Santificados na Verdade e para a Verdade

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Peço a Deus a ortodoxia e a disposição para os estudos teológicos dos reformados (para melhor zelar pela Verdade).

Peço a Deus a incansável insistência e teimosia dos arminianos para falar sobre a Verdade (porém com a verdade e coerência da Santa Palavra!).

Peço a Deus o coração animado e missionário dos batistas para mostrar com alegria e entrega a Verdade.

E peço a Deus o coração acolhedor e a coragem de pregar em qualquer lugar dos pentecostais, para fazer valer em minha vida a Verdade…

Cada um tem um pouco (ou muito) de cada um. Uns têm bastante zelo e pouca missão. Outros têm muita missão, mas pouca doutrina. Uns têm muita alegria e louvor, mas pouca missão e zelo doutrinário. Outros já têm um bom equilíbrio em todas essas coisas e vão muito bem…

Mas, cada um, com determinadas porções de cada um, compõe aquilo que a gente chama de Igreja, o Corpo, a presença e a Vida do Senhor anunciada através da minha vida e da sua vida.

Acima de todas as diferenças, a VERDADE deve ser defendida, pregada e evidenciada por todos aqueles que são de Cristo! Até que Cristo volte, estaremos separados por alguns pontos divergentes em nossas teologias. Contudo, jamais distantes em amor, respeito e parceria. Muitos têm seguido caminhos distantes da Verdade. Uns talvez seguirão seus próprios caminhos, mas a Igreja do Senhor está unida pela Verdade e a Verdade é o nome do Senhor que nos resgatou e está registrada na Bíblia que carregamos.

Um abraço carinhoso a todos!

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.
Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.
E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade. E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela tua palavra hão de crer em mim; Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim” (João 17:17-23).

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Estou em dívida!

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(Por Gabriel Felipe M. Rocha)

“Eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes” (Rm 1.14)

Bem, o contexto da frase acima é o seguinte: Paulo expressa um desejo em visitar alguns cristãos romanos a fim de edificá-los na fé, confortá-los e comunicar-lhes algum dom espiritual (Rm 1. 10-12). No v. 14, Paulo expõe o motivo de ir ter com eles e anunciá-los o Evangelho de Jesus Cristo: “[…] eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes” (1.14). E logo completa: “estou pronto para também vos anunciar o Evangelho para vós que estais em Roma” (v.15).

A verdade do versículo 14 é esta: Paulo tinha o seu trabalho missionário em outras igrejas já conhecido pelos irmãos de Roma. No entanto, Paulo precisava passar também por lá. Ele cita gregos e “bárbaros” exatamente por isso: havia corrido a notícia de seu trabalho evangelístico em várias cidades gregas e também fora do contexto da Grécia. E o termo “bárbaro” era uma expressão pejorativa que dizia a respeito daqueles que não eram da cidadania romana e do contexto cultural de Roma.

Pois bem, o que quero destacar nesse contexto é o seguinte:

Paulo expressou uma dívida de amor para com os romanos, uma vez que compartilhou amor e entrega pessoal aos irmãos gregos. Sua expressão de dívida era tão verdadeira que, certa vez disse: “ai de mim se não pregar o Evangelho…” (1 Cor. 9: 16).

No versículo 6, Paulo, portanto, diz:

“vocês também foram chamados para serdes de Cristo”.

E Paulo estava certo. Ele falava para um grupo de eleitos em Roma.

O que quero trazer para o nosso contexto?

1) A igreja (que ali foi representada na pessoa de Paulo) tem hoje um trabalho estabelecido aos arredores no mundo. Contudo, sua missão não chegou ao fim. Ainda existe um povo grande para ser alcançado pela mensagem do Evangelho. Nós, que fomos alcançados pelo Evangelho e achados pela graça e misericórdia, temos uma dívida de amor para com aqueles que hão de ser chamados para o Evangelho (ao Senhor pertence a salvação!). Precisamos transgredir o nosso contexto! Precisamos ultrapassar fronteiras!

2) Não temos uma “dívida” com Deus, exatamente, pois nossa redenção foi por soberana generosidade e, por outro lado, jamais pagaríamos tal dívida, por isso Cristo pagou por nós. O que temos, de fato, é um convite à santidade e à fidelidade. Temos mesmo é uma dívida para com o próximo, pois a mesma generosidade que mirou minha vida deve ser compartilhada com o outro. Nesse sentido, sou devedor do meu próximo e minha dívida aumenta quando não compartilho daquilo que a mim foi confiado com amor, a saber, uma mensagem! Que mensagem? A do Evangelho! Como distribuir? Com a pregação e com gestos; com palavras e com exemplos; com intrepidez e com compaixão. Com intolerância ao pecado e com tolerância total ao pecador.

3) Embora possa haver reclamação, apelação, difamação, afronta, ofensa, escárnios, perseguição, erro, intolerância, etc. (e muito disso tudo Paulo sofreu e a igreja primitiva também; assim como também falharam e erraram), a Igreja tem o seu trabalho, de alguma forma, reconhecido aos arredores do mundo. Por isso, nossa dívida se faz maior com aqueles que ainda não foram visitados, alimentados, acolhidos, vestidos, libertos, etc.

4) Temos uma dívida com os sábios, pois, para os sábios, devemos dar bom testemunho e apresentar bem o fundamento de nossa fé. Aos genuínos sábios, devemos o nosso ouvido e a nossa atenção. Devemos apresentar aos demais sábios deste mundo, aos sábios da nossa igreja, aos sábios do Facebook, aos sábios blogueiros, aos sábios ateus, etc., os fundamentos e a racionalidade da nossa fé numa santa, boa e coerente teologia! De outro modo, devemos aos sábios o bom exemplo da humildade.

5) Devemos aos ignorantes:

A) Devemos ao ignorante cujo termo diz respeito daquele (ou daquela) que não teve a oportunidade de formar-se e diplomar-se no mundo escolar e acadêmico. E, por isso, devemos a nossa compreensão, simplicidade, acessível exposição da mensagem do Evangelho, assim como devemos também o ensino.

B) Devemos também ao ignorante que ignora intencionalmente algumas verdades do Evangelho por não querer ser confrontado; devemos ao ignorante que quer difamar e afrontar a fé alheia exigindo, ao mesmo tempo, respeito e tolerância; devemos ao ignorante que desconhece o real sentido da cruz; devemos ao ignorante que deturpa a sã teologia (ou a Sã Doutrina) para promover um “outro evangelho”; devemos ao ignorante religioso e legalista que, mesmo carregando o título de “evangélico” por décadas, ainda ignora a graça do Eterno, etc.

Devemos!

O que dizer a esses, portanto?

“[…] Estou pronto para vos anunciar o Evangelho” (v. 15)

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê […]” (v. 16);

Por fim, amigos, nas palavras do Mestre: “[…] a ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei” (Rm 13: 8).

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A Ponte

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(Gabriel Felipe M. Rocha)

Deus! Um Ser Imutável e, ao mesmo tempo, um Deus pessoal. Um Deus que não muda e ao mesmo tempo ama e se relaciona com o gênero humano. Isso, sem perder sua imutabilidade. Como entender Deus? Como Ele, em sua grandeza, pôde me amar?

Depois da queda, só restou a distância e a total inimizade entre um Ser puramente Santo, Imutável e Transcendente e um homem pecador, de natureza corruptível e perversa.

Só uma ponte poderia superar esse abismo. Porém, não qualquer ponte.

A humanidade tentou construir pontes desde então. Todas caíram, pois surgiram do próprio esforço e vontade humana. E, da vontade do homem emana a queda. Do gênero humano, desde então, só pôde ser gerado a queda. E da queda houve o abismo. Portanto, muitas pontes ao longo da história não foram suficientes. Até hoje algumas não são!

Só uma ponte do mesmo gênero do Criador poderia ligar o ser humano à Deus. Só uma ponte da mesma natureza transcendente poderia atravessar o abismo e tocar a terra com total suficiência. Só uma ponte que viesse do próprio Deus Imutável e Absoluto poderia garantir a união ao que por ela passar.

Aí está o caráter pessoal de Deus na sua imutabilidade.

Ele é Santo e o transgressor não suportaria sua Santidade. Imutável e inegociável é a Santidade de Deus e imensamente grande é a sua Majestade! Mas Ele é pessoal. De seu caráter, há o juízo. Justo juízo! Todos nós, sem nenhuma exceção, merecemos o juízo de Deus! Ele não seria em momento algum injusto se nos deixasse perecer. Por isso, louve até mesmo pelo ar que está respirando agora.

De igual modo, em seu caráter encontra-se a bondade e generosidade.

Da Sua generosidade, Deus revelou a sua graça através do Unigênito, ou seja, manifestou a sua graça e a sua glória naquele (Único) que é de Seu mesmo gênero. Foi construída, portanto, a Ponte!

Da Ponte que Deus determinou ligar, causou-se eficientemente a salvação de todos os que atravessarem-a. Um Deus transcendente ao nosso tempo manifestou-se em nosso tempo por pura generosidade (graça). Para que uma causa seja atemporal – imutável (Deus) e o efeito seja determinado em um instante do tempo (o universo), é necessário que essa causa seja pessoal, ou seja, dotada de plena liberdade para criar um novo efeito sem recorrer a nada anteriormente. Pois é! O Deus Imutável manifestou o seu caráter pessoal na Criação e, agora, na Redenção. Ele se manifestou ao mundo na forma de um homem. O Verbo que antes da criação do mundo já estava com Deus se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória. O Autor da criação se fez “pessoa” e habitou por um tempo dentre os homens. O Deus Todo Poderoso, que era, que é e que sempre será, deixou o esplendor de sua glória e despiu-se de toda sua majestade para flutuar no ventre de uma virgem e ser pisado pelos homens.

Ele se ligou a esse mundo como Ponte, levando o homem de volta a Deus.

Essa ligação de uma extremidade a outra foi um empreendimento caríssimo. Deus mesmo é quem decretou o preço, sendo o Seu Unigênito o preço do empreendimento. Pelo sangue do Unigênito, a ponte pôde unir os extremos.

Da eternidade, essa ponte surgiu. À eternidade, essa ponte pode levar. Basta crer! Basta vir! Basta passar por ela!

Muitos não vão passar, pois não receberam em seus corações o chamado para atravessá-la e receberam, por isso, a justa condenação. Muitos ainda vão receber a devida condenação, pois não passarão por ela e continuarão em inimizade.

Mas, para aqueles que Deus concedeu o poder de serem chamados “filhos de Deus”, a ponte foi baixada e muitos passaram por ela e foram salvos. Hoje, muitos passam por ela e suficientemente estão seguros em Deus, feito amigos, reconciliados com Deus.

Essa Ponte é Jesus! O Unigênito do Pai! O Filho de Deus! O Verbo Criador! O Emanuel (Deus conosco)! Maravilhoso! Conselheiro! Deus Forte! Pai da Eternidade! Príncipe da Paz! Salvador!

Ele morreu na cruz para limpar a nossa dívida perante o Pai. Ele morreu, mas ressuscitou! Está vivo! Essa é a boa notícia para você.

Se você ainda não passou por essa ponte, ela está ainda posta. Creia em Jesus. Ele pode salvar! Ele é o Filho de Deus! Não deixe para depois, se em seu coração há uma chama acesa. Deus te chama: vem!

Conservando o modelo das sãs palavras

Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus” (2Tm. 1:13);

“... permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido” (2Tm. 3:14).

Paulo, quando pede à Timóteo para conservar o modelo das sãs palavras que um dia o ensinou, está chamando a atenção para a seguinte atitude:

  • Guardar ou conservar o modelo das sãs palavras (ou Sã Doutrina). Isso, obviamente, não implica guardar para si todo o conhecimento ou ter uma bela biblioteca abastecida com as melhores e mais relevantes obras teológicas que existem. Não significa reter todo o conhecimento a fim de sermos grandes doutores na doutrina. “Conservar” no original traz também uma ideia de “zelo” e não a simples retenção do conhecimento, onde alguns têm jogado a âncora e assim jazem em permanência. O chamado é para zelar. Zelar é cuidar, defender, ensinar, transmitir ao irmão, ao novo na fé o conhecimento a fim de que a doutrina seja estabelecida e as vãs filosofias, heresias e doutrinas humanas não adentrem à congregação. Conservar é, portanto, firmar a cada momento a Sã Doutrina por meio da pregação, do ensino, da leitura devocional, do exemplo, etc.

Contudo, a tarefa de conservação e zelo pela doutrina, através do ensino, da exposição, do discipulado e da aplicação – uma tarefa não dada a todos, mas confiada a alguns – deve ser feita tendo em vista dois itens indispensáveis, a saber, a fé e o amor.

Portanto, segue outra atitude que não pode estar alheia ao zelo pela doutrina:

  • fé – Bem, nem preciso tomar tempo aqui dizendo que a fé é importante para a conservação do modelo das sãs palavras, não é mesmo? O zelo sadio pela doutrina, tendo em vista a conservação do “modelo” (gr. hupotypôsis = padrão/ forma/ perfil/ semelhança/ paradigma), deve tão logo pressupor uma vida de fé.

Sem fé, o que se tem é uma religiosidade cega, um zelo doentio com sérias tendências legalistas. Teríamos um excesso de zelo; uma ortodoxia afiadíssima, porém doente, morta, sem a vida que emana de Deus, sem a eficácia operacional do Espírito Santo. Sem a fé, a doutrina não pode ser ensinada e preservada com amor e devoção. O modelo como “forma”, “perfil” e “paradigma” é a própria imagem de Cristo revelada na Escritura. Conservar o modelo é, desse modo, procurar imitar a andar como Cristo. Assim, que sentido teria o zelo exacerbado sem a evidência de fé, piedade e genuína devoção?   Ortodoxia sem piedade em nada difere do farisaísmo. Farisaísmo que o próprio Cristo refutou e condenou.

Portanto, a fé sugere o amor e o amor é a evidência da fé. Aqui entra a questão da ortopraxia. Ou seja, a prática correta ou a aplicação da ortodoxia.

  • O amor. Conservar o modelo da Sã Doutrina é, assim, exortar com amor, ensinar com amor, imitar o modelo de Jesus Cristo, praticar o bem. Evidenciar a fé e a salvação pelas obras. É ensinar os mandamentos e praticá-los, sobretudo. É pregar o Evangelho e mostrá-lo com a própria vida. Esse foi o apelo de Paulo a Timóteo. O apelo de quem transmitiu a Doutrina na fé e no amor, conservando o modelo das sãs palavras, ou seja, imitando a Cristo. Amando a igreja. Negando a si mesmo em favor do próximo.

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria” (1 Cor 13: 1,2);

“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor” (1 Cor 13: 13);

“E à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade” (1 Pd 1: 7);

“E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele” (1 Jo 4: 16);

 “Permaneça o amor fraternal” (Hb 13:01)

“[…] na fé e no amor que há em Cristo Jesus” – Só somos, de fato, cristãos, quando nosso zelo, nosso rótulo, nossa fala, nossas atitudes e gestos estão em conformidade com o modelo das sãs palavras, a saber, conforme o modelo de Cristo. Não em plena perfeição como foi o mestre, pois – como Paulo – julgamos não ter alcançado tal perfeição, mas uma coisa nós fazemos: avançamos para as coisas que estão diante de nós! Prosseguimos para o alvo (Fl 3: 13-14).

Portanto meus irmãos, permaneçamos firmes naquilo que aprendemos e naquilo que vamos aprendendo com nosso Senhor ao longo dessa caminhada. Pois nós sabemos de quem nós temos aprendido. Homens de fé, heróis de Deus, levantados e ordenados para o bom ensino e exposição nos transmitiram e ainda transmitem as sãs palavras. Mas sabemos que elas são o modelo conforme a imagem de Jesus Cristo, o nosso paradigma, o nosso exemplo, o nosso Mestre.

Bom dia a todos!

Gabriel F. M. Rocha

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Todos conhecerão! (Um ensaio sobre o amor cristão)

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Por Gabriel Felipe M. Rocha

Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.” (João 13:35)

Quando Jesus afirmou essas palavras, Ele já havia falado aos seus discípulos sobre sua morte e os aprontava para a prática da missão a qual foram chamados. O contexto que se segue, portanto, é um contexto de muitas admoestações (Jo 14: 23; 15:1-11); reafirmação de alguns ensinamentos (Jo 12: 44-50; 13: 1-35; 15: 12-26) e consolo (Jo 14: 1-21), preparando sua igreja, então, para os acontecimentos posteriores e exortando-os a perseverar na verdade de suas palavras. Isso, a fim de incentivar a sua Igreja ao cumprimento da missão do Evangelho (Jo 16: 20 -33; 17: 22,23). Havia uma missão! “Todos”, empregado pelo evangelista se tratava (e se trata) se todos aqueles a quem o Pai escolheu e entregaria a Cristo. Trata-se, portanto, das ovelhas de Jesus. No entanto, a eficácia de nossa missão consiste no resgate de muitos e essa missão se passa pelo teste do amor.
Pois bem, diante das palavras registradas no versículo 35 do capítulo 13 (“nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”), Jesus deixa um importante ensinamento no que tange a missão da Igreja. Todos conheceriam os discípulos e reconheceriam a efetividade da mensagem anunciada (como genuínos representantes de Cristo neste mundo) através da atitude de cada crente, a saber: através da atitude de amor ao próximo. Por quê? Porque essa atitude é a marca, a identidade, o cerne e o clímax do ministério de Jesus Cristo. Se a salvação foi uma dádiva que veio generosamente de Deus, Jesus veio como a própria personificação do amor. O Verbo se fez carne. Deus é amor, Cristo é o próprio amor operante do Pai. Em vista disso, a atitude do cristão pode revelar o Cristo se esse cristão viver como Cristo, amando seu próximo! O mundo só enxerga a Cristo se o discípulo é como Cristo. O pecador perdido não lê a Bíblia e se lê, não entende. Porém, o cristão verdadeiro é como a carta que o mundo lê (II Coríntios 3:2-3), isso, se suas atitudes são como as atitudes de Cristo. Mas que atitudes são essas? O nosso testemunho de transformação pessoal, a boa presença, a ajuda mútua, a assistência ao necessitado, o cuidado com o doente, a visita ao cativo, a paciência com o neófito, a disposição para ensinar e aconselhar, o compartilhamento, a oferta, o socorro, a fé naquele a quem muitos abandonaram “por não ter mais jeito”, etc. São gestos simples, mas que podem revelar a Cristo se nós estivermos enxertados nele.
O amor ao próximo provado na prática atrai e prepara um campo “mais fértil” para se plantar a boa semente do Evangelho. Uma vida cristã fundada no exemplo e na prática das palavras de Cristo torna a pregação do Evangelho algo muito mais efetivo. O poder está em Deus para salvar, certamente. No entanto, o testemunho cristão caracterizado pela adesão firme à mensagem e proposta do Evangelho, pela unidade e comunhão da igreja, gera vida, exemplo e promove atração (At 2: 46,47). Lembremos: somos instrumentos de Deus para a salvação, portanto, devemos ser bons discípulos. Como? Imitando o Mestre (1 Cor. 11: 1)! Como ser luz do mundo e sal da terra (Mt 5: 13)? Imitando a Cristo na prática do amor (Ef. 5: 1). É através do amor que pregamos com intensidade, não importa se é com abraço e gestos de ternura ou se é com palavras e atitudes aparentemente duras em relação ao pecado. O amor constrange o pecador. É a arma mais poderosa na evangelização. É o primeiro da lista dos frutos do espírito (Gl 5: 22). O amor desarma qualquer ataque. Aliás, sem amor, não teria sentido pregar a Boa Notícia, pois seu conteúdo é o amor (1 Cor 13: 1-3).
No mesmo contexto do versículo em destaque, Jesus apresenta o novo mandamento: “que vos amei uns aos outros; assim como eu vos amei, que também amei uns aos outros” (v. 34). Amar não se trata apenas de um sentimento (que já se tem ou se nutre) em nosso coração. Amar, muito mais que um sentimento (pois também o é), é uma decisão. Se não podíamos, antes (por causa de nosso pecado), escolher e livremente deliberar sobre as coisas eternas, agora podemos – pelo conhecimento da graça – escolher amar.
Sim! Nós podemos decidir amar ou não! O amor ao pecador, o amor àquele que nos persegue e o amor àquele a quem parece não valer a pena lutar e estender a mão pode acontecer diante de nossa espontaneidade em querer e decidir amar. Essa decisão nos foi dada diante do conhecimento do Evangelho e da transformação pessoal e convencimento por obra do Consolador (14: 25). Essa decisão está estreitamente ligada à nossa transformação pessoal pelo poder de Deus e pelo conhecimento do Evangelho (CFW, capítulo XVI, II e III). Caminha junta com a nossa frutificação espiritual (Gl 2: 22) desde nossa justificação e regeneração.
Uma vida piedosa se resume em atitudes de amor e não em conhecimentos, palavras e teorização da fé. Amor, portanto, é agir em prol daquele a quem decidimos estender a mão. Abro um parêntese aqui para a lição presente nas três perguntas de Jesus a Pedro (Jo 21: 15-17). Para cada resposta de Pedro a uma pergunta (“amas-me?”), Jesus ordenava o apóstolo a exercer o pastoreio de suas ovelhas. Ou seja: o efetivo serviço cristão deve passar pelo crivo e pelo teste do amor, senão torna-se ineficaz e sem vida.
Podemos ter uma teologia sensacional, um peso acadêmico de primeira qualidade, uma estrutura física de excelência, mas sem responder à pergunta de Cristo sobre o nosso amor e real devoção a Ele, tudo passa a ser vão. Aliás, a terceira pergunta de Jesus a Pedro está no original (grego) como “phíleo” que quer dizer: “amizade”, ou “amor de relacionamento”, “afeição”, “intimidade” e “compromisso” (é a pergunta que entristeceu Pedro!). Ela corrobora com o verso 15 do capítulo 15 de João:

“Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu pai vos tenho dado a conhecer”.

Nosso chamado é para o relacionamento com Cristo. Fomos chamados para servir e para sermos amigos de nosso Senhor. E só somos amigos quando procuramos viver como Ele viveu, pois aí está o segredo da boa amizade: a cumplicidade. Só assim podemos ser igrejas e ir de encontro às ovelhas que são de Cristo.
O amigo de Jesus é, portanto, aquele que tem conhecido o mistério e a essência do ministério de Cristo, a saber, o amor. Conhecendo e praticando o amor, estamos prontos para a missão.
No capítulo 17, através de sua oração sacerdotal, Jesus expressa seu profundo amor e imensurável apreço à Igreja e roga ao Pai que guarde seu povo de todo mal (v. 14, 15) e que os santifique (v. 16-19) para que o mundo possa conhecer – pela unidade da Igreja – que Deus enviou o Cristo e que Deus ama seu povo, assim como amou a Cristo (v. 23). Veja:
“eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim”.
A unidade da igreja em genuína comunhão, em ajuda mútua, em sã teologia alinhada à ortopraxia, no trabalho evangelístico e na boa assistência aos perdidos e novos na fé, gera aperfeiçoamento e esse aperfeiçoamento é, entretanto, fruto do amor. Igreja que cresce em unidade e que cresce em graça é a igreja que ama. Essa é a igreja que dá testemunho vivo de Jesus Cristo. É a igreja que pratica o mandamento de Deus: amar o próximo como Cristo também amou a igreja.
O critério para medir a nossa fé é a evidência de nosso gesto e de nossa postura como cristãos. Ou seja, a nossa fé está totalmente ligada com o nosso testemunho pessoal. E o testemunho pessoal só é efetivo na prática do amor (que é o cumprimento do principal mandamento/ Jo 13: 34). A fé só é operante, portanto, se estamos vivendo esse amor.
Se nós amamos a Cristo e reconhecemos seu gesto de amor e, se amamos o nosso próximo como Cristo também nos amou, estamos aptos para assumir a tarefa que nos foi proposta. Mas precisamos guardar seus mandamentos que se resumem em basicamente dois: amar a Deus e amar o próximo como a nós mesmos. Jesus disse (em Jo 14: 12) que aquele que nele crê, poderá fazer as mesmas obras que Ele aqui fez e, ainda, obras maiores. Contudo, Ele conclui (v. 15) dizendo: “se me amais, guardareis os meus mandamentos” e logo promete a vinda do Consolador (Espírito Santo) para caminhar conosco nessa missão, ensinando todas as coisas (Jo 14: 26), inclusive a viver a prática do amor (15: 9-14).
Portanto, seremos conhecidos pela prática do amor. Não pelos belos prédios, pelo bom e tradicional nome e pelas riquezas de nossos discursos.
Muitas denominações já têm tudo isso e nem sempre vivem a essência do Evangelho. Isso não é o suficiente! Não adianta falar de amor, ensinar a teoria do amor ou cantar sobre o amor. O amor é metafísico, o amor é sentimento e o amor sem prática é abstrato. Só a prática do amor pode personificar a essência da nossa mensagem, a saber, a revelação de Jesus Cristo como Senhor e Salvador de todo aquele que crê.
As palavras de Jesus em João 13: 35 foram dadas, enfim, para dizer aos discípulos o seguinte: o mundo vai odiar vocês (Jo 15: 18,19), vocês serão perseguidos por causa da minha mensagem (15: 20), mas “vós sereis minhas testemunhas, porque estais comigo desde o princípio” (v. 27). Portanto: todos conhecerão e saberão que vocês são meus discípulos, pois, se praticarem o amor que eu vos ensinei, amando uns aos outros (13: 35), eu serei revelado através de vocês (17: 23).

Gabriel Felipe M. Rocha

Gabriel F. M. Rocha é professor, graduado em História (licenciatura e bacharelado); pós graduado em Sociologia (lato sensu) e mestrando em Filosofia (stricto sensu) nas áreas de Ética e Antropologia.