Aquietai-vos (Sl 46: 10)

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“Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus […]” (Salmos 46:10)

Existem momentos em que é preciso, às vezes, deixar Deus trabalhar sozinho. Não que Deus dependesse da nossa miserável ajuda para efetuar algo, pois até o fato de hoje querermos Deus é porque Ele nos capacitou a isso. Mas, dentro dos decretos eternos de Deus que envolvem toda a nossa vida, temos livre agência (não “livre arbítrio”) e podemos tomar algumas decisões no que tangem os tantos fins e meios na esfera de nosso existir. Contudo, existem momentos em que devemos ficar quietos e deixar Deus tomar conta de tudo. Baixar a guarda totalmente. Seja isso numa determinada área de nossa vida, seja numa situação mais abrangente. Tem momentos em que Deus quer nos dar a conhecer de sua divindade e assim se revelar de uma forma ainda mais profunda, fazendo gerar em nós uma nova postura, um novo entendimento, uma nova perspectiva e uma nova ação. No entanto, o ato de deixar Deus trabalhar não implica total inércia. Não significa cruzar os braços e simplesmente esperar acontecer algo ou aguardar que caia alguma coisa do céu.
Enquanto os demais animais apenas têm necessidades e carências naturais, agindo por instinto para supri-las, nós, seres humanos (crentes ou não), temos sonhos, desejos, aspirações, vontades e sentimentos que ultrapassam os limites corporais e psíquicos da natureza humana. Somos seres espirituais. O que nos difere, inclusive, dos animais irracionais. Muitas vezes nossos desejos e vontades não passam de uma carência carnal, sentimental, etc. Por outro lado, muitas vezes se manifesta em nosso íntimo alguma carência espiritual ou alguma sobrecarga espiritual, algo que as vezes falta ou mesmo algo que as vezes sobeja e que precisa ser tirado. Quando temos fome, tão logo sabemos que precisamos comer e, não desejando delongas, comemos e tornamo-nos satisfeitos. Porém, alguns sentimentos, algumas carências espirituais, alguns sonhos que incomodam a alma, a ansiedade por algo que muito se quer, dentre tantas outras coisas parece vir para nos deixar confusos, tristes, ansiosos sobremaneira, preocupados, angustiados e incomodados. Enfim, entramos para o estágio da inquietação.
Portanto, a ordem descrita no salmo 46: 10 torna-se pertinente para tais situações. “Aquietai-vos!”. No hebraico, a expressão é igual a: “raphah”, um termo cujo significado é variado e pode ser atribuído em várias aplicações. Mas o que chama a atenção aqui é o fato do termo “aquietai-vos” (raphah), além de significar “permanecer parado“, estar ligado também aos termos: “soltar”,“deixar ir” ou “deixar cair”. E em vários momentos de nossas vidas, quando estamos diante de uma guerra travada ou quando a provação está num alto nível onde parece que não vamos suportar, queremos logo agir. É tipo nosso mesmo. Muitas vezes, quando deixamos apenas a nossa vontade (escrava, limitada e totalmente influenciada pelas circunstâncias) falar mais alto, a tendência é esquecermos que há um Deus soberano em glória e majestade. Quando não buscamos a Deus e quando não entregamos nossa vida por inteiro à Ele, nos submetemos (de forma cativa) a nós mesmos e ao que nos cerca e fracassamos. Precisamos deixar ir toda a prepotência, todo o orgulho, toda a incredulidade, todo o questionamento, toda a murmuração e todo o desânimo. Precisamos “soltar” tudo! Aquietar o espírito totalmente. Isso só se dá quando nos apropriamos de um importante meio de graça, a saber: oração. Quando oramos, quando confiamos e quando entregamos, estamos – de forma concomitante – aquietando-nos para que assim Deus venha agir. Não que Deus precisa exatamente de alguma postura nossa para agir ou deixar de agir. Não! Ele quer que aprendamos e cresçamos em cada situação que venhamos nos encontrar nesta vida. A vida cristã é uma escola, cujo objetivo é a perfeição. Como Paulo mesmo disse (em Fp 3: 12), nós não alcançamos ainda a perfeição (gr. teleiotes) e essa se dará de forma completa na ressurreição. No entanto, caminhamos em postura constante para que alcancemo-la.
Nesse ínterim, portanto, a oração não é uma opção. A oração é uma necessidade. É fundamental. Ela – quando feita em fé, de forma constante e firmada nas Escrituras, nos leva ao entendimento da situação que nos cerca, dos propósitos de Deus na situação e à conclusão de toda provação e batalha diante de uma nova postura e uma maturidade ainda maior. Até porque, é na oração que o Espírito Santo (Consolador/ “parákletus“) “ensina todas as coisas” (João 14: 26) e, muitas vezes, Ele nos mostra ou nos faz discernir por nós mesmos que algo pode estar errado, algo deve ser mudado, alguma nova postura devemos tomar, etc. Contudo, o primeiro ato é: aquietar-se!
Na oração, Deus comunica ao nosso espírito a segurança que há nele (Sl 46: 1-7); na oração, Deus nos faz entender pelo seu Santo Espírito que Ele é poderoso em obras (Sl 46: 9); na oração, Deus nos faz sentir sua presença e dá a certeza que Ele está conosco (Sl 46: 11). Enfim, na oração, Deus nos exorta à quietação (Sl 46: 10).
A oração é, essencialmente, trinitária. O cristão ora no poder habilitador de Deus o Santo Espírito, que torna apropriado, como é Seu privilégio, a obra expiatória de Deus o Filho, o qual, sozinho, lhe dá acesso ao trono de Deus o Pai. Orando, portanto, nós estamos nos sujeitando, agora, ao mesmo poder que criou todo o universo e tudo que nele há. Muita coisa, não é? Pois é! Aquieta-te!
Nós podemos nos dirigir ao Pai através dos méritos de Seu Filho, e unicamente por Ele (Jo 14:6). Charles Haddon Spurgeon, em um sermão em Lucas 11:9-10 disse: “Nunca houve uma verdadeira oração dedicada a Ele que não foi ouvida. As orações mais aceitáveis em seu nível mais elevado chegam a Ele pelo caminho dos ferimentos de Cristo.” Como a Pessoa que aplica a grande salvação de Deus aos eleitos em regeneração e conversão, o Espírito Santo energiza as orações a serem dedicadas. Quando não sabemos nem mesmo como orar mais, Deus nos ajuda e nisso também nos aquietamos. Em Sua onisciência, o Espírito Santo é perfeitamente familiar com a profundidade de nossos espíritos e com a santa vontade de nosso Pai (Rm 8:26-27).
Quando, em nossa quietação, nos faltam palavras, Ele sabe imediatamente como orar por nós. Ele sabe como compor orações de modo que sejam aceitáveis ao Pai das luzes. Nós podemos descansar no conhecimento de que a oração sincera do coração do crente não será desprezada pelo Pai, que nos convida a que Lhe falemos. E nisso paramos para Deus agir! Desde o incentivo e a exortação à oração até a resposta e a conclusão de tudo, Deus age de forma soberana. Precisamos buscar uma sensibilidade tal para entendermos e discernirmos quando é o momento de deixar apenas Deus obrar.
> “Não temais, nem vos assusteis por causa desta grande multidão, pois a peleja não é vossa, senão de Deus” (2 Cr.20:15).
> “Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá” (Salmo 139:10).
> “Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará” (Salmo 37:05).
Outra questão interessante e relevante no salmo 46: 10 é o resultado do ato de ficar quieto e deixar Deus trabalhar, a saber, o conhecimento da divindade do Criador: “aquietai-vos e sabeis…”; “…sabeis que eu sou Deus”. Como já falamos aqui, a vida cristã é uma escola. Nesse processo, vamos crescendo em graça e conhecimento (2 Pd 3: 18). Deus vai completando sua obra em nossas vidas ( Fp 1: 6). Conhecer a Deus está totalmente ligado ao fato de experimentar sua poderosa ação em nossas vidas. Não falo dos experimentalismos e das diversas experiências carismáticas onde se intenta conhecer Deus por um viés estranho. Mas, “aquietar e saber quem é Deus” pode ser empregado no mesmo sentido de: parar e orar. Aqui, acrescenta-se: parar, orar e se apegar à leitura das Escrituras.
É necessário, algumas vezes, diminuir nossa atuação, sairmos um pouco de cena e deixar Deus advogar. Conforme João Batista, falando de seu ministério, precisamos também diminuirmos para que Cristo se evidencie em nossas vidas. Quando estamos ansiosos, quando estamos inquietos, preocupados, tristes, desanimados, etc., Cristo deve viver em nossa vida para que não venhamos a viver por nós mesmos e debaixo do jugo que muitas vezes o mundo (e também nós mesmos) nos impõe. Cristo é exemplo para nosso agir e também é exemplo para aquietarmos. Basta lembrar da cruz e das acusações. Houve o momento de parar para que a glória do \pai se manifestasse na História. “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”(Gálatas 2:20). Deixemos o “eu” para que possamos conhecer o “Eu Sou”.
Moisés quando foi chamado por Deus para a libertação de Israel do Egito, ele, querendo dar uma boa explicação a Faraó sobre quem estava ordenando a saída do povo, perguntou: “qual é o seu nome”? (Ex.3:13). Poderia ter pensado: “mesmo vendo essa sarça em fogo e não se consumindo, devo saber quem me ordena por essa voz” (conjectura minha). Moisés convivia com os egípcios e em meio aos deuses tiranos e falsos do Egito. Embora educado segundo os preceitos hebreus, ele não havia tido ainda um encontro com o Deus vivo. Não havia acontecido ainda algo que marcasse sua história.
Algo capaz de mudar os rumos de sua existência. Mas a resposta do Criador foi satisfatória: (Ex.3:14) “EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós”. Não havia espaço para argumentação, mas sim para a fé. As vezes, ficar quieto é atitude. A atitude de Cristo mais expressiva para nós foi sua morte substitutiva. Foi Deus agindo para a salvação de muitos, sendo que toda a humanidade nada podia fazer para ser salva. Enquanto o mundo se aquietou, Deus mostrou, através de Jesus Cristo, que Ele é Deus. Deu-se a conhecer a muitos por sua majestosa generosidade. Jesus assim se fez quieto, como Cordeiro mudo. Mas o céu e a terra estremeceram…e a Igreja agora sabe que Deus é Deus e é Soberano e justo, tanto para nos salvar, como também para nos ajudar em todas as intempéries de nossa vida segundo seus próprios propósitos e justiça.

Pode ser que, diante daquilo que você está agora vivendo, o momento seja de parar, aquietar o coração, orar, exercer a fé, ler a Palavra de Deus, pois Deus anela ajudar os seus escolhidos e não lança fora ninguém que fora comprado pelo sacrifício de Cristo. No momento certo e em sua própria economia, Deus conclui toda e qualquer situação e aumenta mais em nós o conhecimento de sua glória. Pode ter certeza: na próxima batalha você estará mais preparado e com a fé mais desenvolvida, pois tem mais conhecimento do Deus que te salvou.

“Não se turbe o vosso coração; credes em Deus; credes também em mim […]” (João 14: 1).
Que Deus abençoe as nossas vidas, amém.

Gabriel Felipe M. Rocha*

* Gabriel F. M. Rocha é professor, graduado em História (licenciatura e bacharelado); pós graduado em Sociologia (lato sensu) e mestrando em Filosofia (stricto sensu) nas áreas de Ética e Antropologia.

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