Aquietai-vos (Sl 46: 10)

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“Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus […]” (Salmos 46:10)

Existem momentos em que é preciso, às vezes, deixar Deus trabalhar sozinho. Não que Deus dependesse da nossa miserável ajuda para efetuar algo, pois até o fato de hoje querermos Deus é porque Ele nos capacitou a isso. Mas, dentro dos decretos eternos de Deus que envolvem toda a nossa vida, temos livre agência (não “livre arbítrio”) e podemos tomar algumas decisões no que tangem os tantos fins e meios na esfera de nosso existir. Contudo, existem momentos em que devemos ficar quietos e deixar Deus tomar conta de tudo. Baixar a guarda totalmente. Seja isso numa determinada área de nossa vida, seja numa situação mais abrangente. Tem momentos em que Deus quer nos dar a conhecer de sua divindade e assim se revelar de uma forma ainda mais profunda, fazendo gerar em nós uma nova postura, um novo entendimento, uma nova perspectiva e uma nova ação. No entanto, o ato de deixar Deus trabalhar não implica total inércia. Não significa cruzar os braços e simplesmente esperar acontecer algo ou aguardar que caia alguma coisa do céu.
Enquanto os demais animais apenas têm necessidades e carências naturais, agindo por instinto para supri-las, nós, seres humanos (crentes ou não), temos sonhos, desejos, aspirações, vontades e sentimentos que ultrapassam os limites corporais e psíquicos da natureza humana. Somos seres espirituais. O que nos difere, inclusive, dos animais irracionais. Muitas vezes nossos desejos e vontades não passam de uma carência carnal, sentimental, etc. Por outro lado, muitas vezes se manifesta em nosso íntimo alguma carência espiritual ou alguma sobrecarga espiritual, algo que as vezes falta ou mesmo algo que as vezes sobeja e que precisa ser tirado. Quando temos fome, tão logo sabemos que precisamos comer e, não desejando delongas, comemos e tornamo-nos satisfeitos. Porém, alguns sentimentos, algumas carências espirituais, alguns sonhos que incomodam a alma, a ansiedade por algo que muito se quer, dentre tantas outras coisas parece vir para nos deixar confusos, tristes, ansiosos sobremaneira, preocupados, angustiados e incomodados. Enfim, entramos para o estágio da inquietação.
Portanto, a ordem descrita no salmo 46: 10 torna-se pertinente para tais situações. “Aquietai-vos!”. No hebraico, a expressão é igual a: “raphah”, um termo cujo significado é variado e pode ser atribuído em várias aplicações. Mas o que chama a atenção aqui é o fato do termo “aquietai-vos” (raphah), além de significar “permanecer parado“, estar ligado também aos termos: “soltar”,“deixar ir” ou “deixar cair”. E em vários momentos de nossas vidas, quando estamos diante de uma guerra travada ou quando a provação está num alto nível onde parece que não vamos suportar, queremos logo agir. É tipo nosso mesmo. Muitas vezes, quando deixamos apenas a nossa vontade (escrava, limitada e totalmente influenciada pelas circunstâncias) falar mais alto, a tendência é esquecermos que há um Deus soberano em glória e majestade. Quando não buscamos a Deus e quando não entregamos nossa vida por inteiro à Ele, nos submetemos (de forma cativa) a nós mesmos e ao que nos cerca e fracassamos. Precisamos deixar ir toda a prepotência, todo o orgulho, toda a incredulidade, todo o questionamento, toda a murmuração e todo o desânimo. Precisamos “soltar” tudo! Aquietar o espírito totalmente. Isso só se dá quando nos apropriamos de um importante meio de graça, a saber: oração. Quando oramos, quando confiamos e quando entregamos, estamos – de forma concomitante – aquietando-nos para que assim Deus venha agir. Não que Deus precisa exatamente de alguma postura nossa para agir ou deixar de agir. Não! Ele quer que aprendamos e cresçamos em cada situação que venhamos nos encontrar nesta vida. A vida cristã é uma escola, cujo objetivo é a perfeição. Como Paulo mesmo disse (em Fp 3: 12), nós não alcançamos ainda a perfeição (gr. teleiotes) e essa se dará de forma completa na ressurreição. No entanto, caminhamos em postura constante para que alcancemo-la.
Nesse ínterim, portanto, a oração não é uma opção. A oração é uma necessidade. É fundamental. Ela – quando feita em fé, de forma constante e firmada nas Escrituras, nos leva ao entendimento da situação que nos cerca, dos propósitos de Deus na situação e à conclusão de toda provação e batalha diante de uma nova postura e uma maturidade ainda maior. Até porque, é na oração que o Espírito Santo (Consolador/ “parákletus“) “ensina todas as coisas” (João 14: 26) e, muitas vezes, Ele nos mostra ou nos faz discernir por nós mesmos que algo pode estar errado, algo deve ser mudado, alguma nova postura devemos tomar, etc. Contudo, o primeiro ato é: aquietar-se!
Na oração, Deus comunica ao nosso espírito a segurança que há nele (Sl 46: 1-7); na oração, Deus nos faz entender pelo seu Santo Espírito que Ele é poderoso em obras (Sl 46: 9); na oração, Deus nos faz sentir sua presença e dá a certeza que Ele está conosco (Sl 46: 11). Enfim, na oração, Deus nos exorta à quietação (Sl 46: 10).
A oração é, essencialmente, trinitária. O cristão ora no poder habilitador de Deus o Santo Espírito, que torna apropriado, como é Seu privilégio, a obra expiatória de Deus o Filho, o qual, sozinho, lhe dá acesso ao trono de Deus o Pai. Orando, portanto, nós estamos nos sujeitando, agora, ao mesmo poder que criou todo o universo e tudo que nele há. Muita coisa, não é? Pois é! Aquieta-te!
Nós podemos nos dirigir ao Pai através dos méritos de Seu Filho, e unicamente por Ele (Jo 14:6). Charles Haddon Spurgeon, em um sermão em Lucas 11:9-10 disse: “Nunca houve uma verdadeira oração dedicada a Ele que não foi ouvida. As orações mais aceitáveis em seu nível mais elevado chegam a Ele pelo caminho dos ferimentos de Cristo.” Como a Pessoa que aplica a grande salvação de Deus aos eleitos em regeneração e conversão, o Espírito Santo energiza as orações a serem dedicadas. Quando não sabemos nem mesmo como orar mais, Deus nos ajuda e nisso também nos aquietamos. Em Sua onisciência, o Espírito Santo é perfeitamente familiar com a profundidade de nossos espíritos e com a santa vontade de nosso Pai (Rm 8:26-27).
Quando, em nossa quietação, nos faltam palavras, Ele sabe imediatamente como orar por nós. Ele sabe como compor orações de modo que sejam aceitáveis ao Pai das luzes. Nós podemos descansar no conhecimento de que a oração sincera do coração do crente não será desprezada pelo Pai, que nos convida a que Lhe falemos. E nisso paramos para Deus agir! Desde o incentivo e a exortação à oração até a resposta e a conclusão de tudo, Deus age de forma soberana. Precisamos buscar uma sensibilidade tal para entendermos e discernirmos quando é o momento de deixar apenas Deus obrar.
> “Não temais, nem vos assusteis por causa desta grande multidão, pois a peleja não é vossa, senão de Deus” (2 Cr.20:15).
> “Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá” (Salmo 139:10).
> “Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará” (Salmo 37:05).
Outra questão interessante e relevante no salmo 46: 10 é o resultado do ato de ficar quieto e deixar Deus trabalhar, a saber, o conhecimento da divindade do Criador: “aquietai-vos e sabeis…”; “…sabeis que eu sou Deus”. Como já falamos aqui, a vida cristã é uma escola. Nesse processo, vamos crescendo em graça e conhecimento (2 Pd 3: 18). Deus vai completando sua obra em nossas vidas ( Fp 1: 6). Conhecer a Deus está totalmente ligado ao fato de experimentar sua poderosa ação em nossas vidas. Não falo dos experimentalismos e das diversas experiências carismáticas onde se intenta conhecer Deus por um viés estranho. Mas, “aquietar e saber quem é Deus” pode ser empregado no mesmo sentido de: parar e orar. Aqui, acrescenta-se: parar, orar e se apegar à leitura das Escrituras.
É necessário, algumas vezes, diminuir nossa atuação, sairmos um pouco de cena e deixar Deus advogar. Conforme João Batista, falando de seu ministério, precisamos também diminuirmos para que Cristo se evidencie em nossas vidas. Quando estamos ansiosos, quando estamos inquietos, preocupados, tristes, desanimados, etc., Cristo deve viver em nossa vida para que não venhamos a viver por nós mesmos e debaixo do jugo que muitas vezes o mundo (e também nós mesmos) nos impõe. Cristo é exemplo para nosso agir e também é exemplo para aquietarmos. Basta lembrar da cruz e das acusações. Houve o momento de parar para que a glória do \pai se manifestasse na História. “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”(Gálatas 2:20). Deixemos o “eu” para que possamos conhecer o “Eu Sou”.
Moisés quando foi chamado por Deus para a libertação de Israel do Egito, ele, querendo dar uma boa explicação a Faraó sobre quem estava ordenando a saída do povo, perguntou: “qual é o seu nome”? (Ex.3:13). Poderia ter pensado: “mesmo vendo essa sarça em fogo e não se consumindo, devo saber quem me ordena por essa voz” (conjectura minha). Moisés convivia com os egípcios e em meio aos deuses tiranos e falsos do Egito. Embora educado segundo os preceitos hebreus, ele não havia tido ainda um encontro com o Deus vivo. Não havia acontecido ainda algo que marcasse sua história.
Algo capaz de mudar os rumos de sua existência. Mas a resposta do Criador foi satisfatória: (Ex.3:14) “EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós”. Não havia espaço para argumentação, mas sim para a fé. As vezes, ficar quieto é atitude. A atitude de Cristo mais expressiva para nós foi sua morte substitutiva. Foi Deus agindo para a salvação de muitos, sendo que toda a humanidade nada podia fazer para ser salva. Enquanto o mundo se aquietou, Deus mostrou, através de Jesus Cristo, que Ele é Deus. Deu-se a conhecer a muitos por sua majestosa generosidade. Jesus assim se fez quieto, como Cordeiro mudo. Mas o céu e a terra estremeceram…e a Igreja agora sabe que Deus é Deus e é Soberano e justo, tanto para nos salvar, como também para nos ajudar em todas as intempéries de nossa vida segundo seus próprios propósitos e justiça.

Pode ser que, diante daquilo que você está agora vivendo, o momento seja de parar, aquietar o coração, orar, exercer a fé, ler a Palavra de Deus, pois Deus anela ajudar os seus escolhidos e não lança fora ninguém que fora comprado pelo sacrifício de Cristo. No momento certo e em sua própria economia, Deus conclui toda e qualquer situação e aumenta mais em nós o conhecimento de sua glória. Pode ter certeza: na próxima batalha você estará mais preparado e com a fé mais desenvolvida, pois tem mais conhecimento do Deus que te salvou.

“Não se turbe o vosso coração; credes em Deus; credes também em mim […]” (João 14: 1).
Que Deus abençoe as nossas vidas, amém.

Gabriel Felipe M. Rocha*

* Gabriel F. M. Rocha é professor, graduado em História (licenciatura e bacharelado); pós graduado em Sociologia (lato sensu) e mestrando em Filosofia (stricto sensu) nas áreas de Ética e Antropologia.

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Coragem! Invista em sua família!

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Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” (Sl 127.1).

          Edificar a casa! Uma tarefa que tem sido mais desafiadora em nossos dias. Para alguns, tem sido uma tarefa penosa. Isso, em vista da fragmentação e do abandono dos valores espirituais e morais que devem reger a família, assim como toda a vida cristã. Fragmentação e abandono esses que a contemporaneidade assiste de forma dramática. Hoje vemos uma sociedade secularizada, caracterizada pela diversidade de valores e estilos de vida. Marcada pela pluralidade de propostas de realização e satisfação pessoal que vão ganhando a primazia dentro de nossos lares e vão, aos poucos, minando nossos filhos, introduzindo-os a um contexto de individualismo, egoísmo, descrença em relação aos bons e sadios valores. Todos esses novos paradigmas e formas de vida (afastados dos valores bíblicos e que geralmente tendem à destruição familiar) estão mostrando suas faces a partir da miserabilidade da ação humana sem Deus e sem norte que tão facilmente assistimos em nossos dias, seja pelas mídias, seja presencialmente. Os valores cristãos que dão sentido à vida, à família e que formam o “chão seguro” para pisarmos vão sendo esquecidos em muitos lares de crentes. Valores esses que a Palavra de Deus mesmo norteia em suas páginas, mas que seguem esquecidas em algum canto da casa. A Palavra de Deus tem deixado de ser o paradigma dentro de muitos lares. Você que ainda não crê, saiba que Jesus é o Caminho e é nele que você terá, além da salvação de sua alma, o direcionamento seguro para a edificação de sua família.

Portanto, meu amigo, irmão e colega, preste atenção! Você anda trabalhando muito, investindo muito, gastando muito (às vezes mais do que ganha). Anda ocupado demais em tantas tarefas, mas Deus não tem sido mais o Senhor em sua casa. Isso é lamentável e trágico! São tantas preocupações nesse tempo violentamente dinâmico e exigente. São muitas coisas para serem feitas. Muitas contas, muita coisa para resolver. Escola dos filhos, faculdade, uma boa herança para deixar… Mas, e aí? Tem trabalhado em prol de seu lar e tem lutado por sua família e sua casa, mas em vão tem trabalhado se não for o Senhor quem edifica sua casa. Por quê? Porque o alicerce deve ser sólido. Deve estar edificado sob uma estrutura forte, pois as tempestades estão ficando mais fortes e muitas casas estão cedendo e seguindo o curso da enxurrada. Enquanto você tem se esforçado para ajuntar sua colheita e acrescentar mais à sua conta, muitas novidades de nosso jovem século vão entrando em nossas casas e tomando conta de nossos filhos. O que significa, entretanto, “o Senhor edificar a casa”? Significa deixar o Senhor nosso Deus ser o Norte, o Paradigma e Alicerce de nossa casa. Ele deve ser a bússola. Deixar o Senhor edificar é orar com toda a família. É reunir a família para um culto em casa. É sentar para conversar e colocar a conversa em dia. É ouvir o que cada um tem para dizer e apresentar tudo diante do Eterno. Deixar Deus edificar é evidenciar no lar uma vida que é regida pela Palavra de Deus. É valorizar no seu lar a Escritura e fazer dela a direção da família.

Na edificação de nossa casa, somos os pedreiros, sendo Deus o arquiteto e engenheiro-chefe. Cada um tem uma função específica em seu lar, mas Deus é quem dirige toda a boa obra. Portanto, meu caro, deixe o Senhor edificar a casa e tudo vai bem. Ele, como arquiteto, já tem um projeto definido e guiará bem a edificação de sua casa. Todas as preocupações (justas preocupações) devem ser deixadas diante de Deus, o edificador infalível. Um lar que não tem Deus como aquele que edifica a casa, não tem para quem olhar e a quem depositar a confiança. Isso gera medo, aflição, cansaço e desesperança. Outro detalhe importante é: Cristo quer ser o alicerce de nossa casa. Jesus quer ser a base sólida. Ele quer que a casa esteja edificada sob sua Palavra. Pois só a Palavra vence e dá direção em meio às mais terríveis tempestades. Ela é segurança, ela é direção, é luz e é vida. Muitos lares precisam de vida. Já têm perdido a vida… Filhos isolados em seus cantos e em seus quartos intransponíveis, a mesa perdeu o sentido, o diálogo não faz parte da rotina da família, o casal não vive a saudável harmonia que um verdadeiro casamento deve evidenciar, etc. São muitas dramas que podem vir a um lar que não é edificado pelo Senhor. Por isso, “em vão trabalham os que a edificam” se o Senhor não edificar. Mas uma boa notícia nós temos: Deus, nosso Senhor, pode ser o edificador de sua casa! Se sua Palavra for ouvida e todo o direcionamento do lar estiver sob suas mãos, uma grande diferença você poderá ver em sua casa. Sua família irá bem. “Sua esposa, no interior de tua casa, será como a videira frutífera; teus filhos como rebentos da oliveira, à roda da mesa” (Sl 128. 3). O Senhor aumentará a colheita daqueles a quem Ele ama (Sl 127.2). É muito mais vantajoso depender de Deus do que tentar fazer tudo por conta própria!  Você que não tem confiado em Deus e tem buscado – sem a segura direção divina – a edificação de sua casa, sinto em dizer que você está em desvantagem!

Você não sabe o que poderá ocorrer amanhã, mas Deus sabe. Passe a direção para Ele. Deixe Cristo ser a luz. Deixe o bom fundamento (Palavra) ser a norteadora. Deixe Cristo ser o paradigma de sua família. Leia a Bíblia com sua esposa e filhos. Faça cultos domésticos. Louve ao Senhor em casa. Deixe o Espírito Santo fazer de seu lar um ninho de comunhão e edificação. Sempre colhendo bons frutos. Uma casa firmada em Cristo é uma casa que dá frutos bons para Deus. É uma casa feliz onde todos se sentem realizados. Estar em Cristo e ter o lar firmado em Cristo é gozar de comunhão, esperança, alegria, força, ânimo, coragem e fé. Sabendo que Ele tem edificado a casa e que nosso trabalho não é vão.

Deus será contigo e com tua casa, amém!

Gabriel F. M. Rocha

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Aquietai-vos (Sl 46: 10)

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Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus […]” (Salmos 46:10)

          Existem momentos em que é preciso, às vezes, deixar Deus trabalhar sozinho. Não que Deus dependesse da nossa miserável ajuda para efetuar algo, pois até o fato de hoje querermos Deus é porque Ele nos capacitou a isso. Mas, dentro dos decretos eternos de Deus que envolvem toda a nossa vida, temos livre agência (não “livre arbítrio”) e podemos tomar algumas decisões no que tangem os tantos fins e meios na esfera de nosso existir. Contudo, existem momentos em que devemos ficar quietos e deixar Deus tomar conta de tudo. Baixar a guarda totalmente. Seja isso numa determinada área de nossa vida, seja numa situação mais abrangente. Tem momentos em que Deus quer nos dar a conhecer de sua divindade e assim se revelar de uma forma ainda mais profunda, fazendo gerar em nós uma nova postura, um novo entendimento, uma nova perspectiva e uma nova ação. No entanto, o ato de deixar Deus trabalhar não implica total inércia. Não significa cruzar os braços e simplesmente esperar acontecer algo ou aguardar que caia alguma coisa do céu.
           Enquanto os demais animais apenas têm necessidades e carências naturais, agindo por instinto para supri-las, nós, seres humanos (crentes ou não), temos sonhos, desejos, aspirações, vontades e sentimentos que ultrapassam os limites corporais e psíquicos da natureza humana. Somos seres espirituais. O que nos difere, inclusive, dos animais irracionais. Muitas vezes nossos desejos e vontades não passam de uma carência carnal, sentimental, etc. Por outro lado, muitas vezes se manifesta em nosso íntimo alguma carência espiritual ou alguma sobrecarga espiritual, algo que as vezes falta ou mesmo algo que as vezes sobeja e que precisa ser tirado. Quando temos fome, tão logo sabemos que precisamos comer e, não desejando delongas, comemos e tornamo-nos satisfeitos. Porém, alguns sentimentos, algumas carências espirituais, alguns sonhos que incomodam a alma, a ansiedade por algo que muito se quer, dentre tantas outras coisas parece vir para nos deixar confusos, tristes, ansiosos sobremaneira, preocupados, angustiados e incomodados. Enfim, entramos para o estágio da inquietação.
          Portanto, a ordem descrita no salmo 46: 10 torna-se pertinente para tais situações. “Aquietai-vos!”. No hebraico, a expressão é igual a: “raphah”, um termo cujo significado é variado e pode ser atribuído em várias aplicações. Mas o que chama a atenção aqui é o fato do termo “aquietai-vos” (raphah), além de significar “permanecer parado“, estar ligado também aos termos: “soltar”,“deixar ir” ou “deixar cair”. E em vários momentos de nossas vidas, quando estamos diante de uma guerra travada ou quando a provação está num alto nível onde parece que não vamos suportar, queremos logo agir. É tipo nosso mesmo. Muitas vezes, quando deixamos apenas a nossa vontade (escrava, limitada e totalmente influenciada pelas circunstâncias) falar mais alto, a tendência é esquecermos que há um Deus soberano em glória e majestade. Quando não buscamos a Deus e quando não entregamos nossa vida por inteiro à Ele, nos submetemos (de forma cativa) a nós mesmos e ao que nos cerca e fracassamos. Precisamos deixar ir toda a prepotência, todo o orgulho, toda a incredulidade, todo o questionamento, toda a murmuração e todo o desânimo. Precisamos “soltar” tudo! Aquietar o espírito totalmente. Isso só se dá quando nos apropriamos de um importante meio de graça, a saber: oração. Quando oramos, quando confiamos e quando entregamos, estamos – de forma concomitante – aquietando-nos para que assim Deus venha agir. Não que Deus precisa exatamente de alguma postura nossa para agir ou deixar de agir. Não! Ele quer que aprendamos e cresçamos em cada situação que venhamos nos encontrar nesta vida. A vida cristã é uma escola, cujo objetivo é a perfeição. Como Paulo mesmo disse (em Fp 3: 12), nós não alcançamos ainda a perfeição (gr. teleiotes) e essa se dará de forma completa na ressurreição. No entanto, caminhamos em postura constante para que alcancemo-la. 
Nesse ínterim, portanto, a oração não é uma opção. A oração é uma necessidade. É fundamental. Ela – quando feita em fé, de forma constante e firmada nas Escrituras, nos leva ao entendimento da situação que nos cerca, dos propósitos de Deus na situação e à conclusão de toda provação e batalha diante de uma nova postura e uma maturidade ainda maior. Até porque, é na oração que o Espírito Santo (Consolador/ “parákletus“) “ensina todas as coisas” (João 14: 26) e, muitas vezes, Ele nos mostra ou nos faz discernir por nós mesmos que algo pode estar errado, algo deve ser mudado, alguma nova postura devemos tomar, etc. Contudo, o primeiro ato é: aquietar-se!
           Na oração, Deus comunica ao nosso espírito a segurança que há nele (Sl 46: 1-7); na oração, Deus nos faz entender pelo seu Santo Espírito que Ele é poderoso em obras (Sl 46: 9); na oração, Deus nos faz sentir sua presença e dá a certeza que Ele está conosco (Sl 46: 11). Enfim, na oração, Deus nos exorta à quietação (Sl 46: 10).
A oração é, essencialmente, trinitária. O cristão ora no poder habilitador de Deus o Santo Espírito, que torna apropriado, como é Seu privilégio, a obra expiatória de Deus o Filho, o qual, sozinho, lhe dá acesso ao trono de Deus o Pai. Orando, portanto, nós estamos nos sujeitando, agora, ao mesmo poder que criou todo o universo e tudo que nele há. Muita coisa, não é? Pois é! Aquieta-te! 
           Nós podemos nos dirigir ao Pai através dos méritos de Seu Filho, e unicamente por Ele (Jo 14:6). Charles Haddon Spurgeon, em um sermão em Lucas 11:9-10 disse: “Nunca houve uma verdadeira oração dedicada a Ele que não foi ouvida. As orações mais aceitáveis em seu nível mais elevado chegam a Ele pelo caminho dos ferimentos de Cristo.” Como a Pessoa que aplica a grande salvação de Deus aos eleitos em regeneração e conversão, o Espírito Santo energiza as orações a serem dedicadas. Quando não sabemos nem mesmo como orar mais, Deus nos ajuda e nisso também nos aquietamos. Em Sua onisciência, o Espírito Santo é perfeitamente familiar com a profundidade de nossos espíritos e com a santa vontade de nosso Pai (Rm 8:26-27).
          Quando, em nossa quietação, nos faltam palavras, Ele sabe imediatamente como orar por nós. Ele sabe como compor orações de modo que sejam aceitáveis ao Pai das luzes. Nós podemos descansar no conhecimento de que a oração sincera do coração do crente não será desprezada pelo Pai, que nos convida a que Lhe falemos. E nisso paramos para Deus agir! Desde o incentivo e a exortação à oração até a resposta e a conclusão de tudo, Deus age de forma soberana. Precisamos buscar uma sensibilidade tal para entendermos e discernirmos quando é o momento de deixar apenas Deus obrar.
> “Não temais, nem vos assusteis por causa desta grande multidão, pois a peleja não é vossa, senão de Deus” (2 Cr.20:15).
> “Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá” (Salmo 139:10).
> “Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará” (Salmo 37:05).
            Outra questão interessante e relevante no salmo 46: 10 é o resultado do ato de ficar quieto e deixar Deus trabalhar, a saber, o conhecimento da divindade do Criador: “aquietai-vos e sabeis…”; “…sabeis que eu sou Deus”. Como já falamos aqui, a vida cristã é uma escola. Nesse processo, vamos crescendo em graça e conhecimento (2 Pd 3: 18). Deus vai completando sua obra em nossas vidas ( Fp 1: 6). Conhecer a Deus está totalmente ligado ao fato de experimentar sua poderosa ação em nossas vidas. Não falo dos experimentalismos e das diversas experiências carismáticas onde se intenta conhecer Deus por um viés estranho. Mas, “aquietar e saber quem é Deus” pode ser empregado no mesmo sentido de: parar e orar. Aqui, acrescenta-se: parar, orar e se apegar à leitura das Escrituras.
            É necessário, algumas vezes, diminuir nossa atuação, sairmos um pouco de cena e deixar Deus advogar. Conforme João Batista, falando de seu ministério, precisamos também diminuirmos para que Cristo se evidencie em nossas vidas. Quando estamos ansiosos, quando estamos inquietos, preocupados, tristes, desanimados, etc., Cristo deve viver em nossa vida para que não venhamos a viver por nós mesmos e debaixo do jugo que muitas vezes o mundo (e também nós mesmos) nos impõe. Cristo é exemplo para nosso agir e também é exemplo para aquietarmos. Basta lembrar da cruz e das acusações. Houve o momento de parar para que a glória do \pai se manifestasse na História. “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”(Gálatas 2:20). Deixemos o “eu” para que possamos conhecer o “Eu Sou”.
           Moisés quando foi chamado por Deus para a libertação de Israel do Egito, ele, querendo dar uma boa explicação a Faraó sobre quem estava ordenando a saída do povo, perguntou: “qual é o seu nome”? (Ex.3:13). Poderia ter pensado: “mesmo vendo essa sarça em fogo e não se consumindo, devo saber quem me ordena por essa voz” (conjectura minha). Moisés convivia com os egípcios e em meio aos deuses tiranos e falsos do Egito. Embora educado segundo os preceitos hebreus, ele não havia tido ainda um encontro com o Deus vivo. Não havia acontecido ainda algo que marcasse sua história.
          Algo capaz de mudar os rumos de sua existência. Mas a resposta do Criador foi satisfatória: (Ex.3:14) “EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós”. Não havia espaço para argumentação, mas sim para a fé. As vezes, ficar quieto é atitude. A atitude de Cristo mais expressiva para nós foi sua morte substitutiva. Foi Deus agindo para a salvação de muitos, sendo que toda a humanidade nada podia fazer para ser salva. Enquanto o mundo se aquietou, Deus mostrou, através de Jesus Cristo, que Ele é Deus. Deu-se a conhecer a muitos por sua majestosa generosidade. Jesus assim se fez quieto, como Cordeiro mudo. Mas o céu e a terra estremeceram…e a Igreja agora sabe que Deus é Deus e é Soberano e justo, tanto para nos salvar, como também para nos ajudar em todas as intempéries de nossa vida segundo seus próprios propósitos e justiça.
Pode ser que, diante daquilo que você está agora vivendo, o momento seja de parar, aquietar o coração, orar, exercer a fé, ler a Palavra de Deus, pois Deus anela ajudar os seus escolhidos e não lança fora ninguém que fora comprado pelo sacrifício de Cristo. No momento certo e em sua própria economia, Deus conclui toda e qualquer situação e aumenta mais em nós o conhecimento de sua glória. Pode ter certeza: na próxima batalha você estará mais preparado e com a fé mais desenvolvida, pois tem mais conhecimento do Deus que te salvou.
Não se turbe o vosso coração; credes em Deus; credes também em mim […]” (João 14: 1).
Que Deus abençoe as nossas vidas, amém.
Gabriel Felipe M. Rocha*
* Gabriel F. M. Rocha é professor, graduado em História (licenciatura e bacharelado); pós graduado em Sociologia (lato sensu) e mestrando em Filosofia (stricto sensu) nas áreas de Ética e Antropologia.