu corpo”, disse o apóstolo. “Todo atleta” — ou seja, aquele que compete nas corridas — em tudo se domina”. As pessoas que passam por treinos visando as grandes competições atléticas são bastante cuidadosas quanto à sua dieta; param de fumar e ingerem bebidas alcoólicas. Quão cuidadosos eles são! E fazem tudo isso porque desejam ganhar o prêmio! Se eles faziam isso, disse Paulo, por causa de coisas corruptíveis, quanto mais devemos disciplinar-nos a nós mesmos… O corpo tem de ser “esmurrado”. Nas palavras de nosso Senhor registradas em Lucas 21.34, há uma sugestão a respeito de como isso deve ser feito. Ele disse: “Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado com as conseqüências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo, e para que aquele dia não venha sobre vós repentinamente”. Não coma bem beba demais; não se preocupe excessivamente com as coisas deste mundo. Coma o suficiente e o alimento correto; mas não se torne culpado de “excesso”. Se uma pessoas satisfaz em demasia seu corpo, com alimento, bebida ou outra coisa, ele achará mais difícil viver uma vida cristã santificada e mortificar os feitos do corpo. Portanto, evite todos esses obstáculos, pois, do contrário, seu corpo se tornará indolente, pesado, moroso e lânguido. Há uma intimidade tão grande entre o corpo, a mente e o espírito, que achará grande problema em seu conflito espiritual. “Esmurre o corpo.”

Outra máxima usada pelo apóstolo, na Epístola aos Romanos, se acha no capítulo 13: “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências” (v. 14). Se querem mortificar os feitos do corpo, “nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências”. O que isso significa? Em Salmos 1, achamos um discernimento claro quanto ao significado dessas palavras do apóstolo. Eis a prescrição: “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores” (Sl 1.1). Se vocês querem viver esta vida piedosa e mortificar os feitos do corpo, não gastem tempo permanecendo nas esquinas das ruas, porque, se fizerem isso, provavelmente cairão em pecado. Se permanecerem no lugar por onde o pecado talvez passará, não se surpreendam se voltarem para casa em tristeza e infelicidade, porque caíram no pecado. Não se detenham no “caminho dos pecadores”. E, menos ainda, devem vocês assentar-se “na roda dos escarnecedores”. Se permanecerem em tais lugares, não haverá surpresa em caírem no pecado. Se vocês sabem que certas pessoas lhes são má influencia, evitem-nas, fujam delas. Talvez vocês digam: “Eu me ajunto com elas para ajudá-las, mas percebo que, todas as vezes, elas me levam ao pecado”. Se isso é verdade, não estão em condições de ajudá-las…

No livro de Jó, o homem sábio disse: “Fiz aliança com meus olhos” (Jó 31.1). Era como se dissesse: “Olhem diretamente, não olhem para a direita ou para a direita. Cuidem de seus olhos propensos a vaguear, esses olhos que se movem quase automaticamente e veem coisas que iludem e induzem ao pecado”. “Faça uma aliança com os seus olhos”, declara esse homem. Concorde em não olhar para coisas que tendem a levá-lo ao pecado. Se isso era importante naqueles dias, é muito mais importante em nossos dias, quando temos jornais, cinemas, outdoors, televisão e assim por diante! Se há uma época em que os homens precisam fazer aliança com seus olhos, esta época é agora. Tenham cuidado com o que leem. Certos jornais, livros e diários, se os lerem, eles lhes serão prejudiciais. Vocês devem evitar tudo que lhes prejudica e diminui sua resistência. Não olhem na direção dessas coisas; não queira nada com elas… Na Palavra de Deus, vocês são instruídos a mortificar “os feitos do corpo” e não satisfazer “a carne no tocante às suas concupiscências”. Agradeça a Deus pelo evangelho poderoso. Agradeça a Deus pelo evangelho que nos diz que agora somos seres responsáveis em Cristo e que nos exorta a agir de um modo que glorifica o Salvador. Portanto, “nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências”.

Meu próximo assunto é sobremodo importante: enfrentem as primeiras movimentações e impulsos do pecado em vocês; combatam-nos logo que aparecerem. Se não fizerem isso, estão arruinados. Vocês cairão, conforme somos ensinados na epístola de Tiago: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte”. O primeira moção do pecado é um encantamento, um leve incitação de cobiça e sedução. Esse é o momento em que temos de lidar com o pecado. Se deixarem de enfrentar o pecado nesse estágio, ele os vencerá. Cortem o mal pela raiz. Ataquem-no de imediato. Nunca lhes permitam qualquer avanço. Não o aceitem de maneia alguma. Talvez sintam-se inclinados a dizer: “Bem, não farei tal coisa”; mas, se aceitam a ideia em sua mente e começam a afagá-la e entretê-la em sua imaginação, vocês já estão derrotados. De acordo com o Senhor, vocês já pecaram. Não precisam realmente cometer o ato; nutri-lo no coração já é o suficiente. Permitir isso no coração significa pecar aos olhos de Deus, que conhece tudo a respeito de nós e vê até o que acontece na imaginação e no coração. Portanto, destruam o mal pela raiz, não tenham qualquer relação com ele, parem-no imediatamente, ao primeiro movimento, antes que comece a acontecer esse processo ímpio descrito por Tiago.

No entanto, lembrem-se de que isto — que será nosso próximo assunto — não significa repressão. Se vocês apenas reprimirem uma tentação ou esse primeiro movimento do pecado, ele provavelmente surgirá novamente com mais vigor. Nesse sentido, concordo com a psicologia moderna. A repressão é sempre má. “Então, o que devo fazer?”, alguém pergunta. Eu respondo: quando sentir aquele primeiro movimento do pecado, erga-se e diga: “Isto é mau; isto é vileza; é aquilo que expulsou do Paraíso os nossos primeiros pais”. Rejeite-o, enfrente-o, denuncie-o, odeie-o pelo que é. Assim, terá lidado realmente com o pecado. Você não deve apenas fazê-lo recuar, com um espírito de temor e de maneira tímida. Traga-o à luz, exponha-o, analise-o e, denuncie-o pelo que ele é, até que o odeie.

Meu último assunto neste tema é que, se você cair no pecado (e quem não cai?), não restaurem a si mesmos de modo superficial e apressado. Leiam 2 Coríntios 7 e considerem o que Paulo disse sobre a “a tristeza segundo Deus” que produz arrependimento. Outra vez, tragam à luz aquilo que fizeram, contemplem-no, analisem-no, exponham-no, denunciem-no, odeiem-no e denunciem a si mesmos. Mas não façam isso de um modo que os atire nas profundezas da depressão e desânimo! Sempre tendemos a ir aos extremos; ou somos muito superficiais ou muito profundos. Não devemos curar superficialmente a ferida (cf. Jr 6.14), mas tampouco devemos lançar-nos no desespero e melancolia, dizendo que tudo está perdido, que não podemos ser crentes, e retornar ao estado de condenação. Isso é igualmente errado. Temos de evitar ambos os extremos. Façam uma avaliação honesta de si mesmos e do que fizeram, condenando totalmente a si mesmos e seu ato; porém compreendam que, confessando-o a Deus, sem qualquer desculpa, “ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1.9). Se vocês fizerem essa obra de maneira superficial, cairão novamente no pecado. E, se vocês se lançarem em um abismo de depressão, hão de sentir-se tão desesperados que cairão em mais e mais pecado. Uma atmosfera de melancolia e fracasso leva a mais fracasso. Não caiam em nenhum desses erros, mas respondam à obra da maneira como o Espírito sempre nos instrui a fazê-la.

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Extraído de Romans: Na Exposition of Chapter 8:15-17, The Sons of God, p. 132-144, publicado pela Banner of Truth Trust.

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Tradução: Pr. Wellington Ferreira

© Editora FIEL 2009.

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