Batismo no Espírito Santo: uma segunda bênção?

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Por Paulo Ribeiro

A doutrina bíblica do batismo com ou no Espírito Santo é maravilhosa e aponta para uma realidade que sintetiza a mensagem do evangelho: a de que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões (2Co 5.19). Esta doutrina, a do batismo, mostra que Deus opera em seus eleitos a ação de purificá-los do pecado, de uma só vez, aspergindo-lhes o Espírito Santo em uma aplicação individual da obra expiatória de Cristo em favor deles. O resultado pode ser descrito conforme 1Pe 1.2: fomos eleitos…em santificação do Espírito (neste contexto, um termo equivalente à justificação)…para a aspersão do sangue de Jesus Cristo.

Porém, esta doutrina sofreu algumas reinterpretações ao longo dos últimos séculos e, em tempos mais recentes, Charles Fox Parham (1873 – 1929) efetuou uma releitura desta doutrina explicando que ela, na verdade, seria uma segunda bênção, distinta da conversão e justificação do crente. O cristão primeiro se converteria (isso mesmo: o próprio cristão SE converteria, mas deixo este problema para outro artigo) e, então, estaria unido a Cristo e perdoado. Mas, ele precisaria receber uma bênção posterior – o batismo com o Espírito – para receber poder para o testemunho, dons especiais, etc.

Para deixar a doutrina ainda mais confusa, o ramo cristão que se erigiu a partir de Parham, ramo que chamamos de “pentecostalismo”, associou o que entenderam como uma segunda bênção ao anacrônico dom de línguas, dizendo que a glossolália, portanto, seria evidência do batismo no Espírito. E o texto bíblico de Atos 2 serviu como o selo de que as coisas são realmente assim. Os discípulos receberam o Espírito Santo no pentecostes; os discípulos falaram em línguas “estranhas” (volto nisso em outro artigo); logo, quem é batizado no Espírito, fala em línguas.

Entretanto, seria realmente o batismo no Espírito Santo uma bênção posterior e distinta da conversão? Quais seriam as implicações de adotarmos esta ideia? Ela teria alguma implicação para a soteriologia? E para a bibliologia? Certamente teria implicações dramáticas para a práxis cristã. Mas o mais importante aqui é: seria esta interpretação correta?

O que diz a doutrina

Frases que mencionam um certo batismo com/no/do Espírito Santo ocorrem poucas vezes no Novo Testamento (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.33; At 1.5; 11.16; 1Co 12.13), embora diversas outras passagens aludam à esta mesma operação empregando termos diferentes. Algumas vezes a sentença parece indicar que o Espírito é o agente e a igreja é o meio com o qual os crentes são batizados (frases que dizem “batismo do Espírito”) e outras a sentença parece mostrar que Cristo é o agente e o Espírito é o meio com o qual as pessoas são batizadas (frases que dizem “batismo com o Espírito”). Contudo, a sadia interpretação deve considerar o princípio da analogia da fé, pelo qual determinado ensino deve ser observado segundo a totalidade da revelação bíblica, e em virtude do qual uma passagem deve lançar luz hermenêutica sobre outra.

Assim, se observarmos todas as passagens que, de alguma maneira, mencionam o batismo no/com/pelo Espírito Santo, constataremos que se trata de uma mesma e única operação divina, que ocorre concomitantemente à regeneração. E três grandes razões nos levam a afirmar isso:

(I) O texto de 1Co 12.13 diz que todos os cristãos foram batizados. Considerando o fato de que na igreja de Corinto havia cristãos em pecado e de que, segundo o ensino pentecostal, uma pessoa, para receber o batismo, precisa santificar-se muito [1], somos levados a constatar que o batismo recebido pelos coríntios não foi o batismo especial e distinto da conversão preconizado pelos pentecostais. Antes, foi a obra de Deus que regenera seus eleitos, os converte e justifica.

(II) Não há, na Escritura inteira, uma só exortação para que os crentes (os que realmente foram salvos) busquem uma bênção posterior e adicional que, supostamente, os capacitaria para o testemunho. Devemos nos perguntar se uma operação paracletológica aparentemente tão importante como esta não deveria ser alvo de constantes (ou ao menos de um!) encorajamento apostólico para que os crentes a buscassem. Se o suposto “batismo pentecostal” fosse realmente algo tão importante e necessário, não deveríamos encontrar nas epístolas alguma exortação do tipo: “Vocês, que já creem, busquem com afinco receber esta outra bênção porque vocês precisam de poder para testemunhar do evangelho!”? Mas não encontramos. Na verdade, o principal texto-base sobre o qual o pentecostalismo se apoia na formulação desta doutrina (o de Atos 2) é um texto descritivo, reconhecidamente o tipo de texto a partir do qual NÃO DEVEMOS formular doutrinas.

(III) O texto de Ef 4.5, aparentemente e quase certamente se refere ao batismo do Espírito. Se isso for certo, temos então uma declaração explícita de que não existe um batismo posterior e distinto, afinal, “há um só Senhor, uma só fé e um só batismo”.

Mas e quanto às diferenças nos termos? Às vezes a Bíblia fala em batismo com o Espírito e outras vezes em batismo pelo Espírito. A isso respondemos que, caso acepções rígidas de termos devam ser uma pauta interpretativa, então deveríamos considerar como substâncias distintas os termos “coração”, “alma” e “entendimento” em Mateus 22.37; porém, sabemos que esses termos não indicam substâncias diferentes, antes, todos apontam para o aspecto interior do ser humano, sua mente e afeições. Segundo Charles C. Ryrie, é “mais provável que essa frase, usada de maneira pouco frequente e aparentemente técnica, em todas as ocorrências se referisse à mesma atividade [2]”. Eu apenas retiraria o “provável” da afirmação de Ryrie para dizer que CERTAMENTE essa frase, em todas as suas ocorrências, se refere à mesma coisa. O literalismo na interpretação bíblica, com efeito, tem conduzido a graves distorções doutrinárias no pensamento cristão.

Portanto, vemos que o batismo no Espírito é uma bênção comum (1Co 12.13; Ef 4.5), gratuita (1Co 2.12; Ef 2.8,9) e definitiva (2Co 1.21,22; Ef 4.30). Ele posiciona o crente no corpo místico de Cristo e o capacita para o testemunho (At 1.8; 1Co 2.4), para a edificação da igreja (1Co 12.12-20; Ef 2.22) e, gradativamente, restaura no cristão a imagem de Deus para a sua glória (2Co 3.18; Ef 4.24; Cl 3.10).

Implicações da formulação pentecostal da doutrina

Além de a interpretação pentecostal acerca do batismo no Espírito ser essencialmente falha, ela traz algumas implicações perturbadoras para a doutrina cristã.

A primeira delas seria na eclesiologia. Afirmar que existem dois batismos diferentes, um deles comum a todos os crentes e outro reservado a quem o busca com todos os critérios – empíricos – da cartilha pentecostal é pontuar uma linha divisória na única operação divina que visa a união dos que creem em um só corpo. Tendo em mente a figura do Templo de Salomão, Paulo diz:

“Assim, pois, não sois mais estrangeiros, nem forasteiros, antes sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício bem ajustado cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus no Espírito” (Ef 2.19-22).

O batismo no Espírito é precisamente aquilo que nos une mutuamente como cristãos. Neste ponto, algum defensor do pentecostalismo poderia afirmar que sua doutrina não divide a igreja, pois um dos batismos coloca o crente neste corpo. Entretanto, na visão pentecostal, permanece o fato de que, neste corpo, alguns são receptáculos de uma bênção especial e posterior enquanto todos os outros, ou são carnais porque não estão buscando este batismo, ou são carnais porque o estão buscando mas não o receberam ainda por não estarem suficientemente santificados. E para piorar, os que já receberam este batismo, têm o poder para testemunhar de Cristo enquanto os outros não. Devemos ignorar que o único fundamento legítimo para o testemunho cristão é a ressurreição de nosso Senhor (1Co 15.14), e que, uma vez que quem está lendo este artigo não viu o Cristo ressurreto com os próprios olhos mas crê como se tivesse visto, não tem o poder necessário para evangelizar? Devemos estranhar o apóstolo Pedro dizendo aos seus destinatários que mesmo eles não havendo visto Cristo, eles o amavam e nele confiavam exultando com alegria indizível e cheia de glória (1Pe 1.8)? É certo que não! Mas de acordo com a perspectiva pentecostal eles ainda não receberam a “segunda bênção”. Eles creem em Cristo e a ressurreição do Senhor deu novo significado às suas vidas. Mas eles ainda lhes falta algo; eles estão quase lá…!

A segunda implicação desta doutrina pentecostal se dá em uma perigosa afirmação da contemporaneidade dos dons revelatórios ou extraordinários do Espírito Santo. A doutrina pentecostal ensina que, juntamente com o batismo no Espírito, alguns dons são dados ao cristão. E também ensina que dentre esses dons bem podem estar aqueles de natureza revelatória, assim como exibidos pelos apóstolos. Eu deixarei a questão da contemporaneidade para outro artigo, mas aqui é preciso adiantar algo. Ou os dons revelatórios ainda existem e o cânon cristão não está fechado, ou nossa Bíblia está completa, a revelação especial de Deus a nós foi bem-sucedida e, assim, os dons revelatórios cessaram. As duas posições são concorrentes e não podem coexistir. Se Deus, pelo Espírito Santo, ainda fala com seu povo por novas palavras e revelações, então a Escritura não está fechada.

Certo dia, um continuísta, argumentando comigo, disse que as profecias ainda aconteciam, mas consistiam de exortações pessoais e particulares, e jamais traziam novas verdades religiosas ou doutrinais. Ele estava tentando preservar a suficiência da Escritura. Em resposta, eu disse a ele que não importava o conteúdo da profecia, mas o autor. Se é o próprio Deus quem está falando, então as palavras que estamos a ouvir são palavras de Deus. E se são palavras de Deus, então devemos acrescentá-las às nossas Bíblias, e segue-se que nossas Bíblias não estão prontas ainda.

Contudo, a Escritura parece mostrar o contrário. Entre inúmeros textos e uma teologia bem amarrada, eu destaco a passagem de 2Pe 1.3,4:

“Visto como o seu divino poder nos tem dado tudo o que diz respeito à vida e à piedade, pelo pleno conhecimento daquele que nos chamou por sua própria glória e virtude; pelas quais ele nos tem dado as suas preciosas e grandíssimas promessas, para que por elas vos torneis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo.”

Portanto, uma vez que o testemunho de Jesus Cristo é dado pela Escritura (Jo 5.39), é justo dizer que ela é suficiente para a nossa vida e, por consequência, cessaram aqueles dons revelatórios amplamente necessários no primeiro século, quando o cânon cristão não estava ainda fechado.

Finalmente, uma terceira implicação da doutrina pentecostal dos dois batismos, e talvez a mais grave delas, é de natureza soteriológica. No exato momento em que preconizarmos a necessidade de uma segunda bênção, estamos afirmando a insuficiência da obra de nosso Senhor. Observe isto: a obra de Cristo foi determinada na eternidade (Ap 13.8). Na eternidade, Deus se agradou em glorificar seu nome decretando a salvação de alguns por causa dos seus pecados. Deus quis salvar pecadores de sua própria ira escatológica e foi isso que, soberanamente, ele fez, e o fez por meio de Cristo. Isso faz com que o sacrifício de Cristo e sua glória resultante seja nada menos que o CENTRO DA MENTE E DOS PROPÓSITOS ETERNOS DE DEUS! Pela obra expiatória de Cristo um eleito seria salvo. Ele seria salvo! Isso não é pouca coisa! A magnitude da obra de Cristo e a grandeza incontornável da consequência dessa obra para o pecador que foi salvo deveria nos fazer rejeitar qualquer ensino que pregue a necessidade de algo a mais para cristão. Um pecador que foi salvo e, assim, batizado no Espírito Santo, já recebeu tudo! Não há mais nada para ele pelo simples fato de que não há nada maior a ser recebido do que o perdão de Deus e sua amizade. Justamente por isso o apóstolo Paulo foi capaz de dizer aos efésios: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo” (Ef 1.3). Deus não apenas nos abençoou em Cristo, mas [já] abençoou com TODAS as bênçãos espirituais naquele que nos comprou para sermos seus.

Isso significa que não há uma “segunda bênção” a ser desejada pelo cristão. Que outra bênção ele poderia querer além da amizade com Deus? Dizer que fomos regenerados, mas precisamos de algo a mais é escarnecer da obra de Cristo, que foi toda suficiente. Nele recebemos todas as bênçãos espirituais. Não há outra a ser almejada.

Assim, podemos concluir que a doutrina pentecostal do batismo no Espírito como uma segunda bênção deve ser enfaticamente rejeitada. É certo que o pentecostalismo não fere nenhuma doutrina cardeal do cristianismo. É certo que há muitos pentecostais (entre os quais alguns são amigos meus) piedosos e verdadeiramente servos de Cristo. É também certo que o pentecostalismo está, gradativamente, gerando expoentes inteligentes, canais para a promoção de uma perspectiva mais saudável e cristocêntrica de sua fé [3]. Mesmo assim, a doutrina pentecostal dos dois batismos é deveras débil e, visto que trás implicações ruins para a teologia cristã, deve ser rechaçada.

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Notas
1. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 1627
2. RYRIE, Charles C. Teologia Básica. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. p. 422
3. Um destes expoentes, que alegremente menciono, é o Gutierres Fernandes Siqueira, do site Teologia Pentecostal.

Fonte: Teologia Expressa

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A Obra do Espírito Santo na Regeneração

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(Por John Owen)

A obra do Espírito Santo na regeneração de almas precisa ser estudada e claramente compreendida pelos pregadores do evangelho, e por todos aqueles a quem a Palavra de Deus é pregada. É pelos verdadeiros pregadores do evangelho que o Espírito Santo regenera as pessoas (1Cor 4:15; Fm 10; At 26: 17,18). Por isso, todos aqueles que pregam o evangelho precisam conhecer totalmente a regeneração para que possam com Deus e o Seu Espírito trazer almas ao “novo nascimento”. É também dever de todos os que ouvem a Palavra de Deus estudar e entender a regeneração (2Cor 13:5).

O grande trabalho do Espírito Santo é a obra de regeneração (Jo 3:3-6). Certa noite Nicodemus, um mestre de Israel, veio até Jesus, que lhe disse: “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. (…) O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito”. O nosso Senhor tendo o conhecimento de que a fé e a obediência a Deus, e a nossa aceitação da parte de Deus, dependem de um novo nascimento, fala a Nicodemus do quão necessário é nascer de novo. Nicodemus fica surpreso com isso, e assim Jesus segue adiante a ensinar-lhe que obra de regeneração é esta. Ele diz: “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (v.5).

A regeneração, portanto, ocorre por meio “da água e do Espírito”. O Espírito Santo faz a obra de regeneração na alma do homem, da qual a água é o sinal exterior. Este símbolo externo é um solene compromisso e selo do pacto que até então lhes vinha sendo anunciado por João Batista. A água pode também significar o próprio Espírito Santo.

João nos fala que todos aqueles que receberam a Cristo só o fizeram por terem nascido de Deus (Jo 1:12,13). Nem a hereditariedade, nem a vontade do homem podem produzir um novo nascimento. A obra como um todo é atribuída tão-somente a Deus (veja também Jo 3:6; Ef 2:1,5; Jo 6:63; Rm 8:9,10; Tt 3:4-6).

É sempre importante lembrar que toda a Trindade está envolvida nesta obra de regeneração. Ela se origina na bondade e no amor de Deus como Pai (Jo 3:16; Ef 1:3-6), da Sua vontade, propósito e conselho. É uma obra do Seu amor e graça. Jesus Cristo nosso Salvador a adquiriu para pecadores (Ef 1:6). Mas o verdadeiro “lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” nas nossas almas é obra do Espírito Santo (Tt 3:4-6).

Todavia o meu presente objetivo é confirmar os princípios fundamentais da verdade concernente a essa obra do Espírito Santo que vêm sendo negados e combatidos.

A regeneração no Velho Testamento

No Velho Testamento a obra de regeneração ocorria desde a fundação do mundo, e foi registrada nas Escrituras. Contudo o seu conhecimento era muito vago comparado ao conhecimento que temos dela no evangelho.

Nicodemus, um importante mestre de Israel, declarou a sua ignorância quanto a isso. “Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez?”. Cristo maravilhou-se de que um mestre de Israel não conhecesse esta doutrina da regeneração. Estava nitidamente declarado nas promessas especificas do Velho Testamento, como também em outras passagens (conforme veremos), que Deus haveria de circuncidar os corações do Seu povo, tirar-lhes o coração de pedra e dar-lhes um coração de carne. Em sua ignorância os mestres de Israel imaginavam que a regeneração significava apenas uma reforma de vida. De modo semelhante muitos hoje consideram a regeneração como nada mais que o esforço para se levar uma vida moral. Mas se a regeneração significar nada mais do que se tornar um novo homem moral — algo a que todos, tanto mais ou menos, recomendam — dessa forma o nosso Senhor Jesus Cristo, bem mais do que esclarecer a Nicodemus sobre esta questão, a obscureceu mais ainda.

O Novo Testamento ensina claramente que o Espírito Santo faz uma obra secreta e misteriosa nas almas dos homens. Agora, se esta obra secreta e misteriosa for na verdade apenas uma reforma moral que capacita os homens a viverem melhor, se for apenas um convencimento externo para abandonar o mal e se fazer o bem, então, a doutrina da regeneração ensinada por Cristo e todo o Novo Testamento, é definitivamente incompreensível e sem sentido.

A regeneração e a doutrina da regeneração existiram no Velho Testamento. Os eleitos de Deus, de qualquer geração, nasceram de novo pelo Espírito Santo. Mas antes da vinda de Cristo, todas as coisas dessa natureza, estavam “desde o princípio do mundo, ocultas em Deus” (Ef 3:9 — tradução literal NKJV).

Mas agora chegou o grande médico, aquele que haveria de curar a terrível ferida das nossas naturezas pela qual estávamos mortos em nossos “delitos e pecados”. Ele abre a ferida, mostra-nos o quão é terrível e revela a situação de morte que ela trouxe sobre nós. Ele assim o faz para que sejamos verdadeiramente agradecidos quando nos curar. Assim pois, nenhuma doutrina é mais completa e claramente ensinada no evangelho do que esta doutrina da regeneração.

Quão corrompidos, portanto, são os que a negam, desprezam e rejeitam.

A constante obra do Espírito

Os eleitos de Deus não eram regenerados de uma maneira no Velho Testamento e de outra completamente diferente, pelo Espírito Santo, no Novo Testamento. Todos eram regenerados de um mesmo modo pelo mesmo Espírito Santo. Aqueles que foram milagrosamente convertidos, como Paulo, ou que em suas conversões lhes foram concedidos dons miraculosos, como muitos dos cristãos primitivos, não foram regenerados de um modo diferente de nós mesmos, que também temos recebido esta graça e privilégio.

Os dons miraculosos do Espírito Santo nada tinham a ver com a Sua obra de regeneração. Não eram a comprovação de que alguém havia sido regenerado. Muitos dos que possuíram dons miraculosos jamais foram regenerados; outros que foram regenerados jamais possuíram dons miraculosos.

É também o cúmulo da ignorância supor que o Espírito Santo no passado regenerava pecadores miraculosamente, mas que agora Ele não o faz de modo milagroso, mas por persuadir-nos que não é razoável que não nos arrependamos dos nossos pecados.

Jamais cairemos neste erro se considerarmos o seguinte:

a) A condição de todos os não-regenerados é exatamente a mesma. Uns não são mais não-regenerados que outros. Todos os homens são inimigos de Deus. Todos estão sob a Sua maldição (Sl 51:5; Jo 3:5, 36; Rm 3:19; 5:15-18; Ef 2:3; Tt 3:3-4).

b) Há variados níveis de malignidade nos não-regenerados, assim como há diversos níveis de santidade entre os regenerados. Todavia o estado de todos os não-regenerados é o mesmo. Todos carecem de que se faça neles a mesma obra do Espírito Santo.

c) O estado a que os homens são trazidos pela regeneração é o mesmo. Nenhum é mais regenerado do que outro, contudo uns podem ser mais santificados que outros. Aqueles gerados por pais naturais nascem de um mesmo modo, embora alguns logo superem os outros em perfeições e habilidades. O mesmo também ocorre com todos os que são nascidos de Deus.

d) A graça e o poder pelos quais esta obra de regeneração é operada em nós são os mesmos. A verdade é que aqueles que desprezam o novo nascimento, fazem-no porque desprezam a nova vida. Aquele que odeia a ideia de viver para Deus, odeia a ideia de ser nascido de Deus. No final, entretanto, todos os homens serão julgados por esta pergunta: “Você nasceu de Deus?”.

A compreensão errada sobre a regeneração

Em primeiro lugar regeneração não é meramente ser batizado e dizer: “eu me arrependi”. A água do batismo é apenas um sinal externo (1Pe 3:21). A água mesmo só pode molhar e lavar alguém da “imundícia da carne”. Mas como um sinal exterior ela significa “uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo” (1Pe 3:21. Veja Hb 9:14; Rm 6:3-7). O apóstolo Paulo faz claramente a distinção entre a ordenança exterior e o ato de regeneração em si mesmo (Gl 6:15). Se batismo acompanhado de confissão de arrependimento for regeneração, então todos aqueles que foram batizados e se confessaram arrependidos têm de ser regenerados. Mas é claro que isso não é assim (veja At 8: 13, 21, 23).

Em segundo lugar a regeneração não é uma reforma moral da vida exterior e do comportamento. Por exemplo, suponhamos uma tal reforma exterior pela qual alguém volta-se de fazer o mal para fazer o bem. Deixa de roubar e passa a trabalhar. Não obstante, haja o que houver de justiça real nessa mudança moral exterior de comportamento, ela não procede de um novo coração e de uma nova natureza que ama a justiça. É tão-somente pela regeneração que um corrupto e pecaminoso inimigo da justiça pode ser trazido a amá-la e a deleitar-se em praticá-la. Há os que escarnecem da regeneração como sendo inimiga da moralidade, justiça e reforma, mas um dia hão de descobrir o quanto estão errados.

A ideia de que a regeneração nada mais é do que uma reforma moral da vida, procede da negação do pecado original e do fato de sermos maus por natureza. Se não fôssemos maus por natureza, se fôssemos bons no fundo do nosso coração, então não haveria necessidade de nascermos de novo.

A regeneração não produz experiências subjetivas

A regeneração nada tem a ver com enlevos extraordinários, êxtases, ouvir vozes celestiais ou com qualquer outra coisa do tipo. Quando o Espírito Santo faz a Sua obra de regeneração nos corações dos homens, Ele não vem sobre eles com grandes e poderosos sentimentos e emoções aos quais não podem resistir.

Ele não se apodera dos homens como os maus espíritos se apossam das suas vitimas. Toda a Sua obra pode ser racionalmente compreendida e explicada por todo aquele que crê na Escritura e recebeu o Espírito da verdade que o mundo não pode receber. Jesus disse a Nicodemus: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai”, assim é com a obra de regeneração do Espírito Santo.

A natureza da regeneração

Regeneração é colocar na alma uma nova lei de vida que é verdadeira e espiritual, que é luz, santidade e justiça, que leva à destruição de tudo o que odeia a Deus e luta contra Ele. A regeneração produz uma milagrosa mudança interior do coração. “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura”. A regeneração não se dá pelos sinais exteriores de uma mudança moral do coração e é muito distinta deles (Gl 5:6; 6:15).

A regeneração é um ato onipotente de criação. Um novo princípio ou lei é criado em nós pelo Espírito Santo (Sl 51:10; Ef 2:10). Esta nova criação não é um novo hábito formado em nós, mas uma nova capacidade e faculdade. É chamada, portanto, de “natureza divina” (2Pe 1:4). Esta nova criação é o revestir de uma nova capacidade e faculdade criada em nós por Deus e que traz a Sua imagem (Ef 4:22-24).

A regeneração renova as nossas mentes. Ser renovado no espírito de nossas mentes significa que as nossas mentes possuem agora uma nova e salvadora luz sobrenatural que as capacita a pensarem e a agirem espiritualmente (Ef 4:23; Rm 12:2). O crente é renovado em “conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3:10).

O novo homem

Esta capacidade e faculdade nova produzida em nós pela regeneração é chamada de “novo homem”, porque envolve uma completa e total mudança da alma, de onde procede toda ação espiritual e moral (Ef 4:24). Este “novo homem” é contraposto ao “velho homem” (Ef 4:22,24). Este “velho homem” é a nossa natureza humana corrompida que tem a capacidade e faculdade de produzir pensamentos e atos malignos. O “novo homem” está capacitado e habilitado a produzir atos religiosos, espirituais e morais (Rm 6:6). Denomina-se de “novo homem” porque é uma “nova criação de Deus” (Ef 1:19; 4:24; Cl 2:12, 13; 2Ts 1:11).

Este “novo homem” é criado de imediato, num átimo. É por isso que a regeneração não pode ser uma mera reforma de vida, que é o trabalho de toda uma vida (Ef.2:10). É a obra de Deus em nós que antecede todas as nossa obras para com Deus. Somos feitura de Deus, criados para produzir boas obras (Ef 2:10).

Assim pois não podemos produzir boas obras aceitáveis a Deus sem que primeiro Ele produza esta nova criação em nós. Está dito que este “novo homem” é “criado segundo Deus [i.e., à Sua imagem], em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4:24). A imagem de Deus no primeiro homem não foi uma reforma de vida. Nem foi um padrão de bom proceder. Adão foi criado à imagem de Deus antes que fizesse qualquer boa obra. Esta imagem de Deus era a capacidade e faculdade dada a Adão para viver uma vida tal que manifestasse verdadeiramente o caráter santo e justo de Deus. Tal capacidade e faculdade foi dada a Adão antes mesmo dele começar a viver para Deus. É verdadeiramente indispensável que o mesmo ocorra também conosco. Primeiro, a imagem de Deus, a qual é o “novo homem”, é novamente criada em nós. Então podemos começar mais uma vez a apresentar em nossas vidas o caráter santo e justo de Deus (Lc 6:43; Mt 7:18).

A aliança de Deus

Deus já nos tem dito como nos trata em Sua aliança (Ez 36:25-27; Jr 31:33; 32:39,40). Ele primeiro lava e limpa a nossa natureza; arranca o nosso coração de pedra e dá-nos um coração de carne; escreve as Suas leis em nossos corações e coloca o Seu Espírito em nós para nos capacitar a guardar essas leis. É isso o que significa regeneração. Que também é descrita como o santificar, o tornar santo todo nosso espírito, alma e corpo (1Ts 5:23).

Comprovado pela Escritura

O Espírito Santo não opera de qualquer outro modo senão por aquilo que nos mostra a Escritura. Tudo que alega ser obra de regeneração Sua, precisa ser comprovado pela Escritura. O Espírito Santo, por ser onisciente, conhece as nossas naturezas perfeitamente, e por isso sabe com exatidão como operar nelas sem as ferir ou danificar, sem forçá-las de modo algum a concordar com a Sua vontade.

A pessoa ao ser regenerada, jamais, em momento algum, sente que está sendo malignamente forçada contra a sua vontade. A despeito disso, muitos que são verdadeiramente regenerados têm sido tratados pelo mundo como se fossem loucos, ou algum tipo de fanático religioso (2Rs 9:11; Mc 3:21; At 26:24, 25).

A obra do Espírito Santo na regeneração de almas precisa ser estudada e claramente compreendida pelos pregadores do evangelho, e por todos aqueles a quem a Palavra de Deus é pregada. É pelos verdadeiros pregadores do evangelho que o Espírito Santo regenera as pessoas (1Cor 4:15; Fm 10; At 26: 17,18). Por isso, todos aqueles que pregam o evangelho precisam conhecer totalmente a regeneração para que possam com Deus e o Seu Espírito trazer almas ao “novo nascimento”. É também dever de todos os que ouvem a Palavra de Deus estudar e entender a regeneração (2Cor 13:5).

A regeneração foi-nos revelada por Deus (Dt 29:29). Assim pois não estudar nem tentar compreender esta grande obra é revelar a nossa própria estultícia e loucura. Enquanto não tivermos nascido de Deus nada poderemos fazer que Lhe agrade, nem obtemos dEle quaisquer consolações, e nada somos capazes de entender a Seu respeito ou sobre o que Ele está realizando no mundo.

Há o grande perigo de que os homens possam estar enganados quanto à regeneração e que estejam, portanto, eternamente perdidos. Crendo erroneamente que podem obter o céu sem que lhes seja necessário nascer de novo, ou que havendo nascido de novo podem continuar a levar uma vida pecaminosa. Tais opiniões contradizem claramente o ensinamento do nosso Senhor e dos apóstolos (Jo 3:5; 1Jo 3:9).

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Fonte: Jornal Os Puritanos – Ano X – No 04 – Out./Nov./Dez./2002
Extraído do Livro “O Espírito Santo”, do teólogo puritano John Owen (O Príncipe dos Puritanos), publicado pela Banner Of Truth, cap 8, pg 43-51. Adaptado das suas obras para uma linguagem contemporânea por R.J.K. Law.
Via: Monergismo

A Obra do Espírito Santo na Reencarnação

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(Por Leonardo Dâmaso)

Texto base: Hebreus 10.5

1. A preparação do corpo de Jesus

A criação dos céus e da terra foi um ato da divindade. Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo estiveram ativos em todo o processo. Cada um deles teve o seu papel especifico na realização deste trabalho.

Podemos salientar que Deus Pai foi quem “arquitetou” a criação – aquele que planejou todos os detalhes; Deus Filho foi quem “executou” o plano da criação – aquele que esteve presente trabalhando em todo o processo; e, finalmente, Deus Espírito Santo foi o “decorador” da criação – ou seja, poeticamente falando, aquele que “embelezou” os céus e a terra e tudo que nela há com a sua glória.

Portanto, a criação foi um trabalho da divindade, porém com diferentes tarefas realizadas por Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.

Todavia, na preparação do corpo humano de Jesus para a encarnação, não temos somente o ato do Espírito Santo, mas da divindade. Deus Pai e o próprio Deus Filho também cooperaram neste ato. Cada pessoa da trindade teve a sua participação.

Deus Pai foi quem planejou a encarnação e providenciou todo o material do corpo humano de Jesus, como a criação de sua alma humana e todas as suas vocações. Deus filho foi quem coordenou o trabalho de sua encarnação; e Deus Espírito Santo foi quem concluiu e manifestou este ato divino, a saber, o Deus Filho “encarnado”, o Deus-homem ao mundo.

O Espírito foi o autor da concepção de Jesus no ventre de Maria (Mt 1.18). A concepção da natureza humana de Cristo no útero de Maria foi um ato miraculoso do Espírito Santo (Lc 1.35).

2. Os elementos que constituem a pessoa de Cristo

a) A sua natureza humana

Os teólogos de Westminster acentuaram a substância humana que Jesus herdou de Maria, a qual é o fundamento psico-somático de sua verdadeira natureza humana. Sendo assim, o Catecismo Maior de Westminster enfatiza os dois elementos constituintes da natureza humana de Cristo – o seu corpo e a sua alma, da seguinte maneira:

“Cristo, o Filho de Deus, fez-se homem tomando para si um verdadeiro corpo e uma alma racional, sendo concebido pelo poder do Espírito Santo no ventre da Virgem Maria, da sua substância e nascido dela, mas sem pecado” (P.37).

Donald Macleod escreve cientificamente acerca da verdadeira humanidade de Cristo Jesus, porém em uma linguagem elucidativa e acessível. Ele ressalta:

“Através do cordão umbilical [que ligava Maria ao ente santo que estava nela] ele é este homem específico, o filho dessa mulher específica, o portador de toda a história genética prévia do seu povo e o recipiente de inumeráveis aspectos hereditários. Ele era o genótipo singular exatamente porque ela contribuiu ao menos com metade dos seus cromossomos (como qualquer mãe humana faria). Como o restante apareceu, permanece um mistério. A única certeza é que Maria não poderia sozinha contribuir com o cromossomo Y que determina o sexo, que é sempre proporcionado pelo pai biológico. Esse cromossomo, ao menos, deve ter sido proporcionado de maneira miraculosa; e permanece possível que todos os cromossomos normalmente derivados do pai tenham sido providenciados dessa maneira, [sendo] o ato divino que fertilizou o óvulo simultaneamente criou vinte e três cromossomos complementares àqueles derivados da mãe”.[1]

Esta substância humana que Jesus herdou de Maria possui duas partes – uma material e outra imaterial. A primeira parte é o que podemos chamar de um corpo verdadeiro, e a segunda parte seria a alma [ou espírito] racional. Portanto, estes dois elementos constituem a natureza humana de Cristo, o nosso redentor.

Todavia, a concepção de Cristo está vinculada com o fato de Maria ser virgem e não ter mantido relacionamento sexual com José até que ele nascesse (Mt 1.25). Desse modo, a unipersonalidade do Deus Filho só pôde acontecer através da concepção virginal.

Se houvesse a fecundação de um homem no ventre de Maria, certamente nasceria uma pessoa humana, e Jesus acabaria possuindo esta pessoa na encarnação. Assim, teríamos um Redentor com dupla personalidade.

Quando um ser é concebido, uma pessoa vem à existência. Entretanto, quando a pessoa de Cristo, que sempre existiu, compartilha da nossa humanidade, ele adota uma natureza humana tornando-se, assim, não um ser bi-pessoal, mas um ser unipessoal.

Não temos duas pessoas em Jesus, uma humana e outra divina, mas uma pessoa com duas naturezas – uma divina e outra humana. Na concepção de Jesus, uma nova pessoa não veio a existir, como vemos em outros nascimentos; antes, como Deus que é e que sempre existiu, ele uniu-se a uma natureza humana.

A encarnação do Verbo através de uma mulher virgem é que tornou possível o nascimento deste ser que é unipessoal, e não bi-pessoal. Se o Deus Filho possuísse um ser humano gerado de pais humanos, haveria, então, dois seres dentro de Maria – um divino e um humano.

No entanto, foi através da atuação do Espírito Santo em uma mulher virgem que produziu um Redentor sem pecado e unipessoal, possuindo uma natureza divina que procedeu da segunda pessoa da Trindade, e uma natureza humana que procedeu de sua mãe biológica, Maria.

Com isso, entendemos que “não haveria a possibilidade de haver um Redentor com duas naturezas numa só Pessoa (a do Verbo divino) sem a intervenção sobrenatural do Espírito Santo em Maria causando a unio personalis”.[3]

Por outro lado, a ideia herética de que Jesus não possuía um corpo humano sempre esteve presente na história da igreja. Desde os primeiros séculos, a teologia cristã foi bastante influenciada pelo pensamento grego de que a matéria é inerentemente má e inferior ao espírito.

De acordo com este pensamento, se Jesus tivesse um corpo humano, ele poderia estar ligado ao pecado. Logo, ao querer preservar a divindade de Cristo do pecado, as ramificações que cometeram as heresias cristológicas, como o gnosticismo, docetismo, ebionismo, apolinarismo e o arianismo, acabaram negando a sua humanidade plena e verdadeira; ou seja, que Jesus possuía tanto um corpo humano quanto uma alma humana (veja Cl 2.9; 1Jo 1.1; 4.1-3; Lc 24.39; Jo 20.27).

Portanto, os reformadores tiveram o cuidado de ensinar a cristologia correta em seus epítomes teológicos, especialmente quando refutaram alguns anabatistas com ideias docéticas [4] no século 16.

Tendo observado algumas informações sobre a natureza humana do Deus Filho e a sua encarnação, acredito ser de vital importância esboçar alguns exemplos na Escritura que ratificam a sua humanidade. Vejamos:

i. JESUS SENTIA CANSAÇO João 4.6 – “Havia ali o poço de Jacó. Jesus, cansado da viagem, sentou-se à beira do poço. Isto se deu por volta do meio-dia.” (NVI)

Conforme é relatado por João, após uma viagem sob o sol causticante do meio dia, Jesus, cansado, senta-se à beira de um poço de água para descansar. As viagens que Jesus fazia exigiam bastante esforço físico. Ele não poderia beneficiar-se dos confortos da sociedade moderna de sua época e viajar à cavalo ou em carruagens.

Ele não tinha dinheiro para um conforto dessa natureza, que, por sinal, só as pessoas bem sucedidas financeiramente poderiam usufruir. As viagens evangelísticas de Jesus e dos discípulos eram feitas a pé.

Embora Jesus fosse verdadeiramente Deus, todavia, ele também era verdadeiramente homem e se cansava sempre que se esforçava fisicamente em alguma atividade quotidiana. Jesus era passível de limitações referente ao vigor físico, por isso ele precisava de descanso para se recompor. Vejamos o que diz o outro texto em pauta: Marcus 4.35-38a – “Naquele dia, ao anoitecer, disse ele aos seus discípulos: Vamos atravessar para o outro lado. Deixando a multidão, eles o levaram no barco, assim como estava. Outros barcos também o acompanhavam. Levantou-se um forte vendaval, e as ondas se lançavam sobre o barco, de forma que este foi se enchendo de água. Jesus estava na popa, dormindo com a cabeça sobre um travesseiro.” (NVI)

Após um dia extenuado de trabalho ensinando, pregando, curando e operando milagres, Jesus, no barco mesmo, longe das multidões, aproveitou a noite, que era praticamente o único período que tinha para dormir e descansar. Por assumir na sua encarnação os atributos que pertencem à natureza humana, Jesus também precisava dormir. O cansaço não é produto do seu estado de humilhação, mas de sua limitação como homem que era.

ii. JESUS TINHA SEDE

João 4.7 – “Então veio uma mulher samaritana tirar água. E Jesus lhe disse: Dá-me um pouco de água.” (Almeida Século 21)

Depois de um longo período de caminhada pelas estradas poeirentas da Galiléia, debaixo do sol escaldante do meio dia, Jesus senta-se à beira de um poço para descansar da viagem. Em seguida, uma mulher aparece para tirar água do poço e, vendo a mulher, Jesus diz: Dá-me um pouco de água.

A sede é o resultado natural e direto do cansaço provocado por alguma atividade física intensa no qual o corpo se expôs. Nesse caso, Jesus sentiu sede porque havia viajado a pé com seus discípulos por longas horas em estradas poeirentas sobre um calor descomunal.

Quando o corpo é exposto a grandes esforços, ele precisa dessedentar-se. A água é a mais importante substância que o homem ingere para continuar a viver. O ser humano pode ficar um tempo maior sem comer, mas não sem beber. A sede não é simplesmente o produto do cansaço; a água é necessária para a manutenção do nosso corpo. Deus nos fez com essa característica que aponta para a nossa limitação.[4]

Mesmo no estado de glorificação, nós, seres humanos, teremos sede. A sede é algo típico que pertence a seres finitos que carecem de subsistência. Quando a terra for restaurada por Deus, as mesmas coisas estabelecidas por Ele no Éden antes da queda serão trazidas de volta, fazendo, assim, parte do nosso quotidiano. Iremos comer e beber como já fazemos aqui neste mundo.

iii. JESUS SENTIA FOME

Mateus 4.2 – “E depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.” (ARA) A fome é um sintoma fisiológico pelo qual o corpo percebe que necessita de alimento para manter-se vivo. “Todos os movimentos dos nossos órgãos, sejam eles voluntários ou involuntários, gastam energia e, consequentemente, exigem alimento para que a energia gasta seja reposta. O gasto de energia tem de ser reposto somente em seres com a natureza finita”.[5] Indelevelmente, Jesus, além de sentir sede, também sentia fome porque possuía uma natureza humana que é finita. Após permanecer em jejum durante quarenta dias, mesmo não fazendo nenhum tipo de exercício físico que exigisse muito esforço de sua parte, é bem provável que Jesus houvesse perdido quase todas as suas forças.

Os próprios movimentos dos órgãos interiores (que geralmente executam movimentos involuntários, como o batimento do coração, o esforço do músculo diafragma ao encher os pulmões de ar, e outros) consumiam a energia do nosso Redentor. Some-se a isso o movimento dos membros exteriores (como braços, pernas etc.) que são voluntários; sem dúvida, a energia que se gasta todos os dias para a subsistência do corpo humano requer uma boa alimentação.[6] À semelhança de Jesus, Moisés também ficou quarenta dias e quarenta noites sem comer e sem beber água no monte Horebe (Ex 34.28). Elias também caminhou quarenta dias sem comer e sem beber água até o mesmo monte (1Rs 19.8). Contudo, entendemos que no deserto Jesus não precisou do suporte da natureza divina para resistir os quarenta dias e quarenta noites sem comer. Moisés e Elias também ficaram este período sem comer e, especialmente, sem beber água, que, segundo a medicina, são fatos raros de acontecer e que depende muito da resistência de cada um, pois geralmente o corpo humano suporta a falta de água por cerca de 5 dias. Após este período, podem ocorrer graves problemas de saúde que podem levar a pessoa ao óbito. No entanto, Jesus, Moisés e Elias certamente receberam algum auxílio divino para suportar ficar sem comer e beber durante 40 dias. Portanto, Jesus sentiu fome após um período significativo de abstinência de alimento, o que é absolutamente normal, pois ele possuía limitações como qualquer outro ser humano possui.

iiii. JESUS É LIMITADO PELO ESPAÇO

Todo ser corpóreo está limitado a um espaço e não pode fugir ou se locomover dele para outro espaço ao mesmo tempo. Se Jesus fosse somente divino, ele, então, não seria limitado pelo espaço, porque antes de o espaço vir a existir ele já existia.

Quando o verbo, que é Jesus, se encarnou assumindo a natureza humana, tivemos um Redentor não divino e humano, mas um Redentor divino-humano. A natureza humana de Jesus possui um corpo e um espírito humano com características próprias de um ser finito.

Tanto a natureza divina quanto a natureza humana de Cristo, depois de unidas pela encarnação, ocupam espaço de forma limitada como é próprio de seres finitos. Embora a natureza humana de Jesus possa ter adquirido certas propriedades que desconhecemos, todavia, ela ainda se movia no espaço.

Jesus se deslocava de um lugar para outro. É por causa disso que ele não somente aparecia como também desaparecia. Podemos chamar este fato de deslocamento espacial (veja Jo 20.26).

É absolutamente natural e próprio de seres finitos moverem-se no espaço. Os seres espirituais como anjos ou demônios, por exemplo, também se locomovem no espaço porque não possuem o atributo de onipresença, isto é, a capacidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

Deus não é limitado nem tampouco encerrado pelo espaço. Ele, como um espírito infinito, é o único que possui esta capacidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo com todo o seu ser.

No caso de Jesus, ele não é somente Deus, mas também é homem. Sendo assim, ele estará para sempre limitado pelo espaço conforme a sua natureza humana que está localizada no céu à direita do Pai.

O céu, apesar de ser um lugar invisível e imaterial onde seres espirituais e intangíveis habitam, é também um lugar físico porque Jesus está presente lá com a sua natureza humana, e a sua natureza divina presente em todos os lugares do espaço.

b) A sua alma racional

O corpo não perfaz a natureza humana. Por isso era imprescindível que Jesus tivesse uma natureza humana completa. Visto que era verdadeiramente humano, ele também possuía uma alma, que é a parte imaterial do homem.

A expressão alma racional revela certa apreensão apologética dos teólogos que formularam a Confissão de Fé de Westminster, a qual combate equívocos teológicos e heresias antigas ainda presentes na mente de muitos cristãos com relação à pessoa de Cristo Jesus, o redentor dos eleitos de Deus. Por isso, os teólogos de Westminster inseriram na Confissão de Fé a expressão alma racional para designá-la como parte essencial da natureza humana do Deus Filho encarnado.

A alma humana é constituída de algumas propriedades que também havia na alma de Jesus Cristo. Senão vejamos:

i. Ele possuía uma mente humana

Jesus possuía uma mente como a de qualquer outro homem. “Sua mente possuía percepção, lógica, desenvolvimento de ideias e assimilação de conceitos e informações”.[7] Conforme é dito em Lucas 2.52a sobre a infância de Jesus, ele crescia em sabedoria.

Este texto não descreve um fato pertencente à natureza divina de Jesus – a sua mente divina, mas a sua natureza humana, ou seja, faz referência a sua mente humana. A mente divina não precisa se desenvolver em sabedoria; antes, Lucas relata que a mente humana de Jesus crescia gradativamente à medida que recebia informações e observava o que estava acontecendo na vida cotidiana.

Não obstante, um fato interessante que merece ser destacado é que a mente humana de Jesus não podia conhecer o que era exclusivo da mente divina. Vejamos um exemplo disso na Escritura:

Marcos 13.32 – Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem os anjos do céu, nem o Filho, senão somente o Pai. (ARA)

Por razões que não foram reveladas na Escritura, a mente divina do Deus Filho encarnado não revelou à sua mente humana [pelo menos até aquele período do seu estado de humilhação] a data da sua segunda vinda ao mundo. A mente humana de Jesus não era onisciente como é a mente divina.

A mente humana de Jesus não era capacitada a conhecer eventos futuros como a mente divina conhecia, exceto se a mente humana recebesse algum tipo de informação da mente divina, ou algum tipo de auxílio através de uma ação do Espírito Santo nela.

Um exemplo de que a mente divina revelou a mente humana de Cristo um fato pode ser visto no caso de Natanael, um dos apóstolos. Antes que ele se aproximasse de Jesus para o conhece-lo pessoalmente, ele já sabia como era o caráter de Natanael (Jo 1.47).

A mente divina, que sabe e perscruta todas as coisas, e que integrava a personalidade de Cristo, reproduziu informações pertencentes ao caráter de Natanael à mente humana. Estas informações, por sua vez, foram comunicadas aos outros discípulos que estavam perto dele.

Outro exemplo é o evento da grande pesca realizada pelos apóstolos quando ainda eram discípulos de Jesus e exerciam a profissão de pescadores. Lucas relata que Jesus sabia que, se eles lançassem a rede numa determinada parte do lago, haveriam de colher muitos peixes. Jesus sabia o lugar exato em que se encontrava o cardume. Como pescadores experientes que eram os apóstolos não conseguiram detectar a localização dos peixes (Lc 5.1-7).

Esse conhecimento que Jesus teve é exclusivo da mente divina que foi transmitido à sua mente humana. Não é característico da mente humana esse tipo de conhecimento, porém, quando recebeu essa informação da mente divina, a mente humana de Cristo informou a localização exata do cardume nas profundezas das águas. Sem a revelação da mente divina, a mente humana jamais poderia descobrir este fato.

ii. Ele possuía emoções humanas

As emoções fazem parte da constituição da natureza humana. Não somente os homens, mas também Deus, os anjos e o próprio Jesus, como Deus homem que é sentia emoções. Senão vejamos:

1. Jesus esboçou ALEGRIA ao proferir as palavras descritas em João 15.11 e na oração sacerdotal, em João 17.13.

2. Jesus demonstrou ENCANTAMENTO pela fé que encontrou no centurião de Carfanaum, em Mateus 8.10.

3. Jesus teve COMPAIXÃO por um homem discriminado pela sociedade da época por ser leproso (Mc 1.40-41; veja outro exemplo similar em 6.34).

4. Jesus manifestou TRISTEZA ao ver Maria, sua família e os amigos chorando e lamentando pela morte de Lázaro (Jo 11.33-35).

iii. Ele possuía vontade humana

Mateus 26.39 – E, adiantando-se um pouco, prostou-se com o rosto em terra e orou: Meu Pai, se possível, afasta de mim este cálice, todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres. (Almeida Século 21)

Heber Carlos de Campos escreve:

Podemos ver perfeitamente duas vontades em questão: a divina e a humana, embora não na mesma pessoa. Lemos aqui que a divina é claramente a do Pai, enquanto que a outra vontade certamente é a vontade humana de Cristo. A vontade divina é a mesma nas três Pessoas da Trindade, porque todas elas possuem a mesma natureza divina. Todavia, somente o Filho encarnado possui a vontade humana, não as outras Pessoas da Trindade, porque a vontade humana se deve ao fato de ter ele assumido a natureza humana. Assim como as duas naturezas em Cristo pensam de modo diferente, sentem de modo diferente, também as volições são diferentes. Contudo, não há conflito na pessoa divino humana de Cristo. Sempre a vontade divina terá preeminência sobre a vontade humana, sendo esta última sempre submissa à primeira.[8]

As duas vontades em Cristo eram distintas e inseparáveis, mas elas sempre estiveram em harmonia, pois a vontade humana era invariavelmente subordinada à vontade divina.

iiii. Ele possuía senso moral

Outra característica que faz parte da natureza humana, e que difere os homens dos animais, é o senso moral. Todos os homens – quer sejam cristãos ou não, possuem o mínimo de senso moral. Contudo, Jesus é enfatizado nas Escrituras por ter um senso moral absolutamente irrepreensível em virtude de sua total santidade.

Por Cristo ter seu senso moral qualificado pela sua santidade, seria peremptoriamente impossível Ele permanecer indiferente e sem ação ao se deparar com erros morais de outrem.

“O senso moral envolve, não obstante, a capacidade de julgar o que é certo do errado, mas essa capacidade se torna cada vez maior à medida que um ser racional é santificado. Jesus Cristo era santo em sua natureza humana, e por isso tinha a capacidade plena de fazer julgamentos absolutamente corretos”.[9]

Finalmente, ao confrontar os pecados dos homens, Jesus esboçou algumas emoções. Vejamos apenas duas delas:

1. Jesus demonstrou IRA contra aqueles que estavam fazendo do templo, que era um lugar de adoração e culto a Deus naquela época, um comércio (Jo 2.15-17).

2. Jesus ficou INDIGNADO com a ausência de compaixão e amor pelo próximo por parte dos líderes religiosos hipócritas e legalistas em uma sinagoga, num dia de sábado, onde ele estava prestes a curar um homem com a mão ressequida (Mc 3.5).

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Notas:
[1] Donald Macleod. The Person of Christ, 1988, pág 162.
[2] O docetismo não é somente a negação total da humanidade de Cristo. Qualquer pensamento que negue a plenitude da humanidade de Cristo também é docetismo.
[3] Heber Carlos de Campos. As Duas Naturezas do Redentor, pág 430.
[4] Ibid, pág 495.
[5] Ibid, pág 496.
[6] Ibid.
[7] Ibid, pág 393.
[8] Heber Carlos de Campos. As Duas Naturezas do Redentor, pág 404.
[9] Ibid, pág 405-406

Uma exegese de 1 Timóteo 4:10

“Pois para isto é que trabalhamos e lutamos, porque temos posto a nossa esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem.” (I Timóteo 4.10)

Em I Timóteo 4.10, Paulo está exortando Timóteo que a sã doutrina e a piedade persistente deveriam ser o impulso de nossa vida por causa da esperança do Deus vivo — nesta era e na por vir. Nós deveríamos estar confiantes em nossos credos e ética por causa da certeza da salvação. Paulo introduz o verso 10 com o indicador inferencial eis touto gar (pois para isto), seguido pela conjunção hoti (porque), que destaca seu ponto principal: “temos posto a nossa esperança no Deus vivo, que é o salvador de todos os homens, especialmente dos que creem.” Seu ponto principal é corroborado pelo seu uso do tempo perfeito ēlpikamen (temos posto a nossa esperança), que define esta ação. É interessante que o único outro exemplo de um tempo perfeito nesta seção imediata é encontrada no verso 6:

“Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, nutrido pelas palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido (parēkolouthēkas)” – I Tm 4.6

Este é um termo incomum no novo testamento, usado apenas quatro vezes (Mc 16.17; Lc 1.3; I Tm 4.6; II Tm 3.10). No contexto de seguir uma crença ou prática, este termo significa “prestar atenção especial, seguir fielmente.” Em outras palavras, para Paulo, seguir a sã doutrina não é sobre uma afirmação estática das declarações credais em papel — é uma ativa, consciente e envolvida adaptação. (Paulo não teria nada a ver com uma “declaração de fé” ambígua de igreja!)

De volta ao verso 10. Na próxima declaração, o que se entende por “que é o salvador de todos os homens, especialmente dos que creem”?

Muitos crentes modernos leem isto com a hipótese de que Cristo veio a terra com a intenção de morrer por cada indivíduo que já viveu; por isso, “que é o salvador de todos os homens”. Mas só aqueles que creem terão sua expiação aplicada aos seus pecados; por isso, “especialmente os que creem.” Portanto, muitos leitores modernos, especialmente arminianos, acreditam que este verso mina qualquer noção de redenção particular e eleição, que é afirmada na teologia reformada.

Porém, nós deveríamos examinar mais que uma leitura prima facie deste verso e fazer a nós mesmos algumas perguntas. Há uma conexão teológica entre “o Deus vivo” e seu qualificador “que é o salvador de todos os homens”? O que “todos os homens” significa aqui para Paulo? Significa todas as pessoas sem exceção ou distinção? E mais importante, como Deus pode ser o salvador daqueles que não creem? Ou há algum outro elemento que tem escapado à nossa atenção?

Uma leitura universalista deveria ser excluída desde que contraditaria o ensino inequívoco de Paulo em seu corpus de que muitos perecerão eternamente.

Depois, a interpretação arminiana lê demais nesta declaração, “salvador de todos os homens”, com duas suposições: (1) que o termo “salvador” deve significar “possível salvador” e (2) ele denota “cada pessoa individual.”

Mas se Cristo morreu por todos os pecados, então não há base para ele punir ou condenar qualquer pecador para a perdição; fazendo assim do arminiano um universalista inconsistente. Que base há para punir o mesmo pecado duas vezes: na cruz e no pecador. Não há nenhuma.

Além disso, o contexto aqui não afirma o que Paulo quer dizer por “todos os homens”. Ele poderia se referir a cada pessoa individual, ou ele poderia se referir a todos os tipos de homens. Mais cedo nesta mesma epístola, no contexto similar de salvação e todos os homens, Paulo deixa claro que ele está se referindo a “todos os tipos de homens”, não cada pessoa individual que já viveu no planeta terra.

Alguns intérpretes tem sugerido que Deus é o “salvador de todos os homens” em um sentido físico-preservador — se você quiser, um salvador de graça comum.” Então ele é um salvador espiritual, especialmente daqueles que creem.

Esta é uma interpretação improvável uma vez que não há nada neste contexto onde Paulo define “salvador” nestas duas formas diferentes. E mais, o v. 8b fornece um contexto soteriológico, “da vida presente e da que há de vir.” E no v. 10 a leitura natural é que Paulo usa o mesmo significado para “salvador” pela humanidade em geral, e crentes em particular.

A interpretação mais plausível deste verso é o que eu chamo de interpretação exclusivismo-monoteístico. O que Paulo está dizendo é que Deus (e por extensão Cristo como redentor) é o único salvador real no mundo, portanto a humanidade não pode encontrar outro salvador competindo fora do Deus vivo. Eles não têm outro salvador para o qual tornar.

Não é por equívoco que a frase “Deus vivo”, um termo que sugere monoteísmo está conectado com este verso. Esta frase é frequentemente encontrada no contexto de politeísmo (At 14.15; I Ts 1.9; Js 3.10; I Sm 17.26, 36; II Rs 19.4). Desde que há um único Deus que é vivo, há somente um salvador para a humanidade abraçar.

Também, nesta mesma epístola Paulo faz uma declaração exclusiva parecida que há um mediador da salvação para humanidade: “pois há um só Deus e mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus homem” (I Tm 2.5). Aqui Paulo conecta isto com a verdade do “único Deus” com apenas um mediador, antecipando o que ele diz dois capítulos depois.

Além disso, isto é similar a declaração exclusiva de Jesus:

“E disse Jesus: ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao pai senão por mim” (João 14.6)

E na mesma linha, Pedro proclama:

“E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos.” (Atos 4.12).

Para toda a humanidade só há um caminho, verdade, vida, pai, nome, mediador e salvador— especialmente dos que creem.

Finalmente, eu quero concluir com outra interpretação que é convincente. O termo para “especialmente” é malista. George W. Knight III argumenta que este termo aqui deveria ser traduzido “isto é”, funcionando assim como a explicação ou maior esclarecimento da frase anterior. A tradução seria como se segue: “que é o salvador de todos os homens, isto é, dos que creem.” Então esta interpretação não vê “aqueles que creem” como um subconjunto de “todos os homens”; em vez disso, “os que creem” identifica quem são “todos os homens”. Ele escreve:

“A frase [malista pistōn, “especialmente os que creem”] contém a mesma qualificação que Paulo e o NT sempre colocam para receber a salvação de Deus, isto é, “confiar” em Deus como o único salvador. Absoluto [pistōn] como usado aqui e em outro lugar no NT refere-se àqueles que creem em Cristo, isto é, os crentes… malista geralmente tem sido traduzido como “especialmente” e considerado como de alguma forma distinguindo aquilo que o segue daquilo que vem antes dele. Skeat [“especialmente os pergaminhos”] argumenta de forma persuasiva que [malista] em alguns casos (II Tm 4.13; Tt 1.10, 11; e aqui) deveriam ser entendidos como fornecendo uma melhor definição ou identificação daquilo que o precede e assim o traduz pelas palavras “isto é”. Ele cita vários exemplos das letras de papiro que pareceriam requerer este sentido e que em seus casos particulares excluiriam o sentido alternativo contrário. Se sua proposta estiver correta aqui, o que parece mais adequado, então a frase [malista pistōn] deveria ser traduzida como “isto é, os crentes”. Este entendimento também está em linha com a afirmação de Paulo de que todos os tipos e condições de homens estão em Cristo (mesmo às vezes usando [pantes]) e com sua insistência naqueles contextos que todos estão em Cristo e têm salvação pela fé (cf. Gl 3.26-28).” NIGTC, The Pastoral Epistles, 203–4.

Desmistificando o conceito de fé e profecias do neopentecostalismo

2.4 TAMANHO DA FÉ

Em Mateus 13:32, Jesus diz que o reino de Deus é semelhante a uma semente de mostarda, que, apesar de pequena se transforma em uma grande árvore. Olhando essa passagem o ensino de Jesus fica mais claro: o reino de Deus parecia ser insignificante, mas assim como a semente de mostarda cresce e se transforma em uma planta que pode atingir 3 metros de altura, assim aconteceria com o reino de Cristo. Há 5 passagens onde Jesus cita o grão de mostarda, 3 delas são uma comparação com o reino e 2 com fé, mas em nenhuma delas existe a palavra “tamanho”.

Apesar de algumas traduções trazerem “tamanho do grão de mostarda” (NVI e NTLH), a Bíblia não diz que a nossa fé tem que ter tamanho, muito menos compara o tamanho da fé com o tamanho da mostarda. Tanto o texto de Lucas 17:6, quanto a de Mateus 17:20 no Grego (o idioma em que foram escritas) trazem o seguinte:
ει (Se) ειχετε (tiverdes) πιστιν (fé) ως (como) κοκκον (grão) σιναπεως (mostarda).
Se tiverdes fé como grão de mostarda.

Nas passagens sobre fé Jesus comparou o próprio grão de mostarda com a fé, não o tamanho dele. Jesus estava ensinando sobre a semelhança da fé e uma pequena semente. A semente parece pequena, parece pouca coisa, mas é só disso que precisamos para plantar e assim é a nossa fé!
Os discípulos pediram a Jesus para que Ele aumentasse a fé deles. Jesus dá uma resposta que deixa claro a irrelevância do tamanho da fé. Ele usa como exemplo comparativo uma pequena semente de mostarda. O poder da operação do milagre não está na fé, mas em quem a fé é depositada: Deus! Você pode ter uma fé do tamanho de um caroço de abacate; mas, se a sua fé está firmada no saci-pererê, ela não valerá de nada! Não terá efeito, porque o saci-pererê nada pode fazer por você. Se a sua pequenina fé, tão pequena quando um grão de mostarda, está firmada no Deus vivo, a história é outra. Deus tem poder para operar o milagre independente de sua fé. Vou repetir: Quem opera o milagre é Ele, não a sua fé! (André R. Fonseca) [1]

É comum vermos pessoas dizendo que estão orando com muita fé, enquanto na verdade estão apenas pedindo com muita vontade. Ao invés de pedirem pela vontade de Deus, imploram ao vento que suas vontades sejam satisfeitas. Afinal, orar com muita vontade é orar com fé? Isso nos leva ao próximo item.

2.5 ORAR COM FÉ

A Bíblia diz que a oração eficaz é a oração feita com fé. Mas o que é orar com fé?

Irmão, não confunda fé com pensamento positivo. Pensar positivo é algo ótimo, aliás, otimismo é ótimo! Mas isso no máximo é sobre esperança e não sobre fé. Orar com otimismo não é orar com fé! Na verdade o otimismo confundido com fé é algo muito prejudicial à vida de um cristão, isso se chama Confissão Positiva e é uma confusão antibíblica que vamos falar um pouco mais à frente, mas grave essa expressão e pesquise melhor sobre ela quando puder. Continuando:
Deus requer fé da parte dos que oram (Hb 3:12; 11:6; Jer 29:12-14; Tg 1:5-8; 5:15). Esta fé é uma simples confiança de que Deus existe, que ele nos aceitou plenamente em Cristo e que é poderoso para nos dar aquilo que pedimos, ou então, nos dar muito mais do que imaginamos (Hb 4:14-16). Orar com fé é trazer diante de Deus nossas necessidades e descansar nele, confiantes que ele responderá de acordo com o que for melhor para nós (1 Jo 5:14-15). Orar com fé não significa determinar a Deus que cumpra nossos pedidos, ou decretar, como se a oração tivesse um poder próprio, que estes pedidos aconteçam. Orações não geram realidades espirituais e nem engravidam a história. É Deus quem ouve as orações e é Ele quem decide se vai respondê-las ou não, e isto de acordo com sua vontade e propósito de sempre nos fazer bem. (Rev. Augustus Nicodemus Lopes).[2]

A fé que a oração precisa ter está tão somente relacionada ao poder e à vontade do Pai, jamais ao desejo do coração do homem, independente de ser um desejo bom ou ruim. Ou seja, quando a Bíblia fala sobre orar com fé, ela está dizendo que a oração deve ser fundamentada no alcance do poder de Deus, mas não está dizendo que essa oração vai obrigar Deus te obedecer. Portanto, oremos com fé no poder de Deus e esperança de que Ele nos conceda a graça que precisamos!

A oração não muda as coisas, Deus é que muda as coisas através da oração. É nisso que você precisa crer: que Deus pode mudar as coisas conforme Ele deseje. Assim como a Graça é o meio pelo qual somos salvos, a oração é o meio pelo qual Deus opera certas bênçãos, e ambos os meios são eficazes mediante a fé.

Já sabemos que: 1) nossas palavras não tem poder especial; 2) gritar frases de efeito como “eu determino” ou “eu tomo posse” não tem força espiritual; 3) repetir as frases é vão; 4) pensar positivo não é ter fé; 5) orar com muita vontade de ser atendido não é orar com fé. Falta falarmos sobre profetizar.

2.6 PROFETIZAR

O que é profetizar? Será que estamos profetizando quando declaramos algo com vontade, desejo e força ou será que esse é um entendimento equivocado sobre profecia? Estamos levando em conta o que Deus disse sobre “profetizar falsamente em meu nome”?

A ideia de profetizar as coisas que queremos ao invés de batalhar por elas ou de simplesmente orar é algo tentador, mas antes vamos ler algumas passagens bíblicas para ponderarmos a respeito:
• “Eu não os enviei!”, declara o Senhor. “Eles profetizam mentiras em meu nome. Por isso, eu banirei vocês, e vocês perecerão juntamente com os profetas que lhes estão profetizando”. Jeremias 27:15
• Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal! (Mateus 7:22-23)
• Pois tais homens são falsos apóstolos, obreiros enganosos, fingindo-se apóstolos de Cristo. Isso não é de admirar, pois o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz. Portanto, não é surpresa que os seus servos finjam ser servos da justiça. O fim deles será o que as suas ações merecem. (2 Coríntios 11:13-15)
• Mas o profeta que ousar falar em meu nome alguma coisa que não lhe ordenei, ou que falar em nome de outros deuses, terá que ser morto”. Mas vocês perguntem a si mesmos: “Como saberemos se uma mensagem não vem do Senhor?” Se o que o profeta proclamar em nome do Senhor não acontecer nem se cumprir, essa mensagem não vem do Senhor. Aquele profeta falou com presunção. Não tenham medo dele.(Deuteronômio 18:20-22)

Por favor, me diga que leu com atenção esses versículos! Se não leu direito, leia-os novamente, amado!

Se você vive dizendo “eu profetizo” sempre que quer muito alguma coisa, me diga: o que você profetiza sempre se cumpre? Pense comigo, se alguma vez na vida você já profetizou algo que não se cumpriu com exatidão, você nessa situação foi um falso profeta. A Bíblia declara que quem profetiza falsamente merece a morte. Isso é muito sério. Se for seu caso, se arrependa e peça perdão ao nosso Deus, pois ele é fiel e justo para perdoar pecados.

Se você lê as passagens bíblicas sobre os profetas e pensa que tudo acontecia pela força da palavra deles, você está muito enganado.

Quando um profeta fala algo em nome de Deus, só pode ser duas coisas: 1) Ordem direta de Deus (palavras que o próprio Deus o mandou dizer); 2) Mentira do falso profeta (vontades do coração do homem);

Quando lemos uma profecia nas Escrituras, sabemos que cada palavra que o profeta falava tinha de proceder de Deus, ou ele seria um falso profeta (Nm 22:38; Dt 18:18-20; Jr 1:9; 14:14; 23:16-22; 29:31,32; Ez 2:7; 13:1-16). Alguns leem a passagens como 1 Reis 17:1 e não compreendem o texto, acham que o poder está na palavra do profeta ao invés da profecia ser um simples comunicado de Deus pela boca de um homem. Veja a passagem que mais confundem: “Vive o SENHOR Deus de Israel, perante cuja face estou, que nestes anos nem orvalho nem chuva haverá, senão segundo a minha palavra” (1 Reis 17:1).

Será que Elias tinha poder? Eram realmente as palavras dele que compunham uma profecia e que dava valor espiritual a ela? Vamos ler uma outra passagem de uma ocasião que ocorreu depois dessa e ver como as profecias aconteciam e de onde vinha realmente o poder e a decisão, atenção ao meu grifo:

“O SENHOR Deus de Abraão, de Isaque e de Israel, manifeste-se hoje que tu és Deus em Israel, e que eu sou teu servo, e que conforme a tua Palavra fiz todas estas coisas” (1 Reis 18:36).

Se até Elias afirmou que tudo que profetizava era conforme o que Deus o orientava diretamente, imagine só nós, meros humanos, achando que profetizamos o que queremos. Elias sempre agiu em conformidade com a ordem direta de Deus, não com pensamento positivo. Desejar não é profetizar. O fato de você usar a palavra “profetizo” numa frase não faz de você um profeta e muito menos faz da sua prece uma profecia. Isso no máximo, como já vimos, seria uma falsa profecia e faria de você um falso profeta. Tenhamos temor de Deus.

Talvez não seja seu caso, mas sabemos que muitos mal-intencionados se trajam de pastores com palavras de vitória e satisfação pessoal pra falar em nome de Deus, que eles não conhecem e que não os reconhecerá no Dia do Juízo (Mateus 7:22). A Bíblia ainda diz que falsos profetas fariam sinais e maravilhas enganando até os eleitos se possível! Se não acredita, leia Mateus 24:24.

Algumas pessoas talvez não acreditem mesmo nisso, pois hoje é algo tão frequente que parece não as incomodar. Será que a igreja está se acostumando com falsas profecias? As falsas profecias dão consolo momentâneo e com os dias as pessoas se esquecem delas, mas mesmo quando se lembram e percebem que foi uma falsa profecia, as pessoas não se manifestam mais!

Jamais aceite uma profecia que tenha origem na vontade humana. Profetizar não é declarar “em nome de Jesus” algo que Ele não disse (2 Pedro 1:21). Se o povo de Deus começasse ler mais a Bíblia veria o que realmente Deus está te dizendo e jamais ficaria sem resposta!

A fonte de toda profecia verdadeira na história nunca foi a decisão ou desejo do homem a respeito do que ele queria, mas os desígnios do próprio Deus.

Profecia a esmo, jogada ao vento não é profecia! As profecias bíblicas são específicas, e não o que normalmente vemos por aí! Querem ver profecias? Leiam as suas Bíblias, encham a cabeça com o Evangelho, se saturem de Cristo, e depois (se é que vão precisar) pensem em profecias extrabíblicas. (Jackson Jacques).[3]

“Quer ser um profeta de Deus? Cave a fundo as Escrituras Sagradas e proclame fielmente a mensagem de Deus!” (Roberto de Carvalho). [4]

2.7 CURAS E MILAGRES

Poderia escrever vastamente sobre esse assunto, mas o livro não é sobre isso, então vou fazer considerações básicas e óbvias a partir dos itens anteriores.

Profetizar, decretar, determinar ou ordenar uma cura é uma das formas de percebemos que não temos realmente nenhuma autoridade espiritual que não venha da decisão e vontade de Deus. Quando uma pessoa não é curada em sua igreja, mesmo com várias pessoas tendo “profetizado” a cura ou “determinado” e “tomado posse”, o que você pensa ter sido o problema? O cristão que não tem uma boa compreensão da Palavra sempre clamará pela bênção da forma errada, como se Deus tivesse alguma obrigação para com ele, mas quando não receber a bênção, vai sempre procurar um motivo para justificar essa espécie de derrota. Há cristãos que oram pensando de uma forma e depois se justificam de outra. Oram exigindo, mas ao não receberem, arranjam desculpas ao invés de se voltarem para a Bíblia e ver o que exatamente ela diz e quais são as promessas legítimas de Deus para nós.

Afinal, podemos orar por cura? Sim, devemos! A oração é um meio pelo qual Deus concede misericórdia mediante a fé de quem ora. Então fica a dúvida: por que a maioria das curas não acontece, mesmo com muita oração? Por que essa dúvida sempre aparece na mente do cristão, se a Bíblia tem tantas evidências claras? Será que esquecemos que Deus disse a Paulo que a Sua Graça lhe era suficiente depois dele orar para que Deus lhe tirasse um espinho na carne? Se não estiver nos planos de Deus, a cura não vem e pronto. Não sabemos os propósitos do Senhor. Eliseu, ainda depois de morto, ressuscitou um homem que caiu em cima de seu corpo! É lindo isso, mas parece que ninguém percebe o texto anterior que fala que Eliseu morreu de doença (2 Rs 13:14).

Vemos também o amigo de Paulo, que andava por todo canto com ele, vendo curas e talvez até as ministrando junto com o apóstolo (2 Tm 4:20 / 2 Co 12:9), no entanto, também não recebeu e obviamente eles tinham fé, ainda mais que nós hoje. Cristo orou “Pai não seja a minha, mas a tua vontade” (Lc 22:42); Paulo pediu cura e, quando não recebeu, conformou-se e glorificou a Deus, entendendo que o problema era exatamente para mantê-lo forte em Deus (2 Co 12:9).

Veja esse outra passagem: “Não bebas mais água só, mas usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades.” (1 Timóteo 5:23)

É um claro exemplo bíblico para nós de que muitos não serão curados, mas ainda assim alguns lobos, falsos mestres que saqueiam a noiva de Cristo, continuarão dizendo que todo cristão deve ser curado, e quando a cura não vem, logo colocam a culpa na falta de fé do doente. Poderiam dizer isso de Paulo, Timóteo e Eliseu?

Alguns maus ministros ensinam “exigir, determinar, decretar e ordenar a bênção”, enquanto a Jesus, Paulo, Tiago e todo o restante da Bíblia ensinam a pedir. A Bíblia mostra ainda alguns casos em que a pessoa curada nem fé exercia! O cego do tanque de Betesda foi curado por Jesus sem ter fé e sem ao menos conhecê-lo; leia João 5: 8-13.

O cristão deve buscar em Deus a cura, deve clamar pelas bênçãos do Pai, deve perseverar, assim como Davi, homem segundo oração de Deus (Atos 13:22) e assim também compreender que o milagre que tanto queremos, mesmo clamando com persistência, pode não acontecer, pois em 2 Samuel 12 vemos o drama do rei Davi que clamou em jejum durante dias para que Deus curasse seu filho recém nascido, mas a cura não veio e a criança morreu.

O pastor Lécio Contu escreveu: “Deus não é o gênio da lâmpada, não somos o Aladim e oração não é magia!” [5]

Podemos orar por milagres, claro! Mas não podemos ignorar fatos que sabemos sobre profetas, apóstolos e outros homens santos da Bíblia; não podemos ser egocêntricos, achando que os planos de Deus estão baseados em nossos caprichos; não faz sentido ter tanto orgulho a ponto de pensar que Deus está em dívida e tem dia marcado pra se apresentar prontamente a curar e tampouco devemos deixar falsos profetas enganarem irmãos fracos na fé e no conhecimento, que são “levados em roda por todo vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente.” (Efésios 4:14).

Há curas, há milagres, jamais desacredite! Mas os milagres são pra exaltar o nome de Deus, não pra fazer nossa vontade. É por isso que Cristo orientou na oração do Pai Nosso: “Seja feita a Sua vontade.” Se é no Deus da Bíblia que nós acreditamos, então devemos, sim, pedir por cura, mas assim como na Bíblia, a cura pode não vir, ainda assim glorificaremos ao Deus de João 3:16, Romanos 3:24, Efésios 1:5, Romanos 5:8 e 1 João 4:16. Amém!

SOBRE FÉ

A fé não é um sentimento ou uma sensação. Ter fé não consiste em esperar, mas em ter fundamento para o que se espera. Ter fé é crer confiantemente que Deus é poderoso para intervir a seu favor.

A fé cristã é confundida por alguns com convencimento mental: “eu estou convencido disto, logo Deus está obrigado a agir”. Isso pode até ser fé em si próprio, mas não em Deus, não nas promessas, não na Sagrada Escritura. É preciso salientar que a fé cristã não está em insistir com Deus em nossos desejos pessoais, mas clamar a Ele que cumpra em nós Sua vontade.

Um dos enganos que as pessoas têm atualmente é colocar fé na fé e não fé em Deus. Fé é confiar em Deus, no Seu poder e na Sua vontade e não em nossa própria capacidade de confiar em Deus. Orar com fé não é orar com poder, é orar confiante no poder de Deus. (Vinicius Musselmann).[6]

Alguém irá perguntar: mas fé não é a certeza daquilo que nós esperamos?

Fé não é só isso. Isso é uma característica da fé. O versículo é uma descrição sobre quem tem fé e não um conceito sobre fé. A fé é o alicerce da vida cristã e é disso que o versículo trata. Entende a diferença? Vamos ver o versículo: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem.” (Hebreus 11:1). O versículo está dizendo que a fé é o que sustenta e fundamenta o que nós pedimos e esperamos. Não é uma definição de fé, ou seja, ele não está dizendo o que significa fé, mas diz que esperar está baseado na fé.

Outro detalhe é que “esperar” tem mais a ver com esperança. O versículo, em outras palavras, diz: “Quando você tem certeza de algo que está esperando, isso é fé”. No entanto, não temos como ter certeza de algo que nunca foi prometido a nós (como coisas corriqueiras do dia-a-dia), então oramos com esperança, como sugere o texto de Romanos 8:24-25: “Porque em esperança fomos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperará? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos.”

A fé não consegue tudo. Isso porque ter fé é acreditar que Deus tem poder, mas não que Ele de fato fará o que eu quero, pois isso é outra coisa: esperança. E essa é a maior confusão que costumamos fazer. A fé cristã é basicamente crer sem dúvidas nas promessas bíblicas. Assim como nossa esperança está fundamentada na fé, nossa fé deve estar firmemente fundamentada e se você é cristão, seu único fundamento é a própria Bíblia, não suas necessidades, objetivos e vontades pessoais. Um entendimento equivocado da fé bíblica fará com que sua oração seja egoísta, arrogante, hipócrita e sem fundamento. Aliás, fundamentada em você mesmo ao invés da Palavra.

Mas apenas conhecer a visão teológica sobre o assunto não nos tornará cristãos de oração. A condição de quem ora é fator crucial para a eficácia da oração.

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(Por Lucas Rosalem)
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Notas:
[1] André Fonseca. Disponível em: < www.andrerfonseca.com/…/resposta-ao-leitor-ungir-com-oleo.h… > Acesso em: 18 maio 2014.
[2] Disponível em:
< www.facebook.com/AugustusNicodemusLopes/posts/621380551247693> Acesso em: 21 junho 2014.
[3] Disponível em: < http://goo.gl/cXMgUJ > Acesso em: 27 julho 2014.
[4] Disponível em: Acesso em: 27 julho 2014.
[5] Fonte: A oração dos filhos de Deus, Lécio Contu, p.44.
[6] Disponível em: < http://voltemosaoevangelho.com/…/pve-devemos-ungir-com-oleo/ > Acesso em: 20 julho 2014.

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Artigo gentilmente cedido pelo autor ao blog Bereianos. O texto faz parte do livro “400 Metros de Oração” o qual recomendamos.

O SIGNIFICADO DE “DE ANTEMÃO CONHECEU” EM ROMANOS 8.29

Por David N. Steele e Curtis C. Thomas

“Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou.” (Romanos 8.29-30).
De um modo geral tem havido dois pontos de vista quanto ao significado e uso da palavra “conheceu” em Romanos 8.29. Uma categoria de comentaristas (os arminianos) mantém que Paulo está dizendo que Deus predestinou para a salvação aquele que ele previu que responderiam à sua oferta da graça (isto é, aquele que ele viu que se arrependeriam de seus pecados e creriam no evangelho pelo seu livre arbítrio). Godet, no comentário de Romanos 8.29, faz uma pergunta: “Em que sentido Deus os previu?” e responde que eles foram pré-conhecidos como certos de cumprir as condições de salvação, a fé; então pré-conhecidos pela fé”[1]. A palavra “ pré-conheceu” é assim entendida pelos arminianos como significando que Deus sabia de antemão quais pecadores creriam, etc., e com base neste conhecimento ele os predestinou para a salvação.
A outra classe de comentaristas (os calvinistas) rejeita a visão acima sobre dois fundamentos. Primeiro, porque a interpretação arminiana não está de acordo com o significado da linguagem de Paulo e segundo porque está fora de harmonia com o sistema de doutrina ensinado no restante das escrituras. Calvinistas contendem que a passagem ensina que Deus põe seu amor sobre certos indivíduos (isto é, conheceu de antemão); estes Ele predestinou para serem salvos. Observe que o texto não diz que Deus sabia ALGO SOBRE indivíduos particulares (que eles fariam isto ou aquilo), mas ele diz que Deus conhecia os próprios indivíduos — aqueles que Ele conheceu Ele predestinou para serem feitos como Cristo. A expressão “de antemão conheceu” como usada aqui é assim entendida como equivalente a “amados de antemão” — aqueles que foram os objetos do amor de Deus, Ele selecionou para a salvação.
As questões levantada pelas duas interpretações opostas são estas: Deus olhou através do tempo e viu que certos indivíduos creriam e assim os predestinou para a salvação com base nesta fé prevista? Ou Deus colocou seu amor sobre certos indivíduos e por causa deste amor por eles predestinou que eles deveriam ser chamados e concedida a fé em Cristo pelo Espírito Santo e assim serem salvos? Em outras palavras, a fé do indivíduo é a causa ou o resultado da predestinação de Deus?
A) O significado de “de antemão conheceu” em romanos 8.29
Deus sempre possuiu conhecimento perfeito de todas as criaturas e de todos os eventos. Nunca houve um tempo em que qualquer coisa do passado, presente ou futuro não fosse totalmente conhecida por ele. Mas não é seu conhecimento dos eventos futuros (do que as pessoas fariam, etc) que é referido em Romanos 8.29-30, pois Paulo claramente afirma que aqueles que Ele de antemão conheceu Ele predestinou, Ele chamou, Ele justificou, etc. Uma vez que nem todos os homens são predestinados, chamados e justificados, segue-se que nem todos os homens foramconhecidos de antemão por Deus no sentido falado no verso 29.
É por esta razão que os arminianos são forçados a adicionar alguma noção qualificadora. Eles leem na passagem alguma ideia não contida na própria linguagem tais como aqueles que Ele previu que creriam, etc., Ele predestinou, Ele chamou e justificou. Mas de acordo com o uso bíblico das palavras “conhecer”, “conheceu” e “conheceu de antemão” não há a mínima necessidade de fazer tal adição, e uma vez que não é necessária, é imprópria. Quando a Bíblia fala de Deus conhecendo indivíduos particulares, isto frequentemente significa que Ele tem uma consideração especial por eles, que eles são os objetos de sua afeição e interesse. Por exemplo em Amós 3.2, deus falando a Israel, diz: “de todas as famílias da terra somente a vósoutros vos conheci por isso eu os castigarei por causa de todas as suas maldades”. O Senhor conhece sobre todas as famílias da terra, mas Ele conheceu Israel de uma forma especial. Eles foram seu povo eleito a quem Ele tinha colocado seu amor Veja Deuteronômio 7.7-8; 10.15. Porque Israel era dele de uma forma especial Ele os castigou, cf. Hb 12.5-6. Deus falando a Jeremias, disse: “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci” (Jeremias 1.5). O significado aqui não é que Deus conhecia sobre Jeremias, mas que Ele teve uma consideração especial pelo profeta antes que Ele o formasse no ventre de sua mãe. Jesus também usou a palavra “conheci” no sentido de consciência pessoal, íntima. “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.” (Mateus 7.22,23). Nosso Senhor não pode ser compreendido aqui como se ele estivesse dizendo que não sabia nada sobre eles, pois é bastante evidente que Ele sabia muito sobre eles — o caráter mal e as obras más deles; daí, seu significado deve ser: “Eu nunca conheci vocês intimamente nem pessoalmente, Eu nunca considerei vocês como objetos do meu favor ou amor. Paulo usa a palavra do mesmo jeito em I Coríntios 8.3: “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele” e também II Timóteo 2.19: “O Senhor conhece os que lhe pertencem.” O Senhor conhece sobre todos os homens, mas Ele apenas conhece aqueles “que o amam, que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28) — aqueles que são seus!
O argumento de Murray em favor deste significado de “de antemão conheceu” é muito bom. “Deveria ser observado que o texto diz “aos que de antemão conheceu”; aos que é o objeto do verbo e não há adição de qualificação.” Isto, por si mesmo, mostra que, a menos que haja alguma outra razão constrangedora, a expressão “aos que de antemão conheceu” contém dentro dela mesma a diferenciação que é pressuposta. Se o apóstolo tinha em mente algum “adjunto qualificador” teria sido simples fornecê-lo. Uma vez que ele não acrescenta nenhum nós somos forçados a inquirir se os termos reais que ele usa pode expressar a diferenciação implicada. O uso da escritura fornece uma resposta afirmativa. Embora o termo “de antemão conheceu” é usado raramente no Novo Testamento, é completamente indefensável ignorar os significados tão frequentemente dados à palavra “conhecer” no uso da escritura; “conhecer de antemão” simplesmente acrescenta o pensamento de “antemão” à palavra “conhecer”. Muitas vezes na escritura “conhecer” tem um significado rico que vai além de mera cognição. Ele é usado em um sentido praticamente sinônimo de “amor”, conhecer com interesse particular, prazer, afeição e ação (cf. Gn 18.19; Ex 2.25; Sl 1.6; 144.3; Jr 1.5; Am 3.2; Os 13.5; Mt 7.23; I Co 8.3; Gl 4.9; II Tm 2.19; I Jo 3.1). Não há razão porque esta importação da palavra “conhecer” não deveria ser aplicada a “conhecer de antemão” nesta passagem, como também em 11.2 onde ela também ocorre no mesmo tipo de construção e onde o pensamento da eleição está evidentemente presente (cf 11.5-6). Quando esta importação é apreciada, então não há razão para adicionar qualquer noção qualificadora e “aos que de antemão conheceu” é visto para conter dentro de si mesmo o elemento distintivo requerido. Isto significa “aos que Ele conheceu da eternidade com afeição e prazer distintivos” e é praticamente equivalente a “aos que Ele amou de antemão”. Esta interpretação, além disso, está de acordo com a ação eficiente e determinante que é tão notável em todos os outros elos da corrente — é Deus quem predestina, é Deus quem chama, é Deus quem justifica, e é Ele quem glorifica. Previsão de fé estaria em desacordo com a ação determinante que é predicada de Deus nestes outros exemplos e constituiria um despertamento da ênfase total no ponto onde nós deveríamos menos esperar. Não é a previsão da diferença, mas o conhecimento antecipado que faz a diferença existir, não uma previsão que reconhece existência, mas o preconhecimento que determina a existência. É um amor distintivo soberano”[2]
Hodge observa que “como conhecer é frequentemente aprovar e amar, isto pode expressar a ideia de afeição peculiar neste caso; ou pode significar selecionarou determinar sobre. O uso da palavra é favorável à qualquer modificação desta ideia geral de preferir. “O povo que ele de antemão conheceu”, isto é, amou ou selecionou, Rm 11.2; “conhecido antes da criação do mundo”. I Pe 1.20; II Tm 2.19; Jo 10.14-15; veja também Atos 2.23; I Pe 1.2. A ideia, portanto, obviamente é que, aqueles que Deus particularmente amou, ao amar, distinguiu ou selecionou do resto da humanidade; ou para expressar ambas as ideias em uma palavra, aos que Ele elegeu Ele predestinou, etc.”[3]
Embora Deus conhecesse todos os homens antes que o mundo existisse, ele não conheceu todos os homens no sentido que a Bíblia às vezes usa a palavra “conhecer”, isto é, com consciência pessoal íntima e amor. É neste último sentido que Deus “conheceu de antemão” aqueles que Ele predestinou, chamou e justificou como delineado em Romanos 8.29-30.
B. Romanos 8.29 não se refere a previsão de fé, boas obras, etc.
Como foi enfatizado acima, é desnecessário e, portanto indefensável adicionar qualquer noção qualificadora tais como fé ao verbo “conheceu” [de antemão] em Romanos 8.29-30. Arminianos fazem esta adição, não porque a linguagem requeira isto, mas porque o sistema teológico deles requer — eles fazem isto para escapar das doutrinas da eleição incondicional. Eles leem a noção de fé prevista no verso e então apelam para ele no esforço de provar que a predestinação foi baseada nos eventos previstos. Assim é dito que indivíduos particulares são salvos, não porque Deus quisque eles devessem ser salvos (pois ele quis a salvação de todos), mas porque eles mesmos quiseram ser salvos. Daí a salvação é dependente em última análise da vontade do indivíduo, não da vontade soberana do Deus todo poderoso — a fé é entendida como sendo o dom do homem para Deus, não o dom de Deus para o homem.
Haldane, comparando escritura com escritura, mostra claramente que o pré-conhecimento mencionado em Romanos 8.29 não pode ter referência à fé prevista, boas obras, ou a resposta do pecador ao chamado de Deus. “A fé não pode ser a causa do pré-conhecimento, porque o pré-conhecimento é antes da predestinação, e a fé é o efeito da predestinação. ‘Todos que foram ordenados para vida eterna creram’, Atos 13.48. Nem pode isto significar o pré-conhecimento de boas obras, porque estas são os efeitos da predestinação.” Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos”; Ef 2.10. Nem pode significar pré-conhecimento de nossa cooperação com o chamado externo, pois o nosso chamado eficaz depende não apenas desta concorrência, mas do propósito e da graça de Deus, dados a nós em Cristo Jesus antes da fundação do mundo, II Tm 1.9. Por este pré-conhecimento, então, queremos dizer, como tem sido observado, o amor de Deus para aqueles a quem Ele predestina para serem salvos através de Jesus Cristo. Todos os chamados de Deus são conhecidos de antemão por Ele, isto é, eles são os objetos do seu amor eterno, e o chamado deles vem deste livre amor. “Eu a amei com amor eterno; com amor leal a atrai”, Jr 31.3.[4]
Murray, ao rejeitar a visão de que “de antemão conheceu” em Romanos 8.29 se refere à previsão de fé, está certamente correto ao afirmar que “é preciso ser enfatizado que a rejeição desta interpretação não é ditada por um interesse predestinariano. Ainda que nós admitíssemos que ‘de antemão conheceu’ significa previsão de fé, a doutrina bíblica da eleição soberana não é desse modo eliminada ou refutada. Pois é certamente verdadeiro que Deus prevê a fé; ele prevê tudo que acontece. A questão então seria simplesmente: de onde procede esta fé que Deus prevê? E a única resposta bíblica é que a fé que Deus prevê é a fé que Ele mesmo cria (cf. Jo 3.3-8; 6.44;45,65; Ef. 2:8; Fl. 1.29; II Pe 1.2). Assim sua eterna previsão de fé é pré-condicionada por seu decreto de gerar esta fé naqueles que Ele prevê como crendo, e nós somos deixados com a diferenciação que procede da própria eleição eterna e soberana de Deus para a fé e seus efeitos. O interesse, portanto, é simplesmente de interpretação como deveria ser aplicada a esta passagem. Por razões exegéticas nós teremos de rejeitar a visão de que “de antemão conheceu” se refere à previsão de fé”.

http://www.monergism.com/thethreshold/…/onsite/foreknew.html

Livre arbítrio: Tenho liberdade para crer?

Livre arbítrio: Tenho liberdade para crer?

É comum pensar que a teologia reformada nega o livre-arbítrio humano e se mostra contrária a passagens que enfatizam a importância da decisão humana no processo de salvação. Na realidade, porém, a teologia reformada sempre reconheceu as atividades reais da vontade humana na salvação.

Embora a expressão “livre-arbítrio” não apareça nas Escrituras, num sentido técnico ou teológico, é correto dizer que a Bíblia tanto afirma como nega, de várias maneiras, que as pessoas possuam livre-arbítrio. Os teólogos reformados costumam abordar essa questão distinguindo entre a livre agência humana, o livre-arbítrio moral e a liberdade absoluta.

Em primeiro lugar, a livre agência simplesmente reconhece que os seres humanos são criaturas que possuem vontade própria. Ao contrário de pedras, árvores, montanhas e outras partes da criação, os seres humanos fazem escolhas morais. Todos os seres humanos são agentes livres, no sentido de que tomam decisões ao que farão. Por esse motivo, também somos moralmente responsáveis pelas nossas escolhas voluntárias. Foi assim com Adão tanto antes quanto depois de ele ter pecado; é assim agora e o será para os cristãos glorificados – um fato que é refletido ao longo da Bíblia. Todas as pessoas têm o dever de fazer escolhas certas e responsáveis (Js 24:15; 2Sm 12:1-10; Jo 7:24; Rm 1:18-32; 14:13). No entanto, a livre agência não inclui a capacidade de fazer qualquer escolha moral em qualquer circunstancia, nem a capacidade de escolher algo contrário à própria natureza. Uma vez que a obediência e fé no evangelho são contrárias a natureza humana decaída (Rm 8:4-8), o conceito de livre agência não afirma que o homem de caído possui o livre-arbítrio para fazer tais coisas.

O livre-arbítrio moral, por sua vez, é uma capacidade de escolher entre todas as opções morais que uma situação apresenta. Muitos teólogos cristãos do século 2º. (por exemplo, Clemente de Alexandria e Orígenes), ensinavam que a natureza humana decaída possui o livre-arbítrio. Negavam que os seres humanos limitados pela sua condição moral decaída, insistindo em vez disso que os homens são capazes de escolher qualquer rumo que desejarem, incluindo a decisão, pelo seu próprio poder e vontade, de crer no evangelho e obedecer a ele. Essa visão contrasta nitidamente com as Escrituras. Agostinho e teólogos reformados afirmaram corretamente apesar de a humanidade possuir livre-arbítrio moral antes da queda, o pecado original nos privou do mesmo.

Uma vez que somo descendentes de Adão, não temos a capacidade natural de discernir e escolher o caminho de Deus ou de crer no evangelho, pois não temos nenhuma inclinação natural para com Deus. Nosso coração é escravo do pecado e somente a graça e a regeneração podem nos libertar dessa servidão. Por isso Paulo ensinou em Romanos 6:16-23 que somente as pessoas libertas do domínio do pecado podem escolher entre a justiça livremente e de todo coração. Uma inclinação do coração para agradar a Deus é um dos aspectos da liberdade que Cristo concede aos seus seguidores (Jo 8:34-36; Gl 5:1,13).

Tem havido, e ainda há teólogos cristãos que argumentam de várias maneiras que, a fim de terem qualquer relevância, as escolhas humanas devem ser absolutamente livres dos decretos soberanos de Deus. A teologia reformada rejeita categoricamente este erro. Em primeiro lugar, é evidente que possuímos várias limitações físicas e mentais decorrentes da ordem natural determinada por Deus para este mundo. Não temos a liberdade absoluta em nenhuma área. Ademais, as Escrituras ensinam que Deus tem um plano imutável que abrange todos os acontecimentos que ocorrem, desde os maiores até os menores (Is 46:10; Mt 10:29-31). As escolhas humanas estão incluídas nesse plano, mas não podem, jamais, impedir ou frustrar os propósitos de Deus (Is 8:10; 14:26-27). Portanto, assim como estamos certos de que nenhum ser humano decaído tem a capacidade moral de escolher crer no evangelho, podemos ter certeza de que ninguém tem a capacidade de frustrar os propósitos de Deus nem a salvação que ele determinou para nós em Cristo (Rm 8:28-30). Todos os foram predestinados à salvação receberão o chamado eficaz, serão regenerados e escolherão crer. Essa limitação de nossa vontade não é, de maneira alguma, um fatalismo que diminui a importância da escolha humana, mas sim, uma afirmação sublime do nosso lugar importante no mundo de Deus.

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